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De acordo com os últimos dados consolidados, em termos de valor adicionado, a economia alagoana é, predominantemente, constituída pelos setores de comércio e serviços, cerca de 72% do PIB. A indústria em geral representa 21% e a agricultura 6,7%. Essa distribuição econômica setorial do estado não difere muito das características das demais economias da região. A agricultura em Alagoas foi o setor que mais reduziu sua participação na geração de riqueza e renda no estado. Esse definhamento é a razão de muitos dos problemas que os principais centros urbanos enfrentam atualmente no estado, a exemplo da explosão da violência, crescimento das moradias irregulares, elevação da densidade demográfica e dificuldades de mobilidade urbana.

Do ponto de vista do desempenho econômico do estado nas últimas décadas, avaliamos em trabalhos científicos já publicados, que a economia alagoana involuiu quando comparamos os indicadores macroeconômicos com os de outras economias do Nordeste. Muitas vezes as aparências não revelam os movimentos que determinam uma dada situação real. Em outros momentos, a própria realidade é enganadora e atrapalha mais que ajuda ao simples observador de se desvencilhar do encantamento de determinado esforço empresarial, do resultado de certo investimento no plano microeconômico ou de alguns discursos bem construídos e floreados de adjetivos otimistas.  

Entretanto, uma rápida olhada no desempenho das taxas de crescimento da renda per capita alagoana em termos de participação na renda nordestina já revela que nossa economia regrediu nos últimos anos, mesmo apresentando modestas taxas de crescimento. Por exemplo, em 2002, o PIB per capita alagoano representava 86,6% da região, em 2010 ele recuou para 82,4% [último dado consolidado das Contas Regionais do IBGE]. Enquanto isso, o Piauí e o Maranhão, economias consideradas mais pobres, saíram de 65,4% e 67,8%, para 74% e 72%, respectivamente, no mesmo período.

Quando observamos a relação do PIB per capita alagoano com os demais estados nordestinos, percebemos, muito claramente, que também regredimos em comparação às economias da Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba, enquanto os estados do Piauí, Maranhão, daqui a poucos anos, terão a mesma renda per capita que Alagoas. Com relação a Sergipe conseguimos recuperar entre os anos 2009 e 2010, mas ainda continuamos com menos de 70% da riqueza per capita do estado vizinho. É importante levar em conta que demograficamente nossa taxa de crescimento tem diminuído. Conclusão, a economia alagoana cresce, mas em um ritmo bem mais lento que os demais estados da região e por isso tem ficado para trás relativamente.

Mas apesar desse movimento de diminuição de nossa participação na renda do Nordeste, como falamos a economia alagoana cresceu, com destaque para alguns setores. Esse crescimento econômico não diferiu muito das características do movimento recente de expansão dos setores de comércio, serviços e construção civil que aconteceu em todo Nordeste nos últimos dez anos. Ele foi determinado, principalmente, i] pelas transferências federais através dos programas assistenciais, ii] crescimento do emprego e da renda, em razão dos investimentos em obras de infraestrutura, iii] construção civil voltada para habitação e iv] blocos de investimentos industriais, principalmente em Pernambuco, Ceará e Bahia. Então, em Alagoas o crescimento de postos de trabalho demonstra que as atividades terciárias e construção civil repetiram a mesma dinâmica regional. Importa reconhecer a grande contribuição do governo federal nesse processo. 

Podemos eleger alguns grandes obstáculos ao crescimento mais robusto da economia alagoana, como o baixo dinamismo industrial e sua estreita diversificação, a redução extraordinária da participação da agricultura [excluindo-se a plantação de cana-de-açúcar] na formação de riqueza do estado e a concentração da propriedade das terras em nossos limites geográficos, inviabilizando a ampliação da produção e produtividade da agricultura familiar.

Em relação a indústria de transformação tivemos alguns poucos avanços, com destaque para o desenvolvimento do setor de químico e plástico, admitindo como eixo principal a expansão da empresa Braskem no estado, principalmente em razão da dinâmica nacional. Entretanto, esse setor gera poucos empregos pelas suas características de intensidade no emprego de tecnologias.

