Foto: Reprodução/Internet 5519343f ad6f 459a b9a5 a567a1c40215

“O baque do chão abriu os meus olhos para enxergar que não existe a solução de você morrer para que os problemas acabem. Ter algum problema ou depressão não significa que você é uma pessoa fraca”. O relato é de uma adolescente de 17 anos que tentou suicídio em abril do ano passado em Maceió. A reportagem usará um nome fictício para contar o caso da menor.

A depressão não escolhe gênero, classe social, idade, cor. Se não for tratada, ela pode se desenvolver até chegar ao momento crucial: a tentativa de suicídio ou até mesmo ao próprio suicídio. O caso da maceioense Bianca* não foi diferente. Entre a tristeza e a falta de sentido na vida, existia uma ponte que ninguém entendia, nem mesmo a adolescente.

“Eu comecei a ficar triste, desmotivada, não conseguia fazer nada e muito menos conversar com alguém. Era uma sensação que ia tomando conta de mim”, contou Bianca.

De repente, a alegria estampada no rosto da adolescente foi substituída por desânimo e as conversas com os amigos e familiares deixavam os questionamentos por parte deles sem respostas. “Eles sempre me perguntavam por qual motivo eu estava triste, mas eu não conseguia dizer”.

Não precisou muito tempo para que Bianca não sentisse mais vontade de continuar. Ela destacou, durante a conversa com a reportagem, que em nenhum momento queria morrer, mas que sentia necessidade de que aquela tristeza, dor, acabasse.

“É uma decisão difícil, ninguém chega e diz ‘hoje vou me matar’ e acontece. Recordo-me que no dia que aconteceu a minha tentativa de suicídio, sentei na cama e chorei muito. Deixei uma carta para os meus pais, mas eu não queria morrer”, destacou.

Bianca escolheu o terceiro andar do prédio para dizer adeus à vida. Entretanto, após perceber que mesmo após queda continuava viva, a gratidão se tornou a sua melhor amiga.

“Eu poderia não andar mais, poderia ter ficado em estado vegetativo, mas eu só consegui agradecer quando percebi que estava viva. Deus me deu uma segunda chance, não era aquilo que era pra acontecer. Depois que a pessoa passa pelo momento que eu passei: ter quebrado vários ossos e fraturados vertebras você valoriza tudo que é mais simples, como por exemplo: a primeira noite que eu dormi de lado, eu chorei e agradeci”. Bianca passou por várias cirurgias e um ano após a sua tentativa, ainda necessita da ajuda de pais e amigos para retomar a sua vida.

Para Bianca, quem tenta cometer o suicídio ou tem depressão é visto de uma maneira diferente pela sociedade, mas entende que a população não está preparada para lidar com esses casos. “Infelizmente, é um tabu falar sobre suicídio, as pessoas não buscam ajuda e ignoram os problemas. Com o meu relato, quero ajudar ao outro e incentivá-lo a buscar uma ajuda especializada”, contou a adolescente que atualmente faz psicoterapia e está sendo acompanhada por um psiquiatra.

Dados preocupam

A cada 40 segundos no mundo e a cada 45 minutos no Brasil ocorre um suicídio no país. Dados divulgados pela BBC indicam que entre 1980 e 2014, a taxa de suicídio entre jovens de 15 a 29 anos aumentou 27,2% no país.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é o país campeão mundial do transtorno de ansiedade e o quinto em número de pessoas com depressão.

O aumento de casos relacionados à tentativa de suicídio em Alagoas é considerado alarmante. Dados do Hospital Geral do Estado (HGE) mostram que, a cada ano, os números aumentam e os maiores casos estão relacionados às mulheres.

No ano de 2016 a julho de 2017, o HGE registrou 435 casos de tentativas de suicídio. Sendo 84 casos relacionados a homens em 2016 e 185 tentativas por mulheres no mesmo ano.

Até julho de 2017, foram 61 homens e 105 mulheres que tentaram tirar a vida em Alagoas, dos que foram atendidos, 33 pessoas (2016) e 15 (2017) tentaram tirar a vida novamente e foram encaminhados para o HGE.

Os dados também mostram que a faixa etária vai de 15 a 39 anos. Sobre o meio de agressão, 230 casos por envenenamento foram registrados em 2016 e 125 em 2017.

Ainda de acordo com o HGE, sobre os municípios alagoanos, Maceió ocupa o 1º lugar registrando 171 casos em 2016 e 111 em 2017. Em 2º está a cidade de Pilar, seguido de Atalaia e Rio Largo.

A quem recorrer?

A reportagem entrou em contato com as duas secretarias de saúde: Estado e Município, além do Conselho de Psicologia para saber quais são as ações de prevenções, atendimentos ou como os órgãos atendem pessoas vítimas de tentativa de suicídio.

