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Surpreendeu-me positivamente um texto publicado aqui no CadaMinuto pelo jornalista Célio Gomes. A sobriedade com que ele defende seu pensamento e ponto de vista abre espaço para um profundo diálogo sobre temas importantes que passam batido nas mais recentes matérias jornalísticas. 

Gomes o faz sem impor e, em regra geral, concordo com muito do que ele diz ali, sobretudo ao expor a hipocrisia de alguns baluartes do meio-artístico quando evocam, ainda que em entrelinhas, a defesa de algo do alto de suas ideologias. É o que faz quando cita, por exemplo, que o senhor Caetano Veloso, que surgiu indignado com a intolerância e a defesa da liberdade, mas quis banir biografias não-autorizadas. 

Na turba caetana, está Paula Lavigne que também queria que biografias tivessem aprovação do biografado, o que consiste em censura prévia. Ora, se alguém mentiu sobre o biografado, caluniou o difamou, há leis para isso. 

Caetano e Lavigne - no entanto - usam do discurso insípido e ideológico para acusar os outros de censura ao falar das exposições de “arte” (sim, eu uso entre aspas) que foram criticadas pela exposição de nudez à crianças (inclusive envolvendo uma menina apalpar um homem nu), além das “obras” promovidas pelo Santander, onde se falou em boicote, o que é diferente de censura. 

Tem muito a ver com o tal “acuse-os daquilo que você é”. 

Os textos mais sóbrios não quis impor censura a ninguém, mas sim colocaram pontos óbvios no debate: 1) o desrespeito para com a fé alheia (o que é diferente da crítica às religiões, que sempre existiram e sempre existirão nas artes e na literatura tida como científica, como nos livros de Richard Dawkins). Há milhões de obras rebatendo Dawkins, mas ninguém a censurá-lo. Eis a diferença. E se o desrespeito é previsto pelo Código Penal, as pessoas podem sim acioná-lo se sentirem ofendidas e que a Justiça julgue. Ela está aí para isso. Ela dirá se essas pessoas possuem razão ou não com base nos elementos técnicos do Direito; 2) a nítida promoção da sexualidade precoce envolvendo crianças nessas exposições, como objeto das “artes” e como visitantes. Natural que isso afronte os sentimentos e a cultura de um povo, independente de seus posicionamentos ideológicos. Estas pessoas estão no pleno direito de reclamar.

Fica claro que o que se esconde por trás dessas “artes” é uma agenda revolucionária de confronto de valores. E se não houvesse isso, quem quer chocar e ser polêmico deve saber que há um preço diante daquilo que confronta. E essas reflexões são minhas, não do jornalista. 

Ele expôs os pontos factuais riquíssimos desse debate. Eu que tomo a liberdade, agradecendo as reflexões que o texto dele trouxe, de ir um pouco além, mesmo sem saber se ele concorda ou não comigo. 

O ponto mais cirúrgico do texto de Célio Gomes está quando ele - no item 4 - cobra dos “arautos da onda de liberdade” a coerência. Onde eles estavam quando tentaram banir dos cinemas o filme O Jardim das Aflições? Acompanhei isso de perto e sei que, em algumas cidades (Maceió foi uma delas), a película só estreou porque pessoas se mobilizaram e solicitaram aos cinemas, mostrando que havia público. 

Tanto que na capital alagoana foram - salvo engano - três sessões lotadas. E Gomes fez o óbvio: assistiu o filme para poder falar dele, pelo que percebi. Constatou algo que há muito eu já falava: O Jardim das Aflições não é um filme nem direita, nem de esquerda, mas sim sobre filosofia e a consciência do ser que busca as origens de suas ideias em contraponto aos mecanismos que atuam sobre ele. Entre esses mecanismos, o Estado (o Leviatã) que quer legislar sobre tudo.

Concordo inteiramente com Gomes quando diz que classificar o filme como “direita e esquerda” é uma estupidez que alimenta ainda mais a intolerância do mundo em que vivemos. É possível admirar uma boa obra mantendo algumas discordâncias com ela. Por exemplo, um dos historiadores que mais admiro - Timothy Snyder (autor do belíssimo Terras de Sangue) - tem colocações e afirmações sobre política, na obra Sobre a Tirania - com as quais discordo, pois acaba comparando o atual governo americano a um proto-fascismo. Eu acho a comparação absurda. 

E aí, Célio Gomes traz exemplos geniais, como a tentativa de se amputar Monteiro Lobato ou as restrições feitas a Nelson Rodrigues por conta do “politicamente correto”; ou então por ser um “reacionário”. 

Tenho discordâncias com o que Gomes diz? Sim! Ele atribui uma história bonita nos movimentos de esquerda ao longo da História. Bem, tem pensadores da esquerda que leio até hoje e enxergo neles coisas muito válidas e críticas ao capitalismo que eu também faço, como a própria degradação dos valores por parte de uma “burguesia” (no sentido histórico) que foi relativizando valores em função do “fetichismo mercadológico ou científico”. Adorno fala isso. No mais, é um dos poucos pontos com os quais concordo com Adorno.

