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O jornalista Carlos Marchi escreveu Senhor República: a vida aventurosa de Teotônio Vilela, um político honesto, pela editora Record. A biografia faz parte das comemorações do centenário do Menestrel das Alagoas. 

        O olhar arguto de repórter, veterano em coberturas jornalísticas no Congresso Nacional, e que aprendeu também nas redações e na convivência diária com raposas políticas – existia esse espécime, sagaz e manhoso na política nacional – como Teotônio Vilela, Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Pedro Simon, Paulo Brossard, que faziam parte da fauna oposicionista, para ficar apenas nesses nomes, que de fato eram legendas.

        O Teotônio Vilela que emerge da biografia de Carlos Marchi é, em parte, conhecido dos alagoanos. Mas como em todo trabalho biográfico, outras facetas do personagem aparecem sem prejuízo das anteriores já consagradas ou mitificadas.

        A fase da vida do Teotônio, boiadeiro no agreste e sertão nordestino, é romantizada pelo excêntrico, talvez, mas o Teotônio boêmio é, sem dúvida, para os alagoanos, o mais conhecido e popular, pelo menos para os que são de minha geração e das anteriores.

        O talento do biógrafo é posto à prova ao traçar o perfil do biografado sem que fases “cinzentas” da vida pessoal ou política sejam escondidas ou supervalorizadas. Nesse aspecto, Carlos Marchi trabalhou como um habilidoso artesão ao apresentar o design. O objeto lapidado é um Teotônio Vilela da casa-grande, usineiro, um fino intelectual autodidata e que mantém com o povo relações de proximidade, sem perder sua identidade de classe.  

O fato de ser um liberal em Alagoas era o suficiente, levando-se em consideração a sua origem de classe e os seus correligionários na UDN, salvo algumas poucas exceções; Rui Palmeira é uma delas, pois a maioria era conservadora e/ou reacionária, o que colocava Teotônio num patamar diferenciado dos demais políticos de sua geração.

A sua formação intelectual dá-se com a leitura dos clássicos e principalmente do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, que o impressiona desde a juventude; mas não só, leu os mestres da literatura universal e brasileira e era um leitor voraz da cultura popular e do folclore.

Em Viçosa os principais intelectuais e pesquisadores da cultura popular de Alagoas e do Nordeste pertencem à sua geração; são profissionais liberais e filhos de senhores de engenhos, alguns deles seus parentes: o irmão José Aloisio Vilela, o primo Theo Brandão e amigos como o médico José Maria de Melo, além de poetas populares como Manoel Neném e o músico e compositor Zé do Cavaquinho, um boêmio que se tornou lenda em Viçosa e na região.

Teotônio Vilela foi eleito deputado estadual pela UDN em 1954; vice-governador em 1961, quando o vice era eleito pelo voto popular; e senador da República em 1966, sendo reeleito em 1974.

 

Ao tatear cuidadosamente o terreno no pós-AI-5, não deixou de expressar o que pensava, mas manteve a cautela diante da tempestade que se abateu sobre o Brasil. Na primeira oportunidade, surgiu com um projeto em meio à crise do petróleo: o projeto de desenvolvimento do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), uma alternativa energética genuinamente nacional, limpa e desenvolvida em grande medida em Alagoas.

Em seguida, passa a discordar da política econômica conduzida por Delfim Netto e Mário Henrique Simonsen sendo isolado e perseguido. Teotônio Vilela transforma-se no crítico mordaz do regime militar, operando cada vez mais por fora da bancada da ARENA. Era como se estivesse jogando pôquer; naquela conjuntura ariscou tudo, inclusive o patrimônio pessoal e familiar.

O isolamento político no interior do regime ampliou-se; sobre pedras caminhou, e clareiras abriram-se no bloco da oposição e na sociedade civil. Esta passou a confiar no senador dissidente e o convocou para os auditórios, em geral compostos por estudantes para ouvir e protestar juntos. Essa troca de energia o animava e motivava a dialogar com os estudantes nas universidades brasileiras.  

Os estudantes a cada palestra lhe indicavam o caminho a percorrer Brasil afora; restava-lhe apenas caminhar, como se estivesse tangendo uma boiada, como fizera na juventude. Os caminhos e as veredas eram abertos; os estudantes e as lideranças da esquerda democrática indicavam-lhe o caminho. Como disse o poeta espanhol Antônio Machado: “caminhante, não há caminho, faz-se caminho ao andar”.

Teotônio Vilela nunca navegou sem instrumentos; tinha uma bússola e suprimentos mínimos: os seus projetos. Tudo poderia ser dito a seu respeito menos que não tivesse ideias a defender. O Projeto Alagoas é o primeiro, quando ainda era deputado estadual; o Proálcool, o projeto de anistia para os presos e perseguidos políticos, o Projeto Brasil e o projeto Emergência. A cada momento de sua vida parlamentar formulou propostas para Viçosa, sua terra natal, para Alagoas e para o Brasil.

Teotônio Vilela costumava dizer que não era senador para tratar de chafariz, o que não quer dizer que o chafariz não fosse necessário para as populações sem água potável, mas seria um assunto da competência do vereador, pela proximidade com a população do bairro e da cidade. Um senador da República destina-se a tratar de temas referentes à República. Nesse sentido, o velho Menestrel nunca se deixou apequenar.

