41d27cd8 9560 49e8 8e62 7bffc735587d Palácio de La Moneda bombardeado no golpe civil militar no Chile em 1973

Era 11 de setembro de 1973, o Palácio de La Moneda foi bombardeado e o governo democraticamente eleito de Salvador Allende golpeado pelas forças militares, com apoio de setores das camadas sociais civis, média e alta, e as Forças Armadas do Chile, subsidiados fortemente pelos Estados Unidos da América, através de sua Central de Inteligência [CIA].

As operações da CIA foram usadas para dividir e enfraquecer a coalizão da Unidade Popular de Allende; financiar partidos de oposição e grupos neofascistas; promover e expandir os contatos norte-americanos secretos com militares chilenos, e organizar uma grande campanha propagandística, por meio do maior jornal de direita, El Mercúrio, para estimular os militares a passarem à ação violenta. De acordo com registros internos da CIA, essas operações clandestinas junto aos meios de comunicação ‘tiveram papel importante para preparar o cenário de golpe militar de 11 de setembro de 1973”. Essa síntese foi feita por Peter Kornbluh, Diretor do Projeto de Documentação do Chile no National Security Archive, biblioteca e instituto de pesquisa, independente e não-governamental, sediado na Universidade George Washington, na capital dos EUA.

Esse relato encontra-se no prólogo do magistral livro Fórmula para o Caos: a derrubada de Salvador Allende, 1970-1973 [Civilização Brasileira, 2008], escrito pelo extraordinário historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira. Baseado em farta documentação oficial desclassificada como restrita nos Estados Unidos e pelo Itamaraty, no Brasil, o autor de outras importantes obras como Formação do Império Americano – Da guerra contra a Espanha à guerra do Iraque [Civilização Brasileira, 2006], que lhe rendeu o Troféu Juca Pato, e De Martí a Fidel: a revolução cubana e a América Latina [Civilização Brasileira, 2009], desenvolve um excelente narrativa e análise sobre os contextos internacional, regional e nacional que envolveram o golpe militar sobre o governo Allende e, com extrema maestria, as razões e estratégias para a violenta deposição do socialista chileno.

Moniz Bandeira foi testemunha ocular de vários acontecimentos históricos fundamentais e ficou muito próximo de atores que influenciaram o curso dos acontecimentos. Em mais de duas dezenas de livros ele segue as orientações do pensamento de Antonio Gramsci: “se escrever história significa fazer história do presente, é um grande livro de história aquele que no presente ajuda as forças em desenvolvimento a converterem-se em mais conscientes de si mesmas e por isso mais concretamente ativas e factíveis” [p. 38].

O magnífico e genuíno no Fórmula para o Caos é a demonstração de como as forças conspiratórias no Chile seguiram à risca uma campanha de desestabilização promovida pelo Governo norte-americano de Richard Nixon, durante três anos. Estratégia clandestina e coordenada para desenvolver um clima social e econômico ingovernável no país.

Uma dessas campanhas, e talvez mais importante, era posta em prática por agentes econômicos de alguns setores importantes do sistema produtivo e de serviços chileno. A tática usual consistia em interromper os fluxos de comercialização e provocar desabastecimentos em várias áreas com objetivo de influenciar diretamente nos índices inflacionários e, de maneira indireta, provocar a ira contra o governo por parte das classes médias.

Antes mesmo de Salvador Allende ganhar, democraticamente, as eleições presidenciais de 1970, já persistia um clima político muito hostil, pois suas propostas, através da Unidade Popular, eram vistas com suspeitas pelos segmentos conservadores no Chile e causavam fortes preocupações em Washington. Qualquer plataforma social mais “radical” na América Latina e Caribe era tratada com muito cuidado pelo establishment político norte-americano, já escaldado pela influência da Revolução Cubana, em 1959.

Essa preocupação pôde ser registrada na reação dos EUA através da declaração do seu embaixador Edward Korry em Santiago [1967-1971]: “nenhuma porca ou parafuso irá para o Chile de Allende. Uma vez que Allende chegue ao poder devemos fazer tudo na medida de nossas forças para condenar o Chile e todos os chilenos à extrema penúria e pobreza” [MONIZ BANDEIRA, p.154].

