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Acompanhei com atenção a batalha por Mosul*, uma das duas capitais do grupo que, sim, transformara-se em um Estado Islâmico de fato. A outra é Raqqa, na Síria, igualmente em vias de cair, assediada pela coalização de forças contrárias.

Ao historiador, cabe ouvir as vozes do passado, não prever o futuro. A tentação inevitável de relacionar o antes e o depois, porém, habita o leitor. Espero não o desapontar, mas antes cabe um pouco de história.

Curiosidade, admiração e um pouco de rivalidade eram sentimentos comuns entre os povos situados da Pérsia ao Nilo, passando pelo Tigre e pelo Eufrates, a chamada Mesopotâmia, berço de civilizações que fundaram a moderna humanidade, em relação aos helênicos, aos que, a partir das conquistas militares e culturais de Alexandre, fundam algo além da civilização: o cosmopolitismo. 

A partir do século IV, o cristianismo, soma de religião, no sentido de fé, e ideário civilizacional, passa a representar no pequeno mundo conhecido pelos letrados a marca helênica. Irá conquistar corações no então velho mundo (Pérsia, Mesopotâmia, Egito), mas será contraposto por uma criação dos árabes, no século VII, chamada islamismo. Os árabes eram cosmopolitas a sua maneira de viajantes e comerciantes, disso dependiam para suplementar o pouco que suas áridas terras lhes davam. 

Os islâmicos, donos de um novo sistema de crenças, com elementos helênicos (entre os quais o judaísmo, em grande parte influenciado pelo helenismo), experimentariam sucesso inicial ainda maior do que o de Alexandre, convertendo nações inteiras de Java à Mauritânia. Contra os cristãos, então estabelecidos da Etiópia às Ilhas Britânicas, da Armênia à Galícia ibérica, usariam mais a espada do que argumentos, mas seriam milagrosamente contidos por Carlos Martel no que é hoje a França.

Nos séculos seguintes, cristãos e islâmicos disputariam a supremacia no entorno do Mediterrâneo, depois no resto do mundo, com conquistas e perdas de lado a lado. Pela espada, em 1878, com a independência da Sérvia, se chegaria mais ou menos à configuração atual. Muito antes, porém, os cristãos terão vencido a batalha civilizacional, pelo domínio da técnica, resultado de uma superioridade ideológica. 

De lá para cá, quase todos os conflitos foram no interior de cada um dos blocos civilizacionais. Rivalidades nacionais e ideologias totalitárias, como o nazismo e o marxismo, fariam os cristãos experimentarem as mais destrutivas guerras de todos os tempos. Enquanto isso, turcos e árabes (principalmente) disputariam territórios e a supremacia no mundo islâmico, armados, orientados e em grande parte dominados pelos rivais de sempre: as potências cristãs ou nascidas de culturas cristãs (União Soviética, por exemplo). 

Com a reunificação ideológica do campo cristão em torno do cosmopolitismo, em 1991, estabelecendo uma pax ocidental inédita e verdadeiramente global (se lugares como a China não aderiram à fé cristã, é certo que aderiram à civilização helênica-cristã), restava de outro lado a fragmentação do mundo islâmico. Suas sociedades apresentavam-se tão mais fracassadas quanto mais fervorosamente islâmicas o fossem. O reino de Alá representado pelo profeta Maomé verteu-se de força civilizatória em fóssil de um projeto patentemente inferior, misto de folclore, fé cega e costumes absurdos à luz da cultura global predominante, como a tirania sobre as mulheres. 

Entre a modernização do Islã e o ressentimento, venceu internamente o ideal de modernização, a adesão ao que a ciência do Ocidente e seu sistema organizacional tinham de melhor a fornecer, ainda que mantida a fé formal e os ritos folclóricos correspondentes em Alá de Maomé. Mauritânia, Marrocos, Argélia, Tunísia, Egito, Emirados Árabes, Jordânia, Paquistão, Azerbaijão, Bangladesh, Malásia, Indonésia, entre outros, cada um a sua maneira procurou o norte secular tão característico do atual estágio do pensamento helênico-cristão. Árabia Saudita mantém o espírito teocrático mais radical, porém joga o jogo das nações modernas, o rei buscando ser reconhecido como um bom menino pela diplomacia do Ocidente. Irã e Catar fazem parte do jogo da modernização, mas apostam ao mesmo tempo no ressentimento, seja por reacender o velho cisma xiismo x sunismo (em Bahrein, Iêmen e Iraque sobretudo), seja por incentivar grupos de guerrilha ao Ocidente. Na Turquia, o quadro é mais complexo, como o é na Síria, mas não vou esmiuçar todos os casos aqui hoje. 

O terrorismo é a arma dos desesperados, sempre o foi. É natural o desespero de quem vê no choque entre civilizações uma causa necessária e, ao mesmo tempo, perdida ante a superioridade inimiga. Isso tem vitaminado grupos como Jabhat Fateh al-Sham e Al-Qaeda, seja para tomar o controle de estados laicos, como o primeiro, seja para promover ataques diretos no Ocidente, caso do segundo. Grupos que se viram ofuscados com o surgimento e rápida ascensão do Estado Islâmico do Iraque e da Síria, que atua em ambas as estratégias. 

