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O texto que segue abaixo foi preparado para duas palestras que ministramos recentemente. No encerramento da XVIII Semana de Administração do Sudoeste da Bahia (SEMAD), realizada pela Universidade Estadual do Sudoeste Baiano (UESB), entre os dias 22 e 24 de outubro de 2014, e no II Seminário Temático promovido pelo Curso de Graduação em Administração, Programa de Educação Tutorial em Administração e Mestrado em Desenvolvimento Regional da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), no dia 20 de novembro de 2014.

 

FUNÇÕES DO NEOGERENCIALISMO NA CRISE DA ADMINISTRAÇÃO POLÍTICA DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO

A Economia Política tem a tradição de analisar a anatomia dos sistemas econômicos e o devido funcionamento através de um olhar integrado das relações entre Produção, Distribuição e Consumo. Com base na clássica concepção de que a origem do valor das coisas no mundo econômico está assentada na quantidade de trabalho social, portanto pouca relação tendo com concepções subjetivas, tais como estimação, consideração, adoração, utilidade etc., a Economia Política compreende ser o momento da produção o mais importante na cadeia de geração e distribuição de riqueza na ordem capitalista.

As organizações produtivas, ou firmas como se queira denominar, são constituídas para aproveitar o que a natureza fornece em termos de matérias-primas e objetos de trabalho, que são transformados em mercadorias para comercialização. No entanto, apenas a força de trabalho empunhada pelo homem é capaz de colocar em funcionamento, com o auxílio de máquinas, equipamentos e outros instrumentos de trabalho, o processo de produção. Esse processo é coletivo, mas os seus resultados não são distribuídos para atender esse esforço coletivo de maneira mais equânime. O montante de valor criado em determinado processo de produção, descontando-se todos os elementos necessários ao seu funcionamento, inclusive a remuneração da força de trabalho, é absorvido conforme determina o sistema de propriedades privadas estabelecido pela ordem social, econômica e política.

É aqui que encontra-se um dos pilares de sustentação e motivação do progresso capitalista: a sua natureza não é tão somente produzir mercadorias para atender as necessidades da coletividade; é produzir mercadorias que carregam excedentes econômicos (valores), que em um processo contínuo, reproduzindo-se em escalas ampliadas, origina o movimento de acumulação e continuidade da produção em níveis mais elevados. É nesse ponto que saímos da Economia Política, das relações sociais de produção propriamente ditas, para a Administração Política, onde esse movimento de produção e acumulação de capital é organizado e devidamente gerido e controlado. 

Portanto, a produção de mercadorias e o sistema de propriedades garantem a uma parcela da sociedade o direito de acessar a riqueza criada, com o auxílio daqueles que comandam os processos de produção e controlam as relações de produção, como os administradores e gerentes do capitalismo.

Nesse contexto, a força de trabalho executada pela mão de obra empregada no processo produtivo participa de duas formas: 1) transformando matérias primas e objetos de trabalho em mercadorias, portanto criando novos valores e 2) se apropriando de uma parcela menor desses valores na forma salários. Nas funções de gerência e administração, encontram-se pessoas que não estão diretamente relacionadas à produção de bens e serviços, mas são fundamentais na estruturação dos processos e na organização dos mesmos[1]. Por essa razão, também recebem salários para que possam exercer suas respectivas funções e continuarem contribuindo com os resultados do trabalho social.

Ora, deste curto preâmbulo, podemos afirmar que, em termos gerais, a riqueza criada (ou excedentes produzidos) distribuir-se-á em duas formas de rendas: 1) rendas do capital, daqueles que são os proprietários dos meios de produção e responsáveis pela aquisição e compra de equipamentos: máquinas, instrumentos de trabalho e matérias-primas; e, 2) rendas do trabalho, daqueles que são os produtores diretos dos novos valores criados e dos demais trabalhadores envolvidos nas esferas da gestão, gerência e administração das organizações econômicas.

Em instigante e revelador trabalho, os franceses Gerard Duménil e Dominique Lévy analisam as relações estabelecidas entre os trabalhadores e capitalistas, no período que vai da primeira metade do século XX ao imediato Pós-Segunda Guerra Mundial[2]. Para os autores, tanto os trabalhadores do chão de fábrica quanto aqueles que ocupavam funções de gerência, estavam conciliados sob a égide e controle dos capitalistas. Apesar das importantes revoluções nas técnicas produtivas, na adoção de novos parâmetros de administração e na introdução de modelos de gestão, os trabalhadores da gerência se aproximavam muito mais dos trabalhadores do chão de fábrica na defesa de interesses comuns, reivindicação de direitos e melhores condições materiais de vida.  

