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O Estado regula as relações sociais. O Estado socialista destrói o homem, o indivíduo. Por isso, no Estado não socialista, o homem é um elemento de reação sempre presente e possível, tanto que mesmo nos regimes autoritários há uma negociação permanente entre o homem e o Estado, que condiciona as ações do Estado e pode, no limite, determinar a perda do cargo de quem ocupa a chefia do Estado. Nem mesmo as monarquias são imunes a tal ação. A monarquia pressupõe um pacto, ainda que apenas de proteção, entre o indivíduo e o Estado. Eventual esgaçamento desse pacto pode levar à ruptura, estão aí tantas deposições de monarcas a marcar o testemunho histórico.

Aproveitando elementos da filosofia de Kant e de Rousseau (Kant foi leitor entusiasmado de Rousseau), como o imperativo categórico (fazer o bem a mais pessoas) e a absoluta transparência (abolição do segredo), os teóricos do socialismo preconizaram a morte do privado em nome do coletivo. Enquanto o cristianismo enfatizava o segredo privado (confissão privada, oração privada), o socialismo qualificou todo privado, todo desejo, pensamento ou segredo individual, como faccioso e, no catecismo marxista, também um desvio burguês deplorável. 


Em nome de uma igualdade utópica e, se pensarmos um pouco, indesejável, pois se todos fôssemos rigorosamente iguais, não haveria sentido viver mais do que um único homem, os demais seriam cópias idênticas, o socialismo retira o direito à diferença, à divergência, a qualquer privado, salvo o privado sexual, circunscrito como máquina reprodutiva (os governantes socialistas têm direito à lascívia, mas apenas eles). 

Em estados não socialistas autoritários, o socialismo se instala por um golpe de estado ou movimento militar a que se chama “revolução”, às vezes resultado de uma rápida ação, às vezes de uma longa guerra de guerrilhas, como se deu em Angola e, antes, na China. A primeira grande experiência de regime socialista se instalou por golpe de estado, o poder tomado em questão de dias: a Revolução Russa, que enfrentaria alguma dificuldade em seguida para tomar todo imenso império, mas logo instalaria o socialismo nu e cru do Báltico e do Negro ao Pacífico. Não suprimiu nenhuma democracia, mas antes o indivíduo respirava, aliás muito bem a julgar pela safra de escritores russos e seus escritos, nos domínios do czar. 

O socialismo também se instalou como despojo de guerra, caso do leste europeu, tomado pela União Soviética com a concordância de Reino Unido e Estados Unidos. Nas democracias, instala-se por eleições, socialismo eleito com promessas utópicas. Não há um único caso de uma democracia com eleições livres sendo tomada à força por socialistas. Como se deu com os radicais islâmicos na Argélia e no Egito, os socialistas usam a democracia para chegar ao poder e acabar com a democracia. No caso de Argélia e Egito, militares nacionalistas foram eficazes no contragolpe brutal. Em se tratando de socialismo, o melhor exemplo de contragolpe, desferido igualmente por militares nacionalistas, foi a retirada do poder do presidente socialista Salvador Allende, no Chile, em 1973, quando seu governo implantava o regime socialista (supressão da propriedade privada) em ritmo acelerado.

O caso mais recente de uso da democracia para suprimi-la, substituindo pela ditadura, é a Venezuela. A relativa lentidão dos governos chavistas (lá se vão 18 anos) em implantar o socialismo total é pouca se levarmos em conta o quão longo pode ser o inverno socialista. É só analisarmos como o socialismo acabou onde acabou e o quanto ainda dura, sem perspectiva de acabar, em Cuba e Coreia do Norte.

Uma vez instalado o regime socialista, é praticamente impossível revogá-lo pela vontade de suas vítimas, privadas da condição de indivíduos, vigiadas por seus vizinhos e eventualmente por seus próprios familiares, destituídas de meios para promover suas ideias ou mesmo uma conspiração para tomar o poder. A doutrinação onipresente, que descreve os regimes não socialistas como o inferno na terra, bem como a interdição de todo e qualquer sistema de crenças concorrente, como a fé assumida enquanto religião, também exerce um controle brutal sobre as vontades. Privado o indivíduo de sua alma, dominado pela vigilância extrema seu corpo (que será exterminado ao menor sinal de discordância), pode-se submetê-lo a privações e injustiças as mais terríveis e o regime não correrá nenhum risco, poderá se eternizar se o desejar. Então como o socialismo foi destituído em tantos lugares? Por invasão externa? 

