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Quando estudante do curso de graduação em economia, costumava frequentar nas manhãs de sábado, com assiduidade, a Livraria e Papelaria Cultura na Av. Getúlio Vargas, em Campina Grande-PB. A livraria do Juarez, como era conhecida, um professor de matemática da Universidade Federal da Paraíba, apaixonado por livros.

A estante de livros de ciências humanas tomava uma parede inteira de aproximadamente oito metros. A parte reservada aos títulos de economia ocupava quase um terço desse espaço. Nas décadas de 1980 e 1990, a produção nessa área era muito razoável, tanto editoras comerciais como as universitárias apostavam no sucesso dos autores e temas tratados. Essas últimas ainda apostam em livros acadêmicos, o que não é nenhuma novidade pois elas têm essa finalidade. Por outro lado, isso não acontece com frequência e quantidade com as demais editoras.

O produtivismo científico e o pequeno peso e contribuição que os livros emprestam às avaliações da pós-graduação no país, direcionaram os interesses de nossos “cientistas” para a produção em escala de paper’s, com intuito de rechearem seus currículos e fazer valer os critérios que a Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Ensino Superior (Capes) utiliza para criar o ranking dos melhores mestrados e doutorados do país.

Se esse movimento ainda não representou um aumento considerável de nossa produção científica no total da produção mundial (13º no ranking), enquanto, também, não significou um milésimo de acréscimo no fator que mede o impacto que nossa ciência pode provocar em diversas áreas do conhecimento, foi responsável pelo encolhimento da produção, na forma de livros, de trabalhos de maior fôlego e perenidade.

Pode ser que nossa colocação esteja equivocada para algumas áreas do conhecimento no campo das ciências humanas, mas não parece haver grandes dúvidas quando nos referimos à disciplina de economia.

O costume de frequentar livrarias, virtualmente e fisicamente, ainda é um hábito que conservo com muito zelo, ainda mais quando todos na minha casa (esposa e filhos) defendem a ideia quando saímos em lazer. Nessas visitas observo como as estantes e prateleiras que se destinavam a exposição de livros sobre economia são cada vez mais menores, e os poucos títulos ficam misturados aos “best-sellers” do mundo dos negócios, da administração manualesca – que tem fórmula para tudo -, da contabilidade e, até, se juntam aos livros de autoajuda.

Recentemente, numa visita à Livraria Cultura no conjunto nacional, em plena Av. Paulista, São Paulo, insisti subir dois vãos de escadas, já sem esperanças, em busca de alguma novidade na área de economia. Encontrei a estante. Passei pelo menos trinta minutos diante dela, em meio aos manuais e títulos de introdução da considerada “ciência triste”. A maioria deles só muda de editora, forma de apresentação, os exemplos e exercícios. O conteúdo é praticamente o mesmo.

Procurando mais um pouco, batendo o olho com mais atenção, reluz na minha frente um livro de cor laranja, com ilustrações na capa em amarelo, muito chamativo. Pelo seu autor, o interesse foi despertado. Ha-Joon Chang, o jovem economista sul-coreano, professor da Universidade de Cambridge, conhecido internacionalmente pelo seu livro Chutando a Escada: a estratégia do desenvolvimento em perspectiva histórica (São Paulo: Unesp, 2004), onde retoma a discussão sobre o papel do protecionismo no processo de desenvolvimento econômico, resgatando a tese do alemão Friedrich List, que influenciado pelo norte-americano Alexandre Hamilton, polemizou, no século XIX, com os economistas que defendiam, ardorosamente, o livre comércio como estratégia de desenvolvimento.

Em 1841, List lançou seu livro o Sistema Nacional de Economia Política, realizando uma crítica demolidora aos pressupostos liberais de sua época. Ha-Joon Chang em Chutando a Escada, recuperou essa discussão e demonstrou como as principais economias desenvolvidas do século XX não prescindiram de políticas estratégicas de proteção econômica, bem como não lançaram mão do papel do Estado como eixo indutor do desenvolvimento. Aquele livro rendeu à Chang dois prêmios importantes: Prêmio Gunnar Myrdal, em 2003, e o Prêmio Leontief, em 2005.

Depois de outro texto instigante em que nosso autor denuncia uma “conspiração internacional” em favor dos países mais ricos, que influencia a dinâmica da economia globalizada, através da tríade FMI-OMC-Banco Mundial (Maus Samaritanos: o mito do livre-comércio e a história secreta do capitalismo. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009), ele lança em 2014, traduzido agora para o português, Economia: modo de usar – um guia básico dos principais conceitos econômicos (São Paulo: Portfolio-Penguin, 2015).

Em os Maus Samaritanos, o professor de Cambridge já abordava categorias econômicas com muita habilidade, observando, com atenção, sua utilidade na interpretação dos fenômenos do desenvolvimento econômico. Manuseava dados estatísticos competentemente, em busca da objetivação de seus argumentos centrais, quase sempre apresentados de forma muito didática e clara.