Em 1970 Allende foi eleito com 36,22% dos votos válidos, pela Unidade Popular, enquanto o segundo candidato, Jorge Alessandri, do Partido Nacional, obteve 34,9%, e Radomiro Tomic, Democracia-Cristã, alcançou 27,1%. Os movimentos mais intensos objetivando provocar o caos econômico, social e político no Chile começaram imediatamente à eleição de Salvador Allende. O interesse era “alarmar a população e o meio empresarial, demonstrando a reação que a eleição de Allende provocaria no estrangeiro e as graves consequências para a economia do Chile, de forma a provocar o pânico financeiro, um crash, a instabilidade política, forçando os militares a intervirem para impedir a investidura de Allende na presidência do Chile” [MONIZ BANDEIRA, p. 169]. As organizações internacionais como o FMI e o Clube de Paris [confraria dos grandes banqueiros mundiais], também operaram no sentido de bloquear novos empréstimos e financiamentos ao Chile.

O resumo da ópera três anos após a posse de Allende é sintetizada por Moniz Bandeira da seguinte maneira: “O Chile fora socialmente fraturado, com radicalização do conflito de classes, que sobrepujava qualquer consideração de interesse nacional. E o processo de desestabilização do governo, impulsionado pela CIA, avançara bastante. A espiral inflacionária, que chegara a 283,4%, entre julho e agosto, o desabastecimento, mercado negro, a mais completa carência de divisas e outros problemas econômicos e sociais, bem como a desordem política e administrativa, haviam erodido as bases de sustentação da Unidade Popular. A fórmula da CIA para instalar o caos estava a produzir o mais amplo efeito, favorecida, em larga medida, pelas [...] ocupações, expropriações indiscriminadas de empresas e outras iniciativas, que contribuíram para desorganizar ainda mais o sistema produtivo do país para empurrar as classes médias para a direita e, com elas, a oficialidade das Forças Armadas” [p. 483].

Enquanto iniciava a escritura desse texto, encontro na edição de agosto do Le Monde Diplomatique Brasil [Ano 8, n. 85], um artigo luminoso que foi na direção do que pensávamos em argumentar. Sob o título América Latina: “golpes light” e desestabilização moderna, o jornalista francês Maurice Lemoine analisa as recentes tentativas de golpes na América Latina contra chefes de Estados com perfil mais à esquerda [Acessar aqui]. Para ele, e já assumindo nossa concordância, as tentativas de golpes contra governos mais populares, que desenvolveram políticas públicas orientadas para as questões sociais, com resultados surpreendentes na redução das desigualdades de renda, não admitem “muito derramamento de sangue”, entretanto continuam sendo apoiados pelos EUA, mesmo em menor grau que em décadas passadas. São fornecidos subsídios financeiros e estratégicos. Somente entre 2013 e 2014 US$ 14 milhões foram transferidos à Venezuela para irrigar os grupos oposicionistas para promoção de campanhas eleitorais e publicitárias como promover os chamados “protestos pacíficos” [p. 11].

A fórmula para o caos, aplicada no Chile, Bolívia e Uruguai que culminou em clássicos golpes de Estados, violentos e sangrentos, nas décadas de 1960 e 1970, ganhou maior espaço agora através de sofisticadas estratégias adaptadas às novas técnicas desenvolvidas pela revolução tecnológica, proporcionada pela microeletrônica e expansão dos sistemas de comunicação em massa. A fórmula foi aplicada mais recentemente no Paraguai, Equador, Bolívia, Honduras e mais intensamente na Venezuela sob a gestão da dupla Chávez-Maduro.

Para Maurice Lemoine, vigora atualmente operações psicológicas [psy-ops] “sutis destinadas a manipular ou a desestabilizar internamente os governos-alvos e a fornecer uma imagem negativas deles" [p. 10]. Nesse sentido, joga um papel extremamente importante os grandes meios de comunicação que para além de representantes autoproclamarem-se representantes da imprensa em geral e das liberdades de opinião, são empresas com papéis muito bem definidos no jogo de força pelo poder econômico e político.

Sem mais a presença direta das Forças Armadas, as novas formas de golpes de Estado acontecem dentro da ordem constitucional e são deflagrados, principalmente, por civis, aparelhados seja pelas instituições do poder [judiciário, por exemplo] ou pelos instrumentos de pressão pública e ação política coletiva [meios de comunicação, órgãos patronais, sindicatos etc.]. Entretanto, eles contam com apoio de facções das Forças Armadas e, geralmente, setores da comunidade internacional interessados diretamente na derrubada de governos mais voltados às causas populares e sociais e mais altivos no plano das relações internacionais.