Há um único caso de invasão externa eficaz para pôr fim a um regime socialista: a ação dos Estados Unidos contra Granada, um Estado-ilha pequeno no Caribe (menos de 100 mil habitantes), em 1983, facilitada por uma briga anterior no interior do regime, quando um adversário local do mesmo regime tomou o poder num golpe e mandou executar o principal líder marxista, Maurice Bishop. Antes, o apoio militar direto também dos Estados Unidos evitou a tomada pela força da metade sul da Coreia pelos socialistas. Graças a esse apoio, temos o que talvez seja o melhor exemplo em todos os tempos de rápida prosperidade e construção de uma sociedade em tudo admirável: a Coreia do Sul.

O primeiro socialismo a cair antes disso não caiu formalmente até hoje, apenas na prática o socialismo foi revogado pelos próprios líderes do partido comunista: a China. O orgulho nacional chinês não suportou os efeitos comparativos da implantação do socialismo total: as “chinas” que aderiram ao livre mercado, Taiwan, Hong Kong, Macau e Singapura, tornaram-se algumas das mais ricas sociedades do mundo, enquanto a China socialista mantinha um dos povos mais miseráveis, abaixo da linha de pobreza da maior parte dos estados africanos. Ao suprimir no indivíduo a individualidade, o socialismo também mata nele a criatividade e o egoísmo, egoísmo que busca a cooperação voluntária para enriquecer pessoalmente. Em o fazendo, gera riquezas que acabam compartilhadas por todos na forma de produtividade. Quanto mais livre for o indivíduo para verter seu egoísmo em inventividade e produtividade, mais rápida será a distribuição da riqueza nova daí advinda. 

Batizado de “economia de mercado socialista”, o sistema misto preconizado e implantado por Deng Xiaoping a partir de 1978 não foi de modo algum uma reivindicação de indivíduos chineses, ainda que a milenar experiência comercial do povo chinês o recebesse com entusiasmo. Foi uma decisão de cúpula, com poder total discricionário, poder que segue mantendo, pois nem a ditadura nem formalmente o ideal socialista foram revogados. Mas a mera existência de dissidências políticas e de debates na imprensa sobre questões de política econômica, algo impensável na União Soviética da mesma época, demonstra o quanto a devolução da instância econômica ao indivíduo representa a ressuscitação do privado pessoal, ao tempo em que mais de 70% da economia local já está em mãos privadas, responsáveis diretas pelo colossal crescimento econômico, prestes a completar quatro décadas. 

Um professor de marxismo-leninismo, aparentemente e talvez realmente convicto do ideário socialista, chega ao poder na União Soviética em 1985 e logo surpreende o mundo com a proposta de reformas. Seu nome: Mikhail Gorbachev. Naquele ano, se alguém no imenso império soviético pensasse ser possível um dia conhecer qualquer liberdade, como a de ir e vir, por exemplo, guardava para si a esperança ou buscava o quase impossível exílio. As reformas econômicas não iam tão longe quanto às chinesas. Ao lado delas, o professor todo-poderoso propôs a liberdade de expressão, no início não levada tão a sério, mas eleições na Lituânia foram encaradas por aquele povo como livres, superado o medo de retaliação. O parlamento local, antes mero simulacro de legislativo, aprovou privatizações e, mesmo não sendo legalmente previsto, declarou a Lituânia independente em 11 de março de 1990. 

O Estado socialista soviético reagiu militarmente contra a declaração, revelando que a abertura (Glasnost) não era para ser encarada ao pé da letra (Mao Tsé-Tung propora algo semelhante na China somente para os divergentes colocarem a cabeça para fora – logo que o fizeram, as cabeças foram cortadas). No entanto, Gorbachev tornara-se em alguma medida refém de suas promessas e falhou na repressão. 

A ousadia dos lituanos inspirou-se num precedente. O governo da Hungria, feita socialista à força no final da Segunda Guerra Mundial pela União Soviética, decidira em meados de 1989, após reformas pró-livre mercado, abrir a fronteira com a Áustria para seus cidadãos passarem. O fez sem alarde, com medo de uma reação soviética, pois os soviéticos seguiam mandando ali, como em outros quatro países formalmente independentes do leste europeu. Os alemães orientais foram os primeiros a aproveitar a inesperada brecha. Em 9 de novembro de 1989, seria o governo alemão-oriental a fazer o mesmo de forma hesitante em relação à abertura da passagem para Berlim Ocidental, parte do mundo livre. Hesitante o governo, decidido o povo, que em questão de horas poria abaixo o tristemente famoso “Muro de Berlim”, conjunto de cercas e outros obstáculos que mantinha os indivíduos sob comando socialista encerrados em uma grande penitenciária. Mas isso não teria acontecido se os guardas não abrissem as cancelas por ordem do governo socialista. 