Evidentemente que essa simplificação encobre a complexidade do mundo das organizações, as tipologias funcionais dos trabalhadores e suas funções. Mas, no geral, no capitalismo do século XX, nos marcos do desenvolvimento dos modelos fordista e taylorista, observamos que parte da classe trabalhadora estava envolvida, direta e indiretamente, com a produção de riqueza material numa relação social e política mais coesa, integrada sob os mesmos princípios e valores.

Por outro lado, os capitalistas mantinham relativo controle sobre os resultados da produção e criação de riqueza, mantendo os trabalhadores sob rígida disciplina organizacional, enquanto que os gerentes gozavam de certa autonomia para definir os processos, os modelos organizacionais e formas de administração. Ao mesmo tempo, no plano mais geral, as políticas do Welfare State cumpriam seus objetivos de dissipar as lutas de classes, com a expansão dos direitos fundamentais garantindo proteção e seguridade no campo socioeconômico.

Entretanto, pelo menos nas últimas quatro décadas, no alvorecer do processo de reestruturação do capitalismo renovado pela ideologia neoliberal e sob hegemonia dos métodos rentistas de acumulação de capital e riqueza, tudo isso em escala internacional, as relações sociais inter e intracapitalistas se modificaram profundamente; e, com isso, a configuração de poder e a distribuição de renda e riqueza tomaram proporções inimagináveis.

Esse movimento já vem sendo analisado pelos dois autores supracitados, bem como por outros mais alinhados às perspectivas críticas ou institucionalista[3]. Porém, foi com o livro de Thomas Piketty, O Capital no Século XXI, que a questão da desigualdade de renda foi denunciada com mais veemência e ganhou contornos de dramaticidade[4].

Na verdade, os livros de Duménil e Lévy e de Piketty são complementares. Os dois primeiros autores se preocupam em explicar as raízes e razões da crise financeira que assolou os EUA e tragou a economia mundial, a partir do segundo semestre de 2007; enquanto Piketty enfatiza mais o processo histórico de aumento das desigualdades de renda e riqueza, tomando como referência países como EUA e da Europa ocidental, em decorrência das diferenças entre as taxas de retorno do capital (r) e crescimento econômico (g), com larga vantagem para o crescimento da primeira.

Para os três autores, é inconteste que a ideologia do neoliberalismo que passou a ser cultuada, a partir do início da década de 1980, dos EUA para o resto do mundo, fortaleceu a capacidade de ganhos e acumulação de riqueza nos estratos mais altos das classes sociais, sobretudo na esfera dos 10% mais ricos dos EUA. Isso em detrimento dos 90% restantes da população.

Duménil e Lévy deixam muito claro que o neoliberalismo transformou o capitalismo numa ordem social que, diferentemente das características do período em que o Welfare State foi constituído, destina-se produzir altos rendimentos para faixas superiores de renda (capital e trabalho); a parcela dos capitais acumulados direcionados aos investimentos na produção são cada vez menores, com influência direta na redução das perspectivas de progresso social.

Thomas Piketty é da mesma opinião: “Não podemos excluir o fato de que o aumento tendencial das desigualdades observado ao longo dos anos 1980-1990 toma proporções mais imponentes durante as primeiras décadas do século XXI”. E a conclusão é inequívoca: a sociedade norte-americana, assim como outras pelo mundo, é cada vez e profundamente mais iníqua. Em dois outros trabalhos, apontamos também esse movimento a que chamamos de despatrimonialização social, ou seja, o processo radical de perdas de direitos sociais e o desmantelamento das estruturas públicas de seguridade social que, em última instância, promovem uma perda relativa da capacidade de renda das classes trabalhadoras.[5]

No entanto, dois aspectos devem ser salientados: a forma como esse processo de desigualdade de renda e riqueza foi alcançado e que papel tem os gerentes e altos executivos (também trabalhadores) nesse processo[6]. Esses dois aspectos apontam para características novas do ponto de vista do comportamento do movimento de acumulação de riqueza e das relações sociais estabelecidas no capitalismo contemporâneo.

Como analisado pelos trabalhos mencionados, o processo de desigualdade de renda e riqueza tem avançado em razão das discrepâncias entre as rendas do capital e do trabalho. Essa diferença tem aumentado extraordinariamente em favor da renda do capital porque os ganhos rentistas tornaram-se o foco central de ação dos capitalistas. É nesse movimento que os novos gestores do sistema, apesar de trabalhadores também, se aliam a esses últimos definindo uma nova ordem social, onde eles próprios, comandando corporações com atuações pelo mundo, se beneficiam de elevadíssimos salários, bonificações e participações acionárias. Portanto, uma nova ordem social destinada a gerar, quase exclusivamente, altas rendas para os extratos superiores da sociedade (capitalistas e gerentes), em detrimento da expansão dos investimentos produtivos e sociais.

