Postado em 01/12/2015 às 15:46 por em Omar Coêlho 0

Assim a história se fez... (republicação, por tempestivo)





Procurando alguns documentos, em um CD, encontrei um artigo, escrito no final de 2007, quando ainda concluía meu primeiro ano a frente da OAB/AL. Ao rever, vi que ainda não amadurecemos o suficiente, mas que a nossa busca segue firme por um país melhor. 

Por isso, trago-o de volta!

"Assim a história se fez

Alagoas, além de suas praias espetaculares, seu povo altamente hospitaleiro, tem uma vocação extraordinária para a política. Daqui saíram Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto e Fernando Collor para presidir o Brasil, sem contar com o notável Menestrel das Alagoas, Teotônio Vilela, dentre tantos outros que fizeram e fazem a história política nacional.

Há quase três décadas, entretanto, Alagoas passa por um período de profunda desordem política. As instituições se enfraqueceram gradativamente e os homens que as comandavam deram espaço aos descompromissados com o bem-comum e com o Estado. Os trabalhos em prol das comunidades, antes reconhecidos nas urnas, foram substituídos pelos “trens-pagadores”, pessoas inescrupulosas que passaram a pagar pelo voto, aproveitando-se da miséria que crescia e cresce.

Por sua vez, os homens e mulheres de bem começaram a aceitar, assim como as instituições, que essa escória começasse a ocupar seus lugares, e era como se nada estivesse acontecendo. O poder de indignação do povo deu lugar à acomodação e à omissão. Nada mais seria como era! Ser servidor público, que antes era motivo de orgulho, passou a ser sinônimo de acomodado, desleixado e marajá. A prosperidade que advinha do trabalho árduo e honesto passou a ser alcançada através de cargos políticos e da prática ostensiva da corrupção. O mérito deu lugar à indicação paternalista, através de fraudes nas nomeações, etc.

Tudo isto acontecendo e o pobre povo alagoano assistindo a tudo calado e acovardado. Mas, a quem reclamar ou denunciar? De vez em quando, aparecia alguém tentando despertar o povo dessa indolência inconsciente e inconseqüente, mas a quem recorrer? Afinal, as instituições também se encontravam nesse mesmo estado de letargia. Alguns desistiram, outros continuaram dando murro em ponta de faca. Até que numa bela manhã de maio/2005, helicópteros sobrevoaram a linda Maceió, logo ao alvorecer: era a Operação Guabiru.

 

A Polícia Federal prendendo e levando autoridades municipais para prestar esclarecimentos sobre desvio de verbas da merenda escolar das criancinhas pobres desse Estado das Alagoas. Um crime hediondo, sem dúvida! Naquele dia, não consegui sair do carro, indo e vindo de um lado para outro, ouvindo todas as rádios que cobriam as ações policiais. Estranhamente, só ouvia críticas à PF pelo uso das algemas. Parece que o povo não vislumbrava o significado daquilo. Não resisti, liguei para as rádios para defender e enaltecer o significado da ação policial, inclusive quanto ao uso das algemas. O pobre é preso, algemado, espancado e não costumamos ouvir tantas reclamações, mas, quando é gente do nosso meio social ou autoridades públicas, minha nossa! Lembro-me que até o governador da época saiu em defesa dos indiciados e criticou as ações da PF.

Entretanto, passado o momento patriótico de euforia, tudo voltou a ser como antes! O começo do fim da impunidade e da corrupção ainda estava longe de iniciar.

Aos primeiros raios de sol do mês de maio/2007, uma nova operação da Polícia Federal, agora chamada Navalha, prendia autoridades do primeiro escalão do governo, dentre outras autoridades, por fraudes e desvios de dinheiro público envolvendo a empreiteira Gautama. Nova euforia! Será que agora as coisas começariam a mudar? Ledo engano!

 

Em novembro de 2007, novamente a PF atua e chegou a vez da Operação Carranca, fraudes em licitações, mais políticos e personalidades do nosso meio social indiciados e presos. O sonho de um estado livre da corrupção e voltado para o desenvolvimento renascia, mas ninguém ousava questionar os chamados “poderosos”. Alagoas, enlameada pelas consecutivas operações da Polícia Federal, transparecia para o Brasil ser o reduto dos infratores. E o que é pior: esses integravam a chamada elite política e empresarial caeté.

 

No mês seguinte, dezembro/2007, a Polícia Federal deflagra a Operação Taturana, indiciando e prendendo deputados estaduais, gerentes e empresários. Foi o que faltava para o povo e as instituições despertassem desse longo e quase interminável estado de paralisia. Alagoas exige respeito! Alagoas exige ordem! Alagoas não mais aceitará conviver com a impunidade e a corrupção!

 

Nessa onda, a Polícia Civil, mesmo em greve, parece ter elucidado o assassinato do vereador Fernando Aldo. Faltam outros tantos, mas já é um começo; o Ministério Público, finalmente, começa a atuar ostensivamente; e o Judiciário segue o mesmo caminho.

 

A bem da verdade, a OAB/AL, em todos esses episódios da vida alagoana, não se calou nem se omitiu, buscou despertar a sociedade para a real necessidade de se exercer a sua cidadania, mesmo nos momentos em que outros recuaram e duvidaram de seus reais e bons propósitos.

A sociedade alagoana começa a ver coisas que pareciam ser impossíveis de acontecer. Autoridades, antes imunes, sendo questionadas e tendo que se submeter aos ditames da lei, como sempre se esperou que acontecesse, mas havia caído no esquecimento. Convém lembrar e não esquecer: nada nem ninguém está acima da lei.

A mobilização social deve permanecer e crescer. O cidadão maceioense, por exemplo, ainda não saiu de casa para exaltar sua indignação. A única manifestação popular até agora foi a do dia 19 de fevereiro, que contou com a presença das lideranças da sociedade civil organizada, mas careceu do apoio popular. Não fossem os integrantes dos movimentos de sem-terra e dos indígenas, haveria uma verdadeira ausência popular, não condizente com o sentimento da quase totalidade dos aqui residentes.

Neste momento, só nos resta externar o sentimento que nos une a todos, de forma pacífica e ordeira, mas efetiva e eficaz. Temos que encontrar um meio de expressar nossa indignação e de dizer não à corrupção! Talvez se estampássemos as cores da bandeira de Alagoas, através de fitas ou da própria bandeira, nos carros, nas janelas dos apartamentos ou em nossas casas. Em período de Copa do Mundo demonstramos o nosso desejo de vitórias ostentando em todos os lugares o verde-amarelo. Então, por que não externamos nosso sentimento de “limpeza de Alagoas” usando as nossas cores: vermelho, branco e azul?

Creio, piamente, que estamos diante do começo de um novo tempo. É o começo do fim da impunidade e da corrupção e a OAB/AL continuará lutando para que façamos por merecer este novo tempo!"

Até a próxima!


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