Sueli Carneiro, uma das ativistas mais importantes do movimento social negro brasileiro participa, no Mês da Mulher, do II Encontro Etnicidades Nordeste.


Sueli Carneiro é uma das ativistas mais importantes do movimento negro brasileiro. Filha de uma ex-costureira e de um ferroviário é dona de uma negritude ativista e empreendedora. Feminista e intelectual, Doutora em Educação pela Universidade de São, fundou o Geledés - Instituto da Mulher Negra, primeira organização negra e feminista independente de São Paulo e atualmente faz parte da Coordenação Executiva da instituição.
*Sua militância política faz parte do cenário espacial, político e geográfico do movimento social negro contemporâneo
Sueli Carneiro é pioneira. Criou o único programa brasileiro de orientação na área de saúde específico para mulheres negras. Semanalmente mais de trinta mulheres são atendidas por psicólogos e assistentes sociais e participam de palestras sobre sexualidade, contracepção, saúde física e mental na sede do Geledés.
Sueli Carneiro é Literatura. Foi uma das biografadas na Coleção Retratos do Brasil Negro,da Editora Selo Negro: Biografias, Diários, Memórias e Correspondências, tendo Rosane da Silva Borges como autora.
Doutora em Filosofia da Educação, Sueli Carneiro tem mais de 150 artigos publicados em jornais, revistas e livros e é organizadora de três obras. “Seus textos traduzem o engajamento político, a critica conseqüente e a polêmica externa e interna aos movimentos”, conclui Rosane, a autora da biografia.
Dia 13 de março, Sueli Carneiro participa do II Encontro Etnicidades Nordeste: “Promoção da Igualdade Racial, em Alagoas - Teoria e Prática”, coordenado pelo Projeto Raízes de Áfricas, sob patrocínio da Fundação W.K. Kellogg e Federação das Indústrias do Estado de Alagoas.Durante o II Encontro Etnicidades Nordeste a Fundação W.K. Kellogg e o Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO da Universidade Federal da Bahia (UFBA) CEAFRO.

O Que é o II Encontro Etnicidades Nordeste: “Promoção da Igualdade Racial, em Alagoas - Teoria e Prática”.

Dia 13 de março de 2010, a Fundação Fundação W.K. Kellogg e o Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO da Universidade Federal da Bahia (UFBA) CEAFRO, com a articulação local do Projeto Raízes de Áfricas e apoio da Federação das Indústrias do Estado de Alagoas e Polícia Civil estarão apresentando às lideranças locais, professores, pesquisadores, acadêmicos, gestores e profissionais e interessando na temática, o resultado do mapeamento das ações de promoção para a Equidade Racial e Inclusão em Alagoas, (abordagem de implementação da LEI Federal nº 10.639/03), como também a troca de experiências e idéias para a construção de Marco de Referência, mecanismo de apoio à sustentabilidade da causa da Equidade Racial, como resultado da pesquisa participativa realizada em julho de 2009. O mapeamento surge como instrumento de estímulo a produção de trabalhos científicos e processos inovadores que propulsionem a pesquisa e o desenvolvimento sustentável da comunidade negra alagoana.
Sueli Carneio faz parte do Comitê Programático da ação conjunta.


Serviço: II Encontro Etnicidades Nordeste: ‘Promoção da Igualdade Racial, em Alagoas: Teoria e Prática”
Dia: 13 de março 2010
Local: Auditório Antônio Cansanção -Federação das Indústrias do Estado de Alagoas- Av. Fernandes Lima, 385-Farol( a confirmar)
Informações e Inscrições: 8827-3656/8815-5794
Será servido almoço aos participantes
Inscrições limitadas. Não haverá inscrições no dia do II Encontro.


*Com informações da web
 

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Alagoas é um estado cuja sociedade/poder público ainda percebe a questão racial como um tema delicado.


Em 1934, na cidade de Recife, Gilberto Freyre organizou o 1º Congresso Afro-Brasileiro.
Alfredo Brandão, alagoano do município de Viçosa, em ensaio, apresentado no Congresso Afro organizado por Gilberto Freyre, afirmou que em Alagoas “a história do negro quase que se deixou ficar em apagado”.
O pioneirismo do ensaio de Alfredo Brandão produziu não só inúmeras referências, como também um sem números de estudos e pesquisas relacionados ao tema.
Alfredo Brandão foi um arauto de seu tempo ao produzir a obra mais completa produzida por um alagoano sobre negros em Alagoas, caracterizando a procedência dos escravos, na sua grande maioria bantos, que foram trazidos para as bandas de cá.
Os bantos e negros de Alagoas foram contribuintes para o processo de civilização local. Alagoas é mais africanizada pela influência do povo banto. A África em Alagoas é “banteada”.
Estamos no ano de 2010, setenta e seis anos, que nos separam do ensaio do mestre Alfredo Brandão. Atualmente Alagoas é um estado cuja sociedade/poder público ainda percebe a questão racial como um tema delicado. Como despertar, em pleno século 21, a consciência na geração da alagonidade contemporânea, criando estratégias para a ruptura com o preconceito racial?
Como promover um novo ensaio, nos moldes de Alfredo Brandão, que promova a convergência da cultura-sócio-étnica alagoana, agora com novos signos, imagens e significados da arte afro-musical, afro-brasileira, afro-universal como ferramenta de comunicação para acender novos e diferenciais ritmos de consciências? Consciências que respeitem as diferenças. Consciências substantivas!
O Projeto Raízes de Áfricas entende que para promover uma mudança de mentalidade social é preciso estabelecer alianças de parcerias, com diversos segmentos sociais:, dentre eles governos, empresários,academias na execução de projetos que agreguem valor ao imaginário socialmente construído em relação ao “lugar” que ocupa o povo negro.
Projetos de intervenção que reafirmem o compromisso coletivo para a construção de uma sociedade onde a erradicação do racismo estabeleça princípios da igualdade e justiça social
Projetos de intervenção substantivos que estimulem o canto da igualdade compromissada com o entendimento dos valores sócio-étnicos, identificando lembrando, discutindo, refletindo e associando ao 21 de março- o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial , novas possibilidades de discussão e apreensão entre os pares e os ímpares sujeitos sociais,da afro-alagoanidade, que revise o passado na intenção de compreender o presente.
 

