O Grande desafio da educação é criar um fluxo de diálogos na busca das muitas consciências sociais

O racismo no Brasil é camaleão. A educação brasileira não o é, faz décadas impõe a mesma pedagogia conteudista para muitas gerações. A princesa ainda é a branca e Bela Adormecida. O negro fugido e escravizado pelos estereótipos é o Saci-pererê. Estigmas! O racismo no Brasil veste inúmeras roupagens. É racismo dissimulado que põe o discriminado em foco para impingir-lhe a “culpa” por ser a vítima ,alimentando a negação étnica de povos.
Educar é promover rupturas com o bolor dos estigmas sociais. Romper com o círculo vicioso da homogeneidade pedagógica. Ruptura com a esclerosada cartilha do conhecimento tacanho de emendar palavras umas nas outras, decifrá-las e descobrir que na matemática existem “só” quatro operações. O grande desafio da educação é permitir a sinalização de caminhos, criar um fluxo de diálogos na busca das muitas consciências sociais.
A tarefa da aplicabilidade da lei federal nº10. 639/03 e Lei estadual nº 6.814/07 - que cria a obrigatoriedade do estudo da África e dos afro descendentes e o estudo das relações inter-raciais no currículo da educação básica é árdua,pois,ainda, é vista como um símbolo reverso da historicidade homogênea, colonizadora e branca que tanto bem faz a alma do nosso povo “mestiço” .
Promover a inserção da lei é um desafio que não se esgota na sala de aula, exige a participação política dos governantes. Exige a criação de modelos estratégicos que resgate um débito histórico com um povo, que há séculos vem sendo marginalizado e aprisionado nos bastidores da história. E dos hospitais. E das escolas. Somos 50% da população brasileira. Somos negros e pobres. Somos pobres, não só pela situação econômica. Somos pobres, porque somos excluídos social e politicamente. A exclusão paralisa a mobilidade social. A imobilidade é o oxítono do nada. È a diáspora negra!
Em Alagoas, na questão do analfabetismo, 47% das crianças são negras, 27% pardas. O analfabetismo étnico, no estado alagoano, assume índices tão alarmantes que é preciso alicerçar um modelo de co-participação do poder público, iniciativa privada, sindicatos, academias na busca da consolidação de políticas públicas efetivas que permitam não só o acesso social de negros/negras e pobres,como das classes marginalizadas. O discurso homogêneo, consequentemente, unilateral tem se mostrado refratário a afirmação da presença negra, inviabilizando-a. !
Não existe liberdade com desigualdade!

 

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

Como conceder tratamento político igualitário a quem vive no olho do furacão das desigualdades sociais?

Em Alagoas, dados do IBGE informam que 47% das crianças analfabetas são negras e 27% pardas. Portanto, analfabetismo em Alagoas não é só um apartheid de classe, é principalmente um problema sócio-étnico. A construção de conceitos estereotipados atrapalha o desempenho escolar da população negra, o que se reflete nos índices de analfabetismo, evasão e repetência. Antes de sermos pessoas, somos diagnósticos críticos. Segundo relatório da ONU (Organização das Nações Unidas) em cada grupo de dez jovens de 15 a 18 anos assassinados no Brasil, sete são negros. A raça também representa 70% na estimativa de 800 mil crianças brasileiras sem registro civil. “Entre os indicadores negativos, os negros só perdem para a população indígena na taxa de mortalidade infantil.” Os números, contidos no relatório "Estudo das Nações Unidas sobre a Violência contra Crianças", mostram que o perfil das vítimas da violência vai muito além da faixa etária. Porque o estado brasileiro- o último a conceder a alforria, o segundo país mais negro do mundo ensurdece a vozes negras dos negros? Como conceder tratamento político igualitário a quem vive no olho do furacão das desigualdades sociais? O estado brasileiro ainda ignora Palmares dos pobres e dos negros. E, como somos maioria nos dois gráficos estatísticos, afirmamos que o organismo estatal ignora o povo negro. Segundo Aristóteles, a definição de sociedade sinonimiza com parceria, partilha de valores. Zumbi, o mais negro dos heróis brasileiros, foi unidade de luta e ao mesmo tempo transformou-se no símbolo de milhares de vozes anônimas gritando basta a exclusão. Zumbi fez escola e hoje a lei nº10. 639/03 sinaliza para uma clara reflexão político-pedagógica do todo social.
Acreditamos que a aplicabilidade da lei em todas as escolas alagoanas - uma obrigatoriedade dos órgãos competentes de estados e municípios abre janelas e portas para a um processo de humanização, socialização e singularização do currículo escolar. Abre portas para a construção da cultura de grupo e de pertencimento étnico. E, aí muitas meninas e meninos negros, brancos, ciganos, indígenas Fransciscos, Josés, Wallaces, Isabel, Marias, se sentirão acolhidas, incluídas e visibilizadas na história de Alagoas, que na sua grande vertente, é uma história negra.
Cabe ao estado alagoano implementar políticas públicas como canal de diálogo, democratização do conhecimento e construção de processos de incorporação étnico-cultural, afinal estamos no mês da Consciência Negra, mês do herói Zumbi, mês de todo anônimo e anônima que luta por uma sociedade mais justa e igualitária. Dagô Francico! Axé Zumbi!

