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Dia desses, um amigo de esquerda me falava: “Aurélio, o liberalismo traz sofrimento às pessoas, é injusto, é desumano”. Dá um pouco de preguiça explicar por que esse meu amigo pensa assim e por que está fundamentalmente errado. Pois é preciso viajar no tempo e no espaço para demonstrar as falácias contidas nas críticas ao que Marx batizou no século XIX “capitalismo”. 

A tonelagem total da frota da Liga Hanseática no final do século XV não somava a capacidade de um único navio comercial pequeno de hoje. A associação de cidades germânicas, se deu vitalidade ao comércio no Báltico e poder a uma burguesia que transformaria o mundo nos séculos seguintes, não conseguia livrar a maior parte dos europeus de então de uma realidade incômoda: qualquer frustração de safra agrícola no interior do feudo significaria um ano de fome. O comércio estava longe de ter o poder de socorrer as necessidades humanas onde e quando se manifestassem. A maior parte dos homens de então nascia e morria sem nunca ter alcançado a condição de consumidor, no sentido atual do termo. Dependia por toda vida do que ele mesmo (seus pais, quando muito pequeno) plantasse, colhesse ou criasse.

Era assim em todas as grandes civilizações de então: Império Inca, Império Asteca, impérios africanos, Arábia, Índia, China, Japão, Europa. Se é verdade que as cidades burguesas mais prósperas, como Bremen, Lübeck, Florença e Gênova, tinham silos capazes de estocar preventivamente para tempos adversos e seus habitantes podiam consumir o que de melhor se produzia no mundo conhecido, também é verdade que o alcance de suas frotas não chegava à maior parte dos viventes e uma ínfima parcela da população global residia nelas. 

Nos últimos 25 anos, como aponta aqui ( http://veja.abril.com.br/complemento/entrevista/johan-norberg.html) o historiador sueco Johan Norberg, a renda per capita global subiu mais do que nos 25.000 anos anteriores. Isso se deve, basicamente, à multiplicação do comércio internacional, que permite e é permitido pela acumulação de capital, num círculo virtuoso que apenas uma eventual vitória política das forças contrárias ao livre comércio pode paralisar.

Qualquer solução fora do livre mercado está condenada ao fracasso. Não há uma só exceção na história universal a esse princípio. No mundo atual, o exemplo da Coreia do Norte, em contraste gritante com o vizinho do sul de mesma etnia, salta aos olhos. A mais recente tentativa em curso de atacar os pressupostos ditos “liberais” (termo com diversas acepções, significando esquerda nos Estados Unidos e parte da Europa), a Venezuela chavista, conseguiu elevar o número de nacionais abaixo da linha de pobreza de 48% para 82% de três anos para cá. A mortalidade infantil, em franco declínio em todo planeta, ali subiu 60% do início desta década até 2016, segundo a Organização Mundial de Saúde. Não são discursos de uma “oposição de direita”, são fatos atestados por organizações comandadas por gente que costuma simpatizar com a esquerda e fazer coro ao ataque à desigualdade, como se ela, desigualdade, fosse o grande problema mundial.

A desigualdade pode parecer injusta e desumana. Já expliquei aqui o quanto ela não é um problema real, exceto se extrema. De qualquer forma, ela nunca foi tão baixa em termos globais quanto nas últimas décadas. A reação populista, de direita ou de esquerda, do eleitorado de classe média dos países ricos ultimamente é uma reação à diminuição da desigualdade global, não uma luta racional pela geração de mais riquezas. E é exatamente o livre comércio quem promove a redução das desigualdades; não são os governos, que apenas distorcem a distribuição, com efeitos negativos sobre todos, com suas políticas ditas distributivas.

Seja nos regimes aristocráticos, seja no socialismo, a desigualdade é maior do que em sistemas de livre mercado (ou parcialmente livre mercado, como no Brasil, repleto de monopólios e restrições ao comércio), pois é determinada pela posição na hierarquia política. Isso não significa que não se possa ou não se deva manter políticas de Estado para minimizar os problemas dos poucos aptos à competição comercial e prover os mais pobres do socorro essencial à sobrevivência.

Modelos de renda mínima, que não deve ser confundida com previdência, estão implantados na maior parte das democracias de livre mercado. No Brasil, há uma distorção evidente no modelo bipartido entre o Benefício de Prestação Continuada, previsto na LOAS (Lei Orgânica da Assistência Social), e o Bolsa-Família. O primeiro é excessivo, pois iguala o benefício ao salário de boa parte dos trabalhadores: o salário mínimo. O segundo, por uma questão óbvia de justiça, deveria ser igualado ao primeiro, desde que buscado um valor intermediário. Vale notar que Bolsa-Família e BPC juntos equivalem a menos da metade do deficit da previdência dos trabalhadores da iniciativa privada, portanto é este sistema que precisa de uma mudança quanto ao impacto fiscal, não aquele.

Estou pronto a debater com meu amigo de esquerda sobre injustiças e desumanidades, mas, para começar, peço-lhe que pare de culpar o capitalismo ou o liberalismo pelos sofrimentos humanos. Sem capitalismo ou com capitalismo incipiente, sofre-se muito mais e, pior, na maior parte dos casos, sem chances de redenção em vida. Quanto mais livre for o comércio, entre as nações e no interior delas, maiores serão as chances de minimizar sofrimentos e reparar injustiças e desumanidades.