Arte de Leo Bento - https://www.leobento.com 4141544a 6772 4a91 bb84 58123c60f296 São José de todos os pais.

Invejo aqueles que vivem em países onde se escolheu o dia de São José, 19 de março, para homenagear os que já tiveram a honra de ver alguma coisa de si mesmo, literalmente, reproduzida em outro alguém.

Exaltar a paternidade no dia do pai emprestado do filho do Cara concede sentido e liturgia para o momento. Transbordar a mesquinha visão exclusivamente material, dos presentes burocráticos, ocos e sem significado, é algo urgente e necessário para nossa nação que formou nas últimas décadas tantos consumidores, mas tão poucos cidadãos.

José, assim como Jorge, foi guerreiro. Mas suas batalhas foram travadas sem espadas e dragões. Por intermédio de seu trabalho, seu suor e esforço conseguiu cumprir seu papel de pai e cuidar de sua família. Um objetivo tão concreto para todos nós pais.

Vanguardista na tolerância a diferentes arranjos familiares, aceitou uma esposa em cujo ventre havia sido concebido um filho que não era seu, algo impensável naquela época. Ao atender o pedido do anjo em seu sonho, José, ainda hoje, mais de dois mil anos depois, teria sido condenado. Teria sofrido bullying avassalador nas redes sociais, por uma sociedade tão avessa a famílias “mosaico”, mães sozinhas com filhos, casais homoafetivos, netos criados por avós etc.

José trabalhava duro para sustentar todos os seus, tenho certeza. Os seus ganhos eram limitados. Por mais que os evangelistas tenham gasto muito papiro, verbo e tempo para “provar” a sua ascendência “real” aos hebreus descrentes, ele não possuía grandes posses materiais. Carpinteiro, foi alguém que corria atrás, que pedalava, que se virava para botar o “pão nosso de cada dia” na mesa de sua família. Tarefa igual aos atuais colegas da profissão em Alagoas, que conforme o piso salarial da categoria, ganham pouco mais que o salário mínimo.

Como imaginar um José rico, opulento? Em tempos de recenseamento, foi obrigado a pegar tudo que tinha em Nazaré, inclusive sua companheira grávida, e como milhares de refugiados e imigrantes, ir para Belém. Tudo que ele possuía coube no lombo de um jumentinho.

Depois do nascimento do menino Jesus, não houve nenhuma possibilidade para que José ascendesse a classes mais abonadas. Nem mesmo se ele tivesse se apropriado de toda a mirra, incenso e ouro que foi dado pelos reis magos, para “investir” em um “negócio” próprio. Muitos Josés brasileiros tentam essa “sorte” e abrem espaço-shake, representação de cosméticos, promessas rentáveis de internet, esquema pirâmide, ou até mesmo “investem” no aluguel de barracas e cadeiras de praia para os turistas na Pajuçara.

Não havia micro ou pequenas empresas, EIRELEs ou MEIs na Galileia. Contudo, acredito que José tivesse alguns ajudantes em seu ofício de carpinteiro, para montar os móveis planejados das famílias daquela época. Se ocorreu assim, tenho certeza que sua “contabilidade” era exatamente igual a de muitos Josés de hoje que “empatam” os lucros com as despesas depois de pagar os funcionários.

Ainda que tivesse passado em um concurso público naquela época, José provavelmente teria ficado anos, quem sabe décadas, sem aumento de salário real, tampouco perspectiva de melhora das condições de trabalho e de sua carreira.  

Ahhh, perdoe-me, São José! Perdoe as limitações desse cronista menor. Eu nem contei direito a tua história e, atrevidamente, me permiti compará-la com a de muitos Josés que conheço.

Não fique bravo comigo e me conceda um único pedido: continue protegendo e iluminando todos esses trabalhadores. Independentemente do fato de possuírem ou não carteira assinada, de estarem desempregados, fazerem bico no Uber, serem “autônomos”, “pejotas”, micro ou pequenos empresários, EIRELEs ou MEIs, intermitentes, teletrabalhadores, profissionais liberais, freelancers, servidores públicos ou terem tantas outras definições.

Todos eles são pais e fazem do suor a dignidade e exemplo para seus filhos.

Feliz dia dos Pais para todos os Josés.