Foto: Saber em Debate 1861194b c14d 49fc 9791 ff752fb9194d 10ª Turma de Redação

          O Brasil talvez tenha sido palco da maior miscigenação ética ocorrida na história. Tal processo alimentou em determinados intelectuais o mito da democracia racial. Em outros momentos, quando muitos buscavam respostas para os nossos inúmeros problemas, a miscigenação foi vilanizada e passou a ser responsabilizadas por nossas deformações sociais.

          Para esses, a superação dos nossos obstáculos pressupunha uma estratégia de branqueamento do país através do estimulo a imigração europeia.

          Coube a Darcy Ribeiro enfrentar esses mitos; durante a sua longa trajetória pela vida o carioca, que nos deixou há 19 anos, foi um dos sujeitos mais interessantes desse tal povo brasileiro, que ele tanto lutou para conhecer.

          Professor, antropólogo, senador da República, ministro de Estado em duas ocasiões, idealizador e primeiro reitor da UNB, o velho Darcy se alimentou de duas obsessões: descobrir a origem dos nossos problemas e elaborar uma política educacional que pudesse dialogar com um país de dimensões continentais e formação cultural tão multifacetada.

          É de Darcy a tese, depois amplamente aceita por historiadores, de que o processo de miscigenação no Brasil obedeceu  a uma lógica violenta, na qual o elemento europeu acaba por subjugar os negros e os ameríndios, esses últimos exilados na sua própria terra.

          “Ninguendade” é o termo criado por ele para se referir aos milhões de ninguéns (mamelucos e afrodescendentes) que vagavam a procura desesperada de uma identidade ou de alguma relação de pertencimento com o lugar onde haviam nascido e estavam inseridos.

          O processo de formação do povo brasileiro passa, portanto, na visão do mestre, pela negação parcial ou total das identidades étnicas e culturais dos seres que aqui já estavam (índios) e dos que aqui chegaram (negros e europeus), para no final, acentuar o patamar civilizatório do elemento branco e cristão.

          Como todo povo que se forma a partir da negação das suas identidades, o brasileiro seria um ser marcado pelo signo da incompletude, eternamente em busca da sua árvore genealógica e pouco orgulhoso daquilo que se tornou.

          A sua grande obra conseguiu articular como em poucos casos, a teoria e a práxis e aqui nos referimos a uma prática militante: o ativismo de quem montou trincheiras contra o golpe militar de 64 e havia lutado anos antes pela criação da UNB[1] na recém-inaugurada capital do Brasil.

          Na semana em que recordamos mais um ano de sua morte, esse espaço, voltado para a educação, não poderiam deixar de homenagear Darcy Ribeiro um dos principais formuladores da LDB[2] e um dos principais ativistas na luta pela educação no país.

 

 

[1]Por ocasião da criação da Universidade de Brasileira (UNB) havia muitas vozes  discordantes que afirmavam que a concentração de estudantes no centro do poder geraria com o tempo instabilidades políticas que deveriam ser evitadas.

[2] A Lei de Diretrizes e Bases da educação foi criada no ano de 1996 com a  finalidade de regulamentar a educação brasileira.