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O Calendário Temático produzido pela Fapeal, em parceria com várias instituições e importantes especialistas e intelectuais alagoanos, atinge no ano do bicentenário da Emancipação Política do estado, 14 edições consecutivas. Faz parte da extensa programação elaborada pelo Governo Renan Filho, que também conta com muitas e diversas instituições alagoanas

Em todas as edições do Calendário Temático, a preocupação foi resgatar temáticas que contribuem com a formação cultural, histórica, social, antropológica e econômica do povo alagoano, aproximando ainda mais a Fundação da sociedade e destacando sua missão de fomentar o desenvolvimento das ciências.

A cada ano, o lançamento de uma nova edição do Calendário é aguardado com muita expectativa, pois ao longo desses anos todos o capricho, o zelo e a competência resultaram em trabalhos extraordinários, fazendo parte da coleção particular de muitas pessoas e servem como referências na afirmação da identidade alagoana.

Nessa nova edição que chega às mãos, paredes e mesas do público, não poderíamos deixar de abordar, de maneira muito sumária, a própria temática do bicentenário da construção de Alagoas como um território autônomo politicamente. Contar a história de dois séculos através das lentes do desenvolvimento das ciências, tecnologias e inovações é se embrenhar nas próprias características e elementos essenciais da formação desse local cravado no centro-leste da região Nordeste.

Se compreendermos que a ciência é, basicamente, a transformação dos recursos humanos e naturais em conhecimento e a tecnologia o desenvolvimento, baseado na experiência e experimentação, dos instrumentos que o homem utilizará para poupar esforços e funcionar como extensão de seu corpo e capacidade intelectual, podemos facilmente afirmar que esses elementos eram importantes na vida dos nativos que por essas terras habitavam antes da ocupação colonial, na costa que conhecemos hoje como Nordeste brasileiro. Até os dias atuais, seja com aperfeiçoamentos ou não, herdamos dos índios um estoque de conhecimento que é bastante útil às nossas vidas.

Com a chegada dos colonizadores e exploradores da Península Ibérica, a ocupação das novas terras exigiu o desenvolvimento de atividades econômicas que pudessem justificar o alto custo das navegações e as tragédias humanas que elas provocavam. Os portugueses, espremidos pelas estratégias expansionistas dos holandeses, franceses, espanhóis e ingleses, buscaram instalar atividades produtivas na costa nordestina. Como sabemos, o empreendimento açucareiro foi a principal atividade e gerou um fluxo de renda compatível com o financiamento da expansão colonial, os tributos cobrados pela Coroa portuguesa e os lucros das empresas agrícolas, conhecidas como engenhos à época.

Portanto, como nos ensinou Celso Furtado em seu clássico Formação Econômica do Brasil (Companhia das Letras, 34ª edição, 2007), a constituição do complexo econômico açucareiro entre os séculos XVI e XVII e seus empreendimentos, do qual a formação histórica alagoana é caudatária, foi baseado em tecnologias avançadas que eram produzidas pela indústria de equipamentos em Portugal e transportada para o Brasil para os engenhos de açúcar. Assim, na origem do país, do Nordeste e de Alagoas, naturalmente, a ciência e a tecnologia exerceram um papel fundamental para transformar a colônia portuguesa num dos mais prósperos negócios do mundo à época.

Apesar desse progresso, alguns elementos conseguiram inviabilizar a internalização no país da cultura científica, de mudanças tecnológicas e do espírito inovador. Um deles foi o regime de produção escravista, que entorpeceu durante três séculos mais da metade da população brasileira durante o período colonial, impedindo o espraiamento na sociedade dos conhecimentos básicos, educação e acesso aos bens materiais e imateriais necessários à formação humana e do espírito no sentido hegeliano. O outro foi o Tratado de Methuen, acordo comercial assinado entre Portugal e Inglaterra que de 1703 a 1836 impediu os portugueses e suas colônias de qualquer iniciativa manufatureira em troca do acesso de seus vinhos nos mercados dominados pelos britânicos. Assim, durante esse longo tempo o empreendedorismo e a inovação não foram cevados e perdemos essa oportunidade histórica de ganhar em experiências.

No Brasil colônia, somente as atividades econômicas voltadas para a produção e exportação de gêneros primários absorviam e desenvolviam tecnologias e inovavam, enquanto que os demais segmentos, satélites ou não, ultrapassavam as barreiras do tempo mergulhados no atraso. As raízes certamente das dificuldades de diversificação da estrutura econômica alagoana residem nesses aspectos centrais.

Nesse calendário temático comemorativo, portanto, a narrativa histórica ilustrada com imagens de várias atividades e segmentos econômicos refletem, sumariamente, o desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação compatível com a evolução alagoana no contexto das dificuldades enfrentadas pela formação brasileira e nordestina entre os séculos XVI e XIX, e algumas iniciativas mais modernas que acompanharam o surto industrial e a expansão urbana observadas nos princípios do século XIX que se estenderam até meados da década de 1980.

Na contemporaneidade, o desafio é muito grande para que Alagoas possa não somente reconhecer a ciência, tecnologia e inovação como importantes para seu desenvolvimento, mas também tornar-se um eixo fundamental nessa estratégia de transformação de sua sociedade para um estágio mais elevado de condições de vida, geração de riquezas e distribuição mais justa de seus resultados.

Enfim, nessa sequência de quatorze anos o Calendário Temático da Fapeal já é parte de uma ação, um programa continuado, que perpassa os gestores da Instituição. Para além de um simples objeto que pode ficar pendurado em uma parede, trata-se de uma obra que a cada versão renova sua responsabilidade em colaborar com a formação do sujeito histórico alagoano.