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Alagoas, 12 de março de 2010

Balaio do Teles / Últimos Posts

11/03/2010 22:58

 

A amnésia presidencial e os mártires cubanos

Olá, pensadores!

Não há dúvidas que, em Cuba, impera um regime ditatorial que, mesmo sendo a “democracia de lá”, no dizer de Lula, nem de longe é aceito com unanimidade pelos cubanos. Como todo bom regime “democrático”, há dissidência. Também, não é novidade que Lula, Fidel e Raul Castro são amigos e parceiros ideológicos de longa data, parceria que teve uma de suas primeiras feições públicas em 1990 com a edição do Foro de São Paulo, que desde aquela época congrega os movimentos de esquerda (agora nem tanto esquerdistas) da América Latina e do Caribe.

É verdade, ainda, que quando tinha seu discurso firmado nos ideais revolucionários, Lula foi considerado pelo regime militar um dissidente, em 1980, ficando detido por trinta e um dias no Departamento de Ordem Política e Social, em São Paulo. Em 1981, foi condenado pela Justiça Militar por desordem coletiva, embora tenha recorrido e obtido a absolvição. Sua história pública não nega. Lula, até antes de assumir a presidência, era o dissidente por excelência.

Desde os tempos desse Lula combativo, operário, revolucionário e realmente esquerdista, muita coisa mudou. Depois de sucessivas “trombas” eleitorais, Lula entendeu que o discurso deveria ser outro. Agradar a gregos e troianos. Repaginou-se, fez a barba e foi eleito presidente do Brasil. De carona no bom momento internacional, fez seu nome. Anda por ai, procurando projetar sua imagem como o grande negociador.

Na sua ficha, a trapalhada com Manuel Zelaya e a frustrada restituição ao cargo do presidente hondurenho; o inconveniente com Mahmoud Ahmadinejad e suas pretensões atômicas; e, agora, as mundialmente rechaçadas declarações contrárias aos dissidentes cubanos. O parlamento Europeu, que Luís Inácio tem se esforçado por agradar em troca de reconhecimento internacional para suas pretensões pós presidência, declarou sua desaprovação ao regime de Raul Castro, deixando Lula descabriado. Até dentro do PT, muitas foram as censuras a mais essa falta de zelo do presidente.

Nesse caso de Cuba, com a intenção de ficar bem na fita com os velhos amigos de revolução, o presidente negou seu próprio passado, apoiado num falso discurso de apoio à democracia. Que democracia há em Cuba? Esqueceu que os dissidentes cubanos representam, exatamente, o que ele foi um dia. Que lutam pela mudança de um regime que oprime, assim como Lula lutou pelo fim da ditadura militar e dos governos de Direita. Os revolucionários de Cuba foram tão inocentes que clamaram ao “ícone brasileiro” que intercedesse na libertação dos presos políticos, junto aos Castro. Mas receberam do ex-revolucionário brasileiro uma punhalada fatal, em forma de discurso, comparando-os a bandidos.

A morte de Orlando Zapata e o gravíssimo estado de saúde do jornalista Guillermo Fariñas, ambos provocados pela greve de fome, não podem ser vistos, como quer fazer parecer o nosso presidente, atos de capricho. Se bem analisadas, são as legítimas extensões do Foro de São Paulo, se mantidos fossem seus objetivos iniciais. Morrem e estão morrendo em busca de liberdade, coisa que em Cuba não há, há muito tempo. Não são bandidos, são mártires. O mundo todo vê e declara isso. Mas Lula, sofrendo de amnésia presidencial e demonstrando ser mais fiel a conveniências que às idéias pelas quais um dia se sacrificou, demonstra, novamente, como tem habilidade em mudar de discurso.

Tags: Dissidentes cubanos, Lula, mudança de discurso, reprovaçao mundial

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09/03/2010 00:15

 

Lula e o endereço dos bandidos

Olá, pensadores!

Sinceramente, fico admirado com a capacidade do nosso presidente da República em remediar problema sério com frases prontas, velhas e, o que é pior, inoportunas! Ele usou mais uma vez esse seu artifício plebeu, ao inaugurar obras do PAC, na favela da Rocinha, na periferia do Rio de Janeiro.

