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Era uma manhã de sábado chuvarenta, ela caminhava descontraidamente,  no passeio das bicicletas, na orla de Cruz das Almas, em Maceió,AL.

Estava só, uma criança miúda, com roupas rotas. Aproximei-me para conversar:

- Ôxe, menina. Por que você está sozinha na rua? Por que não vai para casa?

A criança fez o gesto secular de que precisava de dinheiro e explica: Preciso comprar  pão, café e margarina e levar para minha   avó, que mora, lá embaixo,no morro.

Qual é o seu nome, menina? Meu nome é S*, mas, o povo me chama de nêga- diz.

Falou ainda  que a mãe morava no Biu. O pai com a namorada na rua.

Antes a  família morava na casa da avó, mas, aí teve uma confusão,porque todo mundo tomava cachaça e avó  expulsou eles todos,  e depois parou de beber.

Falou que tinha 4 irmãos, contando nos dedos.

E dos seus irmãos quem bebe cachaça? Perguntei.

Só fulano disse. Quis saber se fulano tinha uns 15 anos. Não, balançou a cabeça veemente. Ele é pequeno.

Conversamos, longamente, no trajeto da caminhada. Alertei-a para tomar cuidado com os convites de homens. E ela:- Ah! Eu sou esperta. Uma vez um homem safado chamou eu e minha irmã para ir pra praia do Guaxuma e eu disse que não. Ele ainda ficou atrás da gente, mas, eu fiquei de olho. No outro dia ele apareceu de novo, mas sei que ele quer abusar da gente.

Mas, você é pequena ele pode te pegar e colocar no carro. Ela:- Não, eu já sou grande e  esperta!

Era uma pequena sobrevivente das ruas.  9 anos cheiinho de experiências.

Antes do até logo ( eu estou sempre por aqui-disse ela) olhei para o rostinho daquela menina  franzina, com sobrancelhas tão bem delineadas e mesmo com uma pequena  confusão na fala, tinha desenvoltura para contar histórias.

Sabe qual o maior sonho da nêga:- Ter comida suficiente na mesa.

Afinal o que  estamos fazendo com nossas crianças? 

Tirando-lhe a infância?

E fim?!