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Arnaldo Antunes, ex-Titãs, é um dos melhores letristas do país. Sua voz grave e marcante entoa músicas com forte apelo poético e que retratam valores subjetivos do cotidiano humano. Uma delas, em particular, nos interessa para os objetivos desse breve ensaio: invejoso.

Na sua dupla estrofe encontramos uma síntese do comportamento de um individuo que não se contenta com o que tem, ambiciona o que o outro conquistou e demonstra sua total fragilidade de enfrentar a própria incompetência.

Querer o que é dos outros é o seu gozo/E fica remoendo até o osso/Mas sua fruta só lhe dá caroço

Invejoso/O bem alheio é o seu desgosto/Queria um palácio suntuoso/mas acabou no fundo desse poço  [para escutar a canção clique aqui]

Quem não se lembra do personagem Luís da Silva Fabiano em Angústia, clássico da literatura brasileira de Graciliano Ramos (Ed. Record, 2011). Um sujeito que nutre uma ira e inveja de Julião Tavares que beira a irracionalidade, ao ponto de matá-lo por enforcamento. A loucura de Fabiano aumentou e sua impotência revelou-se quando descobriu que Tavares mantinha um caso amoroso com Marina, sua paixão predileta. A inveja e o desgosto do mundo que não conquistava, tornou-lhe um homem ainda mais amargurado, angustiado.

A inveja é um ingrediente que alimenta a traição. Na tradição cristã, ela provocou uma tragédia entre dois irmãos. Caim amava Deus de uma maneira incomum. Entretanto, Deus preferiu o amor de Abel, ensejando em Caim um ser invejoso e vingativo, uma combinação que o levou a assassinar seu próprio irmão.

Recentemente, li um excelente artigo da filósofa e professora Márcia Tiburi, do Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Mackenzie e colunista da Revista Cult. No texto intitulado “Burrice e inveja: sobre o que vemos, o que pensamos e a política de que somos capazes”, a autora discute que apesar  dos avanços científicos e tecnológicos parte considerável da humanidade tem dificuldades e limitações para se libertar de velhos grilhões morais e atitudes bárbaras. [clique aqui para acessar o texto]

Tiburi argumenta que vivemos momentos tanatológicos, ou seja, um estado de coisas em que somos impotentes para se alcançar a alegria, mesmo com os avanços tecnológicos que nos permitem, através do estreitamento das distâncias, circulação de informações e melhorias em vários aspectos da vida, parecermos mais felizes, realizados. Nesse contexto, a inveja assume protagonismo essencial pelo que a autora designa de “impotência das impotências”.

Para ela, não somos mais desejosos, guiados por motivações naturais que, invariavelmente, se relacionavam com a busca pela verdade, alimento da curiosidade, o ir além das nossas potencialidades construtivas. O momento tanatológico desemboca num “estado de fascistização da sociedade e da mentalidade” provocado pela produção social da burrice (como ignorância prepotente, fechada e autoritária, conforme a autora) e a administração da inveja como um meio para a burrice.

Nesse sentido, os poderosos instrumentos de marketing e publicidade, disseminados, principalmente, pela televisão, têm a poderosa capacidade de influenciar nossas decisões e escolhas. “Se nosso desejo está administrado, é bem provável que tenha se tornado alienado”, sentencia Tiburi. Assim, é muito plausível que exista uma correlação direta entre o desejo administrado e a impotência de nossas próprias vontades, com a incapacidade de agirmos por si mesmos; ao contrário, somos condicionados por forças externas que penetram em nosso inconsciente e nos comandam sutilmente.

Aqui Tiburi alcança um dos pontos fortes de seus argumentos: “assim como a inteligência impotente chama-se burrice, o desejo impotente chama-se inveja”. Enquanto para ela a burrice é uma mutilação cognitiva e moral, uma frustração em não se alcançar o desejo de conhecer, ter êxito nas descobertas, não desvelar as realidades, seja por incapacidade ou pela própria estrutura de administração e poder sobre o conhecimento e suas formas de transmissão, a inveja, por sua vez, é “desejo impotente, é desejo cancelado, mutilado [...] é uma categoria que precisa ser vista como um ponto de vista moral e cognitivo [...] Ela é produzida e manipulada”, assim como a burrice.