 

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

O menino Francisco e Zumbi dos Palmares


Os silêncios, vazios em sua essência histórica e os fragmentos de memória da história de Alagoas abrem lesões profundas e intrínsecas na contextualização da luta guerreira do povo negro - simbolizado na figura de um menino dado de presente a um padre. Um negro chamado Francisco - que antes de ser convertido aos padrões eurocêntricos da educação recebida, subverteu a idéia construída de negro como povo escravo, malemolente. Francisco que não herdou a mansidão do santo dos passarinhos. Francisco, o senhor dos quilombos. O Brasil demorou 300 anos para internalizar a questão do herói negro. 300 anos! A Rua do Brasil que dá de cara com a África é um beco sem saída! Francisco, o menino transformou-se em Zumbi, o guerreiro. A palavra Zumbi, ou Zambi, vem do africano quimbando "nzumbi", e significa a grosso modo, "duende". Dizem que a partir da sua vivência no mundo dos brancos, Zumbi apoderou-se da certeza de que o povo negro precisava se transformar em sujeito de sua própria história e não continuar objeto dos caprichos do senhor. Francisco, o Zumbi, contrapôs a história de que uma andorinha só não faz verão. Creio que uma andorinha só, pode sim, plantar a chuva e da terra molhada nascer o feno que chamará outros humanos famintos de sonhos e aí cabe a andorinha seduzi-los e seduzi-las para revoada. Zumbi, o dos Palmares, concebeu no quilombo a incorporação de ideais humanitários, a legalização dos direitos humanos: somos diferentes sim, mas não desiguais! A Escola cala a voz de heróis e heroínas não hegemônicos. Ganga Zumba foi negro. Zumbi tinha orgulho da sua negritude. O povo negro não é hegemonia. A invisibilidade da história negra traz para a contemporaneidade a degola metafórica da luta palmarina e outras intervenções negras, quando as informações didáticas e sociais vêem carregadas de juízos de valor que estabelecem lugares de poder e a relação de submissão do negro escravizado com o branco/senhor/dono. Ponto contra! É urgente a qualificação dos espaços pedagógicos. A voz de milhares de profissionais da educação ainda se atrela e atropela as existências da multiculturalidade. Como se dará a inserção da temática negra na escola se os conceitos já vêem predefinidos e mapeados pela ótica envelhecida e empobrecida do unilateralismo dos saberes?
Ao colocar correntes no currículo, a escola nega e perpetua a África escravizada pelo sinuoso subterrâneo do racismo. Na verdade, o Brasil não quer ser africano - já diria o grande Abdias Nascimento - o ícone brasileiro do movimento revolucionário negro. Arma-se um pano de fundo sociológico com relações de causa e efeitos nefastos nítidos e precisos na errônea reinterpretação da história e da desigualdade racial e social crônica: dominantes e dominados. Ganga Zumba e Zumbi lideraram uma das maiores expressões de luta organizada no Brasil em resistência ao sistema colonial-escravagista E nós, seu povo descendente, fruto da noção cristalizada da hierarquia dominante, moramos em favelas, palafitas, somos o maior contingente de analfabetos no segundo país mais negro do mundo, fora do continente africano.
 

