Divulgação A5c07bb2 bcaa 4028 bdad 8a0b6ca28d96 Lygia Fagundes Telles

“Sem esperança e sem desespero”: neste equânime estado de espírito, segundo a escritora dinamarquesa Karen Blixen, devem transcorrer os esforços cotidianos de um escritor. No entanto, a aguda alternância entre a exaltação e o desânimo acompanha muitos artistas até a capitulação final diante das dificuldades de um projeto. E há aqueles que nunca capitulam, nunca desistem, nunca terminam um texto, mesmo no caso de uma obra já publicada e de méritos reconhecidos pela crítica. A julgar por A Construção de Lygia Fagundes Telles: edição crítica de Antes do Baile Verde, publicado em 2016 pela Edufal [o livro terá festa de lançamento no próximo dia 27 de setembro, no Galpão 422. Mais informações no Serviço], e resultante da tese de doutorado do professor, pesquisador e escritor Nilton Resende, é o que acontece com a autora de alguns dos mais belos e espantosos contos da literatura brasileira.

Orientado pela professora Gilda de Albuquerque Vilela Brandão, o trabalho apresenta o cotejo e a análise das sucessivas versões definidas por Lygia para a reedição dos textos do volume de contos, publicado pela primeira vez em 1970. Muitos deles já eram então conhecidos através de coletâneas anteriores, tendo sido alterados para a publicação das Edições Bloch; outros eram inéditos e viriam a ser objeto de revisões a partir daí. A incorporação de textos ausentes do volume em um primeiro momento, como os da chamada “Trilogia da Confissão”, viria a marcar também a história do livro já em sua edição seguinte, pela José Olympio Editora, em 1971. A pesquisa acompanha estas inclusões e mudanças até a versão de 2009, lançada pela Companhia das Letras, que autorizou a publicação da versão integral dos textos pela Edufal.

A escolha deste livro em particular (como objeto de uma pesquisa e de uma publicação desta natureza) revelou-se acertada por diferentes motivos.  O fato de tratar-se de uma reunião de contos traz a chance de acompanharmos as mudanças na composição do volume no que se refere à inclusão, exclusão e ordenamento dos textos – uma preocupação ausente nas reedições de romances, por exemplo, e que tem seus efeitos observados por Resende pela experiência de leitura de Antes do Baile Verde em versões com sumários distintos, e com distintas proposições para as possibilidades de contraponto na sequência das histórias.

Além disso, e aqui em função da necessidade de síntese característica do gênero, as transformações verificadas no histórico dos textos adquirem impacto mesmo quando se restringem a detalhes aparentemente irrisórios. Alguns deles são destacados pelo crítico, na apresentação de cada conto, através da ênfase e do comentário a determinadas passagens. Eventualmente, uma tabela é utilizada para mostrar as alterações realizadas em um trecho ao longo de décadas, através de diferentes publicações. Em seguida, aparecem os textos completos dos contos, com o apontamento em notas laterais das alternativas encontradas por Lygia para cada frase ou expressão em que foram observadas mudanças.

O recurso à ostensiva marcação gráfica destas frases, expressões e mesmo palavras isoladas faz com que a edição crítica não seja recomendada para a mera leitura dos contos, sem interesse especializado. Por outro lado, ele permite que de imediato sejam notados os contos que mais sofreram alterações. Entre estes estão alguns dos grandes responsáveis pela celebrização do livro, como a história que lhe dá o título, e também o perfeito “Venha ver o pôr-do-sol”. Já em “O moço do saxofone” temos o caso bastante singular de uma história que permaneceu quase intocada desde sua primeira publicação em livro, porém contando aí com interferências realizadas a partir de sua primeira aparição no suplemento literário do jornal O Estado de São Paulo.

Nas seções que precedem os contos, o trânsito e a transmutação dos textos são analisados por Nilton Resende também como um diálogo de Lygia Fagundes Telles com a crítica literária e o comentário às suas obras na imprensa. Este é um dos pontos fortes da pesquisa, na medida em que revela uma dinâmica em que a discussão pública da obra adquire ressonância na atividade do autor. Ao mesmo tempo, a trama de contatos e interferências surge aí como uma rede esgarçada em suas conexões mais aparentes, atravessada por influências menos nítidas, ou diálogos mais profundos entre o autor e seu contexto imediato. Isto, talvez, em respeito às próprias composições de Lygia, que, por escaparem a quaisquer explicações teóricas sistemáticas, também escapariam à atribuição de causas e efeitos evidentes demais para suas transformações.

Mas fica a sensação de que a relação de Lygia com as diferentes casas editoriais por onde passou poderia ter sido mais explorada pelo crítico. Há comentários pontuais neste sentido, porém o livro pouco tem a oferecer no que se refere a um tema (a evolução do ambiente editorial no Brasil) para o qual talvez pudesse dar uma contribuição mais significativa. A omissão não compromete a exposição dos resultados pesquisa, mas o tratamento do tema poderia enriquecê-la. De todo modo, tampouco neste caso seria de se esperar a formação de conexões que preenchessem as lacunas de um “sistema” que a edição crítica não pretende delinear.