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) disse que o município não desenvolve um trabalho preventivo específico para casos de suicídio. Confira a nota na íntegra:

De acordo com a Coordenação de Doenças e Agravos Não Transmissíveis (DANT), que trabalha diretamente com as notificações de violência junto às unidades, o município não desenvolve um trabalho preventivo específico para casos de suicídio. Quando algum profissional de saúde ou mesmo os psicólogos que atendem em algumas unidades detectam um traço de tendência suicida no atendimento cotidiano o paciente é encaminhado para atendimento psiquiátrico nos CAPS do município. Esse mesmo atendimento também é disponibilizado mesmo após a tentativa de suicídio, quando felizmente o paciente não obtém sucesso no seu intuito de tirar a própria vida.

O município de Maceió possui 05 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

A Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas (Sesau) disse que no caso desta modalidade de assistência, o atendimento aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) acontece no Caps e que recebem assistência técnica da Sesau.

Além disto, a Sesau disse que essa assistência acontece por meio da capacitação periódica das equipes multidisciplinares dos Caps e através dos monitoramentos e auditorias, para verificar se cada unidade está cumprindo a sua atribuição, que é atender os portadores de transtornos mentais. 

Em contato com o Conselho de Psicologia, o Presidente da Comissão de Orientação e Ética do CRP 15, Manoel Vieira de Carvalho Alencar (CRP/2121) informou que não há especificamente um projeto de atendimento especifico para estas demandas, mas por tratar-se de um problema de saúde publica atual, o CRP procura juntamente com parceiros - Ongs, instituições públicas e privadas, outros órgãos de classe - fomentar espaços de discussões, diálogos, campanhas e ações com objetiva de sensibilização para temática.            

Manoel também informou que quando necessário, o CRP realiza encaminhamentos para locais como o Cavida.  O presidente também ressaltou que faltam políticas públicas para a prevenção do suicídio. “Não apenas aquelas de responsabilidades do Governo, mas também de instituições privadas como escolas, empresas. As carências de políticas mais efetivas se agravam com os preconceitos sociais que envolvem a temática, suicídio”, ressaltou.

Centro de Prevenção à Vida

A necessidade de profissionais, estrutura física e a alta demanda de pacientes são alguns dos problemas do único Centro de Promoção de Saúde, Educação e Amor à Vida (Cavida) em Alagoas. A Ong, sem fins lucrativos, oferece apoio psicológico às pessoas que apresentem características de comportamentos de risco para o suicídio, pessoas com depressão, dependentes químicos, problemas familiares, conflitos de relacionamentos, dificuldades emocionais.

O projeto conta com 14 voluntários para atender uma demanda de oito pacientes por dia, totalizando 160 pessoas por mês. O Cavida tem como estratégia de prevenção: os atendimentos psicológicos, apoio familiar, grupos de apoio, palestras, cursos e trabalhos recreativos.

Mas, segundo o vice-presidente Arnaldo Santtos, nem sempre é fácil o trabalho no Cavida. De acordo com ele, por ser uma Ong, falta voluntários e a fila de espera aumenta. “Temos cerca de 20 pessoas aguardando para atendimento. Não recebemos ajuda nem do município, nem do Estado e nem da União”, comentou.

Conforme Arnaldo, os atendimentos são realizados todos os dias de 8h às 12h e de 14h às 17h30. “A pessoa faz o acolhimento, relata a primeira queixa e se tiver de imediato um psicólogo de plantão, ela é atendida e se tiver muita gente, ela volta para a casa e aguarda um telefonema para marcar a consulta”.

“Realizamos cursos para ter recursos e manter o Cavida. Precisamos pagar energia, aluguel, temos profissionais dedicados e estamos atentos sobre o assunto de suicídio, mas faço um apelo para que os estudantes de psicologia ou psicólogos que queiram abraçar a causa entrem em contato para ser voluntário do projeto”, pediu o vice-presidente.

Ajuda profissional

O psicólogo do Cavida Dário Nascimento disse que com o aumento de casos de depressão, ansiedade e o suicídio, o paciente que vai até o Centro de Amor à Vida passa por uma triagem e ele é orientado por um psicólogo.

“Além disto, fazemos um trabalho também com os familiares para orientá-los em como eles devem agir. A sociedade de hoje enxerga o suicídio como um ato que a pessoa quer aparecer e não entende o sofrimento do outro”, comentou.

“Quando falamos em sofrimento, muitas vezes, só entendemos que ele acontecia quando o suicídio é consumado”, disse Dário.

O psicólogo também informou que é importante que amigos e familiares notem o discurso de alguém que está passando por depressão ou que quer tirar a vida. “É bom tentar buscar mais a compreensão e não julgar. Tentar identificar os discursos e os comportamentos. O suicida não quer morrer, ele só quer aliviar o sofrimento, mas existe saída: o processo de psicoterapia e o amor da família”, enfatizou.

(Confira abaixo o vice-presidente e o psicólogo do Cavida falando sobre o atendimento no Centro e a importância da ajuda profissional)