Quais as urgências, carências e prioridades atuais na vida brasileira, no momento em que o imaginário nacional divaga sobre as possibilidades de uma injeção extra de recursos, a médio prazo, com a exploração das reservas petrolíferas recém-descobertas em águas territoriais? Em pronunciamento feito em cadeia nacional de rádio e TV, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu neste domingo que a população acompanhe passo a passo as discussões dos projetos de lei sobre o pré-sal no Congresso. Em consonância com as prioridades estabelecidas pela presidência da República, nenhum dos expoentes de diversos setores ouvidos pelo Jornal do Brasil deixou de citar a educação como campo carente de todas as atenções.

O professor Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda com formação burilada na escola de Economia da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), no Chile, entende que as carências e prioridades brasileiras são bastante óbvias:

– Um exemplo é a educação. Na ciência e tecnologia, também, o Brasil avançou muito, mas ainda tem muito que caminhar, e o investimento ainda é baixo diante do Produto Interno Bruto (PIB) – diz Belluzzo.

O professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) a busca de eficiência educacional passa não só pelo problema salarial.

– Há um grande absenteísmo de professores. Precisamos de professores bem treinados e que não faltem às aulas. A escola pública caiu muito de qualidade por conta não só da indisciplina como da ausência de professores. Esse modelo cheio de tolerância não funciona – critica.

Alunas da Escola Municipal Pereira Passos, no Rio de Janeiro, confirmam a situação. Gabriela Pereira, Thayna Cristine Nascimento e Tatiane Martins foram para casa na última sexta-feira às 10h, pois o professor de Ciências havia faltado.

– Esse professor não costuma faltar muito – contou Thayna, de 7 anos.

Outros alunos circulavam pelo pátio ou saiam livremente no mesmo horário. Procurada pela reportagem do JB, a diretora da escola disse não ter permissão para dar entrevista.

Universalização

Helio Jaguaribe, sociólogo, cientista político e escritor também considera que a principal urgência é a educação, com a generalização do saber crítico do mundo.

– A nossa posição mundial, em matéria de nível educacional, é intermediária. Não temos o melhor sistema do mundo, mas certamente não temos o pior. Temos com certeza uma das melhores educações do Terceiro Mundo – diz.

Jaguaribe afirma, no entanto, que o país necessita universalizar um nível satisfatório de conhecimento para a população. Segundo ele, o patamar educacional no terço menos instruído do país é “muito modesto”.

Já o economista Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas (FGV), argumenta que o simples direcionamento de recursos para a educação não é suficiente.

– É um motivo nobre guardar o dinheiro dos royalties para a educação, mas o ideal seria que fossem criadas também metas junto ao Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). O Ideb, por ter metas na educação até 2021, deveria ser um norte para acompanhar o avanço das escolas – ressalta.

Analfabetismo no país é maior que média da AL

m 2007, o Brasil ocupava a nona posição no ranking de países com maior taxa de analfabetismo da América Latina e do Caribe. A taxa de analfabetismo brasileiro (11,1%) era superior à média dos países da região (9,5%). O Brasil perde para Haiti, Nicarágua, Guatemala, Honduras, El Salvador, República Dominicana, Bolívia e Jamaica em número de pessoas que não sabem ler nem escrever.

Segundo dados publicados há poucos dias pelo IBGE, a taxa de analfabetismo urbana do Brasil é muito superior às apuradas no grupo de países fundadores do Mercosul, por exemplo. Em 2005, o Paraguai tinha taxa de 5,6%; a Argentina, de 2,8% e o Uruguai, de 2,0%. A menor taxa da região foi apurada em Barbados (0,3%).

Os dados reunidos pelo IBGE mostram também um esforço significativo de redução do analfabetismo em vários países latino-americanos, entre 1995 e 2005. No Brasil, houve uma queda na taxa de analfabetismo urbana para população acima de 15 anos de idade de 15,3% para 11,1% no período. Na Bolívia, caiu de 17,9% para 11,7%. No Paraguai, de 8,1% para 5,6%. No Peru, de 12,2% para 8,4%.

Segundo Ana Saboya, responsável pela consolidação de indicadores sociais do IBGE, o contingente de analfabetos ainda é muito expressivo e tem sido um desafio para os governos.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), na qual foi baseada a síntese divulgada no dia 4 de agosto, revelou, para o total do país, uma taxa de analfabetismo de 10,5% em 2006, o que corresponde a 14,4 milhões de indivíduos.

A taxa variava significativamente também entre as regiões: enquanto no Nordeste chegava a 20,8%, ou exatamente o dobro da média do país, no Sul era de 5,7%. Dos 14,4 milhões de analfabetos no País em 2006, mais da metade, ou 7,6 milhões, estavam nessa região.