A Polícia Federal está com todas as atenções voltadas para os inquéritos relacionados aos crimes eleitorais. Com essa afirmação, o delegado José Pinto de Luna, superintendente da Polícia Federal em Alagoas, define as ações da instituição no estado atualmente. Em entrevista ao CadaMinuto, Luna falou ainda sobre a carência de delegados em Alagoas e sobre o crescente índice de violência.
Sobre irregularidades no interior do estado relativas ao desvio de verbas federais, o delegado colocou que situações como a denunciada em Joaquim Gomes também ocorrem em outros municípios.

Cada Minuto – Como o senhor recebeu as declarações do Cícero Ferro de que o senhor estaria “se metendo” no Governo e no Ministério Público?
José Pinto de Luna – Eu não vi, mas fiquei sabendo por meio de alguns repórteres que ele fez menção a minha pessoa e à Polícia Federal também. É um direito que ele tem de se manifestar e eu também, ele defendendo os interesses dele e eu defendendo a Polícia Federal, que é um órgão público federal que tem o dever de representar a Polícia Judiciária da União. Então, o fato de ele falar isso talvez seja porque ele é investigado. Eu respeito a opinião dele e respeito o órgão de comunicação que deu espaço a ele, tem que ser assim mesmo. Mas, há a minha opinião enquanto superintendente e cidadão.

CM – Há deputados, indiciados na Operação Taturana, que disseram que não participaram do esquema que desviou cerca de R$ 300 milhões dos cofres da ALE. Como o senhor avalia essas declarações?
JPL – Nós temos laudos que comprovam isso. Se rouba R$ 1 milhão em Alagoas com uma canetada. Tem bandido que se arrisca e entra em um banco para roubar R$ 20 mil, enquanto que para roubar R$ 1 milhão é rapidinho.

CM – Em relação às denúncias em Joaquim Gomes sobre o desvio de verbas federais, o que o senhor observou na sua visita à cidade?
JPL – É uma cidade pequena, pobre. A princípio foi constatado, na primeira análise, que há irregularidades no Fundeb e a gente vai fazer uma investigação a esse respeito. Os professores alegam que eles teriam direito a um rateio de cerca de R$ 800 mil, que daria para cada profissional aproximadamente R$ 4.700. A Prefeitura alega que esse valor é menor e seria em torno de R$ 50. Nós achamos que havia uma discrepância muito grande, então, antes de abrir um inquérito policial, eu estive em Joaquim Gomes para poder conversar com o líder sindical que alertou sobre a situação e para visitar a cidade e ver a situação do local. O povo ficou surpreso quando a gente chegou lá e eu também fiquei, porque disseram que nunca um superintendente da Polícia Federal foi a Joaquim Gomes, o que é um absurdo, porque eu sou um superintendente estadual, eu tenho que ir a cidades onde o interesse da União está envolvido.

CM – Há denúncias em Joaquim Gomes sobre a prefeita Cristina Brandão?
JPL – Não, a gente vai apurar as responsabilidades. Primeiro, se houve desvio no Fundeb, quem foi o autor, se foi a Prefeita, vamos investigar.

CM – É possível que esse tipo de desvio tenha sido feito sem o consentimento da prefeita?
JPL – Não, em regra geral não. Mas, de repente pode ter um secretário que age sobre a delegação da prefeita, mas quem é o ordenador de despesa é a Prefeitura. Tivemos um caso, da Prefeita de Passo do Camaragibe, que esteve aqui conosco, que foi condenada pelo Tribunal de Contas da União. Nós atendemos todo mundo no gabinete. Raramente é difícil o prefeito não saber o que está acontecendo na sua administração.

CM – Essas denúncias de Joaquim Gomes faziam parte do material que já havia sido recebido pelo senhor desde que assumiu a Superintendência em Alagoas?
JPL – Sim e a insistência dos líderes locais, que vieram até aqui, e nós fomos verificar in loco.

CM – Fora essa denúncia, há indícios de outras irregularidades em Joaquim Gomes?
JPL – Temos que apurar. Fundamentalmente é a questão do Fundeb, mas, temos que apurar. Geralmente tem a questão da merenda escolar, transporte escolar, a gente vai dar uma olhada nisso para trabalhar em cima de fatos concretos. Mas, isso não é só em Joaquim Gomes, que teve a minha presença física, há vários municípios que tem irregularidades.

CM – Há algumas semanas, o sub-secretário de Defesa Social, Washington Luís, disse que o índice de violência em Alagoas é tolerável. Como o senhor vê o crescimento desses números no estado?
JPL – Eu vou falar como cidadão e como cidadão, nenhum índice de violência é tolerável, porque violência não se tolera. Como técnico que eu sou, pós-graduado em Segurança Pública e um dirigente, acho que você tem que manter os índices de crime contra a vida o mais baixo possível, porque patrimônio a gente recupera, mas vidas não. É lamentável que esteja acontecendo essa quantidade de mortes. A Polícia Federal se retraiu de atuar em alguns crimes na esfera do estado, porque nós já entendemos que fizemos transferência de tecnologia e sabemos que o Paulo Rubim tem a metodologia de trabalho, tem os assessores dele, e agora é só trabalhar, agora cabe a eles fazer isso. Dizemos a ele que somos parceiros e vamos continuar parceiros, mas agora a Polícia Federal tem a sua própria cruz para carregar. Hoje, a nossa cruz se chama eleitoral, os crimes eleitorais e temos que dedicar as nossas forças para esses casos.

CM – O efetivo da PF é pequeno em Alagoas?
JPL – Sim e a administração central achou que tinha que ser menor ainda, porque a análise que é feita é em cima do número de inquéritos policiais, e também algumas pessoas podem pensar assim. Nós temos em torno de 1.700 inquéritos com 10 delegados, que ficaria com 170 cada um, isso é pouco comparando com a carga que se tem em São Paulo, por exemplo. Mas, se você pega um inquérito como a Operação Taturana, você acabou com o delegado.