Reunindo a nata ministerial, Lula usou toda sua retórica populista para dizer, aos moradores de uma das maiores favelas cariocas, que não é somente lá que tem bandido não. “Nos prédios chiques de Copacabana também tem”, disse o presidente com o ar de quem descobriu o elo perdido ou como se, através de um discurso compensador negativo, quisesse nivelar por baixo o drama da violência urbana. Em outras palavras, ele disse: não é somente aqui que tem bandido, não, fiquem tranquilos!

Ora, presidente, se o senhor, que é o comandante supremo das forças armadas, chefe do sistema nacional de segurança pública e dirigente das políticas públicas sociais, chegou ao ponto de tentar compensar a falta de investimentos e de assistência em uma comunidade pobre com argumentos do tipo “vocês não são o único foco de bandidos” é porque a coisa ficou séria... A população da Rocinha, tenho certeza, gostaria de ouvir o que o senhor pode ofertar, como chefe dessa nação, para o bem estar daquele povo. E o senhor aparece com um discurso infeliz, no estilo “vocês não são os únicos miseráveis...”. Tenha dó.

Senhor presidente, não é apontando a existência de mal feitores, ou de qualquer outro problema, onde se aparenta não haver, que se gere um país. Se Copacabana tem bandidos, e o senhor insinuou haver, por que já não mandou prender? Suas palavras são fortes, Lula, e insinuar não é coisa de presidente. A essa altura, o senhor já deveria ter aprendido isso.

Aliás, até no exemplo o senhor foi infeliz. Por que, sem medo de errar, se sua intenção era causar impacto com sua sofrível ilustração e com seu desarrazoado discurso de inauguração de obras pré-eleitoreiras, o senhor deveria ter usado outra referência, outro endereço. O endereço dos bandidos de verdade, aqueles que causam medo só de se olhar, é mais pro centro... No centro do Brasil. Um reduto chamado Brasília, onde o senhor vive há oito anos.

Ali, sim, se mata e manda matar. De fome, de sede, de enchente, de seca. De lá saem as ordens para que o Brasil continue como está, com tantas “rocinhas” marginalizadas, “crackolandias” bem povoadas, “copacabanas” prostituídas, “rios de janeiros” alagados, tantos brasileiros e brasileiras ainda esquecidos, desassistidos... E o senhor vem com historinha de bandido de ponta de linha, que tem aqui ou tem ali? Poupe-nos, senhor presidente.

Garanto, senhor presidente, que se a devassa que se faz em determinados morros, com baculejos e “caveirões”, fosse feita em Brasília, o Brasil seria outro. Diferente do benefício local, como ocorre na comunidade “dominada”, os efeitos benéficos seriam nacionais. Ah, mas, eu ia me esquecendo: o senhor não vê nada e não sabe de nada... Então, nunca deve ter se dado conta que a bandidagem de verdade é, no mínimo, sua vizinha.

Tags: Lula, rocinha, bandidos, inauguração, PAC, endereço, Copacabana

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05/03/2010 00:54

 

Inferno astral: nem arruda dá jeito!

Olá, pensadores!

Inferno astral é coisa séria! E parece que o do governador afastado do Distrito Federal, José Arruda, começou! Nove, de dez ministros do Supremo Tribunal Federal que votaram, decidiram pela manutenção da prisão preventiva decretada pelo Superior Tribunal de Justiça em desfavor de Arruda, envolvido no esquema de corrupção que ficou nacionalmente conhecido como “Mensalão do DEM”.

A prisão preventiva, medida cautelar disciplinada pelo Art. 312 do Código de Processo Penal, no caso  Arruda, foi decretada com o fundamento na efetiva interferência do investigado no processo de coleta de dados, durante a fase do inquérito policial. Como ficou comprovado, Arruda tentou subornar uma testemunha, arrolada na operação “Caixa de Pandora”, da Polícia Federal, que investiga o esquema de pagamentos indevidos a diversos parlamentares do Distrito Federal em troca de apoio político.

Para completar a urucubaca, antes, na manha do dia 04, o relatório pedindo o impeachment de Arruda foi lido e aprovado, por unanimidade, na Câmara Distrital. O governador terá 20 dias para se defender e, não conseguindo convencer os deputados, será licenciado por 120 dias, quando correrá o processo de cassação.

