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Esse é o quinto e último artigo de uma série que analisa aspectos mais gerais da ciência e tecnologia sob o prisma de algumas variáveis que correspondem à produção cientifica e aos nossos recursos humanos.

No artigo anterior a este, observamos que do ponto de vista da evolução dos grupos de pesquisas e número de pesquisadores, o Brasil avançou extraordinariamente. Em 2000 contávamos com 50,6 mil pesquisadores, entre doutores, mestres, especialistas e graduados. Em 2014 passamos para mais de 200 mil. De 29,2 mil pesquisadores doutores naquele ano, contamos agora com 140,2 mil. A evolução da participação do número de doutores no número de pesquisadores, em geral, foi de 57,8% para 68,1% no período considerado.

Somente para efeito de comparação, entre 1990 e 2001 titulamos 37,6 mil doutores, uma taxa de crescimento de 15,9%. Entre 2002 e 2014 foram 110,9 mil novos doutores formados, uma taxa de evolução de 378%. Isso não é de maneira alguma desprezível, demonstrando que nosso sistema de Pós-Graduação avançou e realizou um esforço fundamental para elevar a relação do número de doutores por 100 mil habitantes de 16,2 para 69,2. Não podemos fechar os olhos para isso.

Em termos internacionais esse dinamismo supera o de muitos países, a exemplo da Coréia do Sul, geralmente citado pela literatura especializada como um dos que mais investiram em educação e tecnologia nas últimas décadas (CARNEIRO JR. S. & LOURENÇO, 2003; MARCHELLI, 2005).

É preciso considerar que outros exemplos como Estados Unidos, Alemanha, França e Japão já possuem sistemas de Ciência, Tecnologia e Inovação (C,T&I) consolidados, portanto o crescimento do número de pesquisadores não parte de uma base tão baixa de estoque, cresce marginalmente. O que o Brasil realizou entre 2002 e 2014 foi realmente uma pequena revolução nesse aspecto.  

Se, por um lado, essa expansão tem que ser comemorada, por outro traz consigo vários problemas e desafios. Dentre eles, e talvez o principal, é a dificuldade de expandirmos os recursos financeiros e o fomento à pesquisa no país para que se tornem compatíveis com a evolução da massa crítica formada nos últimos anos. Outro fundamental é a deficiente cultura de distribuição dessa massa crítica pelas diversas instituições e segmentos produtivos; ainda resiste a tradição desses pesquisadores de alta qualificação serem absorvidos pelo setor público, Universidades, Institutos de Pesquisas e algumas grandes empresas estatais. Apesar de uma consciência crescente da necessidade de incorporação da ciência, tecnologia e, principalmente, inovação, os setores privados, principalmente produtivos, resistem muito incorporar esse tipo de força de trabalho altamente qualificada, muitas vezes em decorrência das instabilidades e fortes variações dos ciclos econômicos.

Outros problemas fundamentais podem ser lembrados, revelando o tamanho dos nossos desafios em avançarmos na ciência e tecnologia no país. Trata-se, por exemplo, da deficiente, mas importante, expansão da rede universitária pelo interior do país. Esse movimento apesar de estratégico, deixou muito a desejar em termos de infraestrutura de pesquisa (laboratórios, equipamentos, insumos, conectividade etc.). Por último, não se pode deixar de ser mencionado os baixos salários pagos aos pesquisadores, principalmente aqueles que estão iniciando sua carreira profissional. De fato, o nível de salários daqueles que terminam o curso de doutorado e estão aptos para começarem uma carreira científica e de pesquisa, não é atrativo de maneira alguma quando comparado a outras carreiras de Estado, importantes por sinal, mas que exigem níveis de qualificação mais simples e executam atividades menos complexas.

Arrematando, o fato é que deve-se comemorar a expansão do número de pesquisadores no Brasil, uma pequena revolução que impõe novos e grandes desafios para a política de C,T&I que, se não for apressada, é grande a ameaça de perdermos jovens talentos e cérebros para os grandes centros de pesquisas mundial.

Também, registramos no último artigo que essa pequena revolução atingiu, em cheio, a estrutura de distribuição de pesquisadores no país. Mesmo assim as desigualdades regionais resistem, mas grandes avanços foram percebidos. O principal deles foi o impacto que isso teve sobre que a região Nordeste, amplamente contemplada com essa expansão. Possuímos agora 20,4% dos 35,4 mil grupos de pesquisas do país cadastrados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), quando tínhamos apenas 14% em 2000. Com essa evolução nos aproximamos dos estados sulistas que têm, juntos, 22,4%, e chegamos a quase metade da região Sudeste, 43,9%, quando em 2000 alcançávamos apenas um quarto disso.

Se em 2000 a relação do número de doutores por 100 mil habitantes era de apenas 7,7, três vezes menor que o Sudeste (23,8), em 2014 essa relação cresceu extraordinários 500%, passando para 47,1, enquanto o Sudeste registrou 78,4. Agora, a diferença é de apenas um e meio em relação ao Sudeste. Movimento muito próximo aconteceu com o Norte do país. São números realmente incontestáveis.

