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A Secretaria de Estado do Esporte, Lazer e Juventude, realizou ontem mais uma edição do "Participaê", com o apoio de outras Secretarias de Estado e parceiros privados, desta vez ocorreu em Arapiraca, consiste numa ação que leva serviços (como emissão de documentos, cadastro em programas, oficinas) de forma itinerante para os jovens.

Em Arapiraca os professores da rede municipal estão em greve há mais de 90 dias, uma luta para conquistar um reajuste salarial superior à proposta feita pela atual gestão. 

O prefeito Rogério Teófilo (PSDB) havia informado que participaria da abertura do Participaê, sabendo desta informação os professores, organizados pelo Sinteal, mobilizaram-se para aproveitar a oportunidade e protestar.

Ao saber do protesto o prefeito não foi, os manifestantes continuaram lá (possuem esse direito e o exerceram) e no momento da abertura do evento começaram as palavras de ordem, apitos, gritos...com o objetivo de impedir que as pessoas que ali estavam para falar no evento não fossem ouvidas (embora bem vindos, não souberam respeitar o momento).

Sobre esses fatos, algumas opiniões:

1. As manifestações e os protestos são instrumentos importantes de luta, muitos direitos que possuímos foram conquistados com o povo na rua lutando por dias melhores. Esses instrumentos precisam ser respeitados e garantidos. 

2. Esses instrumentos foram banalizados ao longo do tempo e muitas vezes mais afastaram que conquistaram adeptos para sua causa. O fato de alguns estudantes e ouvintes no geral que lá estavam para a abertura do evento terem nos procurado ao final para se desculparem pelo "barulho" e dizer que não tinham ligação com "aquilo" é uma prova disso. Pertinente colocação, mas que mostra o quanto os professores deixaram de conquistar o apoio dos estudantes; sendo que a relação estudante-professor é fundamental para as conquistas na área da educação. 

3. Já participei de vários protestos, na época de estudante e depois de formada, inclusive em eventos oficiais de governos. Chegávamos lá e emitíamos a nossa opinião com faixas, cartazes e palavras de ordem num dado momento e em seguida parávamos para ouvir o que as autoridades tinham a dizer, sobre o evento e sobre nossas reivindicações. Afinal, protesto que só quer fazer "barulho" não quer de fato resolver o problema, saber ouvir faz parte das negociações de salários e de direitos, não saber/querer ouvir significa (no final das contas) não "estar aí" para o pretexto/conteúdo do protesto.

4. Cresceu o que a cientista política Clarisse Gurgel (UniRio) descreveu como "esquerda performática" (achei o termo bem ajustado e definido por ela), aquela parcela da esquerda que prioriza a política como evento, deixa de formar sua base e se especializa em organizar eventos, ou seja, está mais preocupada com a performance (em aparecer e como aparecer) que com a política (o conteúdo do evento performático). Existem movimentos e movimentos, essa é a questão, mas uma parcela acaba por rotular todos.

5. O evento seguiu, foi muito bom e cumpriu seus objetivos, enquanto Secretária de Estado e anfitriã do evento não tenho nada a dizer além de que não tenho competência institucional/legal para solucionar o impasse entre Prefeitura Municipal e trabalhadores - o que todos que estavam lá já sabiam. E como lá não tinha ninguém representando a Prefeitura de Arapiraca, não tenho como ser "garota de recados". 

6. Já enquanto militante política tenho coisas à mais para dizer: solidarizo-me com os trabalhadores em greve, a educação deve ser valorizada como área estratégica que é para a sociedade; mas fico preocupada com fatos como este no sentido de que uma parcela lúcida dos movimentos sociais seja afetada pela falta de bom senso de outra parcela dos movimentos sociais. O que ocorreu ontem foi uma "bola fora", torço para que o movimento sindical atue de forma sensata, esclarecendo seu papel para a sociedade - muito maior que pautas meramente econômicas e atuação corporativa.