Na prisão, as coisas também não se houveram bem para o “mensaleiro do panetone”. De uma cela “super luxo”, de 40 metros quadrados, com banheiro privativo, janelões e vista panorâmica, Arruda passou para uma sala de 4x4m, com um beliche e um refrigerante basculante. É nessa sala que, com a decisão do STF, Arruda deve permanecer, no mínimo, mais 30 dias, prazo para que a PF conclua as investigações da “Caixa de Pandora”.

Sem partido, sem governo, sem amigos, sem liberdade e sem habeas corpus, o inferno de Arruda ainda não está completo. Brevemente, a menos que decida renunciar, pode ficar, temporariamente, sem direitos políticos. Do jeito que as coisas andam, com as informações que estão sendo acostadas no Inquérito da PF, além das “renúncias-confissões” de Leonardo Prudente e Geraldo Naves, Arruda terá que trocar de cela novamente: da sede da PF para uma imunda cela num presídio, quiçá o da Papuda. Acho que ele pode estranhar a vizinhança, apenas, porque com a imundície ele já está acostumado.

Talvez, lá, na Papuda ou em qualquer outro estabelecimento penal, José Arruda tenha um pouco mais de sorte. Se ele conseguir uma solitária, já vai ser um bom sinal! Talvez, lá, ele consiga por em ordem seu mapa astral e volte a se harmonizar, pagando seus débitos, que, mais cedo ou mais tarde, serão no total conhecidos. Porque, por enquanto, para a surpresa dos céticos, a despeito de ser um governador e de sua inegável influência, não teve sal grosso, jeitinho, mensalão, panetone, nem mesmo arruda, que desse jeito!

Tags: Caso Arruda, prisão preventiva, STF,

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02/03/2010 00:44

 

O exemplo chileno e o Apocalipse

Esse texto foi publicado, também, no portal O Globo:

oglobo.globo.com/opiniao/mat/2010/03/02/exemplo-chileno-o-apocalipse-brasileiro-915971450.asp

Olá, pensadores!

O mundo está com os olhos e antenas voltados para o Chile, sobretudo depois do terremoto ocorrido na manhã do último dia 27, e que alcançou a atemorizante marca de 8,8 graus na escala Richter.

Muitos sites de notícias entrevistaram especialistas em tremores e geólogos e diferenças, quanto às características do terremoto e seus efeitos, foram apontadas entre as catástrofes hondurenha e chilena. A principal pergunta foi: “como é possível que um abalo mais severo, no Chile, tenha causado menos destruição que o ocorrido no Haiti?”

É verdade, fatores naturais contribuíram para os efeitos mais danosos no Haiti. Por exemplo, no Chile, o epicentro do tremor ocorreu a 34 km da superfície da terra, enquanto que no Haiti foi a apenas 12 km. Nos Andes, o tremor mais intenso se deu numa área relativamente desabitada, enquanto que no Caribe, ocorreu a poucos quilômetros de Porto Príncipe. O solo haitiano é menos estável que o chileno.

Entretanto, o que os especialistas apontaram como determinante na minoração dos efeitos danosos no sinistro chileno a preparação do país para lidar com situações desse tipo. Com constante histórico de acidentes naturais, o governo chileno, ao longo de décadas, entendeu que prevenir seria o melhor caminho.

Por isso, lá, existe um rigoroso e obedecido código de construção civil. A rede de sismólogos é a maior do mundo. O sistema de saúde está pronto para atendimento a esse tipo de ocorrência. As crianças aprendem desde cedo como proceder no caso de terremoto.

Os danos, no Chile, ocorreram... Mas nem de longe se comparam ao estrago haitiano. No Chile, eles esperavam o convidado. No Haiti, apesar dos avisos, a negligência, a corrupção e o mau zelo os pegaram de calças nas mãos. 

Embora as medidas chilenas pareçam óbvias, elas demonstram algo maior, que serve de lição, inclusive para nós, brasileiros. Aqui, apesar de nossas leis rígidas e “previsões perfeitas”, na prática, prevalece a cultura do jeitinho, do arrumadinho: suborna-se um fiscal da prefeitura e se constrói irregularmente; um mensalão qualquer ao diretor do órgão ambiental e nascem hotéis de luxo às margens do mar, escalando, desafiadoramente, encostas de morros. Residenciais, com licenças viciadas e construções improvisadas, trincam, tombam. Os prédios públicos são feito com material de terceira.