Importa nesse momento fazer algumas indagações: como isso se refletiu internamente no Nordeste? Que lugar ocupa Alagoas nessa pequena revolução? Que desafios a região e o estado enfrentam diante dessas mudanças estruturais no perfil da distribuição do número de pesquisadores no país e elevação dos grupos de pesquisa? O que isso significa para o sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação em Alagoas? Que obstáculos nos aguardam? Qual papel cabe a política pública daqui em diante?

São questões que abordaremos agora e pedimos a paciência do leitor, pois não poderíamos finalizar essa série de artigos nos furtando em responder questões que consideramos relevantes e dão conteúdo a esse artigo.

A região Nordeste conta atualmente com 46 mil pesquisadores no total. De 2000 a 2014 o número de pesquisadores com título de doutor registrados pelo CNPq passou de 3,7 mil para 26,4 mil um incremento nada desprezível de mais de 600%, o que dá uma média de crescimento anual de 40%. O percentual de doutores no número total de pesquisadores chegou a 61,5%, um pouco abaixo da média brasileira de 68,1%.

Bahia, Pernambuco, Paraíba e Ceará possuem os maiores estoques de pesquisadores. São centros regionais por excelência em ciência e tecnologia e não é por outra razão que contam com Parques Tecnológicos consolidados, reunindo conhecimento e capacidade científica em diversas áreas, com destaque para engenharia elétrica, computação e saúde. Os seus respectivos sistemas universitários também são bem maiores e contam com várias instituições.

Em todos os estados do Nordeste o crescimento do número de pesquisadores foi muito elevado. Importa observar a relação do número de doutores em relação ao total de pesquisadores e em relação a população. No primeiro caso, excetuando o Maranhão e o Piauí, todos os demais estão muito próximos da média regional (61,5%), destacando-se Pernambuco (68,6%) e a Paraíba (67,5%). Alagoas se posiciona muito bem em relação ao Nordeste, 59,5%. Entretanto, em comparação com, por exemplo, Pernambuco e Paraíba que têm um estoque muito baixo de pesquisadores com mestrado em relação ao total, 25% e 23%, respectivamente, Alagoas tem mais de 30%. Isso revela uma necessidade de uma política estratégica de diplomação de nossos mestres em doutores.

Quando conferimos a relação do número de doutores por 100 mil habitantes em 2014, novamente a Paraíba e Pernambuco se destacam. Certamente em razão de sua enorme população, a Bahia não leva muita vantagem, ao contrário do Rio Grande do Norte e Sergipe.

Entretanto, o que realmente salta aos olhos é a evolução de todos os estados nesse quesito. Alagoas, por exemplo, somente contava com 5 pesquisadores doutores por 100 mil habitantes em 2000, agora tem mais de 40, número ainda abaixo da região, 47,1. O Maranhão passou de 2,7 para 17,2. Isso é muito significativo considerando as condições socioeconômicas ainda prevalecentes nesses territórios, com elevadas taxas de analfabetismo e atraso em vários indicadores. Porém, como foi colocado acima, precisamos em Alagoas tanto atrair como manter e formar pesquisadores com título de doutor. Mais na frente voltaremos a esse assunto.

Uma consequência natural da expansão do número de pesquisadores no país e, especialmente, no Nordeste foi a criação de grupos de pesquisa liderados por doutores e cadastrados no CNPq, objetivando acessar os recursos que são disponibilizados, via editais, para financiar projetos de pesquisas, viagens científicas, editoração de livros e revistas, infraestrutura física e de laboratórios etc.

Em 2000 tínhamos no Brasil 11,7 mil grupos de pesquisas e passamos para mais de 35 mil em 2014. O incremento no Nordeste foi de 1,7 mil para 7,2 mil no mesmo período, portanto multiplicando por quatro a quantidade dos grupos de pesquisa. Novamente, aparecem bem no quadro Bahia, Pernambuco, Paraíba e Ceará.

Alagoas ocupa uma posição intermediária e conta, atualmente, com 442 grupos de pesquisa, contra apenas 67 em 2000. Para o padrão regional dos estados que, de fato, desenvolveram um sistema mais robusto e vanguarda na ciência, tecnologia e inovação, é ainda muito tímida nossa posição, mas não podemos desperdiçar essa oportunidade. É preciso avançar com políticas estratégicas que estimulem esses grupos e seus pesquisadores se desenvolverem, a criação de novos e a garantia de fluxos contínuos de fomento à pesquisa que os contemplem.   

São muito fortes os indícios históricos que explicam que alguns países que alcançaram elevados níveis de desenvolvimento científico e tecnológico o fizeram através de investimos maciços, por um longo tempo, em educação básica, preparando seus jovens para o mercado de trabalho e, especialmente, garantindo as possibilidades de formação continuada nos níveis de pós-graduação, dedicando nesses estágios recursos financeiros não-reembolsáveis e instituições capazes de propiciarem o ambiente favorável ao desenvolvimento de pesquisas e a interação entre as mesmas e a própria sociedade que a circunda.

