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Em meu artigo “Japão: desarmamento, opressão, dominação e a incapacidade de defesa de uma nação” expliquei os motivos e as consequências do desarmamento japonês que se iniciou ainda no século XVI. Qual a relação com a baixa criminalidade naquele país e as poucas (mas não inexistentes) mortes cometidas com esses instrumentos? Nenhuma!

Nos últimos meses duas reportagens, se é que se pode chama-las assim, me chamaram a atenção. A primeira foi no Jornal Nacional da Rede Globo exibida na Edição do dia 17/11/2016 e apresentava uma queda nos índices criminais em 13 anos consecutivos. Parabéns para o Japão, um dos países fora da curva nesse quesito! De forma absolutamente medíocre e, até mentirosa, o repórter apresenta como motivo a instalação de câmeras nas ruas e – Ó, que surpresa! – o desarmamento... Interessante notar que o ex-policial que é entrevistado afirma que em 5 anos patrulhando as ruas de Tóquio nunca precisou disparar sua arma... Entenderam? Ele não precisou, mas mesmo em um país tão pacífico a arma estava lá, em seu coldre, municiada e preparada se isso fosse necessário. E tem “especialista” que acha que a polícia brasileira deveria trabalhar desarmada. Interessante que nunca vimos uma reportagem na Globo sobre o fato dos homicídios nos EUA serem os mais baixos dos últimos 15 anos, ou que a criminalidade violenta tem caído praticamente consecutivamente desde 1990!

A segunda reportagem veio pelas mãos da BBC Brasil em 07/01/17 e foi republicada na íntegra pela Folha de São Paulo no dia seguinte. Seu título “Como o Japão praticamente extinguiu as mortes por arma de fogo”. Não é nem preciso ler o texto para saber qual foi a conclusão. Para se ter uma ideia do desconhecimento do jornalista sobre a sociedade japonesa e seus valores, a legenda de uma das fotos afirma: “Até mesmo o crime organizado no Japão dificilmente usa armas de fogo. Geralmente, os criminosos utilizam facas”. Se o repórter tivesse lido qualquer coisa sobre essa associação criminosa saberia o real motivo. Outro ponto que merece pesadas críticas e a afirmação que há mais de 30 mil mortes decorrentes ao uso de armas de fogo nos EUA. O que a BBC fez foi juntar homicídios, mortes justificadas (legítima defesa e morte de criminosos em confronto com a polícia) e acidentes, mas, claro, não incluiu nas mortes no Japão os, por exemplo, 25 mil suicídios que ocorreram só em 2014! Desonestidade pura e simples... Ou burrice mesmo.

Quais os “detalhes” que os jornalistas “esqueceram” de citar? Vamos lá!

O Japão mantém a pena de morte por enforcamento. Assim, autores de múltiplos assassinatos, sejam serial killers ou terroristas, acabam balançando na ponta de uma corda. Hoje, 80% da população japonesa aprova a medida capital e muitos pedem a sua ampliação para outros tipos de crimes. No dia da execução, que é comunicada apenas uma hora da mesma, o condenado tem a obrigação de arrumar sua cela, escrever bilhetes de despedida e orar. Mais nada.

As prisões japonesas estão entre as mais rigorosas e “desumanas” do mundo. Lá, ao contrário da visão humanista ocidental onde se tem como missão a ressocialização do preso (trato disso em meu artigo “Cadeia não é assistência técnica de gente!”), a prisão é puramente uma punição e o objetivo é que o condenado se arrependa de seu crime e entenda a desonra de seus atos.

Nos primeiros 23 dias de prisão, quando ainda ocorre a investigação, o detido fica completamente isolado, sem contato nem mesmo com seu advogado. O interrogatório é absolutamente secreto e podemos imaginar os métodos usados... Nas prisões japonesas reina a mais rígida ordem e limpeza. O detento não tem nenhum contato com o mundo exterior, não podendo assistir TV ou ouvir rádio. Livros e revistas são previamente analisados antes de serem disponibilizados. Visitas são raramente autorizadas, mesmo de seus advogados. Nenhum preso pode falar sem permissão, as conversas entre presos são proibidas e quem não obedece essas e outras regras recebe punições que vão de humilhações em frentes aos outros condenados até ter suas mãos algemadas às costas e colocado em uma solitária com um roupão aberto atrás para que possa apenas fazer suas necessidades.

Longe de mim tentar em poucas palavras, em um simples artigo, tentar entender ou explicar por que motivos a criminalidade japonesa é tão baixa e continua caindo. Longe de mim, por exemplo, dizer que a diminuição na imigração para o Japão coincide com a queda da criminalidade lá. Aliás, uma pequena curiosidade, dos estrangeiros presos, a maioria é composta de chineses e brasileiros... Não tenho como afirmar os motivos dessa baixa criminalidade com precisão, mas uma coisa eu sei: o desarmamento não tem nada com isso e essas reportagens não passam de panfletagem ideológica que mente, deturpa e esconde o que é incômodo.

Links ao final do artigo:

Artigo “Cadeia não é assistência técnica de gente”: http://www.cadaminuto.com.br/noticia/297649/2017/01/06/cadeia-nao-e-assistencia-tecnica-de-gente

Artigo “Japão: desarmamento, opressão, dominação e a incapacidade de defesa de uma nação”: http://www.cadaminuto.com.br/noticia/294802/2016/11/01/japao-desarmamento-opressao-dominacao-e-a-incapacidade-de-defesa-de-uma-nacao

Reportagem da BBC e Folha: https://www.facebook.com/bbcbrasil/posts/10154209315037816?pnref=story

Reportagem Jornal Nacional: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2016/11/policiais-japoneses-enfrentam-um-problema-falta-do-que-fazer.html