Mas, vejo uma história que é contrária à liberdade e que resultou no comunismo: a maior desgraça do século XX, como mostra Robert Gellately em A Era da Catástrofe Social. 

Discordo também quando ele diz que pastores, padres, crentes e coroinhas não podem ser levados a sério. O que determina se uma pessoa é séria ou não, não é a fé que ela professa nem a posição que ocupa dentro dessa fé, mas sim seu pensamento. Há padres que tem um trabalho filosófico impressionante, como Padre Paulo Ricardo, Dom Henrique Soares, religiosos como Scott Hahn e o professor Felipe Aquino. Não levá-los a sério, numa afirmação genérica, é cometer o mesmo erro de ignorar pessoas que possuem o que dizer ao explicar a relação entre moralidade (e não moralismo!) e uma sociedade sadia. 

É claro que há religiosos moralistas bufões que são verdadeiros sepulcros caiados, mas há os que sempre dedicaram suas vidas a defender um pensamento filosófico e teológico rico. Uma herança que vem desde a Idade Média, com Santo Tomás de Aquino, Santo Anselmo, Hugo de São Vitor e Santo Agostinho. É preciso separar as coisas e, obviamente, os fanatismos (como acerta Célio Gomes ao dizer isso). 

Não confundamos o falso moralismo com a filosofia moral ou a moralidade, que sempre estiveram presentes na filosofia até mesmo no Iluminismo, como em Kant e Leibinz. Não há aí uma filosofia resumida na “fé cega e na faca amolada”. Há um debate - muito bem posto por Viktor Frankl - que fala do “hiato ontológico” do homem, onde mostra que temos uma dimensão psicológica, biológica e transcendente (por isso ele chama de trinitária), de onde deriva toda as nossas reflexões sobre valores e a mudança desses com o passar do tempo. 

Claro que tudo isso pode ser questionado em um debate sadio, onde os lados se confrontam. Nada tenho contra o bom debate. Nada tenho contra quem diverge de mim. 

Por isso, concordo com Célio Gomes quando diz que “De longe, a exposição de Porto Alegre e o homem nu em São Paulo estão mais para oba-oba exibicionista do que para grande arte. Baboseiras como essas, planejadas exclusivamente para chocar, são tão comuns quanto entediantes”. E concordo com ele quando diz que “arte ruim” não pode ser tida como crime. Em essência é isso. 

Só que há fatos ali - independe de qualquer coisa - que podem sim ser questionados do ponto de vista jurídico. E aí, é com a Justiça. E isto não é censura. Se a exposição do “homem nu” fosse só para adultos, que esses adultos ficassem o apalpado, veria apenas como algo que não faz sentido e acabou. Nada além disso. É a forma como vi Macaquinhos e a mais recente exposição em que pessoas enfiam velas no ânus. Não vejo polêmica nem choque naquilo. Vejo apenas baboseiras do mundo pós-moderno onde qualquer coisa é arte. Ignoro e pronto. Não me choca. Lembro aqui de uma frase de Humberto Gessinger em uma de suas canções: “De tudo que é humano, nada me é estranho”. 

Mas, como afirmou a Dona Regina no Programa Encontro: o foco da discussão é a presença da criança. 

Por fim, quando é apenas arte ruim e artista medíocre, o jornalista está correto: não cabe censura ou agressão. Cabe, obviamente o direito à crítica e ao boicote por quem não quer ver aquilo. E isso é liberdade. 

O texto de Célio Gomes - independente dos pontos nos quais discordo (são muito poucos) - é corajoso. Aplaudo o jornalista por fazê-lo. Em tempos atuais, expor certas coisas é ter o estômago preparado para certas polêmicas vazias depois de se dizer o óbvio. E aguardar que os leitores mais revoltados passem a tentar classificar o que você diz como “direita” ou “esquerda” para só então descobrir se concordam ou discordam. Haja paciência! 

Justamente pela coragem de Gomes, sei que as discordâncias que aqui apresento serão vistas por ele como respeitosas e uma forma de entrar no debate. Para ser sincero, esse seria um café que adoraria tomar com o jornalista: conversar sobre o assunto, pois vi que posso ter muito a aprender com o que ele diz, já que estruturou seu texto em pontos numerados, de forma objetiva, onde caberiam muito mais reflexões. 

No mais, Célio Gomes me fez começar a semana com fé - não cega! - no jornalismo. Um jornalismo que não se esconde do debate e que busca outros ângulos para analisar os fatos e em primeira pessoa. Ou seja: com o autor assumindo a responsabilidade pelo que diz. Sem exageros em função de cores ideológicas (estejam elas onde estiverem), mas com o foco preciso no que realmente acontece, nos seus desdobramentos e no que inspira os acontecimentos. 

Obrigado, Célio Gomes. 

Estou no twitter: @lulavilar