Por essa razão, quando falamos em massa crítica, expressamos nossa preocupação com o número e a qualidade de nossos pesquisadores, principalmente aqueles que detém título de doutor. Isso não é um mero exercício de preciosismo, pelo contrário. Um indivíduo que alcançou esse nível de formação supõe-se está preparado pelo longo processo de aprendizagem e experiência que obteve para caminhar com os próprios pés no mundo da ciência. Trata-se do começo de sua carreira e não o fim, como muitos imaginam e desejam.

Desviando nossa atenção agora para nossa realidade nordestina e, principalmente, alagoana, alguns desafios estão postos. Enfrentá-los é necessário para, concretamente, avançarmos em ciência, tecnologia e inovação. Em que pese já contarmos com um Plano Estadual para essa área, elaborado no final da gestão governamental passada, é preciso aprimorá-lo e incorporar outros aspectos e elementos estratégicos.

Substancialmente precisamos ser urgentes na construção e desenvolvimento de um sistema de informações e dados que nos permitam conhecer melhor o potencial cientifico e tecnológico de Alagoas. Por exemplo, algumas perguntas sem respostas continuam flutuando entre nós: quem são esses nossos pesquisadores? Onde se encontram e como se inserem nesses grupos de pesquisa? O que eles desenvolvem, como funcionam e quais suas demandas? De que maneira o sistema governamental de ciência e tecnologia dá cobertura aos nossos pesquisadores? Como são distribuídos os recursos entre os respectivos grupos de pesquisa? Etc. etc. Ou seja, sem estatísticas e indicadores torna-se difícil construir uma política estratégica de ciência, tecnologia e inovação em Alagoas.

Também, é preciso uma radiografia mais precisa do funcionamento de nossa pós-graduação. Fazer a relação dos grupos de pesquisa existentes no estado e os mestrados e doutorados. Levantar a demanda real atual e futura em relação a quantidade de bolsas de estudo, laboratórios e auxílios a pesquisa etc.

Recentemente 8 propostas de Pós-Graduação foram enviadas à Coordenação de Apoio à Formação de Pessoas do Ensino Superior (Capes), sendo 6 de mestrado e 2 de doutorado, somente entre as públicas (UFAL, UNEAL e UNCISAL). Por sua vez, a perspectiva no curto prazo é de mais 2 pós-graduação em nossos Centros Universitários privados. Somadas essas propostas com o número de pós-graduações que já existem, podemos passar de 40 cursos desse nível em Alagoas. Isso é muito alvissareiro, pois contribui, sumamente, para a expansão do sistema de formação daquela massa crítica a qual nos referimos e desenvolvimento das pesquisas e tecnologias que podem ter vários direcionamentos para as urgências do estado.

Outro aspecto que devemos evitar é a fuga de cérebros do estado, não somente por uma questão óbvia de necessidades, mas porque Alagoas não se pode dá ao luxo, com todos os problemas que reúne e assumindo contornos de prioridade, perder intelligentsia em um momento em que a escassez é elevada e seu poder de transformação é real.

É preciso reverter o fluxo de saída como o que ocorreu somente com a Universidade Federal de Alagoas, campus de Arapiraca, quando, em apenas 6 anos, mais de 60 mestres e doutores evadiram-se. Conter essa “hemorragia de cérebros” deve ser uma prioridade absoluta. Medidas urgentes precisam ser tomadas no sentido de melhorar as condições de trabalho e pesquisa nas instituições do interior, buscando fixar esses pesquisadores de alto nível, possibilitando o acesso aos recursos de fomento à pesquisa, de criação de laboratórios e compra de equipamentos, viabilização de eventos acadêmicos e científicos, conectividade etc.

Por fim, nossos pesquisadores e seus respectivos grupos de trabalho, bem como o sistema de pós-graduação, onde a maioria deles está acomodada, precisam estabelecer relações mais estreitas com os setores público e privados e vice-versa. Sabemos que existe ainda muito preconceito no Brasil sobre esse assunto, mais comum na periferia dos grandes centros de pesquisa.

Construir essas pontes não significa vulnerabilizar nossas instituições de ensino e pesquisa, principalmente as públicas. Esse tipo de preconceito mais atrapalha que ajuda no fortalecimento de nosso sistema de ensino, pesquisa e extensão, com prejuízos tanto para nossas universidades quanto para a sociedade. Especialmente a alagoana que sem essa conexão dificilmente caminhará no sentido do desenvolvimento, trazendo para mais de dois terços de sua população mais dignidade e segurança à vida, oportunidade de trabalho, ocupação e acesso aos bens que possam libertá-los da pobreza estrutural que sempre marcou nossa sociedade.

 

Bibliografia

MARSHELLI, P. S. Formação de doutores no Brasil e no mundo: algumas comparações. Revista Brasileira de Pós-Graduação, v. 2, n. 3, p. 7-29, 2005.

CARNEIRO JR. S.; LOURENÇO, R. Pós-graduação e pesquisa na universidade. In: VIOTTI, E. B.; MACEDO, M. M. (orgs.). Indicadores de ciência, tecnologia e inovação no Brasil. Campinas: Unicamp, 2003. p. 169-227.