É nesse sentido que Lemoine declara em resumo: “enquanto no passado os militares, depois de ter agido em favor desta ou daquela ação, permaneciam no poder, hoje eles voltam para os quartéis. Civil, a ditadura se torna transparente, sem que ninguém possa denunciar um novo Augusto Pinochet [ditador chileno]. Será suficiente, alguns meses depois, organizar eleições ‘sob controle’, suspendendo o breve banimento do país pela comunidade latino-americana [ou internacional] e a rodada terá sido completa” [p.11].

Trazendo a discussão para perto de nós, vivenciamos um período eleitoral dos mais febris das últimas disputas presidenciais. Ano passado, nas mobilizações sociais de junho, em plena realização da Copa das Confederações, o clima de instabilidade instaurou-se e os diversos movimentos reivindicatórios ameaçaram a estabilidade institucional, a ponto de algumas análises mais apressadas cogitarem interferências das Forças Armadas, inclusive não descartando um golpe militar. Puro exercício ficcionista!

Estamos longe dessa situação e como falamos acima, considerando ainda as características da sociedade atual, não vislumbra-se o retorno aos golpes civis-militares clássicos como a América Latina e Caribe se acostumaram a vivenciar entre as décadas de 1960 e 1970. A fórmula para o caos com o estabelecimento de um clima de intranquilidade, expectativas desfavoráveis e um futuro sombrio, assumiu novos contornos, táticas e instrumentos mais sofisticados, as vezes sutis, em outros momentos mais agressivos, chegando a proporcionar mortes em embates mais violentos. Mas nada comparado a um golpe de Estado com a instauração de uma ditadura militar apoiada por segmentos da sociedade civil.

Por sua vez, tem razão Silvio Caccia Bava, que assina o editorial da mesma edição do Le Monde Diplomatique Brasil, ao afirmar que a utilização, em sincronia, dos grandes meios de comunicação, das redes sociais, correspondências de bancos e agências financeiras, revistas de prestígio internacional [The Economist, Financial Times] etc. para propagar o caos econômico e político no país e o desgoverno da atual administração, oculta o “projeto de nossas elites de retomada direta do Estado e os recursos públicos a serviço de um processo mais intenso de concentração de riqueza e poder” [Acessar aqui]. Essa máquina poderosa de promover operações psicológicas [psy-ops] no sentido do caos, através dos modernos instrumentos tecnológicos, midiáticos e de elevado alcance, tem a vantagem de não derramar sangue, não se revelar contraprodutivos às classes médias [muito pelo contrário], e não provocar reações terminantemente contrárias de parte da comunidade internacional.

Ao lermos as duas propostas de programas das principais plataformas oposicionistas, evidencia-se que alguns pontos são essenciais na direção acima apontada pelo próprio Silvio Bava, tais como: i] a independência do Banco Central; 2] a revisão do papel dos bancos públicos no sistema econômico, inclusive não descartando a privatização completa desse setor; 3] a retomada inconteste do tripé econômico câmbio valorizado e flutuante, elevado superávit primário e conservadoras metas de inflação como estratégias de política e crescimento econômico; 4] reorientação da política externa para alianças tradicionalmente subalternas com os EUA e Europa, abandonando o estreitamento do eixo em direção aos BRIC’s e o cooperativismo com países subdesenvolvidos; e, 5] colocar em segundo plano a exploração das jazidas de petróleo da camada pré-sal, com todas as implicações possíveis em termos de investimentos já realizados, capitalização da empresa e uso dessa riqueza extraordinária para o futuro nacional.  

Mas, antes que isso e muito mais seja perseguido na direção de uma plataforma mais conservadora que a atual, é preciso vencer a disputa eleitoral, ganhar dentro da ordem constitucional, mesmo que seja necessário utilizar a fórmula para o caos aperfeiçoada. Imprescindível também alguém que lidere esse processo, seja abduzido pelos interesses dos grandes negócios no país e atenda aos anseios da classe média convertida pelo sucesso da formula para o caos em sua versão mais light. Sem uma agenda positiva para se defender, o discurso vazio e o jogo de belas palavras completam a estratégia de desgastar o atual governo, negar os importantes avanços e estabelecer o caos econômico!