O livro não deixa de ser, afinal, um declarado tributo a Lygia Fagundes Telles e a uma de suas grandes realizações como escritora. Nada de errado com isso, muito pelo contrário. Pois é justamente ao explicitar os motivos de sua admiração pela autora que Resende, no preâmbulo, traça um de seus comentários mais acertados a respeito da obra de Lygia: “Aquelas personagens pequenas, invejosas, medrosas, inseguras, mentirosas, machucadas, agressivas... Aquelas personagens eram eu mesmo”, ele diz. E o acerto aí está na adjetivação que, de maneira sucinta, traz à memória uma experiência de leitura compartilhada por muitos admiradores dos mesmos contos, e que nos permite caracterizá-los como investigações sobre as misérias e mistérios da natureza humana, sem que isto soe grandiloquente ou despropositado.

Porém, nas ficções da autora, nada disso se revela senão através de pequenos gestos, ações pontuais e decisões repentinas – gradualmente construídas no subtexto dos diálogos –, que requerem uma enorme exatidão imagética e rítmica para adquirir efetividade. Daí os esforços de Lygia para chegar à mais aprimorada arquitetura de suas narrativas; daí os esforços de Resende em refazer os passos e repassar os traços desta busca. Operando em direções diferentes (ela em direção ao ponto de chegada, ele voltando aos pontos de partida), ambos estão comprometidos com diferentes tipos de leitores, mas em todos deve haver algum grau de cumplicidade e encanto em torno da obra e seus personagens. Até porque a própria autora, em última instância, praticava uma literatura de investigação em que para ela mesma haveria enigmas nunca completamente elucidados.

Por isso não é possível supor uma edição “definitiva” de Antes do Baile Verde (como também não haveria, vale lembrar, uma edição definitiva de A Estrutura da Bolha de Sabão, a outra coletânea de contos publicado por Lygia nos anos 1970, tão admirável como a primeira). Por esse motivo, também, surge de maneira natural a comparação entre os hábitos criativos de Lygia Fagundes Telles e os de Henry James, em cujos contos e novelas encontramos tantas investigações de segredos elusivos. Já a lembrança da “lição do mestre” de James proporciona a menção à maneira como Philip Roth lidou com os deveres e frustrações contidos neste etos da escrita no decorrer de toda sua vida, sintetizada em uma citação incisiva que encontramos entre os comentários de Resende (“Escrever é estar sempre errado”, afirmou Roth). Mas é entre as epígrafes da edição crítica, em um trecho de Alice Munro, que temos o índice de uma afinidade mais diretamente relacionada às possíveis releituras da obra de Lygia Fagundes Telles hoje.

“O mesmo ciclo – excitação e desespero, excitação e desespero”, declara na epígrafe uma personagem-escritora de “A Ilha de Cortes”. E as semelhanças não param por aí. Pois também a galeria de personagens invejosas, inseguras, machucadas e agressivas de Munro, ao fazer emergir eventos trágicos e sentimentos mórbidos na paisagem amena dos grandes lagos canadenses, oferece motivos para um tipo de espanto próximo ao oferecido por Lygia ao situar suas histórias na paisagem de pequenas cidades, subúrbios ou recintos estreitos das metrópoles brasileiras. Em ambos os casos, uma sensibilidade peculiar para a violência e para a tragédia estão em jogo, sem que os aspetos mais mesquinhos e vulgares dos personagens deixem de ser objeto de uma construção multifacetada.

O reconhecimento público recentemente obtido por Munro, então, é também uma oportunidade para que a sensibilidade dos leitores e acadêmicos brasileiros se renove neste sentido. A edição crítica de Antes do Baile Verde integra este campo de renovação do olhar, e ao mesmo tempo demonstra como os menores gestos requerem uma construção cuidadosa para alcançarem a força de uma catástrofe, sem deixarem de ser apenas pequenos gestos.

 

SINOPSE:

Em 1970, Lygia Fagundes Telles, uma das principais contistas da língua portuguesa, revisou alguns contos de livros esgotados e lançou-os na coletânea Antes do Baile Verde, juntamente com alguns contos inéditos. Esta edição crítica faz um cotejo entre a primeira e a última edição de cada uma das narrativas desse livro, anotando todas as mudanças sofridas e analisando parte delas.


Observando-se as variações autorais, pode-se perceber que a autora construiu lentamente seu mundo simbólico — o perfume “Vent Vert”, por exemplo, não estava presente na primeira edição do conto “O menino”.
Em sua trajetória, Lygia pareceu atenta à voz da crítica. Num texto sobre o livro Histórias do Desencontro (1958), Wilson Martins disse que a autora tinha alguns problemas “de expressão” — na revisão dos contos, os problemas citados por Martins não mais estiveram presentes.


Esta edição crítica de Antes do Baile Verde é uma tentativa de mostrar como a obra de Lygia Fagundes Telles foi-se construindo. É também uma oportunidade para que novos escritores, acompanhando o labor da autora em revisar seus textos, atentem para como, na literatura, os detalhes não são meros detalhes.

 

*É Professor Adjunto do Departamento de Letras da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Doutor (2005-2009) e Mestre (2003-2005) em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

 

SERVIÇO:

O Jardim Selvagem: festa de lançamento d'A Construção de Lygia Fagundes Telles
Quando: 27/09, 18h30
Onde: Galpão 422, Rua Celso Piatti 422, Jaraguá
Preço do livro apenas no lançamento:  R$ 40 reais (serão aceitos cartões de débito e crédito)
Programação: das 18h30 às 20h, sessão de autógrafos; das 20hh às 23h, discotecagem.

Mais informações: 82-99805-4902