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

Na escola não há espaço para anjos negros, nem bailarinas gordas ou princesas que tenham deficiência.

A concepção da escola invisibiliza a identidade negra Uma das características básicas do currículo escolar é a flexibilidade, entretanto, quando a temática é a negra o verbo mais conjugado é o resistir. Resistir sistematicamente aos preconceitos adquiridos em um processo de má informação e da má formação sobre a África. Resistir ao processo da construção de espaços intelectuais e de poder para um povo que foi expatriado do seu continente e mantido a força em território brasileiro, como escravizado. O corpo organizacional da escola (gestão, professoras e professores) justifica a resistência com alegações diversas. Desde o receio de não ter informações para aprofundar o assunto, com desculpas pueris como "na escola não há alunos/alunas negras... portanto não tem porque trabalhar isso". Para introduzir o estudo sobre o continente africano é preciso trabalhar na desconstrução e eliminação de alguns elementos básicos das ideologias racistas brasileiras. Quais os padrões usados por nós professoras e professores no quesito beleza? Internalizamos a consciência do homem branco/europeu/cabelos lisos e de preferência loiros. E, quando eu escolho padrões, eu qualifico. Eu seleciono. Eu diferencio. Eu discrimino. Eu excluo. A auto-construção negativa do adulto negro tem seu início na educação infantil. É preciso que façamos da educação um exercício salutar de tratamento das questões humanas fora dos padrões ideológicos. Na escola não há espaço para anjos negros, nem bailarinas gordas ou princesas que tenham deficiência. Na escola não há espaço para herói e heroínas negras. Na escola criança negra não faz parte do mundo do faz-de-conta porque no mundo do faz-de-conta, todas as princesas são brancas: Branca de Neve, Cinderela, etc, etc... A criança negra é cuspida da escola quando coleguinhas a estigmatizam como tiziu, cabelo de bombril, cabelo pixaim, "Zumbi", numa relação clara com sua descendência étnica. Na escola, Zumbi ainda não é rei. É o apartheid estético-social. O mais grave é que o negro, com essa massificação imposta pelos valores eurocêntricos, nega a sua negritude, tem medo da própria imagem e conseqüentemente teme o direito de reivindicar sua própria história. A escola não conta aquele conto que em 1597, o primeiro rei, Ganga Zumba, concebeu em uma serra de muitas palmeiras uma das primeiras sociedades econômica e socialmente viável e auto-sustentável: o Quilombo dos Palmares. O Brasil atravessa a rua quando encontra a África!

 

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

Qual a escola brasileira que se atreve a dizer que a Princesa Isabel foi uma lenda?

