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A revista Isto É, umas das principais do Brasil, publicou em poucos dias dois textos a favor do desarmamento. Um deles é um artigo do colunista Antonio Carlos Prado intitulado “Armas demais”. Um artigo bobo e inofensivo(?) que reflete tão somente a posição do autor e ele tem todo o direito de partilhá-la com seus leitores embora os mais de 800 comentários deixados no Facebook(1) mostrem claramente a distância entre sua opinião e a opinião dos seus leitores. Um massacre!  O segundo veio em forma de reportagem pelas mãos do jornalista Raul Montenegro e merece nossa total atenção. Não que ele traga algo de novo ao debate ou possa de alguma forma embasar o desarmamentismo. Há nesta reportagem competência, mas na escolha deste adjetivo ou no seu reconhecimento não há nenhum elogio, muito pelo contrário. O que há ali é a competência de enganar e levar o leitor incauto à conclusão absolutamente falsa.

O título e a imagem escolhida só possuem um objetivo: atrair, chamar a atenção, incutir um certo medo aos que se deparam com a matéria. Esse é um velho truque que se utiliza de uma espécie de reflexo condicionado que todos nós possuímos: prestamos muita mais atenção em algo que supostamente nos ameaça do que naquilo que nos acalenta. É como se estivéssemos perante a mais bela paisagem do mundo e surgisse em meio à relva uma cobra. Não há pôr do sol, montanha ou rio que te faça tirar os olhos da peçonhenta. A regra é simples: se me ameaça, merece minha atenção.

 

A abertura da matéria fica por conta de um homicídio ocorrido no interior de São Paulo, onde um ex-marido matou sua ex-esposa a tiros por não aceitar o fim do relacionamento. Caso trágico e terrível, ninguém duvida disso. O que o repórter “esquece” de dizer é que a professora morta já havia feito 6 boletins(2) de ocorrência contra ele e a justiça já havia determinado “medidas protetivas” à vítima. A arma? Claramente adquirida na ilegalidade! Se o caso mostra algo é que as tais “medidas protetivas” não protegem ninguém, quem decide matar, mata (ou tenta) e que o Estatuto do Desarmamento é uma piada perigosa pois praticamente impediria que a vítima adquirisse legalmente uma arma para sua defesa, mas não passou nem perto de impedir o seu algoz.

 

Na sequência ele coloca a posição de uma conhecida ONG desarmamentista para colaborar com o seu ponto de vista. A ideia é dizer: “olhem! Não sou eu que estou dizendo! É um “especialista” isento”. Não vou nem me delongar nisso.

 

Entra em cena então a tal “flexibilização” do Estatuto do Desarmamento, verdadeiro alvo da matéria, e o jornalista tenta passar a ideia de que tudo foi feito por baixo dos panos, sem discussão, sem se ouvir a população. Nada mais mentiroso! Primeiramente nunca vi esse pessoal usando esses argumentos quando as portarias e decretos traziam mais restrições. Um peso, duas medidas! Ouvir a população? Oras! Tivemos um referendo sobre o assunto e a o resultado foi inequívoco e incontestável! Já falei sobre isso em um rápido vídeo(3). Caso encerrado.

 

Imparcialidade! Tenho que mostrar imparcialidade! Deve ter pensado e então finge publicar opiniões da chamada Bancada da Bala. A intenção é claramente de, sub-repticiamente, já desqualificar qualquer argumento por vir de deputados aliados à indústria de armas, ou seja, opiniões que poderiam estar contaminadas por interesses pessoais e financeiros. Passa então à uma espécie de debate fictício onde ele mesmo fala e ele mesmo contesta usando dados e argumentos para lá de batidos.

 

Entre outros pontos abordados destaco dois: “Um estudo similar feito no Rio de Janeiro mostrou que policiais de folga têm probabilidade de ser assassinados 5887% maior que pessoas de outra profissão”. Oras, e o que raios isso tem a ver com a questão de estarem armados? Nenhuma! São executados por serem policiais! Quantos policiais deixaram de morrer exatamente por estarem armados? Disso ninguém fala e quando fala é em tom de “letalidade policial fora de serviço”. Se desarmássemos os policiais eles não estariam mais seguros por isso.

 

Outro ponto importante é o tal estudo do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, um estudo requentado lá de 1999 e que nunca teve qualquer valor real, não passando de meras especulações estatísticas e que, até onde sei, sequer foi apresentado o estado em sua íntegra! Pergunto ao leitor: você já foi ao tal Instituto? Dê uma passada lá e veja coisas como “16 medidas contra o encarceramento em massa” ou ainda o II Congresso Internacional de Direito Penal, Processo Penal e Criminologia Brasil/Cuba onde ocorreram conferências com sugestivos nomes de, por exemplo, “O Estado capitalista, a política criminal e a criminologia radical”. Nada ideológico o Instituto...

 

Como obviamente não pode usar o caso brasileiro de desarmamento e restrições às armas por constituir um dos maiores fracassos do mundo no que diz respeito à redução dos homicídios, tenta utilizar exemplos internacionais como a Austrália e os EUA. Bom, sobre a Austrália vejamos o que diz o relatório The Failed Experiment Gun Control and Public Safety in Canada, Australia, England and Wales (4), Gary Mauser, 2003: “Passados seis anos, a taxa de crimes violentos na Austrália continuou a crescer. Assaltos a mão armada continuaram a crescer. O roubo com uso de armas cresceu 166% no país. O confisco e destruição de armas adquiridas legalmente custou $500 milhões aos contribuintes australianos”. Fatos! Malditos, fatos!

