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Um dos parâmetros usuais para aferir o desenvolvimento das ciências e técnicas de uma nação é sua inserção internacional na produção de artigos em revistas científicas respeitadas. Por essa ótica, uma breve análise das principais fontes de dados sobre o assunto revela um quadro de mudanças importantes, demonstrando que não é somente no campo econômico que o eixo de geração de riquezas está se modificando, o plano científico e tecnológico também vem acompanhando esse movimento.

Dados do Observatório da Ciência e Tecnologia, órgão do Conselho Superior de Avaliação do Ensino e Pesquisa da França, e trabalhados no gráfico logo abaixo, confirmam o que já era de conhecimento geral, que os EUA continuam liderando o ranking com a maior participação no total das publicações científicas mundial. Entretanto, essa colocação vem caindo relativamente. Em 2002, eles contribuíam com 29,9% de toda a publicação da produção científica mundial. Dez anos depois recuaram para 22,6%, significando uma queda de 25% em relação aquele ano. Nações como Reino Unido, Alemanha, Japão, França, Itália e Canadá também perderam participação no mesmo período.

Fonte: Observatoire des Sciences et Techniques. Elaboração nossa.

Dos países que participam do chamado grupo dos BRIC’s, três deles aumentaram a produção científica, com excepcional destaque para a China. Em 2002 os chineses contribuíam com apenas 3,8% das publicações internacionais, dez anos depois 12,6%, alcançando o segundo lugar no ranking mundial. Um crescimento nada desprezível de 232%. A Índia ocupa a nona colocação, com 3,1%, e o Brasil a décima terceira, com 2,2%. Entretanto, em termos de crescimento da produção científica e sua contribuição mundial, o Brasil expandiu 83% e a Índia 55%. Se mantermos essa velocidade até 2022, pelo menos, podemos ficar entre os oito países com maior produção científica mundial.

A Rússia, integrante também dos BRIC´s, ocupa hoje a décima sexta colocação. Sua participação recuou de 2,6%, em 2002, para 1,7%, em 2012, uma queda de 36%, portanto. Uma triste realidade para um país que no Pós-Segunda Guerra Mundial rivalizava com os EUA na vanguarda científica, em várias áreas do conhecimento, principalmente nas ciências do universo.     

Mesmo em queda na participação mundial da produção científica e tecnológica, não é de forma alguma desprezível o montante de recursos despendidos pelo governo dos EUA em Pesquisa e Desenvolvimento [P&D]. Em 2013 foram investidos o equivalente a 2,8% do PIB norte-americano, aproximadamente 130 bilhões de dólares. Quase metade desse montante foi executado pelo Departamento de Defesa dos EUA, como aponta estudos de Negri e Squeff [2014]. Somente para efeito de comparação, o governo brasileiro investe em P&D pouco menos de 8% daquele valor em dólar.

Em razão da crise econômica que atingiu os EUA entre 2007 e 2009, o elevado nível da dívida pública e a necessidade de ajustes fiscais para contê-la, o ritmo de crescimento dos investimentos em P&D no país vem desacelerando fortemente, o que tem comprometido a competitividade do país e afetado, diretamente, os avanços científicos e tecnológicos no médio e longo prazo. Por exemplo, o volume dos investimentos em 2013 em P&D é praticamente o mesmo verificado em 2006 [NEGRI e SQUEFF, 2014].

Se esses aspectos têm influenciado diretamente na perda de participação dos EUA no ranking mundial da produção científica, esse movimento é também percebido em todas as áreas do conhecimento, sobretudo quando comparamos com a evolução chinesa. Mesmo liderando ainda em todos os campos, a produção científica norte-americana declina em todos eles. Por outro lado, a produção chinesa cresce extraordinariamente e sua participação mundial já supera a norte-americana nas áreas de química e engenharia, ameaçando ultrapassar, em pouco tempo, também em física e matemática.

A correlação entre produção científica e tecnológica e a expansão da propriedade intelectual de patentes e marcas é muito elevada, principalmente naqueles países onde os sistemas e instituições responsáveis pelos avanços em C&T,I interagem muito fortemente com os sistemas produtivos.

Esse aspecto se evidencia quando se observa que o crescimento da curva da produção cientifica chinesa em termos mundiais é acompanhada pela evolução do número de solicitações de propriedade intelectual [patentes] e seu estoque. Inclusive, os chineses já ultrapassaram os EUA em pedidos de registros.

Conforme dados do World Intellectual Property Organization [WIPO], entre 2002 e 2012 o número de pedidos de registros do país asiático cresceu 1672%, enquanto dos EUA, no mesmo período, foi de 70%. O gráfico abaixo demonstra que, em 2011, a China alcança os EUA e a supera nos anos seguintes, chegando a marca espetacular de 734 mil pedidos de propriedade intelectual na forma de patentes.