A história do povo negro é seqüestrada diariamente no cotidiano das salas de aula, nas páginas dos livros didáticos e em cada esquina do conhecimento pedagógico. Recentemente, uma professora afirmou em sua aula de história que o "país" África era pária do mundo, não muito contente com a abrangência do substantivo mundo, ampliou para universo. Meninos e meninas demonstraram uma má disfarçada inquietação. Não que ousassem contestar a absurda avaliação histórica da mestra, simplesmente não sabiam o significado de pária. Reinventam-se fórmulas para a perpetuação da "teoria das raças". Emudece a voz histórica e as nossas concepções eurocêntricas ganham a interpretação de história verdadeira. Vira-se a página! Outra professora transformou em lenda a história de Zumbi dos Palmares. Uma meninazinha levantou o braço e perguntou? Tia, Zumbi não existiu? E a mestra enfática: não foi bem isso que quis dizer; mas disse, afetando de modo decisivo a percepção de crianças, ainda pequenas sobre Zumbi, o Rei de Palmares! É a pedagogia caduca na busca dos semelhantes e da exclusão dos "diferentes", ganhando sobrevida nas salas de aula, criando espaços estéreis feito páginas em branco, onde tudo pode ser imaginado, segundo a preferência do freguês/freguesa. É nossa ignorância histórica limitando as muitas possibilidades para que meninos e meninas, mesmo não tendo uma linguagem comum, estabeleçam espaços de partilha ética e respeito ao outro/outra. É o racismo nosso de todo dia que põe a burca e europeíza nosso olhar. O mito da miscigenação brasileira serve de pano de fundo para mascarar, normatizar e internalizar o racismo cotidiano. Qual a escola brasileira que se atreve a dizer que a Princesa Isabel foi uma lenda? Explosão de contradições! É a busca dos valores do colonizador radicalizando a linguagem da escola, a estruturação das diretrizes do currículo escolar data do império, impondo um processo de acomodação secular- a eurocentricidade que cala a voz/cultura/expressões negras de milhares de meninos , meninas e jovens negras, brancas,indígenas.
Educação é movimento. É a construção de pontes mais transitáveis para a promoção do discurso do respeito às diferenças e a construção singular do sentido de grupo. Educar é contar histórias, escutar atentamente as diferentes construções históricas identitárias, abrindo o leque para que todas as vozes oriundas das muitas culturas sejam ouvidas. Quando a educação fala linguagens diversas, as respostas surgem. A tia Eunice pede à sua turma a leitura do livro "O Sítio do Pica pau Amarelo". Após a leitura, o menino do alto dos seus dez anos de loquacidade e sabedoria, expõe ponto de vista abalizado: Tia, o Sítio do Pica-pau é igual à história do Brasil? E a tia engessada na interpretação usual do livro centenário, inquire: que idéia é essa, menino? E ele já transpondo suas pontes: No Sítio tia, como na História do Brasil, todos os negros são escravos! Xeque mate para quem aos 10 anos já percebe que estereótipos criados e consolidados da subalternidade do povo negro são naturalizados e aceitos nas muitas literaturas brasileiras.
 

