5a7f7574 f8ed 4a25 9030 5ccf24557cc6

Desembarquei dia 24/03 em Túnis capital da Tunísia, exatamente uma semana após o atentado que vitimou 21 pessoas no Museu do Bardo, na absoluta maioria estrangeiras. O museu abriga importantes mosaicos que datam da ocupação romana no norte da África como também valiosas antiguidades gregas.

Da cidade do Cairo, Egito, segui à capital da antiga civilização fenícia [século VI a.c.], para participar de mais uma edição do Fórum Social Mundial [FSM]. A segurança no aeroporto onde há 3,5 mil anos dominou o lendário Tutankhamon, estava redobrada. Cheguei em Túnis com quatro horas a mais do fuso horário brasileiro. Fui direto para o centro da capital, onde se hospedou a maior parte das delegações estrangeiras. Segundo números da organização do FSM, são 60 mil inscritos no evento em 2015, 3 mil delegações confirmadas e 1050 atividades a serem realizadas.

Do chofer do táxi ao recepcionista do hotel, passando pelos organizadores locais do FSM, a opinião é unânime: o atentado no Museu do Bardo reforçou a necessidade do país aprofundar o regime democrático e lutar contra todo tipo de opressão praticada por regimes estatais e paraestatais. A realização do Fórum Social Mundial, uma semana após aquele fatídico dia 18/03, soa como um ato de forte apoio político, confiança e solidariedade com o povo tunisiano.

Em 2013 visitei Túnis pela primeira vez. Vale lembrar que foi por aqui que a Revolução Árabe deu início, empunhando a bandeira contra regimes político-governamentais ditatoriais e dinásticos, quase sempre apoiados pelas grandes potências e seus interesses em boa parte do continente africano. O clima naquele ano já era bem tranquilo e o povo nas ruas ainda comemorava um feito inédito.

O Hotel onde estou hospedado fica muito próximo à Praça 14 de janeiro, onde a população tunisiana se rebelou, em 2011, contra o governo ditatorial de Zine el Abidine Ben Ali, que passou 23 anos no poder. A revolta que forçou a queda de Ben Ali aconteceu depois da autoimolação do jovem Tarek bin Tayeb Bouazizi, em dezembro do ano anterior. Ele tinha 23 anos e colocou fogo contra o próprio corpo, após ter sido humilhado e espancado por um fiscal de tributos, que tentava apreender sua mercadoria e enfrentava a resistência do jovem.

A morte de Bouazizi somou-se a insatisfação popular com o desemprego, falta de perspectivas para os jovens, baixo nível de crescimento econômico, atividade agrícola desaquecida e níveis de corrupção elevados praticados pelos militares no poder.

O primeiro país a dar continuidade ao movimento revolucionário desencadeado pela Tunísia foi o Egito. Em fevereiro de 2011, um mês depois da queda de Ben Ali, chegou a vez do presidente Hosni Mubarak, há 30 anos no poder, ser praticamente expurgado. Seis milhões de pessoas se concentraram na Praça Tahrir, no centro da cidade, onde fica o museu do Cairo, que abriga um acervo maravilhoso da arqueologia egípcia. Mubarak foi deposto do poder e não deixou saudades. Assim, várias pessoas com quem conversei no Cairo expressaram seus sentimentos e comemoram até hoje a derrubada do ditador.

Percorrendo os perímetros urbanos para além do downtown moderno cairota, encontraremos um dos casos mais emblemáticos de subdesenvolvimento econômico e pobreza. Qualquer pessoa que for conhecer as famosas pirâmides egípcias testemunhará uma parte periférica e ampla da cidade que parece ter sofrido um bombardeio em algum ponto do tempo. No entanto, ao contrário de qualquer tipo de destruição provocada por um ataque bélico, percebe-se que parte considerável do Cairo é resultado de projetos de poder que, ao longo de décadas, não resultaram em transformações estruturais na vida das pessoas, condenando-as ao atraso, pobreza e vulnerabilidade socioeconômica.

A Tunísia é um dos países africanos onde o regime democrático tem avançado mais aceleradamente. O atentado no Museu do Bardo é apenas uma síntese de um problema ainda maior causado por anos de governos despóticos que, a exemplo do Egito, excluía milhares de pessoas dos rendimentos do progresso econômico. Grupos extremistas religiosos e que ascenderam ao poder em regiões antes dominadas por grupos locais ligados, diretamente, às grandes potências ou por elas dominadas, como Líbia, Afeganistão e Iraque, têm se aproveitado das fragilidades econômicas e sociais de países como a Tunísia, Egito etc. e amealhado jovens desempregados, sem perspectivas e abandonados à própria sorte, transformando-os em mercenários. Esses jovens são lançados em missões que representam o avanço de estruturas de poder também totalitárias e profundamente refratárias às liberdades individuais e regras do jogo democrático de características ocidentais.

A Tunísia é um país fantástico, uma população muito acolhedora e que não vive naquele caos urbano que caracterizam Índia e Egito, por exemplo. Por aqui, o respeito ao Brasil é imenso, ao contrário que se imagina pela distância e ausência de laços mais estreitos. O mesmo parece não acontecer com a França, país que dominou o povo tunisiano entre 1881 e 1956. Apesar da língua do país europeu ser considerada a segunda do país norte-africano e sua influência ser considerável, a população tunisiana após iniciar a Primavera Árabe, em 2011, parece questionar ainda mais esses laços, buscando ampliar seus espaços de autonomia e soberania, inclusive não se deixando dominar pelo crescimento e ameaça dos grupos radicais religiosos em todo o norte da África. A embaixada da França em Túnis encontra-se sitiada desde 2011, toda cercada de arames farpados, vigiada vinte e quatro horas por soldados e guardada por tanques de artilharia. Em sua própria ex-colônia a representação diplomática francesa, quem diria, padece da falta de liberdade, principal bastiã de sua Revolução em 1789.

Com o Fórum Social Mundial novamente acontecendo em Túnis, o país se sente ainda mais confiante que seu destino é uma sociedade mais livre, democrática e compromissada com os valores da justiça social e igualdade de oportunidades.