Em 1889, logo após a proclamação da república, o Brasil era um país habitado por 14 milhões de pessoas das quais apenas 7 mil tinham curso superior. Nesse imenso país cuja superfície territorial equivale a soma de quase todos os países europeus, havia, no máximo, 3 mil escolas.

          A Imprensa escrita começava a ganhar alguma musculatura, porém, os jornais eram objeto de leitura de uma pequena classe média letrada a quem caberia, a partir desse momento, desempenhar o papel de difundir no imaginário coletivo, sobretudo nas grandes cidades, uma versão sobre a história do país.

          Nas pequenas cidades ainda se cultivava o hábito de reunir parte da população analfabeta em praça pública, que assistia atenta a leitura de jornais, geralmente, feita por alguns poucos “sábios”.

          O primeiro ministério da educação só viria a surgir bem depois no governo provisório de Vargas; fomos uns dos últimos países do continente a ter uma universidade[1]; para efeito comparativo, é importante registrar que já haviam universidades em pleno funcionamento na República Dominicana e no Vice-Reino do Prata[2], ainda no século XVI.

          No Brasil, a elite católica criou, conscientemente, fortalezas materiais e ideológicas que dificultaram o acesso a literatura. As sequelas dessa arquitetura histórica permanecem abertas num país que hoje cultiva, no seu imenso território continental, menos salas de leitura do que a capital da Argentina.

          Bem à frente da nossa realidade, nos Estados Unidos do sec. XVII, as universidades de Harvard e da Pensilvânia já atuavam na produção do conhecimento, num ambiente marcado pelos baixíssimos índices de analfabetismo.  

          Ler é o primeiro passo para a libertação dos indivíduos, além de ser a  seiva que pode alimentar nos atores sociais um espírito público, pelo qual os sujeitos passam a  exercer a grandiosa tarefa de se autogovernar.

          A literatura, dentre todas as manifestações artísticas, talvez seja a que mais pavimente o processo de humanização dos sujeitos e a que melhor expresse a genialidade humana. Negar o acesso a literatura foi a ação mais irresponsável dentre as muitas protagonizadas por uma elite política e econômica, que com isso, esvaziou o espírito público do nosso povo, privatizando para si o controle do Estado e dos seus aparelhos ideológicos.

          No inicio do sec. XXI ainda temos diante de nós o desafio de criar pontes que tornem possível o acesso da população ao mundo mágico e imaterial da Literatura. O Brasil é uma nação (ainda) a ser descoberta.

 

[1] Data de 1920

[2] País hoje conhecido com Argentina