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

Na sala de aula Jesus recebeu o apelido de Zumbi

Jovem de classe média alta, Lauro tem cerca de 20 anos e recentemente ganhou do pai, empresário bem sucedido uma Hilux. Eufórico com o presente Lauro combina de estrear o carro com a turma de amigos. E por “pura falta de sorte”, na primeiríssima saída de estréia com o carro novo surge a abordagem por uma dupla de agentes da lei que ‘desconfiados’ do “elemento” que dirigia um carro tão caro, parou-o, pediu todos os documentos e não contente “exigiu” o certificado de compra.
Será que o cabelo Black Power do negro Lauro estabeleceu um pré-julgamento dos agentes da Lei?
Jesus é menino esperto, com a vivacidade e inteligência das crianças de 05 anos. Na sala de aula Jesus recebeu o apelido de Zumbi porque para meninos e meninas da turma negro tem a aparência de Zumbi e não de Jesus e ponto final.
Hora de escolhas na escola. Quem fará o papel de anjo na peça teatral? Leandro de sete anos levanta a mãozinha: Tia eu quero! Os outros meninos riem do desejo de Leandro. Ele não pode ser anjo. Ele é negro e pra escola não existe anjos negros.
Especialistas são unânimes em afirmar que é a partir da educação que restabelecermos as regras e normas sociais, conceitos e preconceitos.
Uma educação focada no princípio da igualdade, de modo que enxergamos o respeito às diferenças como a ação ampla do fazer educação, com auto-estima, cidadania e consciência racial
Será que precisamos mesmo da Lei Federal nº 10.639/03 e Lei Estadual nº 6.814/07 para trabalhar a positividade do elemento negro na história das escolas brasileiras e alagoanas?
O Brasil foi o ultimo país do mundo a libertar homens e mulheres escravizadas, não por solidariedade humana, mas por força da economia do país, que era sustentada pela escravidão.
A historiografia contemporânea assinalada nos espaços estruturais do estado é aquela que busca preservar o “esquecimento”. Aquela que vira às costas as ações afirmativas e a reapropriação das identidades étnicas. Enquanto o estado não assumir as políticas públicas de enfrentamento ao racismo, seja a lei de cotas, da implementação da Lei nº 10.639/03, com a especificidade da Lei Estadual nº. 6.814/07 sairemos do período colonial. Dificilmente teremos uma democracia plena .
O país tem, estruturalmente no presente, um saldo histórico com o passado escravocrata. Há mais de trezentos anos o Estado brasileiro está com suas contas no vermelho, um déficit humanitário com um povo que trouxe para a colônia “um conhecimento produtivo que é fundamentalmente africano, nas áreas de mineração, produção de ferro, agricultura produção de açúcar,manufaturas,tecelagem,construção. O mesmo se dá nos campos da política,se considerarmos que os quilombos foram a forma mais sistemática da produção de contestação do Estado escravagista” (Júnior, Cunha Henrique).
Ao estabelecermos conexões da abolição com outras situações, como a imigração, o que é que verificamos? . O Brasil concedeu terras e incentivos fiscais para os imigrantes europeus. O que foi, então, fornecido aos negros libertos? Quanto por exemplo, o Estado gastou com os negros? Nada. E quanto gastou com os imigrantes europeus? Muito.
Recentemente presenciamos no noticiário alagoano a chegada do príncipe Dom João Orleans e Bragança a Alagoas com a missão de lançar junto ao governo do estado a “Rota do Imperador” em homenagem aos 150 anos da passagem de Dom Pedro II, por Alagoas.
O príncipe conseguiu agregar inúmeras autoridades alagoanas ao seu projeto turístico: juízes, políticos, parlamentares, governantes, historiadores.
A idéia é planejar e fortalecer o turismo histórico, de forma sustentável.
O território alagoano possui faz muito o templo da resistência, patrimônio Histórico, Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico e um dos grandes patrimônios da Humanidade chamado Serra da Barriga e poucos, muitos poucos conhecem essa realidade. E plantado na Serra da Barriga está o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, o primeiro complexo arquitetônico de inspiração africana de todas as Américas e o único parque temático cultural afro-brasileiro do país. Um espaço já criado e pronto para desenvolvimento do turismo sustentável. Carece só interesse e visão política para estabelecer uma rota nessa oblíqua travessia de interlocução da matriz européia com a matriz africana.
Marina chegou da creche tristonha e confessou entre soluços para a mãe que as amiguinhas não querem brincar com ela. Afirmaram que ela tem a cor de gente ruim, e Marina não quer mais voltar à creche.
Será que a cor no Brasil não cerceia espaços de oportunidade para os herdeiros e herdeiras das geografias, corpos, feições,trejeitos das áfricas em território brasileiro?
Como é mesmo aquela conversa de que queremos racializar o Brasil ou dividir o país em brancos e negros. O que será que conta nossa história?
 

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

Está na hora deste país encarar uma verdade disfarçada há quatro séculos: quem paga a principal conta da desigualdade neste país é a mulher negra, o homem negro, o idoso negro, o jovem negro, a criança negra.

A lei federal nº 10.639 sancionada em 09 de janeiro de 2003 e a Lei estadual nº6.814/07 surgiram como mediadoras na construção de um novo paradigma pedagógico-histórico. Tornou-se um elo de pertença social, possibilitou espaços para um povo descendente que busca a sua própria história dentro do romantismo da “riqueza da miscigenação brasileira”.
Um povo que “alforriado” agora enfrenta outros modelos de segregação; a do modelo econômico, domínio social e sistema político. Todos ancorados em princípios do colonizador, homem, branco, magro, cristão e heterossexual. O advento das leis significou a possibilidade de transformação real na estrutura curricular das escolas brasileiras. Significou o reconhecimento político da existência do Brasil etnicista, ao mesmo tempo em que legitimou as muitas geografias humanas em território brasileiro, revelou uma quebra de forças com a corrente nacionalista que busca a perpetuação da “nação” dominada por velhas ideologias colonizadoras. A lei para os puristas e “ingênuos sociais” representou um descarrilamento do político-ideológico. Rompeu a noção das classes dominantes. E essa mesma classe viciada aos 100% das cotas históricas sentiu-se violentada. As ações afirmativas quebram a lógica da ciência da dominação e expõem os limites da hierarquização do poder e parafraseando o presidente Luís Inácio Lula da Silva, o Lula em 2003 “Está na hora deste país encarar uma verdade disfarçada há quatro séculos: quem paga a principal conta da desigualdade neste país é a mulher negra, o homem negro, o idoso negro, o jovem negro, a criança negra. É difícil abandonar a própria consciência depois que ela se instala, porque ela cresce, invade cada célula do corpo, questiona cada certeza. Ativa a nossa mente com respostas cada vez mais claras, até que um dia irrompe e vem à luz. E o nosso olhar sobre o mundo nunca mais será o mesmo”.

