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“Não se reage a assalto!”

A frase acima poderia ter saído da boca de alguma autoridade, delegado, policial, “especialista” em segurança ou de um sociólogo qualquer... Pois bem, não foi o caso. Foi dita coisa de um ano atrás pelo assaltante Crispiniano Santos que em janeiro de 2016 esfaqueou e matou um marinheiro de apenas 19 anos na Bahia.

Eis que hoje, mais uma vez, me deparo com uma autoridade policial dizendo exatamente a mesma coisa. Um delegado da cidade de Cascavel no Paraná que nos últimos meses foi tomada pela criminalidade. Tenho absoluta certeza que o policial não faz essa declaração por má-fé, mas sim por pura ignorância do seu efeito deletério.

Não é de hoje que afirmo e aponto para o perigo da simbologia do discurso do “nunca reaja” adotado pelo governo, por instituições policiais, por jornalistas e por outros tantos que no desespero de proteger a vítima de algo pior que um roubo, adotaram o mantra de que a vítima deve fazer tudo que o bandido lhe ordena. Não deve tentar fugir, deve evitar gestos bruscos, não deve encarar o assaltante e nunca, em hipótese alguma, reagir.

Talvez isso fizesse algum sentido coisa de 30 anos atrás onde os criminosos, muito menos cruéis, buscavam apenas o bem material. Seja como for, o perfil criminal mudou muito. Hoje vemos diariamente notícias de pessoas que foram assassinadas sem esboçar qualquer reação. Isso, por si só, já seria motivo para se abandonar o fracassado discurso pseudo-protetivo que além de não garantir a segurança do cidadão, traz ao facínora a justificativa perfeita para seus hediondos atos.

Muitas coisas que são ditas quando o tema é segurança pública devem ser pensadas e olhadas não com a visão do trabalhador, do pai de família, do cidadão honesto. Devem sim ser olhadas pelo viés do criminoso. Oras, o que entende um assaltante quando ouve um delegado, um oficial da Polícia Militar, um secretário de segurança pública, afirmar que se o cidadão reagir o criminoso lhe matará? Óbvio que para o bandido isso soa como a mais pura justificativa para o assassinato. A fala do Crispiniano da Silva, assassino confesso, resume tudo isso. Não é o primeiro a invocar o “não reaja” em sua defesa e não será o último.

No mesmo patamar do perigoso simbolismo está a tal campanha de desarmamento que convida o cidadão ao desarme, mas que aos olhos dos bandidos apresenta-se como uma rendição da sociedade aos seus malfeitos. E é exatamente disso que decorre o fracasso total de descabida campanha.

Não, não estou pregando que o cidadão deva reagir! O que estou afirmando é que o discurso deve sumir, ser abandonado, ser substituído pela mensagem que o criminoso que mata sua vítima, seja lá por qual motivo, será caçado, encontrado e punido exemplarmente. Ao cidadão, cabe tentar decidir qual a melhor opção para escapar ileso de um crime.

A verdade é que o Estado não é onipresente, não pode e nunca poderá defender todos durante todo o tempo. Não aceitar isso é irresponsabilidade ou mau-caratismo. Já passou da hora de devolver ao cidadão o direito e as ferramentas necessárias para sua defesa ou continuaremos reféns dos monstros que seguem acreditando, e com razão, na impunidade e na incapacidade do Estado que não controla nem mesmo os criminosos presos, imaginemos os soltos.