Isso é reflexo direto da nossa cultura e do nível de banalização da corrupção a que nós, brasileiros, chegamos. Por isso que somos os campeões da modalidade, enquanto o Chile é apontado como o país menos corrupto das Américas.

Não bastasse a cultura geral do povo, os nossos representantes também nos dão "exemplos bons", quanto aos nossos incidentes naturais: campanhas contra a seca, contra as enchentes catarinenses ou fluminenses, contra a estiagem prolongada, entre outras, ressurgem, anualmente, como se tais tragédias fossem de prevenção impossível. E, todo ano, lá se vão não sei quantos mortos e feridos nos nossos desastres da natureza. Por que aqui não fazem como no Chile? Estou quase certo: o Haiti é aqui.

Deus foi muito generoso com o povo brasileiro quando decidiu pôr nosso país sobre uma placa geológica estável, de pequena incidência de tremores. Onisciente, Ele sempre soube quem eram as gentes que habitariam essa terra e seus maus costumes. E mais: Ele tinha a certeza que um terremoto aqui, no Brasil, não seria um desastre: seria o Apocalipse.

Tags: terremoto, chile, haiti, corrupcão, prevenção

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26/02/2010 20:31

 

O império do crack e a velha discussão: descriminalizar é o remédio?

Olá, pensadores!

O incidente envolvendo usuários de droga, no ultimo dia 25, numa região do Centro de São Paulo conhecida como crackolandia, muito mais que acirrar os ânimos entre a Polícia Civil paulista, representada na figura do delegado Aldo Galiano, e a Secretaria Municipal de Saúde da cidade, através do Secretário Januário Montone, trouxe à baila uma discussão antiga, mas que se mantém atualíssima, que, aqui em Maceió, deveria ocupar o plano central do poder público, nas câmaras, assembleias e palácios: a guerra contra o crack.

Lá, policiais enfileiraram centenas de usuários, revistaram, prenderam e os conduziram para uma clínica de saúde da prefeitura, a fim de que fossem medicados. Detalhe: a clínica não estava pronta para receber tantos drogados. Resultado: a polícia teve de liberá-los. A cena foi vergonhosa: um bando de vítimas das drogas, correndo, como uma manada livre, num deserto. Em vez de água, buscaram o substrato da cocaína. E, em poucos minutos, todos estavam como antes: consumindo a pedra.

Não queremos trazer o foco para o descompasso do poder público e sua vexatória falta de habilidade. Na verdade, parece não interessar aos dirigentes públicos, nem lá em São Paulo, nem aqui em Alagoas, enfrentar com sensatez, inteligência e compromisso esse duelo que, certamente, estamos perdendo.

E por que o crack assusta tanto? Porque, diferentemente da maioria dos entorpecentes, o crack parece não oferecer chance de recuperação ao seu usuário. É como se, na primeira inalada, você decretasse seu eterno enlace com a pedra maldita.

O secretário nacional de segurança pública, Ricardo Balestreri, numa palestra proferida essa semana na Comissão Brasileira sobre as Drogas e Democracia, anunciou a formação de um contingente, composto por policiais militares, civis e guardas municipais, especialmente treinados para lidar com o crack. Finalmente, perceberam que o modo policial rotineiro com o qual se tem embatido a pedra não surte efeito. Não adiante prender usuário. Aliás, quando o assunto é crack, usuário, vítima e doente são sinônimos.

Tratar usuários como se fossem traficantes é uma prática que tem de ser esquecida ou, no mínimo, reformulada. Nas prisões, em vez de se curar, tal usuário se torna soldado dos senhores do tráfico. Na visão do ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, que encabeça um movimento que busca descriminalizar o consumo de drogas no Brasil, a repressão ao consumo não gera efeito positivo nenhum. Para ele, a Colômbia mostra o insucesso da ofensiva prioritária nos usuários.

Em entendimento oposto, o mais recente relatório da ONU sobre consumo e venda de drogas, publicado no ultimo dia 24, condena incisivamente o que ele chama de “liderança latino-americana” tendente à liberação geral do consumo de drogas. Descriminalizar o consumo é aumentar o mercado e dar mais fôlego ao tráfico. Será?