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O desafio de promover a redução das desigualdades raciais deve ser política de estado ou a população negra alagoana precisa agregar valor ao voto na eleição de outubro.

O desafio de promover a redução das desigualdades raciais deve ser política de estado, portanto é preciso que setores sociais como os governos em todas suas esferas, a mídia, o corpo empresarial, a sociedade civil assumam suas responsabilidades estabelecendo estratégias de ação conjunta, que, entre outras iniciativas, vise criar condições favoráveis para positivar diagnóstico da qualidade de vida da população negra, que segundo, o jornalista Luís, Mir : As senzalas futuristas dão a medida mais visível da segregação; de 20 a 30% das populações de metrópoles brasileiras vivem em favelas. Em geral, num ambiente de ceticismo e hostilidade. Vivem como sempre viveram os pobres, negros, e marginalizados desde o Brasil colônia. Independência, império, abolição e República em nada mudaram o pensamento das elites governantes, que sistematicamente usaram a repressão e a violência para controlar os desiguais”.
Dia 13 de março de 2010, a Fundação Fundação W.K. Kellogg e o Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO da Universidade Federal da Bahia (UFBA) CEAFRO, com a articulação local do Projeto Raízes de Áfricas e apoio da Federação das Indústrias do Estado de Alagoas e Polícia Civil, entre outras parcerias, estarão apresentando às lideranças locais, professores, pesquisadores, acadêmicos, gestores e profissionais e interessando na temática, o resultado do mapeamento das ações de promoção para a Equidade Racial e Inclusão em Alagoas, (dentre elas, a abordagem de implementação da LEI Federal nº 10.639/03), como também a troca de experiências e idéias para a construção do Marco de Referência, mecanismo de apoio à sustentabilidade da causa da Equidade Racial, como resultado da pesquisa participativa realizada em julho de 2009.
O mapeamento surge como instrumento de estímulo à produção de trabalhos científicos e processos inovadores que propulsionem a pesquisa e o desenvolvimento sustentável da comunidade negra alagoana. .
O Programa de Equidade Racial e Inclusão é uma iniciativa da Fundação W.K. Kellogg. Iniciado em 2008 tem o propósito de apoiar a construção de um Mecanismo no Nordeste do Brasil. Em 2009 o CEAFRO, em articulação com o Projeto Raízes de Áfricas, realizou um mapeamento inicial das organizações, lideranças, políticas e iniciativas no campo da equidade racial nos nove estados do Nordeste, dentre eles, Alagoas.
A desigualdade racial é uma política segregacionista e desumana que está se tornando impagável. É preciso que a sociedade alagoana desperte para a importância da igualdade racial e, conseqüentemente, possa cobrar resultados efetivos da máquina estatal.

Serviço:
II Encontro Etnicidades Nordeste:“Promoção da Igualdade Racial, em Alagoas - Teoria e Prática”.
Data: 13 de março, das 08 às 17 horas. Informações: (82)8815-5794
Local: Federação das Indústrias do Estado de Alagoas - FIEA.
Av. Fernandes Lima, 385. Ed. Casa da Indústria, Farol 57055-902 - Maceió-AL

 

 

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Outra Nega Fulô

O racismo é uma situação limite. Negros, ainda, são hóspedes incômodos, no segundo país mais negro do mundo, fora do continente africano.
O segregacionismo social dá fôlego ao negacionismo do povo negro.
Na época Márcia tinha 10 anos, menina esperta estudava em escola da rede estadual. Um dia Márcia não foi a escola, nem no outro dia e mais dias registraram a ausência da menina. Quinze dias foi o tempo que a mãe de Márcia,excessivamente constrangida, foi à escola avisar que a filha estava no pronto-socorro e provavelmente não voltaria à escola. Márcia tomara água sanitária. Por quê? A menina encontrara um caminho para clarear a pele.
Um dia a tia falara sobre o poema "Essa Nega Fulô", de Jorge de Lima: “Ó Fulô! Ó Fulô!Cadê meu lenço de rendas, Cadê meu cinto, meu broche, Cadê o meu terço de ouro que teu Sinhô me mandou? Ah! foi você que roubou! Ah! foi você que roubou!”
A turma repleta de meninas e meninos de pele um pouquinho mais clara que a da menina, despertada pela história-memória da subordinação escravocrata do poema instintivamente apontou para Márcia e lançou o chicote feito palavras: Ah! foi você que roubou!
Qual é o negro que, ao escutar estas palavras, não percebe a memória consolidando a história do escravagismo, exclusão, da inferioridade étnica?
Como questionar a ordem escravocrata se no convívio social os conhecimentos das muitas literaturas são disseminados e aprendidos como interpretação única?
E a turma rindo e devastando, estuprando e maculando a alma de Márcia: A Márcia é a Nega Fulô! Nega Fulô é ladrona! E a gargalhada ecoou como açoite.
A escola é um dos ambientes em que as relações humanas são racializadas. São situações rotineiras, concretas e contextualizadas que definem a auto-negação do povo negro.
A tia energicamente pediu a turma para encerrar com a “brincadeira” e se omitiu e se esquivou de promover uma releitura a partir do poema como forma de revisar a experiência social de um povo transformado em uma massa de expatriados em terras da colônia brasileira . Se a tia conhecesse a Lei Federal nº 10.639/03 ou a Lei Estadual/AL nº 6.814/07 saberia quais são os mecanismos a serem utilizados como proposta pedagógica para positivar a diversidade étnica brasileira.
Segundo Savianni: “No Brasil, o tipo de racismo que se desenvolveu fez surgir uma situação bastante complexa e difícil de ser desconstruída. Diferentemente do que houve nos EUA e na África do Sul – países em que se desenvolveu um sistema de organização social explicitamente baseado na raça –, a miscigenação foi usada para escamotear o racismo e criar o mito da democracia racial brasileira. Esse mito é contrariado sistematicamente pela violência explicitada nas formas mais sutis das relações cotidianas (brincadeiras, piadas e apelidos de cunho racista, o conceito de beleza branca como universal, as formas de olhar a pessoa negra) e nas mais escancaradas práticas racistas (violência policial, tratamento desigual do aparelho de segurança do Estado, baseado na cor da pele).”
O preconceito racial muda a vida das pessoas de várias maneiras. Os estereótipos da escola interceptam a auto-estima de crianças e jovens em formação, esmagam a construção individual do ser pessoa. Não é fácil conviver com relações humanas tensas e conflituosas originadas pelo apartheid e por angústias hameletianas: ser ou não ser? Eis a questão.
As escolas brasileiras precisam promover o exercício da revisão histórica. E para tal apresentamos Oliveira Silveira com o poema Outra Nega Fulô. Um exemplo da reversão dos valores. Um poema que dá voz a mulher negra, não mais escravizada. Mulher altiva e consciente, dona de seus desejos e de seu direito de ser respeitada:
Outra Nega Fulô