O fato é que a União Soviética implodiu não porque as massas o impuseram, mas porque um professor de marxismo-leninismo passou a dar aulas confusas e um comandado seu aqui, outro ali, resolveram interpretar como uma ordem abrir caminho para a deposição de si mesmos. “Inépcia”, disseram os pensadores socialistas decepcionados com a perda tão repentina do centro do mundo de sua ideologia. “Sorte”, pensaram os não socialistas. Sorte em que os lituanos apostaram e, um ano e meio depois da declaração de independência, viram consolidada. Sorte que logo daria na dissolução da União Soviética, que influenciaria a revogação do socialismo pelos próprios governantes socialistas em lugares como Angola, Laos e Moçambique ou a implosão do comando do sistema, como na então Iugoslávia, hoje um total de sete países independentes, todos não querendo mais ouvir falar em socialismo. 


Dizer que o caso da Romênia, em que o odioso e odiadíssimo Nicolae Ceausescu, tirano da estirpe dos inacreditáveis em grau de maldade, foi deposto e logo fuzilado seria um caso de revolta popular bem-sucedida é uma parte louvável da verdade, se tomarmos em conta que a resistência decisiva partiu da fé cristã do povo de Timisoara, cidade do oeste do país. Mas o fato é que estamos em dezembro de 1989, e as cúpulas militares e políticas da Romênia agem contra Ceausescu sob o aplauso tanto do próprio povo quanto do governo soviético, que nunca morrera de amores pelo paranoico stalinista romeno. Timisoara teria sido um massacre a mais no registro do idealismo inútil do leste europeu, que antes tivera Budapeste, Praga e Gdansk, não fosse a conjuntura. Mesma conjuntura que permitiria depor Mengistu, o homem que mais escravizou e matou africanos em todos os tempos, que transformou o único país independente da África desde sempre, a Etiópia, numa exibição macabra de milhões de mortos de fome. Teve melhor sorte que Ceausescu, pois fugiu para o abrigo seguro do célebre colega de tirania Robert Mugabe, ambos vivos e impunes até o dia em que escrevo este artigo.

As mesmas circunstâncias não tiveram o mesmo poder para selar o mesmo destino ao professor de atrocidades de Mengistu, o cubano Fidel Castro, e ao verdadeiro inspirador de Ceuasescu, que mandara traduzir para o romeno sua filosofia (Juche) e sua biografia, Kim Il-Sung, o avô do besta-fera ditador atual da Coreia do Norte, Kim Jong-un.  

Fidel resistiu porque fora o mestre dos mestres em eliminar a dissidência interna. Transformara cada cubano num policial político, de tal modo que para evitar as terríveis consequências de ter o regime contra si, que incluem castigos aos familiares, ninguém se atreve a confiar nem no melhor amigo para iniciar uma conspiração. O dizimador dos eritreus, o carrasco dos angolanos, o fomentador da bandidagem vestida de guerrilha entre os colombianos, Fidel nunca foi acusado de nada disso senão por pouquíssimos conhecedores dos fatos. O mais exímio contador de mentiras do século XX passara ao mundo a imagem de valente e honrado cavalheiro que ousara enfrentar os Estados Unidos. Morreria no poder, após condenar duas gerações de cubanos a uma existência miserável. Seu irmão herdou a ilha em sucessão dinástica e não há sinais de transição de regime à vista. Em breve, não haverá cubanos que terão conhecido em vida a liberdade, exceto, é claro, os exilados. A brutal ditadura cubana sobreviveria de sua imagem, o novo farol do socialismo, com a vantagem de uma aura de ternura, emprestada também do jovem arauto da justiça, belo e cruel assassino Che Guevara, conhecido em todo mundo apenas pelas duas primeiras características. Sobreviveria também, como sobrevive, da exportação de mão de obra escrava de seus próprios cidadãos, como os médicos cubanos que trabalham para o governo brasileiro.

O caso da Coreia do Norte, outro de sucessão dinástica, dispensa maiores comentários. A China mantém a excrescência em pé, não porque goste do regime, mas como uma demonstração de força e para evitar a eventual circunstância de ter que fazer fronteira com uma potência econômica livre, rica e próspera, a eventual Coreia reunificada. Nenhum dos muitos países que fazem fronteira com a China hoje reúne as três condições juntas: renda alta, crescimento econômico e liberdades política e de imprensa plenas. 