No novo livro Chang é muito honesto em seu objetivo, exposto na parte final, no epílogo: “Meu objetivo neste livro tem sido o de mostrar ao leitor como pensar, não o que pensar, sobre economia” (p. 409). Ao terminar a leitura, conferimos que o autor alcançou seu objetivo, principalmente porque faz uma leitura sobre economia numa perspectiva que, infelizmente, tem ficando cada vez mais rara nas salas de aula dos cursos dessa disciplina; apresenta, pelo menos, nove escolas do pensamento econômico e suas variantes, demonstrando que o pensar em economia é muito divergente. Além disso, constrói diálogos entre algumas delas, mostrando as convergências e, principalmente, suas diferenças.

Justamente por ser um campo do conhecimento muito divergente, com dificuldades de se alcançar um mínimo de harmonia conclusiva sobre temas centrais que envolvem, por exemplo, estratégias de desenvolvimento, políticas econômicas (fiscal, monetária e cambial), papel do Estado, funcionamento do mercado, a relação entre economia e mercado etc., o heterodoxo economista sul-coreano é muito enfático em afirmar que a economia não é uma ciência. Os que desejam que assim o fosse e defendem ardorosamente esse status - conferido à física ou matemática, por exemplo - são, justamente, aqueles autores e seus seguidores que tentam embutir na sociedade apenas uma maneira de compreensão econômica do mundo, uma teoria econômica convencional, a teoria liberal-neoclássica.

Nisso concordamos: economia não pode ser uma ciência porque é um campo do conhecimento cercado por valores políticos e morais. Segundo suas próprias palavras, a

“economia é uma disputa política. Ela não é – e nunca pode ser – uma ciência; não há verdades objetivas na economia que possam ser estabelecidas independentemente de julgamentos políticos, e com frequência de julgamentos morais”.

E ainda alerta aos que gostam de discutir economia:

“[...] quando participar de uma discussão sobre economia, você deve fazer a velha pergunta Cui bono? (A quem isso beneficia?), tornada célebre inicialmente pelo estadista e orador romano Marco Túlio Cícero” (p. 409).

Dividido em duas partes e com doze capítulos e diversas subseções, Economia: modo de usar, é de leitura muito fácil, didática, repetindo as características de um professor que tem respeito pelo que faz e responsabilidade pelo que diz.

Outra grande virtude que torna esse “manual” muito útil aos não-especialistas, é a abordagem histórica que Chang adota. Ele sabe combinar muito bem a discussão teórica com o contexto histórico. Ao fazer isso demonstra como os movimentos políticos são influenciados, também, pelo debate econômico e aponta seus "vencedores". Nesse caso, o professor de Cambridge se coloca no espectro heterodoxo da análise econômica, resgatando a tradição da economia política de realizar a crítica às formas dominantes de se pensar e produzir nesse campo.

Teríamos algumas poucas colocações sobre problemas de ordem mais epistemológica encontrados no texto. Sobretudo quando Chang apresenta a resumida perspectiva marxista e conclui afirmando, equivocadamente, que Marx era economista e a questão central de sua teoria era o reconhecimento da importância da inovação tecnológica no processo de desenvolvimento capitalista (p. 126). Nada mais equivocado resumir a teoria da crítica ao capital de Marx a esse aspecto. Outro exagero foi afirmar que Joseph Schumpeter não foi um dos maiores nomes da história da economia (p. 134).

Mas, esses “pequenos” detalhes e outras incorreções não comprometem o novo livro de Ha-Joon Chang, que traz, ainda, uma lista de bibliografias ao final dos capítulos e uma discussão complementar nas notas finais de cada um deles. Enfim, Economia: modo de usar – um guia básico dos principais conceitos econômicos chega em momento muito oportuno, em tempos de crise econômica, em tempos de crise da interpretação dos problemas econômicos, em tempos de crise da produção de trabalhos nessa área. Para os estudantes de economia, uma excelente oportunidade de abrir a mente; para os não iniciados nela, uma alternativa inteligente ao senso-comum; para os “versados”, ditos especialistas, precisa-se de muita humildade intelectual para passar em revista alguns temas e conceitos tratados no livro, para depois adentrar nas novidades, nos argumentos críticos que desmontam argumentos que muitos pensam ser a última palavra sobre economia.

Outra novidade na área felizmente apareceu também em 2015: Dinheiro, dinheiro: inflação, desemprego, crises financeiras e bancos (São Paulo: Portfólio-Penguin, 2015), de João Sayad, professor da FEA-USP. Mas seu tratamento analítico fica para os próximos dias...aguardem.

PS: aos interessados em uma discussão recente sobre a economia como ciência ou não, ver o artigo de Joris Luyendijk, publicado na Folha de São Paulo em 14.10.2015, sob o título Não deixe o Prêmio Nobel enganá-lo: a economia não é uma ciência [clique aqui]