O sinhô foi açoitar a outra Nega Fulo
Ou será que era a mesma?
A nega tirou a saia,
A blusa e se pelou
O sinhô ficou tarado,
Largou o relho e se engraçou.
A nega em vez de deitar,
Pegou um pau e sampou
Nas guampas do sinhô
Essa Nega Fulô !
Essa Nega Fulô !
Dizia intimamente o velho Pai João
Pra escândalo do bom Jorge de Lima,
Seminegro e cristão
E a mãe preta chegou bem cretina
Fingindo uma dor no coração
- Fulô ! Fulô ! Ó Fulô !
A sinhá burra e besta perguntou
Onde é que tava o sinhô
Que o diabo lhe mandou
- Ah ! Foi você que matou !
- É sim, fui eu que matou –
Disse bem longe a Fulo
Pro seu nego, que levou
Ela pro mato, e com ele
Aí sem ela se deitou
Essa Nega Fulô !
Essa Nega Fulô ! (CADERNOS NEGROS)

 

 

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Foi preso em uma sexta-feira à noite porque é negro, ou não é fácil ser negro no Brasil!

Uma das grandes raízes da desigualdade social no Brasil é a desigualdade racial, alimentada e mantida pela elitizada e europeizada sociedade brasileira, como fórmula contemporânea de desenraizar modos antigos da subordinação humana.
O escravagismo ainda faz parte do repertório sócio-institucional.
Ele é jovem. Ele é negro. Ele tem cabelo black power e foi preso em uma noite de sexta-feira quando ia para balada com amigos, porque simplesmente é negro.
A escravidão contemporânea é hibrida, alimenta-se da estigmatização racial e religiosa para a reinvenção de fórmulas que subjuguem a população descendente de Áfricas.
O Brasil ainda não é um país de TODOS. Se o fosse já teríamos abolido o apartheid sócio-institucional que priva a população negra da liberdade étnica.É muito difícil afirmar-se negro/negra no Brasil!
Segundo o historiador e pesquisador Luís Mir, nós, o povo preto, ainda não desembarcamos do navio negreiro. Viemos por via marítima, desembarcamos,ficamos nas senzalas e agora estão confinados nas periferias das metrópoles.
Na verdade, nós vivemos a “sub-abolição.”
Sub-abolição é um arremedo de liberdade. É subjugar, inferiorizar, criar a vulnerabilidade étnica como é uma das fórmulas para dar continuidade a política tradicionalmente patrimonialista, uma ideologia resgatada e legitimada do Brasil Colônia.
Mais de um quarto da população brasileira é de jovens, entre os 15 e os 29 anos de idade. São 50 milhões de jovens. Em 1991, os jovens negros representavam mais de 50% do grupo de jovens, sucedendo o inverso com os jovens brancos. A mortandade dos jovens negros no Brasil assume taxas alarmantes.
Segundo da Secretaria Especial de Direitos Humanos, da Presidência da República, a chance de jovem negro ser assassinado é cinco vezes maior do que branco, entretanto a impessoalidade da lógica funcional da política contemporânea insiste em aplicar a universalidade das políticas para solucionar a realidade, ainda, caótica de uma população que ao longo de mais de 120 anos vem tentando soerguer dos mecanismos sociais e políticos que provocam segregações e marginalizaram grande parte da sociedade brasileira, dentre elas a população negra.
Afinal a quem serve as elites governantes?
Segundo a coordenadora nacional do Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte, Márcia Soares: “A maioria da população empobrecida é negra. Então, o risco de um negro ser abordado pela Polícia, nós sabemos disso, por uma questão histórica e social, é muito maior do que um branco. Portanto, o risco de morrer na mão da Polícia também é maior. São pessoas vulneráveis à violência”.
A polícia sabe quem é negro!

 

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Fundação W.K. Kellogg apóia construção de mecanismo que garanta à sustentabilidade da causa da Equidade Racial, em Alagoas.

Acontece dia 13 de março o II Encontro Etnicidades Nordeste: “Promoção da Igualdade Racial, em Alagoas - Teoria e Prática”, coordenado pelo Projeto Raízes de Áfricas, sob patrocínio da Fundação W.K. Kellogg e Federação das Indústrias do Estado de Alagoas.
Durante o II Encontro Etnicidades Nordeste a Fundação W.K. Kellogg e o Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO da Universidade Federal da Bahia (UFBA) CEAFRO farão a apresentação do Marco de Referência para a construção do Mecanismo de apoio à sustentabilidade da causa da Equidade Racial.
O Programa de Equidade Racial e Inclusão é uma iniciativa pioneira da Fundação W.K. Kellogg. Iniciado em 2008 tem o propósito de apoiar a construção de um Mecanismo no Nordeste do Brasil. Em 2009 o CEAFRO realizou um mapeamento inicial de organizações, lideranças, políticas e iniciativas no campo da equidade racial nos nove estados do Nordeste, dentre eles, Alagoas. A pesquisa utilizou de uma metodologia participativa.
Para o II Encontro serão convidadas prioritariamente lideranças que participaram do encontro do mapeamento, ocorrido nos dias 06 e 07 de julho de 2009, na Federação das Indústrias, como também representantes de organizações, movimento negro, governo, universidades, financiadores que atuam em Alagoas.
O Projeto Raízes de Áfricas de Áfricas é o articulador e mobilizador dessa ação no Estado de Alagoas.

