Foto: Arquivo pessoal Ba86bb0e 1845 4f7e 8532 dbc8ad01db75 Wanessa Alves prefere jogos online diretamente do computador

Em um espaço dominado por homens no mundo inteiro, a comunidade de gamers vem trazendo uma mudança radical de paradigmas. Agora quem manda nesse meio são as mulheres e, como não podia ser diferente, as alagoanas fazem parte da nova era do mundo do entretenimento.

A reportagem do CadaMinuto entrevistou duas jovens que amam o mundo dos jogos online e elas fizeram questão de trazer seus depoimentos. A fotógrafa e estudante de Engenharia Mecatrônica, Wanessa Alves, de 21 anos, faz parte das mulheres que representam 53,6% dos jogadores de games brasileiros, segundo dados da Pesquisa Game Brasil 2016. “Acho maravilhoso cada vez mais as mulheres entrarem no mundo dos jogos e provar que game não é só para homens”, disse a fotógrafa.

Wanessa vai de contramão ao que a pesquisa mostra. Cerca de 59% do público feminino prefere jogar pelo celular. Ao contrário da maiora, ela escolheu apenas os jogos de computadores. “Comecei com Minecraft, Perfect World, Counter Strike: Global Offensive, Smite, League of Legends. Sempre levei na diversão com meus amigos, juntava todos no Skype ou Curse (ferramentas de comunicação online), então era garantido que eu iria me divertir”, concluiu.

 

Dados são da Pesquisa Games Brasil de 2016 (Ilustração)

 

“Sempre me prendeu os tipos de jogabilidade, a didática, a diversidade... acabava entrando nos personagens e jogando como se fosse minha vida ali, porém sempre na diversão. Serve tanto para me divertir, como relaxar ou me estressar, e dar boas risadas” 

- Wanessa Alves

 

Competições

Em Alagoas, não há competições oficiais profissionais, porém de vez em quando ocorrem as competições amadoras de games online. A estudante de Comunicação Social, Gabriela Noaro, de 21 anos, já participou de um torneio amador de DotA 1, em Maceió. “Já participei de um campeonato pela experiência, foi o último de DotA 1 da cidade. As competições amadoras são recorrentes no DotA, quando se tem mais de 10 pessoas jogando dá para competir entre si”, falou.

O mundo dos games para ambas as entrevistadas vai além da competição e da vitória. É um modo de diversão e passatempo, onde o jogador foge da realidade para viver uma outra vida dentro de uma partida. “Poder assumir outra identidade já é algo muito encantador, os jogos online nos possibilitam quebrar qualquer fronteira, ou seja, eu posso jogar com pessoas do outro lado do mundo. Isso é muito legal, posso interagir com meus amigos sem precisar sair de casa”, disse Isabela.

 

Nem tudo são flores

Apesar desse mundo novo das mulheres que dominam os jogos eletrônicos, fica bem claro o preconceito, o machismo e a falta de respeito praticada por jogadores homens dentro de uma partida. Através dos chats, é possível haver uma comunicação entre as equipes e, muitas vezes, ao descobrir de que se trata de uma mulher atrás do teclado, os ataques machistas são eminentes.

Uma pesquisa da Ohio State University realizada no ano passado revelou que mulheres sofrem assédio sexual online a todo momento nas partidas de jogos, sendo esse tipo de ofensa a mais difícil de ser esquecida. A universidade entrevistou 293 jogadoras de títulos como World of Warcraft e Team Fortress 2 com média de 26 anos de idade. As voluntárias falaram que são capazes de relevar palavrões e ofensas em geral, mas os abusos de cunho sexual deixam marcas.

Wanessa Alves já foi uma das que sofreram este tipo de agressão. “Quando alguém fala comigo no chat e percebem que sou mulher, ou tentam me dar o maior suporte possível ou então xinga por ser mulher. Já aconteceu de acharem meu perfil do Instagram e Facebook e começarem a me adicionar querendo foto nua, trocar papo, se encontrar. Quando não é para algum interesse sexual, é para xingar por ser mulher jogando”, contou a estudante.

 

Campeã em um torneio de Street Fighter, Cristina 'Olakristal' Santos também foi vítima de machismo nas redes sociais (Foto: GameHall)

 

Com Isabela não foi tão diferente, mas ela acabou sendo também vítima de xenofobia por outros players por ser nordestina. “O tipo de assédio que eu já sofri teve dupla gravidade por terem usado o fato de eu ser nordestina e ter um sotaque puxado para me ofender. Inúmeras vezes me disseram coisas horríveis, afirmando que mulher só presta para isso ou aquilo, pedindo minhas redes sociais e até falando que eu deveria ser uma gorda “mal comida” e que por isso estava jogando”, disse.

 

Anonimato

Um dos maiores problemas das partidas online é o anonimato. A partir do momento que uma usuária entra em uma partida com outros jogadores, não é apresentado o nome de tais pessoas que estão por trás do teclado. Neste caso, ao ser agredida, somente há uma forma de denunciar: através da própria plataforma, onde na maioria das vezes ninguém acaba sendo punido.

“A internet não tem leis nem regras, todos falam o que querem e não são punidos. Por trás da tela de um computador as infrações são realizadas sem que se tenha uma consequência, instigando a barbárie”, explanou Isabela.

Para Wanessa, o anonimato acaba sendo uma ferramenta necessária para outras pessoas evitarem ser agredidas pelos homens, mas não no caso dela. “Acho que ficar no anônimo é uma forma de algumas mulheres de se protegerem de assédios ou comentários chatos. Nunca me deixei no anônimo. Quando perguntam já digo que sou mulher e não ligo", mas salienta: “a pessoa tem que jogar da forma que se sinta mais à vontade, mas ter que ficar no anônimo por medo de comentários de homens é muito desconfortável e até desestimula a jogar”, concluiu.

Mesmo assim, elas não deixam de curtir aquele pedaço de tempo na frente da tela de um computador. Os problemas que o mundo online traz são enfrentados lá dentro, mas o assédio precisa mais do que nunca ser derrotado do lado de fora.

*Estagiário