O filme é ruim, mas a Eva Mendes é boa. Seria isso suficiente como epitáfio para The Spirit, o filme que celebra o personagem clássico e a arte inestimável do maior de todos os autores de quadrinhos, Will Eisner?

Não, há outras coisas boas no filme, quase todas do sexo feminino: Scarlett Johansson, Jamie King, Sarah Paulson, Stana Katic. Claro, as garotas vão destacar a boa figura do Espírito em pessoa, o ator Gabriel Macht. Mas são as pin-ups que promovem um memorável desfile de moda, que fazem a festa voyeurística - Eva Mendes à frente, no papel da insidiosa Sand Saref, a vilã-heroína, uma mulher com bom gosto para homens e diamantes.

"Eu procurei deixar fluir certas fantasias nesse filme, que coincidem com meu amor pelos clássicos filmes noir dos anos 40, e meu personagem é dessa época. Eu não sabia nada sobre Will Eisner antes desse projeto, mas eu cresci para amá-lo. Amo o jeito que ele desenha meu personagem, e ele a descreve com perfeição, com tanta dor e coração partido, ainda que forte e com grande habilidade para superar os obstáculos da vida", disse uma esfuziante Eva Mendes em entrevista numa suíte do hotel Waldorf-Astoria, em dezembro, numa rodada de conversas para promover o filme.

Sand Saref é uma da personagens do filme que efetivamente existem no gibi. Ela sofre uma grande desilusão quando adolescente e envereda pelo caminho do crime, mas no fundo ela gostaria de viver um grande amor. Eva Mendes lembra do dia em que encontrou o lendário quadrinhista Frank Miller no Chateau Marmont, em Sunset Boulevard, em Hollywood, que a tinha convidado para o filme.

"Eu amei Sin City de verdade e fiquei excitada com 300. Eu me senti assim: ?Oh, esse cara está realmente indo à frente?", ela disse. "Eu queria me arriscar no dia em que ele dirigisse o primeiro filme sozinho, e quando ele me ofereceu o papel de Sand Saref, eu disse: é claro!"

Bom, o fato é que ela engole as outras garotas no filme. Dá um banho na concorrência. Tem uma cena em que Sand Saref se senta numa fotocopiadora e tira um xerox da própria abundância, que fica jogado numa lata de lixo como uma pista para o herói. Ele segue a pista, vai até o hotel onde a ladra está hospedada e a surpreende. "Mãos ao alto!", diz o Spirit. Ela está saindo do banho, só de toalha. "Tem certeza?", ela diz. Ele repete a ordem, a toalha cai. Ela garante: ali não teve dublê de corpo.

Aos 34 anos, Eva Mendes tem sorriso de menina de 20. Vai enumerando os projetos que tem pela frente: está no elenco do novo filme de Werner Herzog, The Bad Lieutenant, e interpreta uma adúltera em Last Night, de Massy Tadjedin, ao lado de Keira Knightley. Como ela compõe um personagem sexy?, pergunta um repórter.

"Não seja tolo, ninguém decide na hora: ah, agora vou ser sexy. Isso é um conjunto de fatores, uma roupa, uma luz, uma composição de cena. Ninguém é sexy por decreto", diverte-se. Outro repórter de celebridades quer saber se ela treinou para fazer as cenas subaquáticas do filme. Ela dá uma gargalhada. "Nunca entrei na água. Eu contracenei com um pano verde. Você sabe como é, não?"

Casada com um desconhecido, o produtor George Augusto, ela diz que está construindo uma casa para a dupla, algo que sugira "uma mistura de Frank Lloyd Wright, Gaudí e Frank Gehry", definindo o tipo de mistura arquitetônica que procura. Depois de Eva Mendes, o Spirit, que estava aposentado desde 1952, nunca mais será o mesmo.