A Fundação Kellog
Criada nos Estados Unidos pelo pioneiro da indústria de cereais Will Keith Kellogg, a Fundação W.K. Kellogg é hoje uma das maiores financiadoras privadas do mundo, com
doações nos Estados Unidos, América Latina e Caribe, e sul da África, entre outras regiões.
Sua missão é ajudar as pessoas a ajudarem a si mesmas, por meio da aplicação prática de conhecimentos e recursos para melhorar a qualidade de vida das atuais e das futuras gerações. Atualmente, em sua programação para os Estados Unidos, a Fundação prioriza saúde, segurança alimentar e desenvolvimento rural; juventude e educação; filantropia e voluntariado.
No sul da África, os esforços estão centrados em fazer mudanças no contexto socioeconômico local. Participam da programação África do Sul, Botsuana, Lesoto, Malavi, Moçambique, Suazilândia e Zimbábue. A estratégia usada na região segue os seguintes objetivos: capacitar lideranças; incrementar a capacidade das comunidades; promover o desenvolvimento e a transformação de organizações e instituições continuar apoiando aquelas ações que pretendem fortalecer os mecanismos de coordenação.
O Ceafro

O Ceafro é um programa do Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO da Universidade Federal da Bahia (UFBA), de educação e profissionalização para a igualdade racial e de gênero, em desenvolvimento desde 1995.
Fundado sob três princípios básicos da existência negra na Diáspora - Ancestralidade, Identidade e Resistência -, em sua trajetória político-pedagógica, o CEAFRO tem investido numa construção teórico-metodológica baseada nos referenciais identitários dos sujeitos nela envolvidos.
Em todos os projetos desenvolvidos, teoria e prática caminham juntas, e o Programa vem contribuindo para as ações afirmativas e políticas públicas focadas em raça e gênero, com repercussão não só em Salvador e no Estado da Bahia, mas em outros municípios, estados, regiões do Brasil.


Serviço: II Encontro Etnicidades Nordeste: ‘Promoção da Igualdade Racial, em Alagoas: Teoria e Prática”
Dia: 13 de março 2010
Local: Auditório Antônio Cansanção -Federação das Indústrias do Estado de Alagoas- Av. Fernandes Lima, 385-Farol( a confirmar)
Informações e Inscrições: 8827-3658/8815-5794
Será servido almoço aos participantes
Inscrições limitadas
 

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ENTREVISTA: Ações Afirmativas para Negros

Em outubro de 2009, atendemos com incomensurável prazer a solicitação para concedermos uma entrevista à Luciana, participante entusiasta de nossos encontros afro-alagoanos de educação e aluna da Faculdade de Educação e Comunicação, do Centro de Estudos Superiores de Maceió, o CESMAC, tendo como objetivo fundamentar o trabalho conclusivo para o Curso de Pós-Graduação “Latu-Sensu em Geo-História”, sobre ações afirmativas para a população negra. A disciplina Metodologia do Ensino II, ministrada pelo professor doutor Luis Paulo Mercado.Luciana assim como Camila Carnaúba,  tem feito  a roda da vida girar, multiplicando  e resignificando a importância dos encontros afros alagoanos de educação.
Abaixo socializamos a entrevista:


ENTREVISTA: Ações afirmativas para negros
Arísia Barros é formada em Letras pelo Centro de Estudos Sociais (CESMAC) e tem especialização em Educação e Literatura pela Universidade Cidade de São Paulo. Poetiza, escritora e redatora é co-autora da Lei Estadual nº 6.814/07. Consultora para aplicabilidade das políticas educacionais para uma pedagogia anti-racista: Lei Estadual nº 6.814/07 e Lei Federal nº 10.639/03. Consultora no estudo das relações étnico-raciais no contexto escolar,embasada na implementação da Lei nº 10.639/07 e Lei Estadual nº 6.824/03.Consultora para elaboração de programas de combate ao racismo. Atuou por 05 anos como Coordenadora do Núcleo Temático Identidade Negra na Escola e Gerente de Educação Étnico-Racial da Secretaria de Estado da Educação e do Esporte. Atualmente coordenada o Projeto Raízes de Áfricas.
L e C- Para darmos início a nossa conversa você poderia reconstituir a sua trajetória acadêmica e como passou a se interessar pelo estudo das relações raciais?
Arísia Barros:
Os estereótipos, a segregação dos espaços seja na escola, ( Faculdade, Agência de Propaganda pelas quais passei) e as injustiças sociais impetradas pelo racismo me mobilizaram a estabelecer um foco de trabalho: discutir até a exaustão sobre as mazelas do racismo na busca de provocar o diálogos em rede de pessoas e para o desenvolvimento, formulação e implementação de políticas públicas, principalmente no estado de Alagoas.
L e C- Qual a sua avaliação sobre a Lei 10.639 que tornou obrigatório o ensino de “História e cultura afro-brasileira” na rede oficial?
Arísia Barros-
A escola brasileira consegue estabelecer um parentesco consangüíneo com as concepções da dominação colonial, construídas a partir de uma colagem eurocêntrica, inviabilizando a existência do povo negro. O agravante no processo histórico/educacional é a naturalização do racismo. Existe algo de errado num mundo/escola, país-50% africano - em que as pessoas buscam uma hegemonia ariana. Qual a Alemanha que vive em nós: a de antes ou depois do muro? A escola brasileira precisa traduzir em seu currículo a observância dos princípios do pluralismo e da diversidade nas mais diversas esferas do convívio humano. Criar histórias positivas dos povos ditos diferentes: negros/negras, indígenas fundamentando um olhar cúmplice sobre o sentido cíclico da história da humanidade. Só o conhecimento quebra as fronteiras do preconceito, traduzindo uma escolarização capaz de romper com a consolidação de estereótipos sociais. A LEI FEDERAL Nº 10.639/03 é avanço na medida que busca estabelecer a consciência e o conhecimento sobre a participação sócio-política da população negra brasileira na história do Brasil.
L e C- Qual a sua visão sobre Ações afirmativas no Brasil?
Arísia Barros-
As ações afirmativas são estratégicas políticas diferenciadas que tem o propósito de não só investigar como também combater a ausência de oportunidades e mobilidade para segmentos que vivem situações de desigualdade histórico-sociais. O estado brasileiro, reconhecidamente racista precisa consolidar políticas como as ações afirmativas que visam a valoração histórico-social das populações vulneráveis.; Também é necessário estabelecer políticas de orçamento específicas para o desenvolvimento de pesquisas que investiguem os problemas vividos pela população negra, visando conduzi-la a uma participação igualitária no seio da sociedade.
L e C- Para você qual o sentido de defender Ações afirmativas para a população negra?
Arísia Barros- O estado brasileiro tem uma vasta trajetória de segmentação e omissão do elemento negro na contextualização da história. O desconhecimento da historicidade negra cria um ciclo de desinteresse institucionalizado. A linguagem social da discriminação brasileira se reinventa cotidianamente e assume o discurso oficial, hierarquizando o discurso do colonizador, estabelecendo a negação de tudo que é diferente, fazendo o Brasil esquecer que é o segundo país mais negro do Mundo. As ações afirmativas são o combustível para que o Brasil lembre da multiplicidade e riqueza da sua história para que ela possa ser vista e respeitada a partir de todos os ângulos étnicos.
L e C- As Ações afirmativas respeitam os princípios constitucionais da Igualdade ou reforçam as desigualdades entre as pessoas?
Arísia Barros
- Quem vive abaixo da linha do bem estar social sabe o que é viver em desvantagem em detrimento a outra parcela da população que usufrui de isonomia social. Para colocar essa população numa condição de igualdade torna-se imprescindível formular políticas públicas que estimulem o princípio da equidade. Observando pela ótica da busca de direitos e do equilíbrio social as ações afirmativas buscam auferir o princípio da dignidade humana. Isso é inconstitucional?
L e C- Quais as intervenções você acredita que podem contribuir para diminuir a distância socioeconômica entre brancos e negros e a discriminação racial no país?
Arísia Barros-
O estado político brasileiro precisa acordar para questões que envolvam o princípio da igualdade humana estourando a bolha de inércia que o envolve no comprometimento político com a temática. Basicamente, existem duas formas de se combater o racismo: distribuição de renda, atendendo ao princípio da isonomia social e uma educação cuja pedagogia traduza o respeito as diferenças
O desafio é grande e apesar do apartheid que já persiste e insiste a mais de 500 anos é hora da gestão pública sair do campo das abstrações para a resolução de problemas concretos que minimizam a história e memória do povo negro.
O combate ao racismo é uma delas!

