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Pequenos trechos da 1ª Entrevista: 15.01.1977

M.C. - Otávio, onde e quando você nasceu?

O.B. - Eu nasci a 12 de setembro de 1896, na cidade de Viçosa, de Alagoas, no interior, a cem quilometros do litoral, no meio das plantações de cana-de-açúcar. Subiam, desciam ladeira, até as portas da cidade, aquelas plantações de cana-de-açúcar. Viçosa é uma cidade muito pequeno-burguesa, cercada de latifúndios, antigos engenhos, engenhos de açúcar. [...]

M.C. - E qual era a profissão de seu pai?

O.B. - Meu pai era prático de farmácia. Era um homem democrata, progressista, um homem de idéias muito avançadas para a época. Não esqueça de que, chegou 15 de novembro de 1889, houve a Proclamação da República no Rio de Janeiro, e chegou lá a notícia muito depois. Não havia telégrafo; não havia estrada de ferro. Então, os pequeno-burgueses urbanos reuniram-se na Câmara Municipal e proclamaram sua adesão à República. Bom; até aí, nada demais.

M.C. - Otávio, o que você estudou? Onde?

O.B. - Bem; eu estudei em Viçosa. Aprendi a ler com a professora Maria do Â. Era uma negra. [risos] Dava bolo a três por dois. Eu tinha muito medo dela! Ela, porém, nunca

me bateu. Aprendi rapidamente a ler. E é interessante que Graciliano Ramos, que hoje é uma glória nacional, também aprendeu a ler com Maria do Â. Ele num dos livros, ataca a Maria do Â; e eu, num artigo, no Diário de Notícias, no Suplemento Literário, a defendi. Ela ensinou a ler a dois escritores: [risos] um é uma celebridade; o outro é negado por todos os lados. É uma questão de classe! Mas, de qualquer forma, ela nos ensinou a ler, além de outros e outros. É uma mulher pobre, negra, professora primária, perdida no interior de Alagoas, vivendo só, naquela pobreza, e acabou na miséria Maria do Â.

M.C. - E como você entrou em contato com as idéias anarquistas?

O.B. - Isso já foi depois, em Maceió. Em Maceió, houve um tipógrafo, Antônio Bernardo Canelas. Ele era tipógrafo, jornalista, tudo. Ele editou o jornal A Semana Social, em Maceió. Ele não estudava. Acreditava demais na própria intuição, mas era muito inteligente. Tinha antenas; pegava as coisas no ar. Canelas editou esse jornal. Esse jornal teve muita importância, porque, quando o governo declarou guerra à Alemanha, A Semana Social botou lá a manchete: "Abaixo a guerra imperialista." Somente Maceió, Rio e São Paulo é que protestaram contra a guerra. A esmagadora maioria dos intelectuais: Rui Barbosa, Coelho Neto, toda essa gente apoiando os Aliados contra os alemães. E nós contra os Aliados e contra os alemães, de modo que foi uma coisa impressionante.

E Canelas tinha amizade com Astrojildo Pereira, aqui no Rio de Janeiro. Astrojildo morava em Niterói, a correspondência vinha para o Rio de Janeiro. Então, Astrojildo começou a dar indicações. Aí eu li Bakunin, Deus e o Estado; li Kropotkin, A conquista do pão; li Sebastião Faurre; li Malatesta. O que encontrei, fui lendo. E li Nietzsche, que contribuiu muito, porque, como ele mesmo diz, no prefácio lá de um dos seus livros: "Retirai deste livro amargo, razões para tudo." [riso] É como a Bíblia, a gente tira dali o que bem quer.

E então, Nietzsche serviu para eu resistir àquele ambiente clerical, àquela pressão da família, àquilo tudo. Ele representou um papel positivo. E as outras idéias dele, em filosofia e em sociologia, eu repudiei. Admirei

sobretudo as poesias, como aquele "Canto da Noite", que ele escreveu em Roma. Quanto às idéias, muitas das idéias dele, que depois contribuíram para o nazismo, eu rechacei já em 1916, 1917, quando ele diz: "O Estado é o mais frio dos monstros..." Porque Nietzsche tem muitas coisas anarquistas e tem coisas que serviram para Hitler.

A primeira parte foi a que eu adotei. O livro dele O anticristo, que é uma crítica ao cristianismo, também li. E foi o que eu encontrei em Maceió. Sobre a Rússia, o único livro que encontrei foi um livro do século passado... Stepniaquim descrevendo os Narodnaiavolia, os terroristas do século passado. Foi o único livro que encontrei, não encontrei mais nada de lá.

CHÁ DE MEMÓRIA Octávio Brandão – Vida e Obra
Como:a cientista social Marisa Brandão, o sociólogo Edson Bezerra e o historiador Geraldo de Majella que falarão sobre Octávio Brandão. 
Quando: Dia: 12
Que Horas:16 às 18 hs
Onde: Arquivo Público de Alagoas – Jaraguá