 

EUA é lugar comum entre os desarmamentistas que tentam de todas as formas usá-lo como exemplo a não ser seguido. Tiro no pé! EUA é exemplo máximo de “mais armas, menos crimes” e isso foi comprovado pelos estudos do professor John Lott (5), que, óbvio, o jornalista deve desconhecer. Se a lógica de “mais armas, mais crimes” fosse real, com milhões de novas armas comercializadas todos os anos, seria inevitável que houvesse um assustador crescimento no número de homicídios e é exatamente o contrário! As taxas de homicídios caem consecutivamente desde 1992 em solo americano atingindo níveis mais baixos desde 1960(5)!

 

Ao usar o exemplo americano como o maior índice de taxas de homicídios entre os países desenvolvidos, novas distorções. A questão parece complexa, mas não é. Se o autor estivesse correto e o número de armas em solo americano fosse responsável pelas taxas, Suíça(7) e Islândia(8), por exemplo, não teriam taxas menores que o Reino Unido pois nesses países vigora legislações bastante liberais no trato com armas de fogo, enquanto no Reino Unido vale a proibição quase total. Como explicaria que os dois países da América do Sul com mais armas nas mãos da população, o Paraguai(9) e o Uruguai(10), possuem duas das três taxas mais baixas de homicídios? Claro que ele não cotaria tais exemplos...

 

O comparativo entre estados com legislações mais liberais e mortes por armas de fogo me chamou atenção imediatamente por conter Vermont como um dos estados campeões em mortes... Bastaram apenas alguns cliques e voilà! Vermont, de acordo com o ranking criado pelo U.S. News(11), é o estado mais seguro de todos! Consultando os dados(12) do Centers for Disease Control and Prevention, órgão oficial do governo Americano, em 2015 a taxa de homicídios intencionais por 100 mil habitantes naquele estado foi de ZERO! Enquanto isso a badalada e desarmamentista Califórnia apresentava uma taxa de 5.0 homicídios por 100 mil. E qual o segredo dessa mágica? Os números usados pelo United Nations Office on Drugs and Crime (UNODC) incluem suicídio, mortes não intencionais, mortes de criminosos por policiais ou por cidadãos em legítima defesa. Convenhamos que para efeitos de discussão de liberação ou não, a única taxa que importa é a de mortes intencionais, ou seja, assassinatos! Interessante que o repórter, não lembrou que a própria UNODC afirmou em relatório(13) de 2011 que é impossível estabelecer relação direta entre armas e homicídios e a maioria absoluta dos proprietários de armas no mundo não cometeram e provavelmente jamais cometerão qualquer crime com essas armas.

 

Haveria até mais para comentar, mas seria me alongar ainda mais em um texto que já não é pequeno. Pelos comentários deixados na publicação(14) da matéria fico até imaginando se o mesmo seria necessário. Seja como for, para mim é sempre um bom desafio e um excepcional exercício para consolidar ainda mais a posição que tenho sobre o tema, enquanto isso a velha e decadente imprensa – não toda ela, apenas a ideológica -, que escreve seus textos engajadinhos nas mesas dos bares da Vila Madalena ou no Leblon, ainda não entendeu que o tempo da "opinião publicada" que era tomada com "opinião pública" não existe mais e que basta alguns cliques para se chegar e checar a verdade. Só sinto pelos desatentos que são os alvos da desinformação.

 

(1)          https://www.facebook.com/revistaISTOE/posts/1609536829057871

 

(2)          http://g1.globo.com/sp/mogi-das-cruzes-suzano/noticia/corpo-de-professora-morta-a-tiros-pelo-ex-marido-em-mogi-das-cruzes-e-enterrado.ghtml

 

(3)          https://youtu.be/Ra3zmlXIcwI

 

(4)          https://www.fraserinstitute.org/sites/default/files/FailedExperimentGunControl.pdf

 

(5)          https://www.amazon.com/More-Guns-Less-Crime-Understanding/dp/0226493636/ref=pd_lpo_sbs_14_t_1?_encoding=UTF8&psc=1&refRID=XWMPMS4QCE24KS1H8TPW

 

(6)          http://www.disastercenter.com/crime/uscrime.htm

 

(7)          https://www.swissinfo.ch/eng/in-depth/the-swiss-and-their-guns

http://www.bbc.com/news/magazine-21379912

http://www.gunpolicy.org/firearms/region/switzerland

 

(8)          http://www.bbc.com/news/magazine-22288564

http://www.gunpolicy.org/firearms/region/iceland

 

(9)          http://www.ilisp.org/artigos/como-o-paraguai-destroi-toda-a-argumentacao-desarmamentista-usada-no-brasil/

 

(10)        http://brasil.elpais.com/brasil/2014/03/10/internacional/1394468853_167261.html

 

(11)        https://www.usnews.com/news/best-states/rankings/crime-and-corrections

 

(12)        https://www.cdc.gov/nchs/pressroom/sosmap/homicide_mortality/homicide.htm

 

(13)        https://www.unodc.org/unodc/en/data-and-analysis/statistics/crime/global-study-on-homicide-2011.html

 

(14)        https://www.facebook.com/revistaISTOE/posts/1609534642391423