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Alagoas alcança seus 200 anos de emancipação política. Falar sobre dois séculos através das lentes do desenvolvimento das ciências, tecnologias e inovações é se embrenhar nas características essenciais da formação desse local cravado no centro-leste da região Nordeste.

Ciência é a transformação dos recursos humanos e da natureza em conhecimento; tecnologia, o desenvolvimento e experimentação dos instrumentos que o homem utilizará para poupar esforços, potencializando o uso do corpo e capacidades intelectuais. Esses elementos foram importantes na vida dos nativos que aqui habitavam antes da ocupação colonial, na costa nordestina. Herdamos dos indígenas um estoque de conhecimento muito útil às nossas vidas. Com a chegada dos exploradores da Península Ibérica, a ocupação das novas terras exigiu o desenvolvimento de atividades econômicas que justificassem o alto custo das navegações e as tragédias humanas provocadas. Os portugueses, espremidos pelas estratégias expansionistas de holandeses, franceses, espanhóis e ingleses, instalaram atividades produtivas na costa nordestina.

O empreendimento açucareiro foi a principal e gerou um fluxo de renda compatível com o financiamento da expansão colonial, os tributos cobrados pela Coroa portuguesa e com os lucros das empresas agrícolas, conhecidas como engenhos à época.

Como nos ensinou Celso Furtado, no clássico livro Formação Econômica do Brasil, a constituição do complexo econômico açucareiro, entre os séculos XVI e XVII, do qual a formação histórica alagoana é caudatária, baseou-se em tecnologias avançadas produzidas pela indústria de equipamentos portuguesa, trazidas para os engenhos de açúcar. Na origem do país, do Nordeste e Alagoas a ciência e a tecnologia exerceram um papel fundamental em transformar a colônia portuguesa num dos mais prósperos negócios do mundo à época.

No entanto, alguns elementos inviabilizaram a internalização da cultura científica, promoção de mudanças tecnológicas e incentivos ao espírito empreendedor e inovador.

Por exemplo, o regime de produção escravista colonial entorpeceu, durante três séculos, a absoluta maioria da população brasileira, impedindo o espraiamento na sociedade dos conhecimentos básicos, educação e acesso aos bens materiais e imateriais necessários à formação humana.

O outro foi o Tratado de Methuen, acordo comercial assinado entre Portugal e Inglaterra (1703-1836), impedindo os portugueses e suas colônias de qualquer iniciativa manufatureira, em troca da venda dos vinhos portugueses nos mercados dominados pelos britânicos.

Isso inviabilizou o empreendedorismo, nos colocando de fora do bonde histórico da Primeira Revolução Industrial.

Na colônia apenas atividades econômicas voltadas para produção e exportação de gêneros primários absorviam, desenvolviam tecnologias e inovavam, enquanto que demais segmentos ultrapassavam as barreiras do tempo mergulhados no atraso.

As raízes que dificultam a diversificação da estrutura econômica alagoana residem nesses aspectos centrais.

Entretanto, o desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação foi compatível com a evolução de Alagoas no contexto das dificuldades enfrentadas pela formação brasileira e nordestina, entre os séculos XVI e XIX. Algumas iniciativas mais modernas acompanharam o surto industrial e a expansão urbana observadas nos princípios do século XIX, se estendendo até a década de 1980.

O desafio é enorme para Alagoas reconhecer a ciência, tecnologia e inovação como importantes para seu desenvolvimento, tornando-se eixos fundamentais numa estratégia de transformação da sociedade para um estágio mais elevado de condições de vida, geração de riquezas e distribuição mais justa de seus resultados. Os próximos 200 anos para Alagoas podem abrir esse novo caminho.

Firmes passos foram dados nessa direção.

PS: Esse artigo foi originalmente publicado na versão impressa do Jornal Tribuna Independente de 20/09/2017 e reproduzido no site Reporter Nordeste (http://reporternordeste.com.br/noticias/tecnologia-e-inovacao-na-historia-de-alagoas/