A inteligência alimenta o desejo, mas quando a inteligência é impotente ela alimenta a burrice (ignorância prepotente e autoritária). As limitações cognitivas derivadas do aprisionamento da inteligência e limitação do saber, produzem o ser invejoso. “Todo indivíduo cognitivamente impotente é invejoso”. Ou seja, todo indivíduo que está despreparado para reconhecer no outro suas próprias competências, capacidades e condições é, invariavelmente, um invejoso; nega a si próprio, não reúne possibilidades ou condições de se enxergar no outro. “Somos despreparados para o desejo do outro porque somos despreparados para o outro [...] nos contentamos com o mero ver o rosto do outro como um outro e não como um espelho. Eu invejo aquilo que nego como espelho”, afirma Tiburi.

Assim, a inveja pode ser interpretada como a falta de reconhecimento no outro de nossas possibilidades, o desejar do outro, o que não somente espero no outro, mas além dele. A inveja sequer lança mão do artifício da contemplação, pois o individuo invejoso não tem noção dos parâmetros de distância e diferença do outro, porque sua base de comparação é o tempo todo aniquilada pela sua impotência cognitiva.

Pensar é ter a noção da distância com esse rosto, é perceber a diferença. A inveja não possui essa chance de pensamento. Falta-lhe espelho, logo falta distância ou tudo parece distância, o que dá no mesmo. O olho do invejoso esta morto para o outro, parado, destrói no ato mesmo de ver. Ele vê o outro como um morto.

Ao contrário do que pode se imaginar, o outro é sua negação enquanto desejo impotente.

Um dos lugares onde a presença da inveja é mais disseminada trata-se do ambiente de trabalho nas universidades brasileiras. Como colocado logo acima, a inveja não é um sentimento ou tipo de comportamento seletivo, ela pode se manifestar em qualquer indivíduo. Quando Tiburi se referiu a correlação entre burrice e inveja, tratou de definir burrice de uma maneira completamente distinta da compreensão comum. Sendo assim, a inveja também viceja entre aqueles que estão no topo da cadeia de conhecimento da sociedade: a intelectualidade acadêmica.

O sistema produtivista imposto ao mundo acadêmico como forma de avaliação de suas atividades científicas talvez tenha contribuído ainda mais para tornar esse ambiente acadêmico mais hostil. Está cada vez mais difícil perceber a vibração entre professores e pesquisadores quando um deles ou um grupo produziu ou publicou um artigo ou livro, foi(foram) homenageado(s) ou a(s) pesquisa(s) premiada(s). É mais raro, ainda, conferir discussões e debates sobre um texto construído ou pesquisa realizada por colegas. O que tem sobrado muitas vezes é apenas o deboche, críticas panfletárias e a mesquinhez no pensamento reflexivo sobre a produção alheia. Isso é muito comum, por exemplo, nas áreas de ciências sociais aplicadas e humanas

Esses aspectos somente revelam formas de manifestação da inveja, da inteligência impotente, manipulada ou alienada, por uma administração do cotidiano, onde o hoje, o presente e o curto prazo valem muito mais que um projeto de vida, de universidade, de sociedade. Que não estejamos caminhando para o fundo do poço, como alertou Arnaldo Antunes.

Para quem assistiu ao filme Amadeus, deve-se lembrar do personagem Antonio Salieri, a personificação da maldade e fragilidade do caráter humano. Salieri é ofuscado pelo talento e genialidade de um jovem chamado Wolfgang Amadeus Mozart. O sublime da inveja encontra-se no diálogo onde Salieri promete massacrar Mozart, porque Deus tinha lhe trocado pelo jovem e irreverente compositor austríaco na missão de falar aos comuns através da música. A morte de Mozart é a própria derrota de Salieri, sua autonegação. Nesse diálogo com Deus, Salieri expõe todo seu sentimento amargurado

De agora em diante somos inimigos, Você e eu. Porque Você escolheu para o Seu instrumento um garoto arrogante, desregrado, obsceno, infantil, e deu a mim como recompensa a capacidade de reconhecer Sua encarnação. Porque o Senhor é injusto, arbitrário, cruel. Vou negá-lo, eu juro. Vou amaldiçoar e machucar Sua criação na terra tanto quanto possa. Vou arruinar Sua encarnação.

Quantos Salieris não estão do nosso lado no “Templo do Saber", desejosos de nos derrotar, destruir, o tempo todo?