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O motorista Ubiratan de Moraes descobriu da pior forma que o produto que adquiriu era um seguro pirata. Morador da cidade de Cacimbinhas, no interior de Alagoas, ele comprou um Fiat Linea 2012, há cerca de um ano em Garanhuns, no estado de Pernambuco. Lá, Moraes recebeu a indicação de uma empresa para que ele fizesse o que seria o veículo para o seu carro.

“Foi aquele barato que saiu caro. Eu cheguei a pagar 11 parcelas de R$ 135 e quando precisei, não tive assistência. Um motoqueiro bateu no meu carro e eu fiquei ligando, mandando mensagem e nada. Isso aconteceu há uns dois meses. Como não tive resposta, decidi arcar com o prejuízo. O serviço do meu carro custou R$3,2 mil”, relatou o motorista.

Moraes contou, ainda, que já procurou um advogado e vai acionar a Justiça. “Eu paguei mais de R$ 1.450 pensando que era um seguro e fiquei na mão. Agora eles terão que pagar por isso”, desabafou.

Vítima diz que arcou com os prejuízos e vai acionar a Justiça contra a empresa
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O pagamento das parcelas foi feito via boleto bancário enviado à residência de Moraes, que acrescentou que nunca recebeu a apólice do que imaginava ser o seu seguro veicular. De acordo com o motorista, a empresa é a Inova Seguros, com sede em Minas Gerais e filiais em Alagoas nas cidades de Penedo e Arapiraca.

A reportagem do CadaMinuto teve acesso a mensagens trocadas em um aplicativo entre Moraes e uma funcionária da Inova Seguros. Nelas, o motorista informa que precisava consertar o veículo, após o acidente. A funcionária respondeu que não poderia ajudar, pois o cliente não “fazia parte de sua base”, mas garantiu que passou o caso para o “responsável” e repassou um contato de Minas Gerais para mais informações.

Contado com a funcionária da empresa era feito por ligações e por mensagens pelo Whatsapp

Depois do prejuízo e de não ter conseguido assistência, Moraes veio a Maceió e procurou uma seguradora. “Tive a indicação desta empresa e agora sei que terei o que preciso, quando precisar. Fui atraído pelo preço, da que fiz quando comprei o carro, e só tive dor de cabeça, além de ter perdido dinheiro. Todo mundo tem que procurar saber antes de contratar o serviço”, finalizou o motorista.

Após o relato de Moraes, a reportagem do CadaMinuto entrou em contato com a Inova Seguros pelo número de Minas Gerais o qual o motorista poderia ter mais informações, segundo orientou a funcionária.  Por telefone, a reportagem foi atendida por Giovanni Douglas, que se identificou como gerente. Após saber do caso de Moraes, ele afirmou inicialmente que não poderia passar qualquer detalhe sobre o cliente, visto que os dados são restritos, mas logo depois detalhou que o cliente estaria com pendências no pagamento de parcelas e que os dados passados pela reportagem constam no sistema da empresa.

Questionado sobre a falta de assistência após o dano ao veículo de Moraes, o gerente informou que um processo havia sido aberto, no entanto foi cancelado pela “falta do envio de documentações e fotos que comprovassem o evento”. A informação passada por Giovanni vai de encontro com o que disse a funcionária que atendia o cliente, que garantiu ter passado o caso à matriz da Inova junto com as fotos e documentações.

Segundo Ubiratan, todos os dados solicitados foram encaminhados

O que aconteceu com Ubiratan Moraes não é um caso isolado. Atraídos pelo preço abaixo do mercado, muitos proprietários de veículos caem no golpe do seguro pirata. Além dos valores, essas empresas, que na verdade são cooperativas ou associações, oferecem facilidade no pagamento e prometem muitas garantias.

De acordo com Ailton Júnior, diretor de marketing do Sindicato dos Corretores de Alagoas (Sincor- Al), essas falsas corretoras se formam a partir de grupos de pessoas que se juntam em cooperativas e associações e assim conseguem um Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ).

“Essas empresas não são corretoras e, por isso, não podem vender seguros. Para estar habilitado como corretora é preciso é preciso ser reguladas pela Superintendência de Seguros Privados, a Susep, o que não acontece com essas cooperativas e associações”, relatou Ailton.

O diretor de marketing do Sincor destacou, ainda, que muitas dessas empresas oferecem garantias, mas quando os clientes precisam, como foi o caso do motorista de Cacimbinhas, eles não são atendidos.

“Essas empresas não possuem reserva técnica de recursos, não têm uma legislação geral. Muitas vezes usam peças usadas nos veículos para poder atender os clientes. Outra coisa, elas funcionam enquanto possuem caixa, depois os representantes somem e quem contratou o produto é lesado. A maioria dessas cooperativas é de outros estados e atraem clientes com preços abaixo do mercado”, relatou o corretor.

Sobre a apuração de casos envolvendo essas empresas, a investigação fica a cargo da Polícia Federal. Ailton Junior ressaltou também que o grande problema é que muitas das pessoas prejudicadas não formalizam a denúncia. “Aqui no Sincor estamos abertos a receber esse tipo de informação, apenas assim podemos acionar os órgãos competentes”, colocou.

Quando um cliente procura uma seguradora para adquirir um seguro, muitos aspectos são levados em conta, além do modelo do veículo, como explica Djaildo Almeida, diretor de Ensino do Sincor-AL.

“O sexo, a idade, a profissão, onde mora, se usa ou não o carro para o exercício da profissão, todos esses aspectos são levados em conta para calcular o valor do seguro. Já em relação ao carro, é verificado se o modelo te muito risco de roubo, por exemplo, para se chegar ao valor final do seguro”, explicou Almeida.

A reportagem do CadaMinuto entrou em contato com uma empresa, com sede no bairro do Murilópolis, que oferece o serviço de proteção veicular. A solicitação feita foi para um seguro para um Fiat Linea 2012, mesmo modelo do veículo de Ubiratan de Moraes. O valor informado seria dividido em 12 parcelas de R$ 141 com pagamento via boleto bancário.

Nenhum detalhe sobre quem é o dono do automóvel ou outros questionamentos, como explicou Djaildo Almeida, foram perguntados. A atendente informou, ainda, que o seguro dá garantia total a quem o adquirir. Confira o registro de uma das ligações feitas pela reportagem à empresa. 

O CadaMinuto também procurou a Jaraguá Corretora de Seguros para fazer uma simulação também de um seguro para um Linea 2012. O valor foi de 10 parcelas de 280, considerando perfil de Ubiratan de Moraes, motorista lesado com a aquisição de um seguro-pirata. A empresa oferece cobertura total de vidro, cobertura de danos a terceiros no valor de até 100 mil, peças novas para substituição e assistência 24 horas em todo o País.