Crédito: Divulgação E2212114 bf09 45fc 820a 394ed5f32fe4 A personagem de Sonia Braga é a única moradora que se recusa a vender o apartamento para uma grande construtora

Parece pouco provável, mas um único apartamento de um pequeno prédio localizado na orla de Boa Viagem, em Recife, pode ser a porta de entrada para um incômodo de grande extensão. Aquarius, filme brasileiro que concorre à seleção para disputar o Oscar de melhor produção estrangeira, se utiliza dessa proposta para levar às telas uma trama que se edifica justamente em cima da ideia de resistência do “menor” em relação ao “maior” e que se rebela, dadas as devidas proporções, contra a prevalência do chamado Darwinismo social.

Recheado de polêmicas desde o seu lançamento*, o filme do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho já é, de longe, o mais comentado do ano no país. De acordo com o enredo, Clara (Sonia Braga) é uma jornalista e escritora aposentada que perde o sossego por conta do projeto de uma grande construtora que quer transformar o antigo prédio em que ela mora em um empreendimento de luxo. Mas a teimosa moradora não abre mão da convivência ao lado das memórias, discos, livros e individualidades que guarda entre as paredes de seu apartamento no Edifício Aquarius.

Alicerçado em um repertório musical aconchegante e que se conjuga perfeitamente ao conteúdo das cenas, o filme passeia por contrastes de tipos diversos: o moderno e o antigo, a juventude e a velhice, a soberba e a simplicidade, a tecnologia e o clássico, os valores e a falta de escrúpulos; o poderio e o empoderamento, sobretudo. É um ode à resistência.

Para além do confronto entre avessos, o filme conta para o espectador que não há prevalência entre velho e novo e que o conceito de riqueza é muito singular, podendo ir de uma conta bancária recheada a uma coleção de vinis e livros.

Aquarius já conquistou o prêmio de melhor filme nos festivais de Sidney e de Amsterdã, venceu e prêmio do Júri e de melhor atriz para Sonia Braga no festival de Lima e foi indicado à Palma de Ouro.

A questão de fundo da produção, aliada à atuação visceral de Sonia Braga, dá o recado: é preciso impedir que intervenções externas corroam seus valores e esvaziem seu poder de reação. Nem toda tentativa de dominação alcança o sucesso.

Esperamos que seja mesmo a “era de Aquarius” e que o filme tenha boa aceitação entre os críticos do Oscar.

A trama é, sem dúvida, um convite à reflexão!

Aquarius está em cartaz nas seguintes salas e horários:

Parque Shopping Maceió
VIP – 16h20 e 21h50

Maceió Shopping
15h05, 18h e 20h55

Arte Pajuçara
15h45 (somente quinta, terça e quarta – 01, 06 e 07/09)
16h30 (somente sexta – 02/09)
16h (somente sábado e domingo – 03 e 04/09)
20h10 (todos os dias)

*A equipe de Aquarius protestou contra o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff no lançamento do filme em Cannes, no mês de maio. No tapete vermelho, atores e diretor seguraram cartazes que faziam menção à suposta ideia de golpe e de fim da democracia no Brasil. Também houve gritos de “Fora, Temer”.

O protesto foi assunto mundial e, antes de ser chamado para fazer parte da comissão especial do Oscar, o crítico Marcos Petrucelli postou em seu Facebook declarações negativas sobre a atitude do diretor Kleber Mendonça Filho de se aproveitar do tapete vermelho para se insurgir contra o cenário político brasileiro. Por conta disso, os cineastas Aly Muritiba, Gabriel Mascaro e Anna Muylaert retiraram seus filmes da disputa à candidatura brasileira ao Oscar estrangeiro de 2017, como forma de declarar apoio a Aquarius e favorecer sua participação na disputa.

A obra também foi classificada pelo Ministério da Justiça como proibida para menores de 18 anos, medida que foi vista como uma retaliação do governo. No dia da estreia, contudo, a classificação indicativa foi reduzida para 16 anos.