Sob o ponto de vista sociológico da questão, é fácil compreender a disparate existente ao observar-se os protestos “anticorrupção” promovidos por grupos contra e a favor do governo atual, e cenas comuns do dia-a-dia da população brasileira, acostumada a furar filas, fornecer o troco errado, sonegar impostos. Tais cenas são consequências do famoso “Jeitinho brasileiro” de Damatta, atitude desenvolvida pelo indivíduo que sobrevive uma situação social na qual os seus direitos não são preservados e os deveres são “desviados”. O texto a seguir, produzido pela aluna do nosso projeto de redação e linguagens, Emilly Guaris Costa, esclarece de maneira brilhante a visão distorcida de corrupção da maioria dos brasileiros, confira:

          Sob a visão contratualista de Thomas Hobbes, o homem em seu “estado de natureza”, é amoral, logo, fez-se necessária a criação de normas para garantir a harmonia social. A tolerância a pequenas infrações, no entanto, desestabiliza esse sistema, na medida em que minimiza a culpa sentida por quem as pratica e difunde a descrença nesse modelo.

          Como defendido pelo psicólogo Dan Ariely – da universidade Duke – a aceitação da corrupção parte da ilusão de sua normalidade que se forma com a má interpretação de sua repetição. Isto é, ao perceber a recorrência de práticas ilícitas, em vez de constatar o caráter anômico da sociedade, entende-se tais atos como triviais. Deixa de haver, portanto, a inibição propiciada pelo constrangimento e, sendo assim, torna-se vital a aprovação de leis mais severas para combater esse comportamento.

          Por outro lado, o sentimento de impunidade advindo da falta de celeridade processual e de fé no sistema judiciário expande a ideia de sociedade sem regras, o que leva ao caos previsto por Hobbes. Apesar de o método punitivo para reprimir ações corruptas e reestabelecer a ordem ser fundamental, é imprescindível adotar medidas educacionais para cultivar valores mais éticos nas mentes jovens, visto que, em longo prazo, é mais eficaz para instituir novas diretrizes comportamentais.

          Nas escolas, seguindo esse critério, é vital inserir uma matéria de construção moral e cidadão, como ensinamento de noções éticas e dos fundamentos constitucionais. A sociedade deve cobrar de seus representantes a devida aplicação penal e incentivar denúncias de atos corruptos, a partir de manifestações populares para repreender a cultura da banalização da corrupção. Somado a isso, o Estado precisa atribuir penas mais altas e aumentar a fiscalização das ações corruptas, no intuito de suprimir a sensação de impunidade.