1- Ações Realizadas quando gestora do Núcleo Temático Identidade Negra na Escola e Gerência de Educação Étnico-Racial, da Secretaria de Estado da Educação e do Esporte do Estado de Alagoas em 05 anos de atuação:
? Primeiro estado do Brasil a estadualizar a lei federal nº 10.639/03, através da legislação estadual nº 6.814/07, de 02 de julho de 2008.
? Realização de 33 Encontros Afros Alagoanos de Educação - Alagoas é o único estado do Brasil a oferecer formação permanente e continuada em diversidade étnico-racial.
? Avanço em 70% das escolas públicas na compreensão de um projeto político-educacional que contemple a diversidade cultural e étnico-cultural.
? Articulação com instituições políticas de diferentes esferas públicas e privadas na perspectiva de garantir a execução de ações que garantam a política de promoção da Igualdade Racial, pautadas no princípio da diversidade.
? Criação de um informativo impresso, como mecanismo de discussão, apreensão e divulgação das ações étnico-raciais.
? Único estado do Brasil a criar um calendário pedagógico específico para pautar as efemérides negras e as ações na questão da diversidade étnico-racial.
? Criação de prêmios, como mecanismo de divulgação e viabilização de trabalhos e pesquisas no campo nas relações de gênero e da história afro-brasileira e africana.
? Realização em parceria com a Secretaria de Educação Continuada Alfabetização e Diversidade e os Estados de Sergipe, Pernambuco e Paraíba, em maio de 2004, do I Fórum Educação e Diversidade Étnico Racial: A Escola e a Identidade Negra (o único no Brasil com caráter regional) 390 participantes
? Alagoas foi o 2º estado do Brasil a implementar o Fórum Permanente Educação e Diversidade Étnico-Racial, em 08 de julho de 2004- visando construir as bases para um diálogo com outros órgãos governamentais, sociedade civil e movimento negro.
? Articulação com os municípios para criação e operacionalidade nas Secretarias de Educação do Núcleo de Estudo em Diversidade Étnico-Racial..
? Realização de 06 Rodas de Diálogo - espaços criados para discussão com um número menor de pessoas sobre as especificidades da temática negra.
? Realização de encontros sócio-educativos em espaços marginalizados ( presídios, unidades prisionais de internação feminina.
? Proposição da implementação da escola de Educação de Jovens e Adultos no Estabelecimento Prisional Santa Luzia.
? Realização de um Encontro Afro Alagoano na Bienal do Livro- 2007
? Realização pioneira,com a participação do MEC do I Fórum Nacional da Consciência Negra na Educação: ‘Iká Kô Do
? Articulação para a criação da Comissão Executiva de Promoção das Políticas Públicas para a Igualdade Racial.
? Criação de espaços, nas “Rodas de Diálogo’ para as internas da Unidade Feminina possam relatar experiências e exercitar a cidadania.
? Alagoas foi escolhido por unanimidade pelo Conselho Nacional dos Secretários de Educação para ser a representante do mesmo, no Grupo Interministerial, criado pelo Ministério da Educação, para a implementação da Lei nº 10.639/03. Somos a única Secretaria de Educação do Brasil a fazer parte do referido grupo. ( agosto 2008)
? Estabelecimento de parceria acadêmica com os embaixadores de Moçambique, Cabo Verde, Angola, Cônsul de Guiné Bissau e a Comissão dos estudantes africanos da Universidade Federal de Alagoas.

 


































 


 

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Carta a Osvaldo Mendes, ou Saudades de Belém, Meu Bem!