 

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

O nosso racismo silencioso promove um dálogo perfeito com o padrão eurocêntrico brasileiro.


O racismo é atemporal está sempre à frente das normas do humanismo, subestimando a capacidade social de debelá-lo. Como elemento anônimo circula livremente pelas realidades subterrâneas, os subúrbios dos silêncios sociais. É inventiva e carregada de inteligência a linguagem da discriminação racial brasileira que ao assumir as esferas do poder usurpa espaços, hierarquiza e estabelece o fenótipo “aceitável’ ao “miscigenado” povo. Por que nos é tão fácil esquecer que o Brasil é o segundo país mais negro do mundo?
O movimento da historiografia do Brasil, ainda, promove abordagens estereotipadas sobre a África e todo patrimônio coletivo de saberes incorporados ao cotidiano do país. Essas mesmas abordagens invadem os espaços pedagógicos transformando a construção histórica, social e cultural da etnia negra em leis e mais leis que o poder público simplesmente ignora.
A historiografia negra, ainda é uma micro história social e “o etnicismo educacional é a matriz do predomínio e privilégios. Sua face mais horrenda é perpetuar e negar às massas segregadas o acesso à educação, evitando que se preparem para disputar renda, saúde,moradia,trabalho,cidadania. Essa incapacitação estável forma a base da pirâmide social(...)”( Mir,Luís)
Acreditamos que é a soma e não a exclusão que torna os povos distintos. Desconstruir a história que se conta sobre a construção identitária da etnia negra é tarefa desafiadora.
Exige da escola e da sociedade um exercício diário a fim de revisar perspectivas, interpretações estereotipadas e racistas.
Precisamos de escolas especializadas em formar humanos com inúmeras aptidões desde a matemática a música. Desde o conhecimento da física a apreensão da química do respeito humano. Escolas que sejam instrumental ativo para iniciativas de construção de diálogos de consensos humanos, que promovam as oportunidades de debate, troca e aprendizado mútuo; aumentando o auto-conhecimento, o desenvolvimento pessoal e interpessoal da comunidade escolar. Escolas que alfabetizem tendo como foco a construção de humanos integrais, pois “um cidadão educado, ator político, sujeito do seu próprio destino exige (e luta) independência econômica pessoal e coletiva; se torna um trabalhador moderno, integrado numa economia industrial (...) (Mir; Luís)
Precisamos revisar a ambigüidade dos discursos que evidenciam o nosso racismo e a plena aceitação da não-ascensão do elemento negro. Quantas e quantas vezes não repetimos frases tipo: “Em hipótese alguma passo da minha hora na repartição, afinal não sou nenhum escravo”. De imediato nos remetemos a todos os conceitos estabelecidos no imaginário social sobre as “aptidões” do colonizador e do colonizado.
Permitimo-nos ter laços parentais com os colonizadores, mas em hipótese alguma estabelecemos fios condutores que reflitam a nossa condição de filhos da mãe África. Nossos discursos sociais são eivados de segmentação: estabelecemos a inserção social com um viés extremamente hierarquizado. E um dos maiores problemas é que achamos singular e normal que os não negros assumam os espaços de poder e o “normal” é o negro da subalternidade, na periferia da história.
A associação que fazemos da palavra escravo é com o elemento negro, portanto o nosso racismo silencioso promove um diálogo perfeito com o padrão eurocêntrico brasileiro. Homem, branco, heterossexual e católico. “E anuncia-se mais uma vez o duelo com o analfabetismo na nossa história. Educados basicamente, esses segregados devem ter acesso a tantos outros tipos de investimentos para ingressar no mercado de trabalho mais sofisticado. O custo de socializar, educar, abastecer com serviços, cultura e lazer, transferir renda e empregos para milhões de emancipados quebra a hegemonia de grupo e o monopólio da renda e do Estado.(...)
No Brasil, os proprietários de escravos queriam ser ressarcidos pela perda do seu capital (...) ( Mir, Luís)
Situações como essas tornam imprescindível o debate sobre as dimensões do racismo brasileiro e um redimensionamento das políticas públicas de reconhecimento, valorização e respeito ao povo negro, daí a extrema importância de se tratar do tema no universo das escolas brasileira, desde a educação infantil.


