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Em março de 2009 visitei a ilha de Cuba. Desembarquei no aeroporto José Martí acompanhado de dois orientandos do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Jorge Amado, Salvador. Junto com Ricardo Barreto e Matheus Souza, trazia na mala três trabalhos para apresentação no XI Encuentro Internacional de Economistas sobre Globalización y Problemas del Desarrollo. O evento foi bastante prestigiado, com aproximadamente trezentos papers aprovados, presença de dois prêmios Nobel de economia, Edmund Phelps e Robert Mundell, e outros especialistas de várias partes do mundo.

Foi a primeira e única vez que pisamos na “revolucionária” ilha. Justamente no ano que se comemorava o cinquentenário da derrubada do governo ditatorial de Fulgêncio Batista, dando início a um dos capítulos mais emblemáticos da história política latino-americana.

As expectativas eram enormes, um sentimento de chegar em um “mundo” que você passou a vida escutando sobre ele, participou das controvérsias envolvendo o regime e suas características políticas, sociais e econômicas. Tomou esse “mundo” como exemplo de resistência aos abusos do sistema capitalista de produção. Alguns livros clássicos sobre a ilha revolucionária eram repassados na minha mente como, por exemplo, De Martí a Fidel: a revolução cubana e a América Latina, de Luiz Alberto Moniz Bandeira (Civilização Brasileira, 2ª edição, 2009), e A Ilha, de Fernando Morais (Companhia das Letras, 2001).

A primeira constatação foi se deparar com um serviço eficiente de traslado do aeroporto até o hotel, bastante confortável, que nos guiava por aquela Havana que parece ter parado no tempo, mas não demonstrava quaisquer indícios de pobreza ou flagelo, tão presentes no cotidiano brasileiro. Boa parte do imobiliário pelo caminho era antigo, das décadas de 1950-1960, com muitos prédios bem conservados. Carros também típicos de uma época, somente vistos nas paradas de colecionadores, que possuem o hábito de se reunirem algum dia da semana em cidades brasileiras. Também, carros luxuosos com predominância de marcas sempre europeias, muitos de representações diplomáticas e funcionários graduados do governo.

Durante uma semana ficamos envolvidos no Congresso, que contava com um sistema de segurança muito discreto. Tudo funcionava perfeitamente dentro do Centro de Convenções de Havana. Quando sobrava tempo, andávamos pelas ruas do antigo centro da capital. Viajamos para Varadero, complexo balneário a cerca de 150 km ao leste da capital Havana, com inúmeros hotéis, muitos de marcas internacionais já reconhecidas.

Um dos pontos mais marcantes da nossa estada foi explorar o conjunto arquitetônico e histórico de Havana. Realmente, o apogeu do colonialismo espanhol foi muito mais próspero e rico que o português. O casario é bem mais suntuoso do que qualquer outro que conheço, que tenha sido levantado pelos lusitanos. Impressionou-me a quantidade de lojas comerciais estrangeiras, compondo o visual de quadras inteiras que estavam sendo reformadas com recursos da Comunidade Europeia, especialmente da Espanha.

Outro destaque foi caminhar por ruas, vielas e becos escutando músicas cubana sem sabermos de onde partiam. Notava-se que eram executadas como se fossem ensaios, alguém ou conjunto compondo dentro de algum daqueles casarões coloniais.

A nossa curiosidade aos poucos foi se dispersando a medida que visitávamos os principais pontos turísticos ou descobríamos novos e inusitados lugares. O museu da Revolução é algo imperdível, assim como o monumento à José Martí, o Capitólio e o famoso bar El Floridita, o preferido do famoso escritor norte-americano Ernest Hemingway.

A aproximação com o povo cubano é outro capítulo à parte. Até onde estabelecemos relações e contatos, fomos muito bem tratados e quase sempre com um sorriso largo no rosto. A curiosidade contaminava ambas as partes. Por nossa vontade, sobre o regime e as condições de vida. Deles, sobre nosso futebol, governo Lula e música. Até onde fomos em nossos bate-papos não percebemos críticas radicais ao regime político da ilha, com exceção de um vendedor clandestino de charutos, ambicioso por ganhar muito dinheiro. Na maioria, uma plena consciência dos avanços da revolução cubana, mas também a percepção dos estragos causados pelo bloqueio levantado pelos EUA e a saturação de algumas estratégias adotadas na longeva gestão do Partido Comunista, sob a liderança de Fidel Castro.

Particularmente, fiz uma reflexão a partir dessa experiência: se, realmente, os Estados Unidos da América quisessem implodir o regime socialista cubano, o teriam feito há muito tempo, bastando para isso removerem o bloqueio econômico, deixando a ilha negociar acordos comerciais livremente, sem estabelecer sanções econômicas sobre as nações envolvidas. No campo dos serviços, principalmente turísticos, e em alguns ramos comerciais essa liberdade já existe. Entretanto, na comercialização das consideradas “maravilhas” do mercado contemporâneo, como por exemplo eletrônicos, é impossível ainda em escala razoável. Para o governo norte-americano, as restrições à Cuba não somente atendem uma questão de sentimento político nacional, arraigado em sua posição contrária aos regimes contrários ao liberalismo-democrático ocidental, mas rende muitos e importantes frutos eleitorais, sobretudo de parte da comunidade hispânica anticastrista, concentrada na Flórida.  