A coragem e o destemor com que correu atrás de reses no sertão e agreste nordestino, manteve na ação política e fez do parlamento a sua trincheira de luta, encurralando políticos tradicionais, seus companheiros muitos deles, que se agigantaram conspirando. Como costumava dizer: “não conspiro, não sussurro, só falo alto”.

 

Seguiu pregando a redemocratização do país, como dissera a Ulisses Guimarães no dia de sua filiação ao MDB: “eu sou um doido manso que perdeu o rumo do hospício. O que eu quero é que você [Ulisses] me deixe andar pelo Brasil”.

Teotônio, a partir de 1979, passou a ser uma espécie de mula-sem-cabeça, assombrando aliados e adversários com o projeto de anistia política. Em seguida foi escolhido pelo MDB presidente da comissão mista de anistia. Ocupou os espaços e alinhou-se com as esquerdas e os democratas nessa enorme tarefa.

O Partidão (PCB), com os deputados federais Marcelo Cerqueira, Modesto da Silveira, Alberto Goldman e Roberto Freire, teve atuação destacada na costura com a esquerda e o centro no Congresso, influenciando na formulação política adotada pelo MDB.

O PCdoB, com postura política radical, defendia caminhos insurrecionais para o país, reflexos nítidos da Guerrilha do Araguaia organizada pelo partido e dizimada nas matas do sul do Pará pela ditadura militar. O deputado Airton Soares (MDB-SP), advogado de presos políticos, também caminhou com Teotônio na defesa da anistia e na peregrinação pelos presídios e muitos outros.

Esse caldeirão ideológico e político influenciou o político experiente, culto e pragmático. O pragmatismo puro e simples não era o fator determinante na ação política de Teotônio Vilela.

A paixão revelada pelo biógrafo pela deputada estadual cearense Maria Luiza Fontenele (MDB-CE) é um dos indicativos da mudança política do senador, sua guinada à esquerda surpreendeu até os aliados centristas e os comunistas do PCB, seus aliados na frente contra a ditadura militar.  

A disputa pelo poder político interno não tem necessariamente um roteiro previamente definido ou mesmo uma lógica que seja perceptível por todos. A perspectiva de eleição direta para presidente da República era quase uma miragem, mas para Teotônio era uma possibilidade a ser construída nas ruas, mobilizando o povo e criando as condições para isolar a ditadura militar e superá-la. Para tanto, não se poderia prever o tempo que demandaria a queda dos militares.

Teotônio Vilela foi definindo o campo para estabelecer alianças à esquerda; neste, o mais próximo era o PCdoB. O Partidão (PCB) trabalhava numa outra perspectiva: a construção e a ampliação da Frente de Oposição aos militares.

Os oposicionistas históricos Tancredo Neves e Ulisses Guimaraes eram candidatos naturais quando um dia as eleições diretas fossem realidade. Num tempo remoto. O que mais Teotônio sabia fazer era caminhar e discursar para as plateias ávidas por liberdade: os estudantes e setores do movimento sindical em processo de reorganização.  

As três possibilidades elencadas pelo biógrafo são possíveis, e creio nelas como fatores de mudança na postura política do experiente senador: 1) ocupar o espaço no campo de esquerda como candidato a presidente da República, 2) o affair com Maria Luiza e 3) o impacto emocional causado pelo diagnóstico de que estava com um câncer.

Todas essas hipóteses são possíveis; o que pode suscitar alguma controvérsia é a opção mais radical adotada por Teotônio, já que também mantinha estreita relações políticas com os parlamentares do PCB e com outros setores de esquerda e com os independentes do MDB.

A paixão é um terreno onde as explicações nunca são satisfatórias; cada um tem a sua. Quando ocorre combinando ou coincidindo com a busca pelo Poder ou quando há expectativa de poder, torna-se um caso típico. Muitas vezes os cientistas políticos, historiadores e filósofos procuram explicações e não as encontram, porquanto se mantêm presos ao racionalismo da política ou ao seu pragmatismo.  

As paixões arrebatadoras, e me parece ter sido o caso, mudaram o curso da vida do Menestrel e influenciara nas posições do MDB, partido de oposição mas que não afrontava a ditadura-militar, pelo menos o núcleo dirigente, não fazia uma oposição sistemática como passou a fazer Teotônio Vilela. É possível que alguns analisem esses fatos com um olhar estrito na disputa de posição política pura e simples. Ou diga que esse é um fato de menor importância, de baixo impacto na ação política do experiente politico e empresário, com uma trajetória de vida vivida e aventurosa, como assinala o subtítulo da obra.

Eu prefiro acreditar nas mudanças causadas pelo amor tardio, conjuminado com outros fatores que não são menores, pois se trata de um sonho acalentado: o de ser candidato a presidente da República na primeira eleição direta após a ditadura militar e a perspectiva de morrer abatido pelo câncer, ainda uma moléstia pavorosa.

Esses acontecimentos não ocorreram num único momento, mas certamente iniciou no instante em que o senador trocou olhares com Maria Luiza Fontenelle, convidando-a para sentar ao seu lado num jantar em Brasília, ainda no processo de organização da campanha nacional pela anistia, como revela o biógrafo.    

Teotônio Vilela viveu com intensidade a boemia e fez da política uma atividade nobre, pois política e paixão têm tudo a ver.  

Carlos Marchi em Senhor República fez emergir um Teotônio Vilela humano, com erros e acertos, sem mistificações, com as suas paixões e aventuras – o que todo mortal tem ou desejaria ter.