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Recentemente foi divulgada a Pesquisa Industrial Anual [PIA] pelo IBGE referente ao ano de 2012. Ela traz inúmeras informações sobre os principais resultados do setor secundário no país e por unidades da Federação. Se analisada em perspectiva intertemporal, podemos observar a dinâmica industrial, revelando importantes trajetórias. Para a economia alagoana, é extremamente relevante a avaliação dessa pesquisa, principalmente quando nos últimos anos aprendemos a conviver com o discurso da industrialização no estado.

Para o leitor comum, aquele não habituado com tecnicismos mais sofisticados, é preciso esclarecer que a PIA divide a indústria em dois grandes setores, a indústria mineral e a indústria de transformação, conforme a Classificação Nacional de Atividades Econômicas [CNAE]. Dentro da indústria extrativa mineral encontramos cinco subsetores e da indústria de transformação vinte e três.

Os números gerais e consolidados apontam que, em 2011, o Brasil contava com 197.730 unidades industriais com 5 ou mais trabalhadores. O total de pessoas ocupadas com carteira de trabalho era de 8,1 milhões. Em 2012, passamos para 192.200 unidades e registrou-se a mesma quantidade de trabalhadores que o ano anterior. Portanto, uma redução significativa de 2,7% no estoque de indústrias e a felicidade de não gerar desemprego no período. Ainda, pelo lado positivo, a massa salarial expandiu 11%, saindo de 208,1 bilhões para 231 bilhões, entre 2011 e 2012.

Pelo lado da produção, o PIB industrial em valores correntes saltou de 2,016 trilhões para 2,150 trilhões, um incremento de 6,6%. Em termos de agregação de valor [Valor da Transformação Industrial], em 2011 a indústria brasileira transformou 926 bilhões, enquanto em 2012 alcançou 976,1 bilhões, uma evolução de 5,4%.

Esses números revelam que seria possível uma situação bem mais favorável à indústria brasileira caso não ocorresse diminuição no número de unidades, prejudicando o nível de estoque de empregos. Há muito alguns importantes especialistas vêm defendendo a tese da desindustrialização brasileira e um dos fatores mais fortes desse argumento é a política cambial brasileira que, desde 1994, vem sendo utilizada como âncora para a estabilização dos preços internos. Longos períodos de juros elevados e câmbio apreciado foram quebrando os elos de nossas cadeias industriais e promovendo obstáculos intransponíveis às inversões de capital na produção [conferir aqui o excelente artigo acadêmico de Wilson Cano, professor titular do Instituto de Economia da UNICAMP].

Como vimos, entre 2011 e 2012 o número total de trabalhadores na indústria brasileira não se alterou, por outro lado a agregação de valor cresceu 5,4%, indicado que houve aumento de produtividade no plano macro, ao contrário do que muitos economistas apregoam. Como o crescimento da massa de salários foi superior ao crescimento da produtividade, podemos sugerir que os trabalhadores da indústria brasileira alcançaram, no período, ganhos de renda sobre o aumento de produtividade.

Desde o pós-Segunda Guerra Mundial, principalmente após o governo Juscelino Kubitschek, a classe trabalhadora no país foi submetida a majorações salariais muito abaixo dos índices inflacionários, as remunerações não acompanhavam os ganhos de produtividade, sofria-se com longos períodos de arrochos salariais, como durante todo o regime ditatorial, ou seu poder de compra declinava fortemente em razão dos momentos de hiperinflação, como na década de 1980 e início da seguinte. A partir do Plano Real [1994], apesar de ganhos reais de salário nos primeiros dois anos de sua execução, o desemprego elevado pressionou para baixo os níveis salariais, influindo diretamente no padrão de consumo das famílias.

Voltando aos dados revelados pela Pesquisa Industrial Anual, e observando os resultados para Alagoas, alguns pontos merecem ser apresentados, pois eles sinalizam alguns aspectos interessantes. Em 2011, Alagoas possuía 858 unidades industriais empregando 106,4 mil trabalhadores com carteira assinada. Em 2012 houve uma redução espetacular de 23% nas unidades industriais no estado, passando para 657 empresas. Isso teve impacto relevante sobre o emprego industrial, passando o estoque para 98,6 mil trabalhadores, queda de 7% portanto. Esses resultados negativos concentraram-se, exclusivamente, na indústria de transformação. 

Quando observamos a indústria de transformação em Alagoas, percebemos que dos 23 subsetores, 17 deles diminuíram a quantidade de unidades produtivas impactando, diretamente, no nível de empregos industriais. Então, não podemos somente admitir a assimilação de novas técnicas produtivas e a crise do setor sucroalcooleiro como únicas causas para a redução do estoque de trabalhadores na indústria alagoana. Outras razões serão apontadas mais a frente.

