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Em um dos capítulos de seu magistral livro O Universo numa Casca de Noz [Editora Nova Fronteira, 2009], o físico lucasiano Stephen Hawking, professor da Universidade de Cambridge, Inglaterra, da cátedra já ocupada pelo não menos brilhante Isaac Newton, faz as seguintes perguntas: é possível retornar na história? Uma civilização avançada poderia avançar no tempo e mudar o passado?

Conforme Hawking existe uma remota possibilidade: menos de 1 parte em 10 seguido por um trilhão de trilhões de trilhões de trilhões de trilhões de zeros. Ou seja, é “quase” impossível, fisicamente, voltarmos ao passado e alterarmos o curso da história. Se o campo das ciências exatas é taxativo sobre esse assunto, por outro lado as ciências sociais nos fornecem os meios necessários para fazermos essa "excursão", descobrir as razões que nos determinaram e influenciam nossas vidas até os dias atuais. Entretanto, para seguir nesse rumo possibilitado pelas ciências não-objetivas é preciso tempo...muito tempo, o que a maioria das pessoas não está predisposta a “perder”, compreender a si mesmas ou o porquê do funcionamento do mundo contemporâneo. Então vem a pergunta natural: com o futuro, estamos preocupados?

Nessa linha Hawking abre o penúltimo capítulo fazendo as perguntas: Nosso Futuro? Jornadas nas Estrelas? Com elas o físico de Cambridge fará algumas reflexões extremamente interessantes sobre como as vidas biológica e eletrônica continuarão evoluindo em complexidade a um ritmo sempre acelerado.

No filme de ficção científica Jornada nas Estrela: a próxima geração, Hawking joga pôquer com Comandante Data e os cientistas Isaac Newton e Albert Einstein [ver parte do video]. No estágio histórico em que se passa o longa-metragem, os avanços nos campos da ciência, tecnologia e sistema sócio-político alcançam a perfeição e estacionam, não sendo possíveis ir mais além.

Entretanto, Hawking questiona se algum dia alcançaremos um estado estacionário na ciência e tecnologia. Olhando para o passado, podemos afirmar também que isso foi impossível, mesmo nos períodos onde os sistemas políticos e o poder da força ideológica impediram grandes avanços. Fiel ao seu Princípio da Incerteza e muitíssimo influenciado pelos avanços da física quântica, Hawking considera o futuro da tecnologia um campo aberto à grandes invenções e aperfeiçoamento do modus operandi do homem em sociedade, com ajuda imprescindível da ciência.

Conforme suas próprias palavras: “Em nenhuma época nos cerca de dez mil anos desde a última Era Glacial, a humanidade esteve em um estado de conhecimento constante e de tecnologias fixa. Houve uns poucos retrocessos, como a Idade das trevas, após a queda do Império Romano. Mas a população mundial, que é uma medida de nossa habilidade tecnológica de preservar a vida e nos alimentar, tem crescido continuamente, com apenas algumas poucas interrupções, como a Peste Negra” [p. 157].

É certo que a população mundial continuará crescendo, mas numa velocidade bem abaixo das décadas anteriores, principalmente do século XX. Em tempos de hoje, com um taxa anual de 1,9%, em quarenta anos ela duplicará, o que nos joga desafios futuros importantes. Um deles é como a ciência e a tecnologia irão auxiliar na preservação dos recursos naturais e o uso racional de elementos vitais à sobrevivência humana no futuro, como a água por exemplo.

É verdade a afirmação do físico lucasiano de que o exponencial crescimento do consumo de energia em escala mundial e o número de artigos científicos publicados são exemplos importantes do desenvolvimento das ciências e técnicas que alcançamos. Entretanto, para ele esses extraordinários avanços alcançarão seus limites. Não obstante alguns aspectos questionáveis dessa sua colocação, ele é um cientista otimista, que não acredita que nos dissolveremos em qualquer tipo de processo de exterminação, como uma guerra nuclear por exemplo. Segundo ele, “não acredito que o gênero humano tenha chegado tão longe só para eliminar a si mesmo quando as coisas estão ficando interessantes” [p. 159].

Mesmo quando diante de nossos olhos o mundo parece estar se desintegrando em calamidades sociais, conflitos étnicos e religiosos, e o planeta reage com virulência ao uso irracional de seus recursos, o que está ficando interessante para Hawking?

Sua afirmação de que estamos chegando ao limite dos avanços científicos em relação ao conhecimento das leis básicas que regem o universo, demonstra o quanto a física e matemática avançaram, em dois séculos, sobre as razões da origem do mundo e suas inter-relações galácticas. Assim, o campo verdadeiramente aberto de exploração científica considerado por Hawking encontra-se em outro sistema bastante complexo: o corpo humano.

Descobrir as razões que determinaram a vida a partir de sua origem oceânica, há quatro bilhões de anos, é o grande desafio das ciências consideradas nobres. A hipótese levantada por Hawking de que as coalisões aleatórias entre átomos formaram macromoléculas capazes de autorreprodução, que resultaram em estruturas mais complexas, como o DNA, ainda está longe de ser comprovada. Entretanto, a ciência já tem como certo que há pelo menos 3,5 bilhões de anos a complexa molécula de DNA já existia.

