02db71d2 8241 4c17 a740 00e26a0b614a

Os noticiários do país dias atrás veicularam matérias sobre a crise política e financeira do São Paulo Futebol Clube, hexa campeão brasileiro, tricampeão da Copa da Libertadores, bicampeão Intercontinental e campeão da Copa do Mundo de Clubes da FIFA. Seus novos gestores falam em recuperar a credibilidade do clube, a confiança do torcedor e voltar a ganhar títulos.

Tudo isso depende, também da promessa, de realizar uma reengenharia econômica e redefinir estratégias de planejamento de longo prazo. A dívida total do clube com seus credores, segundo analistas de mercado, chega aos 272 milhões de reais. Pergunta-se: algum torcedor, o mais pessimista, do São Paulo imagina que seu clube irá fechar ou não sairá ainda mais forte dessa crise, que também tem origens políticas muito sérias? Acredito realmente que não!

Evidentemente que as diferenças entre o clube São Paulo e a economia brasileira são imensas, entretanto sobre essa deita um sentimento de pessimismo que a irracionalidade e comete o equívoco de achar que estamos à beira de um precipício. Essa opinião já foi também compartilhada por empresários, como magnata Abílio Diniz [1], e economistas de peso, como Maria da Conceição Tavares [2] e Paulo Nogueira Batista Jr. [3]

Não cansarei o leitor com dados e informações macroeconômicas, mas é necessário reconhecer que nossa crise, de fato, é mais política e o quadro nesse campo cria um grau de incerteza tão elevado que influencia as expectativas dos agentes econômicos. O grau de desconfiança sobre os rumos da economia de um país determina as decisões de investir e consumir no curto prazo, com implicações no horizonte mais longo [4].

Desde a eleição presidencial do ano passado que o clima político vem azedando a cada dia e as investigações de combate à corrupção são importantes ingredientes dessa situação. Com isso os ajustes necessários no campo da economia não são alcançáveis porque, diante do caótico quadro político, a desaceleração macroeconômica impõe a revisão dos critérios e metas, tornando-os ainda mais problemáticos. Ademais, o clima institucional no Congresso impede o avanço da pauta econômica, paralisando os interesses da política fiscal.

Todos os economistas mais sensatos sabiam, já no ano passado, que era preciso redefinir as estratégias de crescimento e diminuir nossa dependência da expansão do consumo e do setor exportador. Quanto ao primeiro, já existia consenso de que o boom do mercado consumidor estava chegando a saturação, pois a demanda puxada pela aquisição de bens duráveis já vinha desaquecendo e o endividamento do consumidor se elevando. Pelo lado das exportações, a dinâmica Internacional tinha arrefecido e nosso principal mercado consumidor, a China, passou a orientar-se por novas estratégias de desenvolvimento, que privilegiam a expansão do consumo interno.

Então, os desafios postos eram continuar com a política de financiamento dos investimentos públicos, expansão do crédito e um ajuste fiscal para acomodar os gastos públicos correntes a uma nova realidade de arrecadação de impostos, compatível com um crescimento econômico menos robusto que o observado no período 2003-2010 [5]. Além disso, as políticas sociais devem continuar sendo prioritárias, pois são fundamentais para atenuar as graves desigualdades de renda no país e colaborar com a dinâmica econômica, principalmente nas regiões mais pobres, como Norte e Nordeste.

Infelizmente, o quadro político se deteriorou muito nos últimos 12 meses e se os impasses institucionais do país não forem resolvidos, dificilmente teremos tranquilidade para avançarmos na estabilidade econômica e no retorno do crescimento.

Notas

[1] Crise no Brasil é política e não econômica, diz Abílio Diniz. Época Negócios, 02/11/2015. Disponível em http://epocanegocios.globo.com/Economia/noticia/2015/11/crise-no-brasil-e-politica-e-nao-economica-diz-abilio-diniz.html

[2] Sem pacto, teremos anos sem desenvolvimento, alerta Maria da Conceição. Brasil em Debate, 09/11/2015. Disponível em http://brasildebate.com.br/sem-pacto-social-serao-anos-sem-projeto-de-desenvolvimento-alerta-maria-da-conceicao/. Ver também LEBLON, Saul. Conceição: 'a arma deles é a desesperança. Não Passarão". Carta Maior, 12/11/2015. Em http://cartamaior.com.br/?/Editorial/Conceicao-A-arma-deles-e-a-desesperanca-Nao-passarao-/34971

[3] BATISTA JR. Paulo Nogueira. Conselheiro Acácio: o óbvio também precisa dos seus defensores, dos seus entusiastas. Jornal O Globo. Opinião, 12/11/2015. Disponível em http://oglobo.globo.com/opiniao/conselheiro-acacio-18037556.

[4] Sidney Resende, conhecido jornalista que atuava até recentemente como âncora da Globo News e foi fundador da CBN, antes de ser demitido publicou em seu blog declarações que dizem respeito ao sentimento de ódio que permeia parte da imprensa brasileira, que acaba influenciando o clima de pessimismo no país. No texto ele é direto: "Há uma má vontade dos colegas que se especializaram em política e economia. A obsessão em ver no Governo o demônio, a materialização do mal, ou o porto da incompetência, está sufocando a sociedade e engessando o setor produtivo". E mais: "Reconheço a importância dos comentaristas. Tudo bem que escrevam e digam o que pensam. Mas nem por isso devem cultivar a "má vontade" e o "ódio" como princípio do seu trabalho. Tem um grupo grande que, para ser aceito, simplesmente se inscreve na "igrejinha", ganha carteirinha da banda de música e passa a rezar na mesma cartilha. Todos iguaizinhos". Para acessar o texto na íntegra, basta acessar RESENDE, Sidney. Chega de notícias ruins. Blog SRZD, 12/11/2015. Disponível em http://www.sidneyrezende.com/noticia/257037+chega+de+noticias+ruins 

[5] BATISTA JR. Paulo Nogueira. Não há tragédia fiscal, mas crise ameaça democracia. Entrevista a Eleonora de Lucena. Jornal Folha de São Paulo, Caderno Mercado (9), 25/10/2015. Disponível em http://acervo.folha.com.br/fsp/2015/10/25/10/