Os socialistas que restaram no mundo, a maior parte deles na Europa e na América Latina, preferem esquecer a existência da Coreia do Norte. A de Cuba veem como resistência ao “imperialismo”, esse poder inexistente, invenção retórica de Marx, mas não defendem mais a exportação do modelo cubano, seria desmoralizador. Advogam novas vias para um socialismo de “face humana”, apresentando-se como uma “esquerda fofa”, na irônica definição de Jerônimo Teixeira. Uns vão mais longe e, como nossa Luciana Genro, dizem que o socialismo implantado (22 experiências independentes que foram até o fim, com abolição total da propriedade privada e de qualquer direito individual, incluindo o de ir e vir, contando apenas as principais) foi um modelo errado, e o verdadeiro socialismo ainda está por vir, acompanhado de “liberdade”.

O horror do nazismo (nacional-socialismo, a propósito) convenceu o mundo de que a proposta política nazista não pode mais ser levada a sério ou sequer admitida ao debate. O horror do socialismo, mais duradouro e mortífero, igualmente cruel ou até pior (Pol Pot e Meginstu para lembrar os óbvios), segue tendo quem o defenda e não são poucos. No Brasil, há seis partidos nominalmente “socialistas” ou “comunistas” (o “comunismo” seria etapa posterior do socialismo, uma sociedade sem Estado nem propriedade privada, obviamente uma quimera) e outro que abriga um eufemismo muito utilizado por partidos únicos socialistas em ditaduras implantadas, “dos Trabalhadores”, coincidentemente o partido que abriga o maior número de socialistas militantes no país. 

Na Venezuela, o socialismo está em implantação, pelas mãos de Nicolás Maduro, da estirpe de Fidel Castro (assumido como guia e ídolo), Meginstu, Ceausescu e Kim Il-Sung. Alguém dirá: “não é tão brilhante”. Nenhum desses jamais foi brilhante em nada, senão hábil em chegar ao poder com golpes e assassinatos e se mostrar o mais cruel possível em seguida. Se há algo comum aos ditadores é a mediocridade pessoal, caso praticamente sem exceção.

O presidente do parlamento venezuelano, Julio Borges, acha que ainda dá para reverter a implantação final do socialismo no país e a consequente aniquilação total da oposição. Particularmente, sou pessimista, creio que a Venezuela atingiu o caminho sem volta. Teremos que aguardar que Maduro ou sucessores um dia resolvam mudar o regime por vontade própria. A noite do socialismo é longa e tenebrosa, não deixa penetrar qualquer luz.  

Será uma tragédia para o Brasil ter que conviver com um vizinho socialista, tanto mais com o apelo socialista entre nós. Gerações de brasileiros foram doutrinadas e acreditam de fato que o socialismo é a verdadeira democracia, um paraíso onde o povo pode ser feliz, livre dos odiosos ricos (são odiados em todos os tempos e lugares - a propósito, a inveja e o ressentimento sempre foram e serão mais fortes do que o bom senso). Poderão optar por seguir o caminho da Venezuela. Enquanto os doutrinadores socialistas se contam aos milhões no Brasil, amplamente majoritários nas universidades e na imprensa, os capazes de demonstrar os males do socialismo são poucos e contam com canais de expressão limitados. 

Ainda é possível evitar que a longa noite se instale entre nós. O primeiro passo é compreender que podemos discordar sobre todo resto, mas devemos nos concentrar no principal: evitar o mal maior. Aliás, a política só deve servir para evitar o mal. O bem os indivíduos fazem por si mesmos, em colaboração voluntária. Toda ideia política de fazer o bem não o pode fazer, é enganosa, e se levada a sério sempre fará algum mal. 

Eu evito atacar todo aquele que não professa o credo socialista, entendendo por socialismo a total abolição da propriedade privada e dos direitos de escolha individuais no que não se constitui evidente agressão a terceiros. Também evito bancar o detetive e ficar descobrindo “socialistas fabianos” em todos que não são ultrarradicais “de direita”. Para mim, alguém de esquerda que abomine o socialismo pode ser um aliado valioso, e é possível ser formalmente de esquerda ou se achar de esquerda e lutar contra a implantação de ditaduras socialistas, a história testemunha a importância de esquerdistas formais com apreço à democracia, à liberdade, à individualidade. Digo “formais”, pois etimologicamente “esquerda” é uma posição alinhada ao imperativo categórico de Kant à supressão de qualquer esfera privada, como o segredo. 

Todo esforço é valioso, e todo aliado em potencial é imprescindível, para evitar que a mais terrível forma de governar os homens já criada e implantada faça-nos mergulhar nesse inferno apresentado como céu. Ao céu os governados pelo socialismo só chegaram mortos. O inferno, todos eles, sem exceção, experimentaram. Não permitamos que se instale entre nós o regime que mata o homem, pois a nós também matará, a menos que nos exilemos ou sejamos parte com poder de mando do regime.