A evolução do DNA e, portanto, da estrutura humana, tem sido lenta e gradativa durante quase todo esse período. Impulso maior foi dado, há pelo menos oito mil anos, quando a linguagem escrita se desenvolveu, permitindo muito mais rapidamente a comunicação intergeracional, sem “precisar esperar que o processo muito lento de mutações aleatórias e seleção natural a codificasse [a informação] na sequência do DNA [p. 163].

Para Hawking, os grandes avanços científicos nos próximos, pelo menos, cem anos virão dos esforços empreendidos para aumentar a complexidade de nosso registro interno, o DNA, dispensando o lento processo da evolução biológica. No entanto ele adverte sobre os riscos desses avanços se a engenharia genética for usada para fins de poder e controles totalitários. Mas parece que o caminho é irreversível: “Não é minha intenção defender a engenharia genética humana como um desenvolvimento desejável, mas apenas dizer que é provável que ela ocorra, queiramos ou não. Acredito que a humanidade e seu DNA aumentarão em complexidade muito rapidamente. Deveríamos admitir que isso provavelmente vai acontecer e refletir sobre como lidar com essa situação” [p.165].

Decerto que esses avanços possibilitarão aperfeiçoamentos nas qualidades físicas e mentais dos seres humanos. Para que eles aconteçam, Hawking explora nesse momento um interessante debate sobre os limites dos seres humanos e das máquinas, os computadores. A vantagem desses reside na crescente velocidade de processamento das informações e funcionamento de seus sistemas. Entretanto, os computadores não possuem inteligência, ao menos por enquanto. A velocidade e complexidade dos computadores aumentam a cada dezoito meses segundo Hawking. Em um futuro próximo, moléculas químicas que agem sobre o cérebro humano para aumentar os níveis de inteligência, poderão também ser apropriadas pelas máquinas e lhes possibilitar capacidade de raciocínio e discernimento um pouco mais sofisticados.

Portanto, Hawking admite o aumento da complexidade biológica e eletrônica, um campo escancarado para as ciências e tecnologias, onde a multidisciplinaridade é evocada em lugar da ultra-especialização. Quais são os limites e obstáculos a serem superados então?

Metaforicamente, assim como na teoria smithiana os limites à divisão social do trabalho e ao aumento da riqueza das nações são os tamanhos dos mercados, o limite à inteligência humana é o tamanho da caixa craniana. Entretanto, em ambos a ciência pode contornar esses limites. No segundo caso, conforme Hawking, os mensageiros químicos responsáveis pela fluidez da atividade mental, seu processamento, são relativamente lentos. “Aumentos posteriores na complexidade do cérebro se realizarão à custa de sua velocidade. Podemos ser muito espertos ou muito inteligentes, mas não ambas as coisas ao mesmo tempo [...] acredito que podemos nos tornar muito mais inteligentes [p.168].

Os circuitos eletrônicos dos computadores enfrentam o mesmo problema do trade-off da complexidade versus velocidade. Mas os mensageiros que fazem esses circuitos funcionarem não são químicos e sim elétricos, e estão limitados pela velocidade da luz. Essa é uma limitação natural para o aumento da velocidade dos processadores. E como tem sido contornado esse problema nas máquinas? Na diminuição cada vez maior dos tamanhos dos circuitos, o que também esbarra no limite fixado pela natureza atômica da matéria, segundo Hawking [p. 168].

Mas qual é a vantagem do cérebro em relação aos computadores e que pode ser potencializada pelo avanço da ciência? Em quê a superamos, mas não exploramos todo seu potencial? Nosso cérebro não possui apenas uma unidade central de processamento, chamada comumente de CPU, no caso dos computadores. Possuimos milhões deles funcionando ao mesmo tempo. Por essa razão, os avanços tanto biológicos quanto eletrônicos certamente se darão concomitantemente, se amparando um ao outro.

Quando o cérebro humano puder ser explorado em toda sua potencialidade, quando alguns desses processadores forem melhor conhecidos e sabermos como aproveitá-los em conjunto, com suas interconexões, teremos um ser humano melhor? Uma vida em sociedade retratada pelos filmes de ficção científica, com o homem somente administrando as ocorrências sinistras e potencializando suas habilidades? Não saberemos ao certo, mas com certeza serão inevitáveis esses avanços científicos e tecnológicos.

O futuro da ciência não será como a imagem reconfortante retratada em Jornada nas Estrelas – um universo povoado por muitas espécies humanoides, com ciência e tecnologia avançadas, porém essencialmente estáticas. Em vez disso, acredito que estaremos sós [sem companhias de seres vivos inteligente no Universo], mas evoluindo rapidamente em complexidade biológica e eletrônica”, finaliza o gênio Stephen Hawking [p. 171].

Enquanto ainda não chegamos nesse estágio da ciência e tecnologia descrito acima, e observando o que acontece em nossa volta, razão tem outro gênio que de cientista não tinha nada. Com a palavra Raul Seixas em sua clássica letra musical Ouro de Tolo;  

É você olhar no espelho/Se sentir um grandessíssimo idiota/Saber que é humano, ridículo, limitado/Que só usa dez por cento de sua cabeça animal/E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial/Que está contribuindo com sua parte/Para nosso belo quadro social.