Um dia no correr dos meus vinte anos determinei-me a sair de Alagoas na busca de conhecer outros lugares,investir em perspectivas. Decisão tomada comuniquei a família. Entre choros e recomendações maternas avizinhei-me da coragem, entrei em uma viagem de ônibus que durou exatos dois dias e meio e finalmente desembarquei em Belém do Grão Pará. Eu, uma mala,a mochila e a valentia da juventude.
Meu primeiro contato ao chegar em Belém foi com o mercado de ferro,o Ver-o-Peso, a maior feira livre da América Latina, eleito entre as 7 Maravilhas do Brasil.
O Ver-o--Peso fica na na Cidade Velha. Difícil descrever a sensação de liberdade que invadiu alma ao olhar aquele mundão de construção rodeado por terra-rio-mar, ou seja água,gentes e cheiros. E eu estava justamente ali, em Belém do Pará. No Norte do país! Meu coração ainda traz lugares e histórias conjugadas em território paraense.
Belém tem 394 anos e, é a segunda cidade mais populosa da Amazônia.
Há 200 anos Belém do Pará era a Capital das Especiarias, hoje é a "Cidade das Mangueiras", cercada de florestas e águas. Belém foi a primeira capital da Amazônia por isso é considerada a "Metrópole da Amazônia".
Belém é tão hospitaleira que se veste de Portão de Entrada da Amazônia. Entrada feita de caminhos sem atalhos que nos levam ao Círio de Nazaré, com sua corda feito cordão umbilical, medindo 350 metros de comprimento e 48 milímetros de espessura, unindo gentes,cheiros, suores a um pacto espiritual com a Virgem. É uma manifestação que vai além da religiosidade. Gentes sendo intérpretes da devoção absoluta na “santinha”, a Virgem de Nazaré. O Círio acontece anualmente no segundo domingo de outubro e reune em torno de dois milhões de fiéis. A primeira vez que assisti o Círio a emoção foi bombática. Belém é sacra!
Os ouvidos emparedados pelo tempo ainda escutam o regionalismo da língua do paraense, a delicadeza do “maninha” , a contradição do “o porque então?”, ou a ênfase do “égua!”
Belém é terra de cultura e histórias . É terra do Museu Paraense Emílio Goeldi.
Belém se veste de chuva nos momentos prováveis.Chuva com hora marcada?
Belém é gastronômica. Que saudades da maniçoba da Dona Rosa lá do bairro do Jurunas, da pupunha degustada no café da manhã! Provei o açaí e não gostei. O que para o povo do Pará era um sacrilégio. Açaí no Pará é religião.
Morei em Belém do Pará alguns anos e ainda hoje escuto os ecos de saudade nas esquinas da memória. Benditos sejam os dos arroubos da juventude minha!
Ainda hoje relembro as curvas e travessas mais estreitas da Cidade Morena. As repúblicas que me abrigaram. Primeiro a das meninas, depois dos meninos. Em Belém aprendi o que é solidariedade humana, aconchego. Lembro da rua Humaitá, minha primeira moradia, de verdade. Das andanças pelas noites de Belém. Conheci a Belém embriagadoramente profana. O eclético e a poesia da malandragem se encontrando nos bares da Praça da República.
Eu no alto dos meus vinte e poucos anos fui pro Pará e parei, cheguei em Belém fiquei, ao menos por alguns tempos. E nem açaí tomei...
Tardo um tempo para arrumar palavras são saudades imensas da cidade com pefume de ervas. Faz tempo que não a vejo. Exatos 20 anos!
Foram três meses de aperreio na busca de colocação como profissional. Como professora me foi oferecido um emprego em Xinguara, interior do Pará, como havia um histórico de extrema violência na cidade resolvi não aventurar. Afinal toda aventura tem limite. Tinha saído de uma pacata Maceió de singelos passeios pela madrugada afora e é claro que não iria ser tão afoita de me jogar no olho do furacão. Apesar da determinaçãoa de persistir e insistir as necessidades materais ameaçavam se transformar em um oceano de desespero, até que respondi a um anúncio de jornal.
Conclusão: Consegui estágio, como aprendiz de redatora publicitária, na maior Agência de Publicidade do Norte Nordeste, a Mendes Publicidades. Salva pelo gongo!
Conheci Osvaldo Mendes em 1986 quando estagiária em redação publicitária entrei para fazer parte do “cast” da Mendes.
Apesar da inevitável relação de hierarquia ,Osvaldo Mendes, foi professor inspirador ao dizer que a melhor forma de lidar com os riscos é encarar o desafio de enfrentá-los e tirar disso o melhor aprendizado para a vida. O mestre que realimentou conhecimentos com intervenções cruas, duras que dessarumavam as idéias, nossos cinco sentidos e nos instigava a devassar sem complacência os ousados caminhos para o manuseio e a conseqüente criação-criativa.
Com Osvaldo Mendes aprendi a força e o poder que moram no protagonismo da ação nunca antes pensada. Analisar, comentar, dissecar, esgotar e reinventar caminhos da criação, criando.
E a lição foi tão bem aproveitada que uma das nossas primeiras peças produzidas para a Mendes, com o título de “Rádio Marajoara? Eu, hem,nem te ligo!” foi premiada com a medalha de bronze no Prêmio Colunistas Norte-Nordeste -1986.
Aprendi com Osvaldo Mendes a ficar atenta a oportunidade. É do ocaso que extraímos a essência do novo.
Recordar é fazer um passeio por tempos e caminhos que se cruzam entre a saudade e um vasto território da aprendizagem humanizadora e profissional. A experiência de viver em Belém e ter trabalhado a filosofia à La Mendes, “perfeccionismo como palavra de ordem”, foi e ainda é um divisor de águas em relação à minha história pessoal e profissional, sucessos, referências e coisas tais
Osvaldo Mendes merece ser tratado em capítulos múltiplos. Como se fosse a interpretação dos muitos talentos que descobriu como um substancial inventário de vidas.
Conhecer Osvaldo Mendes foi fundamental para minha atual biografia de vida. Conviver com seu perfeccionismo da prosa enxuta, precisa e sem volteios me fez valorizar as possibilidades da palavra. Aprendi a fazer sempre um bom trabalho, ser reconhecida pelo desenvolvimento da ação pioneira e sobretudo inédita
Um dia peguei o ônibus de retorno e vinte anos após o regresso escrevo essa carta, meu caro Osvaldo Mendes como forma de agradecer todos os pontos desfiados, os rasgos das interrogações numa permanente decifração da idéia bruta.
Obrigada, Osvaldo Mendes, por fazer-me descobri que “a palavra é o meu domínio sobre o mundo”. Como diria Lispector, a Clarice.
Obrigada!
 