Para termos uma noção mais geral, entre 1950-59 0,1% dos trabalhadores mais bem remunerados na economia norte-americana se apropriava de 29,3% do total dos rendimentos do trabalho. Entre 1980-2007, essa participação salta para 48,8%. Cerca de 90% de todos os demais trabalhadores se apropriam de apenas 10,2% do total dos rendimentos salariais. Em 1948, por exemplo, o salário real médio de um trabalhador comum no país equivalia a US$ 48 mil por ano. Em 2009, esse mesmo rendimento médio caiu para US$ 34 mil. Por outro lado, no nível dos executivos de grandes corporações, a média de salário real anual chegava próximo aos US$ 400 mil em 1948. Para 2009, nessa faixa salarial, o rendimento saltou para US$ 1,1 bilhão em média ao ano. Em 2013, os 25 gerentes mais bem pagos de fundos de investimentos receberam, em conjunto, US$ 21 bilhões em rendimentos, mais que o dobro da soma dos rendimentos de cerca de 150 mil professores do nível primário nos EUA![7]

Uma contradição básica surge da proposta do ideário neoliberal: sua defesa, mundo afora, teve como argumento central a recuperação da economia capitalista que enfrentava sérios problemas devido, segundo seus defensores, ao excesso de controle, regulamentações, direitos sociais e marcante presença do Estado no sistema econômico. O que observamos na realidade das últimas três décadas, pelo menos, é a verdadeira face por detrás daqueles argumentos; o que de fato aconteceu foi a recuperação dos rendimentos das camadas superiores da sociedade, combinada com a tendência decrescente da participação dos salários na riqueza total e dos lucros retidos para investimentos em relação aos lucros totais.

O saldo total desse longo processo de reestruturação do capitalismo, na transição do século XX para o XXI, é um sistema econômico com tendências ao baixo crescimento, sistema social com elevados diferenciais de riqueza e renda e, não menos importante, uma agressão ambiental que não aponta para outra experiência histórica desse porte. Enfim, parece que caminhamos para um momento da humanidade que se a mudança de rota não for feita, poderemos esbarrar em um enorme “iceberg” com capacidade de provocar um naufrágio de grandes proporções para nossa civilização. 

 

NOTAS

[1] Aqui a teoria social crítica ainda se debruça em uma “peleja” teórica sobre o papel do trabalho produtivo, aquele diretamente responsável pela produção de valor, e o trabalho improdutivo, que não se relaciona propriamente com a transformação de recursos da natureza, ou já elaborado  em mercadorias. Para nós, essa distinção se desfaz e todos os trabalhadores são considerados importantes na produção da riqueza capitalista na medida em que compreendemos essa produção sendo executada pelo esforço do trabalho coletivo; ou seja, que existe uma interdependência entre os diversos tipos de trabalho que sem ela não seria possível o processo de produção em sua noção mais sistêmica.

[2] DUMÉNIL, Gerard; LÉVY, Dominique. A Crise do Neoliberalismo. São Paulo: Boitempo Editorial, 2013.

[3] Por exemplo, os textos de Paul Krugman e Joseph Stiglitz assumem essa preocupação. Do primeiro pode-se destacar A Consciência de um Liberal, São Paulo: Editora Record, 2010. Já Stiglitz discutiu o assunto em The Price of Inequality, New York: WW Norton, 2013.

[4] PIKETTY, Thomas. O Capital no Século XXI. São Paulo: Editora Intrínseca, 2014.

[5] SANTOS, Reginaldo Souza; GOMES, Fábio Guedes; SANTOS, Thiago Chagas Silva; FILHO, Luiz Marques de Andrade. A Crise, o Estado e os Equívocos da Administração Política do Capitalismo Contemporâneo. Anais do XVIII Encontro da Sociedade Brasileira de Economia Política, Belo Horizonte, Minas Gerais: CEDEPLAR/UFMG/SEP, 28 a 31 de maio de 2013. Ver também GOMES, Fábio Guedes. Capitalismo, Crise Sistêmica e Desigualdades. Revista de Ciências Sociais Aplicadas. N. 15, Vitória da Conquista, Bahia: NEPAAD/DCSA/UESB, 2013.

[6] Este ponto foi muito bem tratado por MOREIRA, Fabrício Santos. Administradores políticos enquanto classe: um projeto de pesquisa. Revista Brasileira de Administração Política-REBAP. Salvador/São Paulo: EAUFBA/HUCITEC Editora, Vol. 1, n. 1, pp. 49-70, outubro de 2008.

[7] DUMÉNIL e LÉVY, 2013, p. 84. Conferir também o texto de JACOBY, Russel. Sobre algumas omissões de Thomas Piketty: indo mais além, com Marx. In: BAVA, Silvio Caccia. Thomas Piketty e os segredos dos ricos. São Paulo: Veneta/ Le Monde Diplomatique Brasil, 2014, p. 99.