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   “Falarei do capítulo oculto da história política de Alagoas, dos alagoanos que assassinados, desaparecidos, exilados ou banidos sob a longa noite de violência que se abateu sobre o país, estão impedidos, muitos, para sempre, de dar sua contribuição para que o nosso povo encontre o futuro de liberdade e bem-estar social, e o Brasil alcance a independência e o progresso”. Renan Calheiros, Em defesa de um mandato popular, p. 18, 979.

        Senhor governador, essa denúncia foi feita da tribuna da Casa de Tavares Bastos, a Assembleia Legislativa de Alagoas, pelo deputado estadual Renan Calheiros, seu pai. O medo e o terror eram dominantes, e a voz do jovem estudante e deputado estadual Renan Calheiros era a nossa voz.

        A Comissão Estadual da Memória e Verdade Jayme Miranda foi criada pela Lei Estadual nº 7.498, de 14 de junho de 2013, com a finalidade de acompanhar e subsidiar a Comissão Nacional da Verdade nos exames e esclarecimentos às graves violações de direitos humanos praticadas, no período previsto no art. 8º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal. Sua composição foi definida pelo Decreto nº 26.820, de 25 de junho de 2013, com sete membros, sem remuneração.

Senhor Governador, a história é implacável, os que foram proclamados vencedores com o golpe militar de 1º de abril de 1964, hoje são os derrotados, pois a História os condenou como usurpadores e golpistas. Não há mais chance de reabilitação histórica desses “vencedores”.

        O “capítulo oculto” da história de Alagoas sobre o qual o então jovem deputado estadual Renan Calheiros falou ‒ mais que falar, bradou da tribuna ‒, agora poderá ser escrito apoiado em dezenas de depoimentos de ex-presos, de torturados, de familiares de vítimas, de documentos organizados pela Comissão Estadual da Memória e da Verdade Jayme Miranda.

Senhor Governador, com base no tratamento dispensado e pelo que representa o trabalho da Comissão Estadual da Memória e Verdade Jayme Miranda, não é possível fazer outra leitura senão a do posicionamento político claro, de que o tema não faz parte da sua agenda politico-administrativa.   

        Senhor Govenador, para não tomar mais o seu precioso tempo, talvez a idade lhe seja adversária, no seguinte sentido: a família Calheiros tem pelos menos seis membros na extensa relação de presos políticos, desaparecidos e exilados do período 1964-1985; são eles: Jayme Amorim de Miranda, desaparecido político, Nilson Amorim de Miranda, exilado, Wilton Amorim de Miranda, Walter Pedrosa de Amorim, Walfredo Pedrosa de Amorim (Nô) e Mário Rodrigues Calheiros, presos e perseguidos.

        O Relatório foi entregue a uma funcionária do Gabinete Civil e agora resta saber se as recomendações serão implementadas por Vossa Excelência. A Comissão o entregará às instituições de pesquisa e o disponibilizará para a sociedade civil e os familiares das vítimas da ditadura militar.

Para finalizar, escrevo esta Carta Aberta como um registro histórico e para deixar claro que o Estado e ou seu representante circunstancial não mudará o curso da história que está sendo resgatada e a que será escrita. Novos fatos serão dados para o conhecimento da sociedade, pois emergiram das memórias e dos documentos produzidos pelos agentes da ditadura militar e agora serão de domínio público.

O passado é o pai da memória. E a memória é a mãe da História.

Alagoas é o que se ama e dói, como bem definiu o historiador Dirceu Lindoso.

Saúde e paz.

Geraldo de Majella historiador.