A ideia de tomar estados inteiros para usá-los como praça fortificada na guerra contra o resto do mundo, denominado “infiel”, não é nova, vem dos primeiros califas (soberanos temporais e espirituais) e tem na Revolução Islâmica do Irã, vitoriosa em 1979, um precedente moderno. O grupo radical Hamas, governo em Gaza, é outro exemplo. O Estado Islâmico, constatando a fraqueza dos governos de Síria e Iraque, apenas tentou mais do mesmo. A tomada de cidades importantes, delas Mosul, com mais de um milhão de habitantes, a mais vistosa, vendeu a ideia de força dos radicais conhecidos pelas siglas Daesh, em árabe, e ISIS, em inglês. Muitos grupos, organizados, como o mortífero e brutal Boko Haram, da Nigéria, ou esparsos, passaram a seguir o modelo e até mesmo o comando do Estado Islâmico, responsável pela quase unificação das guerrilhas islâmicas das Filipinas, por exemplo.

Com o marxismo desmoralizado pelos genocídios praticados em seu nome e pela falência dos estados que adotaram o socialismo, os radicais islâmicos passaram a ocupar o papel de contracultura para muitos dos insatisfeitos com “a vida como ela é”, inimigos do Ocidente dentro do próprio Ocidente. Ninguém foi tão eficaz em se aproveitar do ódio dos indivíduos ocidentais aborrecidos da sensatez quanto o Estado Islâmico. Milhares de bem nutridos europeus, americanos e até brasileiros atenderam ao chamado pelo que julgaram uma “sociedade alternativa”, livre de qualquer dilema. Foram escravizados (especialmente as mulheres) ou mortos em combate uma vez chegados ao território do EI. Não será, porém, a queda de Mosul e a provável perda de todos os territórios em mãos do EI que irão arrefecer a simpatia desse tipo de gente (que sempre existiu em todas as culturas e tempos, diga-se) pelos inimigos mais bem-sucedidos do status quo global. Aparentemente bem-sucedidos, é verdade, mas a contracultura não vive de fatos, vive de sonhos, tão bem acalentados pela propaganda. 

Dito isso, não creio que o apelo pela volta à tirania, também presente em todos as culturas em todos os tempos, em sua versão islâmica venha assumir o poder global além de lugares como Raqqa ou Gaza. Mais perto de submeter o homem ao velho totalitarismo estão os crentes de outra religião, o marxismo. São mais bem organizados e mestres em propaganda de sonhos utópicos. Se estes veem os barbudinhos maometanos como aliados, é a velha máxima “o inimigo de meu inimigo é meu amigo” reproduzida ao absurdo, tanto que chegamos a testemunhar feministas de esquerda a defender gente que por ideologia e tara advoga que a culpa pelo estupro é sempre da mulher. 


Ninguém precisa acreditar em Deus cristão para defender o legado helênico-cristão, cosmopolitismo e liberdades de opinião e econômica. Mas é preciso acreditar em Alá e algo mais para apostar na islamização do mundo. Se é possível a repetição de um atentado tão danoso quanto o ataque ao World Trade Center de 2001 ou até pior, quase não há precedentes históricos de implantação de uma nova ordem global via terrorismo. O mais perto disso quem chegou foi Gengis Khan, líder de um exército interessado apenas em pilhagem, não de um projeto civilizatório. 

Quanto a Mosul, ela foi libertada pelo exército iraquiano, do Iraque que completará cem anos como estado moderno em 2019 apostando desde o início em governos seculares até onde isso é possível. O exército teve apoio de forças ocidentais e de aliados díspares entre si, como o Hezbollah, o Irã, os curdos e mesmos pequenos grupos armados cristãos iraquianos em busca de justíssima vingança. Mosul comprovou que a tomada de territórios valiosos por radicais islâmicos e suas expressões terroristas até é possível, mas é muito improvável que venham a repetir os feitos globais dos primeiros califas, pois o cosmopolitismo árabe estreitou-se, apequenou-se, enquanto os descendentes de Carlos Martel foram muito além de Alexandre, o Grande no cultivo do cosmopolitismo helênico, a maior conquista de todos os tempos e culturas, batizada por Karl Popper de Sociedade Aberta. Se, em 732, data da crucial batalha de Poitiers, Martel apresentava-se maltrapilho enquanto os maometanos exibiam maravilhas, hoje dá-se o contrário com grande folga. 


Se o Islã quer propor algo ao mundo que o faça por seus imãs mais sensatos e não ressentidos, enquanto os estados de maioria islâmica esmerem-se em livre mercado e educação científica avançados. Numa palavra: em modernização. Não há outro caminho para exibir ao mundo algo além de sociedades fracassadas. Por último, que os islâmicos não se deixem levar pela simpatia dos marxistas ocidentais. Os marxistas fomentam as diferenças até chegarem ao poder e estabelecer a única diferença existente em estados socialistas: a diferença entre quem manda e quem obedece.

*Prefiro a forma em inglês, também usada no Brasil, com um “s”.