Dentro da indústria de transformação, o setor fabricante de produtos alimentícios no estado é o maior empregador. Nele, a indústria do açúcar predomina, mas também temos as fábricas de biscoitos e massas, derivados do coco, latícinios, de conservas de frutas, legumes e outros vegetais, especiarias, molhos, temperos e condimentos etc.

Na produção de gêneros alimentícios, a quantidade de unidades industriais foi reduzida em 38%, passando de 321 empresas, em 2011, para 200, em 2012. O emprego nessa área diminuiu sensivelmente de 88,1 mil trabalhadores para 79,3 mil no mesmo período, portanto, uma queda de mais 10%. Nesse caso, podemos admitir que a crise do setor sucroalcooleiro e sua reestruturação tecnológica, afetaram diretamente esses resultados, com tendência de continuidade nos anos 2013 e 2014.

O setor da indústria de transformação afetado diretamente pela crise do setor sucroalcooleiro é o de manutenção, reparação e instalação de máquinas e equipamentos. Nele o número de empresas em 2011 era de 50, reduzindo para 37, em 2012, redução portanto de 26%. Consequentemente, o estoque de trabalhadores formais se alterou de 1,7 mil para 1,1 mil no período, representando uma redução ainda mais significativa de 35%.

A indústria de veículos automotores, reboques e carrocerias, também sofreu com os impactos da crise sucroalcooleira [notadamente reboques e carrocerias]. No mesmo período esse subsetor perdeu 4 unidades empresariais, quando contava com 11 indústrias em 2011, fechando mais de 100 postos de trabalho.

Entretanto, excluindo esses três subsetores acima, o que explica outras quinze áreas da indústria de transformação alagoana perder unidades produtivas e destruir empregos?

Nesse conjunto temos indústrias de bebidas, têxteis, vestuários e acessórios, couros e calçados, produtos químicos, de borracha e material plástico, móveis etc. Somando todos esses subsetores, em 2011 contávamos com 418 unidades industriais, passando para 345 em 2012, uma redução de 17,4%. Perdemos por volta de 1,2 mil empregos nesse conjunto de indústrias.

Essa dinâmica geral da indústria alagoana acarretou numa forte queda do Valor da Transformação Industrial [VTI] no período considerado. Retrocedemos 12,5% na indústria em geral e 12,9% na de transformação. As principais atividades industriais do estado apresentaram volume decrescente de valor agregado, como os subsetores alimentícios [-22,4%], confecção de vestuário e acessórios [-13,4%], produtos de borracha e material plástico [-7,5%], produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos [-12,1%], veículos motores, carrocerias e reboques [-30,7], móveis [-13,8%], manutenção, reparação e instalações de máquinas e equipamentos [-32,8%] e demais produtos industriais [-44,1%].

Os dados indicam que o crescimento do PIB alagoano para 2012, que será divulgado oficialmente no final do ano pelo IBGE, através das contas regionais, poderá refletir essa redução das principais atividades industriais. Seu crescimento certamente ficará muito abaixo das expectativas e contrariar as perspectivas das prévias oficiais, situando-se em torno de 2% a 3%. Se as atividades de comércio e serviços não contrabalançarem esses resultados, podemos ter um PIB para 2012 com resultados frustrantes no caso alagoano.

O que podemos concluir desses dados?

Primeiro, que a crise do setor sucroalcooleiro continua causando estragos na economia alagoana do ponto de vista da transformação industrial e na geração de empregos, diretos e indiretos. Esse movimento ainda pode continuar.

Segundo, a dinâmica de outras atividades industriais parece não ir na mesma direção, mais uma vez, dos argumentos que defendiam um movimento de industrialização de “vento em popa” no estado. Pelo contrário, parece ocorrer um processo de desindustrialização que vem se arrastando por um bom tempo, mesmo dentro de um ambiente de negócios mais favoráveis no estado.

Terceiro, essa dinâmica industrial sugere apontar o baixo impacto das políticas de desenvolvimento no estado, pois os dados verificados indicam não somente um processo de desindustrialização no setor sucroalcooleiro, mas também o fechamento de centenas de unidades industriais vinculadas diretamente a esse setor e em outras quinze áreas importantes, com redução significativa no valor da transformação industrial.

Quarto, em nossas últimas análises publicadas nesse espaço, observamos que as atividades de comércio e serviços continuam contrabalançando os insuficientes resultados pelo lado industrial. A chegada de dezenas de novas empresas ao setor terciário do estado e a abertura nele de milhares de pequenos e médios negócios, podem ter usufruído de um ambiente de negócios mais favorável no estado, mas não seriam possíveis sem a expansão do mercado interno brasileiro, especialmente nordestino, causada pelo aumento da renda, crescimento do emprego, ampliação dos programas sociais e investimentos em grandes obras de infraestrutura. É justamente a desaceleração desse ritmo de crescimento que tanto beneficiou o Nordeste inteiro, especialmente a economia alagoana, um dos principais problemas a ser revertido pela próxima gestão presidencial.