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A neutralidade étnica do discurso na política


Esse é mais um artigo extenso que em alguns momentos foi fragmentado em pequenos artigos para tornar a leitura mais palatável. Publicado em 06 de setembro de 2008, no Caderno Saber da Gazeta de Alagoas, o artigo precedeu ao “Debate Democrático pela Diversidade: Meu Voto Tem Cor. A Cor do Compromisso Cidadão”. A idéia do debate, organizado em nossa coordenação na época a frente do Fórum Permanente de Educação e Diversidade Étnico-Racial com o apoio da Federação das Indústrias do Estado de Alagoas foi possibilitar espaços político-afirmativos para discussão da temática racial, o envolvimento dos vários segmentos da sociedade na construção participativa e consciente de políticas públicas para a área da saúde, educação,emprego e renda da população negra maceioense, permitindo-lhes uma análise crítica acerca das diferentes plataformas de governo, ao tempo que possibilitará aos candidatos a apresentação das idéias, enquanto políticas públicas.
Na época estiveram presentes os então candidatos Mário Agra (PSOL), Solange Jurema, (PSDB), Judson Cabral (PT) e Manoel de Assis (PSTU).
Resultado do debate? Na ótica política a população negra é discriminada/excluído simplesmente pela situação vulnerável da pobreza. A visão ainda é das políticas universalistas.
Inserir a promoção de políticas para igualdade racial nas plataformas da campanha de 2010 é dos principais desafios contemporâneos da população negra em, permanente movimento.


A neutralidade étnica do discurso na política


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Seu nome era Daniel, negro alto, bonito. Morreu aos 19 anos a gangue o matou, dentro de casa, aos pés da mãe. Foi a sentença da droga.
“Paralelamente à heterogeneidade de idade e de sexo, observa-se que há uma dramática concentração de risco na população negra (somatório da população que se autodenomina com cor da pele preta e parda. As taxas de homicídios são mais elevadas entre os negros em todas as faixas etárias, com muito mais intensidade entre 20-29 anos. Embora os dados relativos a esta variável padeçam de elevados sub-registros nas diferentes fontes onde eles são notificados, há indicações de que a distribuição desigual de riquezas e recursos sociais (educação, saúde, saneamento) entre brancos e negros, no Brasil, acaba por provocar desigualdade na distribuição da morte violenta. Assim, são os homens negros e, entre estes, os mais jovens, as vítimas preferenciais da violência letal. Como se sabe, “cor” no Brasil constitui um atributo social, sendo uma praxy de escolaridade, renda e outros indicadores de acesso a bens e consumo. Inegavelmente, grande maioria dos negros em nosso país concentra- se nos estratos inferiores da pirâmide social.
Outro nome era Cícero menino de coração bom, quase todos os dentes voaram ao sabor da miséria, era vendedor ambulante, negociava legumes em um carrinho de mão no Mercado da Produção. Morreu numa troca de tiros. Negro como
Daniel.
De acordo com um estudo divulgado pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) no final do ano passado, observa-se que o desemprego é sistematicamente mais elevado entre a população negra, qualquer que seja o nível de escolaridade pesquisado. As taxas de desemprego entre os negros chegam a ser 46% mais altas que a dos brancos.
Maria era mais um nome. Adolescente com corpo de mulher. Engravidou aos 14 anos de um ficante qualquer. Engessada na pobreza e com quase nenhum estudo sofreu o pão que ninguém quis amassar. Morreu com o filho na barriga nos corredores do hospital público de hipertensão arterial aliada a uma desnutrição de esperança.
“Os negros desenvolvem mais hipertensão do que os brancos. São mais vulneráveis à doença. Uma das hipóteses para justificar esse fato está nas condições em que eram trazidos da África para a América. Muitos morreram por causa das infecções, porque vomitavam e tinham diarréia e não conseguiam reter líquido. Desse modo, houve uma espécie de seleção natural. Provavelmente, a maior parte dos negros que suportou a viagem comia sal, retinha líquido, o que elevava a pressão, e transmitiu essas características aos seus descendentes”. (Décio Mion - médico, especialista em pressão arterial)
A filha de Márcia morreu aos cinco anos de anemia falciforme. Morreu pela ausência de medicamentos e formação específica dos profissionais da área médica sobre a doença que mata no Brasil um número considerável de crianças, especialmente as negras.
A anemia falciforme é uma doença incurável que atinge freqüentemente a população negra e os seus descendentes, mas ocorre também em brancos, particularmente os que são provenientes do mediterrâneo (Grécia, Itália, etc.) No Brasil estima-se que 3 de cada 100 pessoas em geral portadoras de traço de Anemia Falciforme sendo que 1 (um) em cada 500 negros brasileiros nasce com a doença.
Marcos, 15 anos, negro cabelo black power já foi abordado inúmeras vezes. Já foi preso e algemado, como “elemento suspeito”. Jovens negros têm uma maior probabilidade de não terem seus direitos constitucionais respeitados, transformando-os em potenciais marginais na ótica policial: a aparência os denuncia.

