Foto: TSE F1b169a5 0279 4002 9ad5 ce656a6a5216 Urna Eletrônica

As eleições de 2018 serão decisivas para o futuro do Brasil? Espero que não, pelo menos não num sentido salvacionista. Um país não conquista o caminho da prosperidade porque elege determinado líder. Gostamos de identificar trajetórias de prosperidade com os guias coincidentes da fase aguda do crescimento econômico de cada país, mas o sucesso de um povo depende muito mais de evolução de mentalidades, pequenas mudanças, legais e circunstanciais, além de fatores externos. 

As eleições presidenciais e legislativas de 2018 podem, porém, se mostrar decisivas para nos levar a um caminho desastroso, caso optemos pelas propostas da extrema esquerda ou, em menor escala, por Bolsonaro, na hipótese de ele, vitorioso, implantar não um programa autoritário (ele não conseguirá dobrar as instituições a qualquer projeto nessa direção), mas um programa nacionalista e estatista, na linha do “nióbio é nossa salvação”. 

A extrema esquerda, embora domine a maior parte dos sindicatos, a quase unanimidade da academia, o professorado do ensino básico público e alguns “movimentos sociais”, não teria força para vencer uma eleição majoritária em 2018, seja por resistência de seus opostos, seja por falta de adeptos no meio popular, seja pelo refluxo da onda populista-extremo esquerdista na América Latina, restrita na prática a três tiranias economicamente fracassadas: Cuba, Nicarágua e Venezuela. 

O lulismo é maior e mais poderoso do que a extrema esquerda. O apoiador de Lula é majoritariamente conservador e, reconheçamos, racional se levarmos em conta a avaliação que ele faz de Lula como governante no período 2003-2009. Ele está nos grotões, em especial no Norte e Nordeste, e credita o crescimento relativo dessas regiões nos últimos 15 anos ao “pai dos pobres”, que, a propósito, realizou um governo na maior parte do tempo conservador em matéria econômica, notadamente na responsabilidade fiscal. O Bolsa-Família ou o ProUni foram programas não populistas, mas de inspiração liberal. O primeiro contempla a renda mínima, alternativa liberal sensata à necessidade de manter uma pesada estrutura de previdência pública que atenda quem não pode contribuir. O segundo é a ideia de voucher, tão cara aos liberais mais sensatos.

Não haveria grandes problemas na volta de Lula ao poder se fosse para repetir as políticas do governo 2003-2006, em que até uma pequena reforma constitucional na Previdência foi aprovada. O problema é que o primeiro governo Lula herdara contas públicas em ordem, quadro oposto ao que receberá o presidente eleito em janeiro de 2019. Sua sucessora, Dilma, por ação e omissão, detonou a sustentabilidade do Estado, comprometendo as finanças públicas em grau inédito, muito próximo ao desastre.

Lula presidente em 2019 não terá espaço fiscal para espalhar bondades e terá que, necessariamente, cometer maldades de alto impacto, como uma reforma previdenciária bem mais aguda do que aquela ora proposta pelo ministro Meirelles. A menos que opte por governar com a agenda da extrema esquerda, movida por ressentimento contra as forças produtivas, propositadamente destrutiva das bases econômicas. É o mesmíssimo receituário que levou à ruína e à fome na Venezuela, inclusive com a proposta de uma constituinte eleita em bases “populares” para driblar as resistências institucionais ao avanço estatal contra a propriedade privada e contra as liberdades individuais. Censurar e estatizar a imprensa está no pacote. Assim como barrar uma nova alternância no poder. É muito provável que Lula opte em 2019 por esta agenda, oposta à agenda de 2003, até porque ele tem o apoio incisivo da extrema esquerda.

A extrema esquerda é relativamente pequena. O lulismo é gigante. Tão gigante que não precisa nem de Lula habilitado a concorrer, bastará a bênção dele a um candidato que represente o lulismo. A extrema esquerda sabe, portanto, que é pelo lulismo sua chance de chegar ao poder, agora para valer, sem acordo com as forças produtivas ou moderadas. Uma chance que não se repetiria tão cedo, pois qualquer outro eleito que faça as reformas necessárias dará impulso à economia e terá a exibir em 2022 um quadro que não estimulará o saudosismo em relação a Lula ou o ressentimento em prol do destrutivismo. 

Quanto a Bolsonaro, sua agenda econômica até aqui revelada revela muito pouco, o que me parece tático do ponto de vista dele. Se, porém, optar por reavivar o fetiche das riquezas naturais, com doses adicionais de protecionismo, estatismo e concessões ao corporativismo, não avançaremos ao ponto a que precisamos avançar: a racionalidade econômica, matriz da prosperidade, por sua vez vacina contra o destrutivismo típico da extrema esquerda. Assim, a opção Bolsonaro como contraponto aos perigos do esquerdismo não é a melhor. Mesmo uma vitória de centro-esquerda, com agenda reformista e responsabilidade fiscal, se mostraria mais alvissareira. Mas pode ser que Bolsonaro eleito se cerque de bons auxiliares e faça, senão as coisas certas, o mínimo que precisa ser feito para dar sustentação à retomada do desenvolvimento econômico.

Torço para que o projeto da extrema esquerda, embalado pela força do lulismo, não vença em 2018.  Se vencer, é bem possível que, a exemplo da Venezuela e outros, não voltemos a ter eleições livres, e nossas bases econômicas, que são sólidas, sejam destruídas. Torço também para que a alternativa primeira não seja Bolsonaro, um fator no mínimo de incerteza quanto ao futuro. Não vejo, porém, hoje o centro-direita organizado em torno de um nome capaz de vencer a eleição. Torço, por fim, para que esse nome surja e convirja para si o apoio dos sensatos, dos que desejam conservar o muito já conquistado por este país continental e avançar na direção dos melhores exemplos de sucesso econômico e institucional. Não tenho nenhuma dúvida de que o Brasil pode chegar lá. Só precisamos, em meio ao nebuloso cenário de 2018, evitar os riscos que se colocam em função das eleições presidenciais e também das legislativas, pois mais do que nunca precisaremos de um Congresso Nacional sensato.