Ainda assim, os EUA lideram o ranking mundial no estoque de patentes em vigor, com 2,3 milhões registradas em 2013, seguidos do Japão com 1,8 milhão e a própria China com pouco mais de 1 milhão. No entanto, a velocidade que China vem imprimindo nesse campo é espantosa e se nada alterar o curso dessa tendência, superará em poucas décadas o seu principal rival no campo econômico.

Fonte: World Intellectual Property Organization. Elaboração nossa.

O Brasil “nessa terra de gigantes” é muito tímido. Em número de patentes válidas o país tem oscilado entre a 19ª e 20ª colocação no ranking mundial. O número de solicitações entre 2002 e 2013 obteve, praticamente, mesmo percentual de crescimento norte-americano, 70%, mas em termos relativos o resultado naquele último ano representou apenas 1,3% dos EUA e 0,9% da China.

Em termos de participação na produção científica mundial, o Brasil ocupou, em 2012, a 13ª colocação, com melhor desempenho para área de biologia aplicada a ecologia, alcançando o 3ª no ranking, conforme quadro logo abaixo. Pode-se especular sobre esse resultado em particular a razão de possuirmos uma rede de instituições, governamentais, não-governamentais e privadas, que desenvolvem pesquisas vinculadas a preservação do meio ambiente, sobretudo por possuirmos a maior diversidade ecológica do planeta, com destaque para a Amazônia. Outro fator que também pode influenciar são os avanços científicos, na pesquisa básica e aplicada, nas ciências agrárias decorrente das escolhas que reforçam nossa tradicional vocação primária-exportadora.

Fonte: World Intellectual Property Organization. Elaboração nossa.

 

O crescimento da participação brasileira na produção científica mundial aconteceu em todas as áreas, com exceção da física. Mesmo assim, além do caso já mencionado da biologia aplicada a ecologia, somente as ciências médicas superam nossa participação no geral [13ª], ocupando a 11ª colocação. Destaca-se também a evolução da participação das ciências humanas e sociais.

As taxas de crescimento da nossa participação na produção científica mundial [86%] e evolução do número de solicitações de propriedade intelectual [70%] são muito próximas. Pode ser apenas uma coincidência e para eliminar essa desconfiança seria apropriado um estudo mais profundo. Mas o certo é que sem produção de conhecimento e condições necessárias como fomento, infraestrutura e recursos humanos especializados, dificilmente um país pode superar as barreiras do subdesenvolvimento econômico. Ademais, estudo muito recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada [Ipea], aponta vários obstáculos à ciência brasileira que dificultam os avanços tecnológicos, inovação e sua internacionalização.

Entre esses problemas destacam-se a falta de pesquisadores, de laboratórios multidisciplinares, de recursos para manutenção de infraestruturas e equipamentos e maior interação com as políticas públicas e setores produtivos. Com eles as ciências no Brasil não conseguirão aproximar-se sequer da média internacional em termos de produção e avanços no campo da fronteira científica.

O que falaremos a seguir não serve de alento. Não obstante todos os problemas que as ciências no Brasil enfrentam, quando observamos a trajetória histórica no médio prazo percebemos que avançamos em algumas direções. Talvez a principal delas tenha sido justamente o reconhecimento do papel da Ciência, Tecnologia e Inovação [C&T,I] no desenvolvimento econômico e social. Muito ainda deve ser feito e nesse sentido é indispensável para qualquer país que almeje avançar em C&T,I, investir fortemente na formação básica, fomentar desde cedo o incentivo à pesquisa e curiosidade científica, melhorar sensivelmente as condições de trabalho, infraestrutura e remuneração dos professores e pesquisadores e, por fim, considerar a importância vital de pensarmos numa reforma do nosso sistema público universitário, o qual se mostra arcaico, insuficiente em recursos humanos e defasado tecnologicamente.

 

Bibliografia citada:

NEGRI, Fernanda de; SQUEFF, Flávia de Holanda Schmidt. Investimentos em P&D do Governo Norte-Americano: evolução e principais características. In: RADAR, N. 36, Brasília: Ipea, dezembro/2014. Disponível em http://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/3317/1/Radar_36_Investimentos.pdf.

NEGRI, Fernanda de; SQUEFF, Flávia de Holanda Schmidt. Infraestrutura científica e tecnológica no Brasil: análises preliminares. Brasília: IPEA, Nota Técnica 21, junho/2014.

DE FRANÇA, Luiz. Estudo evidencia a fragilidade da ciência brasileira. In: Revista Desafios do Desenvolvimento, ano 11, edição 82, dezembro de 2014.