Por sua vez, o setor sucroenergético enfrenta uma de suas mais dramáticas crises, com consequências muito fortes na redução do estoque de empregos formais na indústria de transformação e na geração de riqueza. Em relação a esse último aspecto, com toda certeza os dados das próximas contas regionais aferirão esse movimento.

Assim, em termos gerais, em 2011 a indústria de transformação contava com 106.881 trabalhadores formais, em 2013 reduziu para 93.938, portanto 12,9 mil postos de trabalho fechados. De janeiro a abril do corrente ano, 28,4 mil trabalhadores já foram dispensados. Então, de 2011 ao primeiro quadrimestre de 2014, foram fechados 41 mil postos de trabalho na indústria alagoana. O crescimento da oferta de emprego nos setores terciário e construção civil não tem compensado, nem de longe, essa diminuição, como analisamos no artigo anterior publicado. Nesse sentido, podemos argumentar que vivemos um franco processo de desindustrialização no estado.

As razões para a crise do setor sucroenergético são complexas e vale a pena nos referirmos novamente a elas. Uma conjunção de fatores tem determinado o definhamento desse subsetor, são eles: ineficiência na gestão e dificuldades de sucessão empresarial [Grupo João Lyra]; elevados passivos trabalhistas [impossibilitando o acesso ao crédito]; forte estiagem entre 2012/2013 [afetando sobremaneira a plantação, principalmente os fornecedores que não contam com sistema de irrigação]; reestruturação tecnológica [mecanização da colheita em áreas planas resultando em desemprego em massa]; política federal de sustentação dos preços dos derivados de petróleo [diminuindo a competitividade da produção de álcool etanol]; preços internacionais do açúcar em queda com relação ao excelente nível verificado em 2011 [nesse ano Alagoas exportou US$ 1,3 bilhões em açúcar – contra US$ 947 milhões em 2010 - e a indústria de transformação - exceto construção civil - cresceu sua participação no PIB de 9,3%, em 2010, para 13,5%, em 2011. Ou seja, as usinas estavam a todo vapor].

Na agricultura, por fim, o definhamento é agudo. Enquanto o Piauí, Maranhão e Sergipe avançam na agricultura familiar e em grandes projetos agrícolas, gerando emprego e renda, em Alagoas, apesar da pequena área semiárida, a forte concentração de terras e a ausência de uma política estratégica para a agricultura familiar têm provocado forte êxodo rural e perdas de capacidade na produção de alimentos [importamos quase tudo de produtos hortifrutigranjeiro].

Mas existem algumas possibilidades importantes e estratégicas, como ponto de partida, para turbinar o crescimento econômico do estado e recuperar os empregos perdidos.

Com a mecanização da colheita de cana e o fechamento de usinas na região norte do estado, abre-se uma possibilidade muito grande de expansão da área agrícola, principalmente para produção de alimentos e maior participação dos agricultores familiares. Outro aspecto importante nesse setor é o canal do sertão, construído para levar água até as imediações de Arapiraca, no agreste do estado. É preciso uma discussão ampla de como utilizar a água desse canal e estimular atividades agrícolas em seu entorno, apesar de poucas áreas adequadas para plantios. Também, ao longo do Rio São Francisco temos muitas possibilidades, mas faltam mais projetos e decisões políticas amplas e amadurecidas para se explorar essa região de forma sustentável.

Do ponto de vista industrial, mesmo com alguns avanços muito específicos, Alagoas, realmente, irá vislumbrar maior diversificação produtiva com decisões políticas estratégicas que conectem o estado nas cadeias industrial que se desenvolvem puxadas pela dinâmica nacional e internacional, como foi feito em Pernambuco, através dos investimentos do Governo Federal no polo de Suape. Ademais, é imprescindível elevar o padrão educacional e de qualificação técnica do alagoano, porque nossas elevadas taxas de analfabetismo impossibilitam e muito limitam a atração de novas empresas e a expansão econômica do estado.

É preciso, urgentemente, também, retomar as obras estruturantes no estado, nas áreas de logística e transportes, energia e abastecimento d’água, pois grandes dificuldades nessas áreas comprometem a expansão econômica nas diversas áreas produtivas. Além disso, esses investimentos são extremamente importantes, no curto e médio prazo, para recuperar o nível de empregos formais que estamos perdendo em razão da crise do setor sucroenergético.