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Devido a educação repressora, machista e injusta que algumas mulheres sofriam estas se tornavam ingênuas a ponto de temerem bastante um homem por medo de engravidar. Na realidade, estas mulheres desconheciam em parte o processo que se fazia necessário para engravidar e por isso qualquer contato com um homem era motivo de temor. O termo "emprenhar pelos ouvidos" surgiu deste contexto de ignorância e ingenuidade em que mulheres acreditavam terem engravidado em decorrência de uma conversa com um homem. Emprenhar é um vocábulo utilizado para fazer referência a fecundar uma pessoa para fazê-la gestar.

Gradativamente no Nordeste brasileiro o termo passou a ser utilizado sempre que alguém acreditava em um fato simplesmente por ter conversado com alguém sem que lhe fosse apresentado nenhuma evidência a mais. Ou seja, assim como as mulheres acreditavam estar grávidas por terem conversado com alguém, algumas pessoas gestam "verdades" simplesmente por terem ouvido uma outra pessoa falar algo. Embora verdades não sejam produzidas por comentários ou testemunhos, para algumas pessoas ingênuas não se faz necessário evidências.

Comentários e testemunhos descrevem, em alguns casos, acontecimentos. Mas esta descrição não corresponde à realidade dos acontecimentos sempre. Pois, cada pessoa que testemunha um acontecimento percebe este ocorrido de uma forma idiossincrática. 

O sistema jurídico moderno aprendeu muito depois dos tribunais da inquisição em que muitas mulheres foram condenadas simplesmente por testemunhos que as acusavam de serem bruxas. 

A Academia de ciências britânicas tem fixado em suas paredes a frase: "não só palavras".

Este perigo que as palavras por si só representam fez com que as testemunhas não se tornassem confiáveis, pois devido a fatores emocionais, as mesmas dão conotações distintas da realidade. E existem aquelas que fazem narrativas de fatos que não aconteceram (mentiras ou falsas memórias - ver Elizabeth Loftus).

Mas, existe algo mais grave que precisa ser posto. Todos já sabemos o perigo de se "emprenhar pelos ouvidos". Porém,  o que deixamos de lado é a dificuldade que temos de abortar está gestação. 

O problema das pessoas que se emprenham pelos ouvidos é que uma vez que elas passam a gestar como verdades fatos que não ocorreram ou que são distorcidos, elas sentem dificuldade de abortar aquela pseudoverdade. Afinal de contas aquilo cresceu dentro delas. Aquela informação mesmo sendo falsa fez sentido, se conectou a circuitos neuronais já existentes criando uma nova forma de perceber as coisas. Em outras palavras, as coisas que acreditamos serem verdades porque alguém nos contou, temos dificuldade de admitir depois que elas podem ter sido falseadas. 

Quanto maior for o apego ou o investimento com essa pseudoverdade mais faremos o possível para querer tornar o emprenhamento pelos ouvidos uma fecundação verdadeira.

Vejamos o seguinte exemplo, ocorrido numa escola de filosofia européia, para atestar o exposto: um grupo movido por comentários e a orquestração de uma coordenadora de curso maliciosa, contrataram advogado, abriram processos e caluniaram publicamente um colega de trabalho. Invadiram a vida pessoal dele querendo sondar sua intimidade, interrogavam as pessoas que supunham que ele havia tido contato sexual, estimulavam fofocas de terceiros e acreditavam em tudo que confirmasse a teoria de que aquele sujeito não prestava. Para este grupo admitir que estava errado sairia muito caro. O processo, o custo com o advogado, tudo isso teria um preço de vergonha pública e financeiro muito terrível. Sem falar que eles não foram fecundados gratuitamente. Aquele colega de trabalho era o único que ideologicamente era avesso ao grupo, por isso era interessante desde o primeiro momento acreditar que ele era também criminoso.

