Nações Unidas 0d2afc37 f57f 44c4 91d3 523f5fb57d8d Cais do Valongo, Rio de Janeiro, RJ.

Nosso “deitado eternamente em berço esplendido” oferece mais um motivo de orgulho para seu tão sofrido povo: ser novamente reconhecido como campeão mundial.

Tamanha empáfia só se via no futebol daquela “seleção canarinho”. Passado. Hoje, maiores ídolos são, igualmente, maiores sonegadores de impostos na venda de seus passes; cartolas não podem viajar em voos internacionais com medo de serem presos pela Interpol e estádios são superfaturados para pagar propina. E, é claro, nada disso chega nem perto do eterno 7 a 1 da Alemanha.     

O motivo do nosso retorno aos dias de glória está em 350 metros de pedras descobertas durante escavações na zona portuária do Rio de Janeiro. Foram encontradas as fundações do que, no século XIX, foi o “Cais do Valongo”. Declarado neste mês Patrimônio Histórico da Humanidade pela UNESCO, esse sítio arqueológico é o vestígio do desembarque de mais de um milhão de escravos africanos no País.

Comemoremos o que foi o maior porto de escravos do mundo. É campeão, Brasil. Levantemos nossa taça de um passado campeão em barbárie. Um campeonato de aflições, de genocídio, de um dos maiores crimes contra a humanidade.

Esse troféu faz todo o sentido para reconhecermos a construção de uma sociedade de oportunidades tão desiguais e que, consequentemente, se refletem em nossas relações de trabalho.

A história da regulamentação do trabalho em nosso País é prova inequívoca do valor que damos ao trabalhador e do que acreditamos ser o mínimo que as pessoas que só tem a força de trabalho para vender merecem receber. A escravidão acabou, oficialmente, em 1888, mas o Brasil só reconheceu “mesmo” o Direto do Trabalho em 1943 com a CLT. O trabalhador rural só passou a possuir direitos em 1963 e os domésticos só passaram ter isonomia em 2013.

Se não bastasse essa velocidade sonolenta rumo à dignidade, estamos em franco retrocesso jurídico. Direitos consagrados foram dizimados por uma reforma (sic) modernizadora (sic) que, dentre outras aberrações, batizará uma multidão de trabalhadores em “intermitentes”, zero hora, que ficarão à disposição do empregador sem receber nada por isso. Quer ganhar mais, intermitente? Que acumule com outro bico, digo, trabalho.

O Cais do Valongo é um espelho para entendermos a exploração sexual, inclusive a infantil, que, velada, também é campeã. Não muito longe daqui, talvez em um ponto das rodovias que nos levam para brincar as festas juninas no interior, trabalham pessoas traficando os corpos de crianças e adolescentes.

Em Alagoas, na terra de Zumbi, o futuro do trabalho é apenas a herança do retrocesso histórico. Continuamos mão de obra intensiva pouco qualificada e, na esmagadora maioria, vilipendiada em seus direitos fundamentais. As ruínas das usinas falidas que se desintegram abandonadas são nossos “Cais do Valongo” esperando serem redescobertas por escafandristas arqueólogos do futuro.

Não é só no futebol que a Alemanha nos dá um “chocolate”. Faz parte da formação educacional de todo e qualquer cidadão daquelas terras reconhecer os horrores cometidos pelos nazistas na Segunda Guerra. Por aqui somos uma nação sem memória que esqueceu aqueles mais de um milhão de escravos, como também em quem votou nas duas últimas eleições. Não conhecemos nossa história e por isso estamos fadados a cometer os mesmos erros.

Ser campeão do tráfico transatlântico de escravos também faz todo sentido para entendermos quem somos. Entender o porquê de desprezarmos o trabalhador, convivermos com a exploração sexual infantil, venerarmos ídolos que não pagam impostos, torcermos por times dirigidos por fugitivos internacionais e frequentarmos estádios construídos com dinheiro de propina.

Isso tudo como se fosse normal, como se fosse um dia de domingo em que caminhamos nas pedras do cais de nossa história.