 

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

Uma Missa em Nome da Paz pelo respeito à liberdade de crenças e as diferenças humanas

Os jovens negros morrem duas vezes mais de homicídio do que os brancos. O índice de homicídio de 1995 para cá aumentou 46,3% e, atualmente, 54,4% dos assassinatos vitimam jovens pretos e pardos. Em comparação com a mulheres brancas, as negras são vítimas bem mais freqüentes de assassinato, doenças do fígado e complicação na gravidez. Mulheres e negros encontram mais dificuldade para ocupar postos de trabalho, sejam eles formais ou informais. Entre as crianças negras de 10 a 14 anos o analfabetismo chega a 5,5%. Para crianças brancas da mesma idade, esse número cai para 1,8%.
Dos homens com mais de 10 anos, 10,8% são analfabetos. O número de mulheres com a mesma idade e na mesma situação é 10,2%. Noventa por cento da população que pratica a religião afro-brasileira é analfabeta.
No estado de Alagoas 9,1 da população declarada branca tem acesso à educação e só a 1,8 da população negra é permitido esse acesso.A exclusão étnica gera a ausência de oportunidades; veste a capa da pobreza, empurrando essa população para os grotões da escassez das políticas públicas que, por sua vez, é geradora da pobreza marginal, rimando com miséria que grita pela violência ecoando na sociedade.Por ter um número crítico/extremado de desigualdade em relação à população negra, Alagoas em recente pesquisa foi designado, numa associação racista, como “A Pequena África”.
A miscigenação misturou as raças e esqueceu de dividir direitos e riquezas. No próximo dia 26, às 18 horas, na Catedral Metropolitana, o arcebispo de Maceió, Dom Antonio Muniz, celebra “Uma Missa em Nome da Paz pelo Respeito a Liberdade de Crenças e as Diferenças Humanas”. A Missa da Paz é um fórum permanente, no mês da Consciência Negra, para conscientizar e motivar campanhas pela valorização da vida humana em busca da paz.
Essa é a hora para que cada alagoano/alagoana participe na construção da voz coletiva para pôr fim à política isolacionista e tornar-se co-parceiro/protagonista na ação coletiva do fazer o social participativo e responsável. É preciso que investiguemos nossas possibilidades: em que posso contribuir. Não dá mais para ocultar nossos olhos sob as lentes da imparcialidade. Quando a nossa imparcialidade torna-se omissão a violência que eclode é reflexo.
Precisamos de muitas/muitos embaixadores da paz. Precisamos especialmente de você! Participe! Divulgue essa idéia, coloque-a em circulação e mobilize mais gente para investir na construção de uma rede de diferentes pessoas em nome da paz entre povos.
Precisamos da participação efetiva e eficaz dos ministérios público estadual/federal, das associações de bairro, dos sindicatos, dos organismos governamentais e não-governamentais, da iniciativa privada e tantos e muitos. A redução da desigualdade apresenta-se como prioridade para constituirmos uma sociedade democrática, livre, economicamente eficiente e socialmente justa, sem violência. Vamos lá. Mobilize!Participe!