Estas pessoas abriram o ouvido para o mal porque lhes era conveniente. Em nenhum momento consultaram o colega para saber se fazia sentido ou não aquelas acusações. Em nenhum momento confrontaram com outros meios ou com outros grupos envolvidos as "verdades" e as informações que eles estavam colhendo. Muito pelo contrário, iam ao encontro de testemunhas que pudessem confirmar o que pensavam e tentavam atacar ou silenciar vozes contrárias. Quando depois de todo ataque começaram a perceber que ainda assim tudo poderia dar errado, tentaram partir para a vítimização. Tentavam insinuar que aquele que era vítima de ataque ferrenho pretendia mata-los, levantar calúnias, etc. Cegaram por completo. Estavam tão cegos no seu emprenhamento pelos ouvidos que se juntaram com pessoas que usavam e repassavam drogas, outros que eram arrogantes e feriam pessoas. A maior parte dos envolvidos neste processo todo não eram pessoas ruins. Eram como eu e você que está lendo este artigo agora. Elas simplesmente se deixaram emprenhar pelos ouvidos. Este emprenhamento era uma gestação tão gostosa e tão coletiva que não importava mais a verdade de nada. Não era mais interessante observar o tamanho do mal que faziam a vida daquele colega de trabalho. O importante era apenas fazer a gestação ser verdadeira. Eles haviam investido tanto naquilo que agora tudo precisava ser verdade para eles. Nem mesmo enxergavam que entre eles havia criminosos reais que invadiam redes de computadores, aliciavam pessoas para dependência química, etc.

O exemplo acima ilustra bem o poder que tem isto que o Nordeste chama de "emprenhar pelos ouvidos". Funciona como um feitiço dos contos de fadas. Uma vez que o feitiço cai sobre o sujeito ele não enxerga mais nada a não ser aquilo que quem enfeitiça pretende provocar.

O interessante que mesmo quem está fora e vai julgar situações como estas se deixa levar pela quantidade de pessoas envolvidas no feitiço. Ou seja, acaba em muitos casos também se emprenhando pelos ouvidos sem ter uma única prova real de verdade. No exemplo europeu apresentado acima um juiz que foi avaliar o caso trabalhava vendendo cursos e as pessoas envolvidas na abertura do processo haviam em outro momento beneficiado este juiz. Estas pessoas abriram o mercado de uma província que trabalhava com produção de fumo para que este juiz vendesse seus cursos. Então, esse juiz mesmo sem ter evidências materiais queria tornar verdade as situações que aquele pobre perseguido era acusado. 

No direito moderno existe a necessidade de materialidade (provas materiais concretas) e autoria (identificação clara de quem cometeu o delito) para que seja possível a abertura de um processo. Mas, este juiz tentava ignorar todos estes fundamentos para que a perseguição contra aquele se perpetuasse. O desfecho desta história não precisa ser posto aqui. Precisa ficar claro que o poder do emprenhamento pelos ouvidos gera feitiços que alteram a percepção das pessoas. Do mesmo modo, precisa ser destacado, que é uma realidade a dificuldade das pessoas que foram emprenhadas, abortarem suas pseudoverdades.

Sempre que ouvirem falar das pessoas ou agredirem pessoas, avaliem as motivações que os falantes possuem para fazerem isso. Os ganhos, as perdas, os ciúmes, as invejas envolvidas. Querer destruir o outro para crescer é uma constância na humanidade, mas precisamos ser capazes de avaliar bem por que nos envolvemos nestas coisas.

Em todas as guerras que existiram até hoje os dois lados na perspectiva deles estão sempre certos e sempre tentam emprenhar o máximo de pessoas para os seus lados. Isto não significa dizer que não exista um lado que possui razão de fato. Significa apenas que devemos olhar além das palavras que são ditas para gerar as guerras e buscarmos os ganhos que as pessoas que motivam o ataque querem obter. Devemos olhar além das propagandas. Devemos olhar não de forma inocente, pois pessoas inocentes e pessoas que querem ganhar destruindo outras são mais facilmente emprenhadas pelos ouvidos.

O conceito de emprenhar pelos ouvidos pode ser associado ao conceito de "viés de confirmação" (Sugiro pesquisas sobre "viés de confirmação" e "heurística da disponibilidade" para aqueles que desejam aprofundar o tema).

Assim eu analiso, assim eu conto para vocês.