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Nos últimos dias muitos amigos me enviaram uma reportagem publicada pela Vice que abordava um estudo da Universidade de Stanford que provaria que a ampliação do direito à liberação do porte de armas nos Estados Unidos estaria diretamente relacionada com o aumento de crimes violentos. 

Sempre que vejo uma matéria desse tipo já penso: “Bem, vamos ver onde está a mentira”. Desta vez não foi diferente. Entrei imediatamente em contato com o Professor John Lott, autor de diversos livros, entre eles Mais Armas, Menos Crimes e Preconceito Contra as Armas. O Professor apontou, de imediato, erros grotescos, distorções e falhas no modelo estatístico dos autores do tal estudo.

Primeiramente é necessário verificar que o surgimento da pesquisa não foi aleatório e ocorre exatamente quando a NRA – National Rifle Association – está processando o estado da Califórnia por desrespeitar a Segunda Emenda à Constituição Americana. Para quem não sabe, tal emenda garante ao cidadão americano a posse e o uso de armas de fogo. Obviamente a tese já foi convenientemente anexada ao processo em uma clara tentativa de influenciar a decisão da Suprema Corte.

Dentre os diversos problemas encontrados nas análises nada imparciais, temos a escolha, digamos, criteriosa de apenas alguns tipos de crimes, exatamente aqueles onde encontra-se um suposto crescimento após a aprovação de legislações mais permissivas ao porte de armas, e a exclusão, mui conveniente, de outros tipos como, por exemplo, o estupro, que aparece entre os crimes que mais reduziram, exatamente por conta da possibilidade de defesa das mulheres que hoje já somam 26% (2) de todos os portes de armas emitidos.

Tudo bem… Imaginemos que o estudo estivesse realmente certo e que as leis menos restritivas fossem responsáveis pelo aumento dos homicídios e de outros crimes cometidos com armas de fogo. A única possibilidade de tal fato acontecer é se os detentores do porte de armas estivessem cometendo esses crimes, correto? Porém, como aponta John Lott, isso simplesmente não está acontecendo. Vejamos abaixo alguns exemplos interessantes e que desmentem a causalidade entre liberação do porte e aumento desses crimes.

Minnessota nos anos 2015, 2014, 2013, 2012, 2011 e 2010 não teve um único porte de armas revogado porque o seu detentor foi condenado por assalto. Para melhor ilustrar, nenhum dos mais de 7.000 assaltos cometidos em 2015, nenhum, absolutamente nenhum, foi cometido por pessoas legalmente armadas. Parece-me bastante lógico imaginar que ninguém que pretenda cometer um crime requisitará um porte legal para isso, mas é sempre bom explicar...

E outros tipos de crimes? São cometidos por detentores de porte? Sim, porém são estatisticamente desprezíveis. Em 2015, no estado de Luisiana, foram registrados 25.208 crimes violentos, dentre esses apenas dezenove eram detentores de porte de armas e – atenção – nem todos os crimes envolveram armas, muitos acabaram em absolvição, como, por exemplo, cidadãos que agiram em legítima defesa. Mesmo que todos os dezenove crimes acabassem em condenação e estabelecimento da culpa, estamos falando de uma porcentagem de 0,08% dos crimes violentos. 

Os autores do estudo de Stanford afirmam que neste ano – 2015 – os crimes violentos cresceram 15,4% após aprovada a lei que liberou o porte. Como pode, então, 0,08% significar um crescimento de 15,45? Não pode! É impossível! Simplesmente não há como estabelecer um nexo causal entre uma coisa e outra!

Outro ponto importantíssimo é que mais de 70% dos condados que entraram no estudo tiveram nos últimos anos taxa zero de homicídios. Neste caso, o correto seria descartar esses condados do estudo comparativo, pois, por um lado, é impossível que se tenha uma taxa negativa de homicídios e, por outro lado, se houve um único homicídio, mesmo que sem qualquer relação à legislação permissiva, isso causaria profundo impacto na análise. 

Em resumo, nestes condados, é possível medir o crescimento, mas é impossível medir o decréscimo nos homicídios já que ele nunca ocorrerá e isso fere qualquer possível credibilidade das afirmações feitas pela “pesquisa”. Credibilidade que já não é das melhores, uma vez que erros no modelo estatístico e falsidades contidas em estudos passados dos mesmos autores jamais foram respondidas, mas simplesmente repetidas nesse “novo estudo”.

Como bem disse Lott em seu último artigo , a imprensa não pensa duas vezes em confrontar qualquer pesquisa que aponte os benefícios das armas na mão da população, mas faz exatamente o contrário quando o sentido é inverso. Há muito mais semelhanças entre a imprensa tupiniquim e a Yankee do que sonha nossa vã filosofia.