Escrevi esse texto acima faz quase 365 dias, mas como no contexto social a violência não arrefeceu, o texto continua atual.

 

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

Mestrandas da Bahia ministram oficina em Um Dia de Graça no Terreiro


Localizado em uma região inóspita cercada por carências estruturais gritantes para a sobrevivência humana, o Centro Afro Cultural Abaça de Oxum Panda, dirigido pela Yalorixá conhecida como Mãe Rosa é espaço de acolhimento e aprendizado espiritual para muitas pessoas que desafiam diariamente a dificuldade de acesso, por entre ruas intransitáveis e esgoto a céu aberto no Village Campestre II, bairro do Tabuleiro do Martins.
E foi nesse espaço que Mariluce Santana Vida e Luciana dos Santos Pita, mestrandas do Programa de pós-graduação em Educação e Contemporaneidade da Universidade Estadual da Bahia ministraram no dia 07 de novembro,das 11 às 14 horas a oficina temática Eu, Meus Pais e Meus Avós: uma reconquista da ancestralidade, tendo como objetivo promover entre os cerca de 35 participantes da comunidade local a construção de sua árvore genealógica (simbólica), bem como o reconhecimento de suas matrizes primordiais, tomando como referência o universo nagô.

A atividade que dá continuidade a programação do Novembro em Movimento, iniciado dia 06 de novembro com o II Colóquio Internacional Brasil x Áfricas Arte, Culturas/Centro de Convenções Ruth Cardoso, em Maceió-Alagoas abriu a 1ª edição do Projeto “Um Dia de Graça no Terreiro.
A ação do Projeto Raízes de Áfricas pretende constituir-se em um espaço de desmistificação, discussão e reflexão sobre as concepções sócio-culturais relacionadas aos espaços dos terreiros.
A proposta é mobilizar redes de pessoas e instituições visando à quebra dos paradigmas marginais que cerca o conhecimento compartilhado nos espaços dos terreiros.
Segundo Mãe Rosa, yalorixá responsável pelo Centro Afro: “a sociedade ainda não reconhece e acolhe a atividade social dos terreiros e o projeto Um Dia de Graça abre portas para se trabalhar a intolerância religiosa, cria pontes para que se perceba que nos terreiros existe a crença na universalidade do conhecimento,do amor fraterno, solidariedade e respeito ao próximo.
A Oficina: Eu, Meus Pais e Meus Avós foi uma experiência rica, emocional, conscientizadora e humanizadora que integrou o reconhecimento ancestral e a afirmação da identidade religiosa, partilhando e conferindo sentimentos de pertencimento, numa linguagem capaz de ser percebida,compreendida e vivida por todo o grupo, composto de 30 pessoas entre crianças, adolescentes da comunidade local.
O encerramento da atividade foi marcado pela graça das expressões artísticas das adolescentes, através de cantos e danças realizados com entusiasmo, palmas, saudações aos orixás e a diversidade humana. Mais informações estão disponíveis no link http://www.cadaminuto.com.br/ index.php/blog/blog-raizes-da-africa

Serviço:

O Quê? Projeto Um Dia de Graça no Terreiro
Quando: 07 de novembro de 2009
Onde: Centro Afro Cultural Abaça de Oxum Panda/Village Campestre II/Tabuleiro dos Martins.
Sujeitos de direito: participação da comunidade local
Promoção: Projeto Raízes de Áfricas/ONG Maria Mariá,, com o apoio da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade/SECAD/MEC, vereadora Fátima Santiago, /Movimento pela Paz, Polícia Civil,Secretaria de Defesa Social,Corpo de Bombeiros,Secretaria de Estado da Paz.
Informações: (82)8815-5794/9444-7968

 

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.
Comercial (82) 3313.6040 (82) 99812.2189 comercial@cadaminuto.com.br
Redação (82) 3313.2162 (82) 99664.2221 cadaminutoalagoas@hotmail.com