O bloqueio econômico não se restringe somente ao amplo acesso aos bens de consumo finais, na grande maioria impossíveis de serem produzidos na ilha. Como sua base econômica é muito estreita em razão das limitações geográficas e ausência de determinadas matérias-primas, a proibição da entrada, principalmente, de bens intermediários e de capital é muito mais penosa para Cuba. 

Em nossa opinião, a simples remoção das barreiras comerciais aos produtos e bens finais criaria (ou provocará), certamente, um movimento de mudanças de difícil previsão na ilha. Provavelmente, os cubanos, em geral, teriam muitas dificuldades culturais e também econômicas para enfrentarem a nova realidade provocada pela abertura comercial.

Entretanto, o próprio regime cubano também aufere suas vantagens com o bloqueio, porque ele alimenta o sistema de propaganda anti-EUA que funciona como uma amálgama das forças políticas internas. Ao mesmo tempo, a escassez de muitos produtos permite ao governo ter um controle soberano sobre a política econômica, principalmente cambial. Adota-se na ilha um sistema bimonetário, com os moradores no geral manuseando o peso cubano em suas transações comerciais cotidianas. Enquanto isso, os turistas e/ou visitantes estrangeiros adquirirem nas casas de câmbio ou recepção de hotéis, pesos cubanos convertibles que, na média, possuem o mesmo preço relativo real-euro.

Manter um rígido controle sobre as divisas estrangeiras, principalmente euro, que entram na ilha através do turismo, comercialização de serviços ou transferências unilaterais (como pagamento de despesas de embaixadas, consulados ou mesmo o Programa Mais Médicos), é crucial ao governo cubano para garantir as aquisições no exterior dos bens imprescindíveis para consumo interno, principalmente em segmentos estratégicos de sua economia e sociedade – lógico que essas relações são estabelecidas com países que têm autonomia para furar, relativamente, o bloqueio estadunidense.

Resumindo, Cuba vive há meio século uma espécie de economia de guerra e os EUA ainda mantêm uma política externa ultrapassada, sem os resultados práticos alcançados como objetivava desde o início do bloqueio, segundo as próprias declarações recentes do Presidente Obama.

Porém, quarta-feira, dia 17 de dezembro de 2014, entrará para a história como o primeiro passo para o reatamento das relações diplomáticas e econômicas entre EUA e Cuba. São cinco os temas em pauta: 1] restabelecimento das relações diplomáticas; 2] facilitar viagens de americanos a Cuba; 3] autorização da comercialização de bens e serviços dos EUA para Cuba; 4] autorização para norte-americanos importarem bens de até US$ 400 de Cuba; 5] início de novos esforços para melhorar o acesso de Cuba a telecomunicação e internet. Esses itens não significam o fim imediato e definitivo do bloqueio econômico. Mas um grande passo foi dado nesse sentido. A formação de delegações conjuntas para negociar e regulamentar os principais temas é de fundamental importância.

Para os EUA, que enfrentam grandes desafios estruturais para manter sua hegemonia construída no Pós-Segunda Guerra, essas medidas talvez sirvam de estratégia para restabelecer a credibilidade internacional, tão abalada com vários escândalos de espionagem, fracassos nas ocupações no Oriente Médio, fraudes corporativas, crises financeiras etc., bem como fortalecer seu discurso em defesa das liberdades e autonomia dos povos. Isso tudo deve possuir seu valor simbólico, mas ainda é muito pouco para as mudanças reais e necessárias que os EUA precisam para recuperarem sua imagem e credibilidade internacional. 

Por sua vez, tudo ainda é muito incerto para Cuba. Talvez muita coisa possa melhorar para o povo cubano, principalmente para elevar seu padrão de vida, não necessariamente através do consumerismo desenfreado de que nos alerta o filósofo-sociológo Zygmunt Bauman, mas, talvez, por meio das melhorias das condições de produção, com o aumento de novas formas de ocupação da força de trabalho e criação de riquezas, que possam ser canalizadas através do seu sistema de distribuição, talvez menos deficiente que o capitalista.

De qualquer forma, todo cuidado é muito pouco, pois considero a ilha de Cuba uma espécie de civilização que ao ser isolada por mais de meio século desse mundo ocidental, possa sucumbir gravemente diante de mudanças abruptas e profundas. Isso me faz lembrar as nossas comunidades aborígenes que não resistiram às doenças, pragas e psicologia do comportamento trazidas pelo europeu colonizador no século XVI. O mundo capitalista contemporâneo encontra-se numa profunda crise de valores e ética, com uma deformação estrutural nas formas de criação e distribuição de riqueza, que ameaça a humanidade e seu meio ambiente, como nos alertam os autores Thomas Piketty, François Chesnais, Gerárd Duménil, Dominique Lévy, István Mészáros, Slavoj Žižek etc.

Muito difícil fazer previsões para a ilha de Cuba diante de tantos desafios impostos pelo passado e futuro.