Na verdade, não acredito que a descriminalização do consumo de drogas traga essa interferência à “balança mercantil” do tráfico. Aqui, o consumo continua crescendo, mesmo com a proibição legal. Mas,  usando o crack e o incidente paulista como exemplo, liberar o consumo de uma droga que, aparentemente, não dá uma segunda chance ao usuário, não parece ser algo sensato. É como autorizar a venda de passaportes funerários. Aceitar uma espécie de eutanásia desmotivada e cheia de efeitos colaterais. Ou de um suicídio que traz, a reboque, a vida e a dor de familiares e das vítimas dos crimes cometidos pelos que vivem da pedra e pela pedra.

Tags: crack, descriminalização, polêmica,

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19/02/2010 01:03

 

Xóxó tá no chão: cadê o duplo sentido?

Olá, pensadores!

Não é de hoje que músicas com duplo sentido fazem sucesso e estouram na mídia. Quem não se lembra da banda "Frutos Tropicais" que nos comedidos e "conservadores" anos 80 gravou a famosa "já chupou xibiu?" que até hoje se mantém viva na memória dos que, como eu, têm mais de 25 anos de vida.

O gênero – se é que assim podemos chamar – começou muito antes, na década de 1930, com as marchinhas de carnaval. "O teu cabelo não nega", de 1932, "Mamãe eu quero", de 1937, entre outras, ganharam espaço e agradaram a população por seu ritmo binário, melodia envolvente e por sua letra de forte apelo sensual ou cômico.

Genival Lacerda e sua "Severina xique-xique", também, demonstraram a boa receptividade do duplo sentido musical com o inesquecível refrão "ele tá de olho é na butique dela", de 1975. Depois dele, os sambas-enredo e demais estilos musicais, inclusive os menos populares, como o rock, utilizavam a ambiguidade das palavras para transmitir suas mensagens e brincar com a interpretação textual das canções.

Quando a Bahia descobriu o artifício foi uma verdadeira explosão de "sacanagens" camufladas. Das históricas letras das saudosas Banda Reflexus e Banda Mel e de outros cantores, fomos aos contaminantes e efervescentes "segura o tchan", "rala tcheca", "quem já chupou? Pirulitou!", "pega no compasso", "ela fez a cobra subir" e tantas outras. Essas, apesar do apelo mais direto, ainda guardavam a idéia do duplo sentido.

Entretanto, meus amigos, foi decretada a morte da brincadeira e do sentido ambíguo. Parece que a população vem ficando com sua capacidade de interpretação reduzida e as letras agora precisam ser explícitas. Diz-se na lata e o povo gosta. Nesse carnaval letras como "ralou a tcheca no chão, desceu com a mão no tabaco, perereca pra frente e pra trás, esfregou a xana todinha no asfalto" foram ouvidas, dançadas e ovacionadas. Onde está o sentido dúbio?

Num ritmo contagiante, versos como "vou te comer, vou te comer...", "relaxa na pica, relaxa na pica", "coca-cola espumante" e "rachadinha raspadinha" são as novas artes que tomam conta do cenário musical popular. Muitos se declararam "fiéis à putaria" e outro tanto vibrou toda vez que ouvia que "xóxó tá no chão". As canções não têm mais apelo sexual: são o próprio sexo ou o ato obsceno, falado e dançado.

O que temos de diferente das gerações que curtiram seus carnavais ao som de "criaram-se vários reinados, o ponto de Imerinas ficou consagrado, rambozalama o vetor saudável, Ivato, cidade sagrada..."? Ou das que seguiram os trios elétricos cantando "eu vou, atrás do trio elétrico, vou, dançar ao negro toque do agogô, curtindo minha baianidade nagô"? Não acho resposta. Assim como não acho solução para o seguinte quesito: onde essas letras vão parar? Falta alguma coisa ainda a ser dita?

Carnaval, é claro, como toda festa popular, sempre terá repertório que agrade o povão. Atualmente, as tais músicas são as da vez, as do gosto da massa. Quem curte que ouça, dance e se esbalde. Eu só espero que, de tão acostumados, não passemos a achar que música se resume a esse joguinho de rimas fracas e palavras chulas. E que, por força das letras cada vez mais diretas, não percamos de vez o senso que diferencia o que é divertido e engraçado do que é ridículo e agressivo de se ver e ouvir.

Tags: música, duplo sentido, popular, carnaval

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