O racismo é um código-língua
O racismo é um código-língua fundamentado na tolerância civil ética-política que sob a égide do sectarismo onipresente e multiforme incorpora a tolerância passiva, aquela que permite as transgressões nas relações humanas, sócio-raciais, criando respaldo para que a intolerância, dentre ela, o racismo, se instale. Faz-se necessário construir um novo arcabouço para compreendermos politicamente a sociedade contemporânea. A arte de fazer política não pode está desligada da história cotidiana. Urge estabelecer um eloqüente diálogo com a complexa teia da diversidade humana.
As propostas políticas têm que enxergar o povo pela ótica das suas especificidades sócio-étnicas e sair do lugar comum dos “eliminar”, “erradicar”, “combater” a pobreza, como se ao fazê-lo, por tabela, acabaríamos com as desigualdades sócio-raciais do negro.
Segundo Santos, Izabel: “A gente acreditou, por muito tempo, que ao resolver as desigualdades econômicas, de gênero, orientação sexual, às de raça viriam juntas. No interior das nossas próprias organizações, o que a gente fez foi reproduzir essas desigualdades que aconteciam fora. Também dentro das organizações do movimento negro nós tínhamos conflitos de gênero. Acho que esses fatos das lutas sociais, das políticas sociais não terem contribuído muito para discussão racial é exatamente essa idéia de achar que alcançando algumas políticas públicas, diminuindo esse conflito econômico, a gente resolveria a questão racial. Discutir pobreza não é suficiente para acabar com a desigualdade racial”.
O racismo político ocupa um espaço sem tempo
Maceió, capital do estado de Alagoas, tem uma população de 922.458 habitantes (dados de 2006), dos quais segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) 504.642 são eleitores; 55,63% são mulheres (280.719) e 44,31 homens (223.617).
Mesmo tendo uma significante estatística de exclusão social entre a população negra/parda maceioense ainda é grande o desconhecimento/descaso dos poderes constituídos em relação a ações concretas que visem combater as desigualdades raciais e de gênero na capital alagoana. O desafio que se impõe, portanto, nessa campanha para eleição dos cargos majoritários e minoritários para a Prefeitura de Maceió, é assegurar que a diversidade-especialmente a étnico-racial, seja respeitada e compreendida histórico e juridicamente, nos projetos políticos. A noção de perspectivas na política é a criação do discurso dialógico. Aquele que visionário enxerga as diferentes e complexas realidades urbanas em um mergulho aprofundado na pluralidade sócio-racial. Não só exaltando-a mais conhecendo os intrincados caminhos criadores dos lastros de rupturas da cidadania. O discurso político tem como dever prioritário estimular o debate no mais amplo cenário de discussões possíveis. É preciso gerar espaços de oportunidades para que possamos afirmar todas as pessoas como cidadãs legítimas em direitos e deveres, assim como está escrito na Carta Magna. Ações afirmativas.
O discurso político é econômico em sua revolução cotidiana
O discurso político é econômico em sua revolução cotidiana, ainda investe no embate de idéias contrárias feito de argumentos e réplicas, esquivando-se de soluções concretas para levar a toda pessoa o artigo quinto da Constituição brasileira.
O combate à desigualdade étnica envolve estratégias de conhecimento, difusão e mobilização. Exige a parceria dos movimentos sociais, do poder público, iniciativa privada e sociedade em geral. Exige a criação de iniciativas que se proponham a fazer do discurso um instrumento dinâmico para a construção de idéias e interesses comuns, mecanismos de prevenção do racismo institucional, ações concretas, como meios de
acesso aos serviços de saúde, educação, emprego e renda para a população menos assistida, dentre ela, o povo negro.
O racismo foge da nossa percepção cotidiana e se abriga nos quilombos urbanos: as favelas. Favelas que traduzem na população negra o seu maior contingente.
Urge inserir nas propostas políticas dos e das postulantes aos cargos para a Prefeitura de Maceió questões específicas que atendam a esse contingente, que 120 anos após a abolição, ainda enfrenta problemas oriundos do imaginário sócio-escravagista.
O combate à intolerância racial envolve estratégias e programas de governo que a partir da releitura do molde econômico da escravatura, crie estratégias possíveis de combate ao racismo institucional, nas áreas de saúde, educação, emprego e renda. Propomos algumas idéias:
1-Criação de um programa permanente de alerta contra Anemia Falciforme (assim como o da Dengue). A anemia pode se detectada no Teste do Pezinho, quando é coletado sangue do calcanhar do recém-nascido. O ideal é que seja realizado entre o terceiro e sétimo dia de vida do bebê e 48 horas a primeira mamada;
2- Implantação da triagem universal (prevenção e controle da hipertensão) nos diversos serviços de saúde, para promover a medição indireta da pressão arterial em todas as crianças a partir de 3 anos de idade, durante as consultas médicas, em pelo menos uma vez ao ano.
3- Implantação do quesito cor/raça/etnia pelo SUS tendo como objetivo criar espaços de investigação sobre as vulnerabilidades específicas de cada segmento populacional.
4- Inclusão de práticas de promoção e educação em saúde da população negra nas rotinas assistenciais e facilitação do acesso em todos os níveis do sistema de saúde/educação.
5- Inserção nos currículos das escolas do município de Maceió o estudo da história afro-brasileira, afro alagoana, consequentemente afro-maceioense. (Lei Federal nº. 10.639/03 e Lei estadual nº. 6.814/07).
A construção da dignidade social nasce da construção de uma cultura do respeito ao outro/outra e suas diversidades.
Segundo Oliveira, Fátima: “O racismo, ao contrário do que muita gente alardeia, não é o mesmo que miséria ou pobreza. Discriminação, preconceito e opressão de classe são DIFERENTES de discriminação, preconceito e opressão de gênero ou de raça/etnia. Cada uma possui dinâmicas de surgimento e de operacionalidade que lhes são peculiares, logo nenhuma se funde, ou se confunde, com a outra, embora possam ser reforçadas quando se abatem sobre a mesma pessoa. Cada uma exige políticas específicas adequadas. Urge que o governo entenda, por sensibilidade ou por dever de ofício, que políticas universalistas são insuficientes para abolir o racismo. E seja determinado e lance as bases de uma revolução cultural que ressoe nos usos e costumes, nos mitos e nos ritos que sustentam o racismo. É improvável um país chegar a um futuro grandioso quando metade do povo está acuado pelo racismo. Superar o racismo é uma questão estratégica para o Brasil, logo não pode ser apenas um assunto dos negros, o que indica que órgãos de governo e políticas públicas para combate ao racismo não podem ser minimalistas e nem reedições de guetos”.
Sabemos que o racismo não será superado por decreto ou com a boa vontade de alguns.
Sabemos dos entraves racistas estruturais e conjunturais, entretanto é preciso avançar rumo à democratização dos direitos do ser humano.
Já é hora da capital alagoana desvendar seus quilombos urbanos e cotidianos e fundamentar que cidadania também tem cor. A cor do compromisso cidadão!

 

 


 

arisia.barros@ig.com.br/negrasnoticias@yahoo.com.br

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Nunca fomos libertos e sim libertandos.Uma ação gradual e paulatina de legitimar e justificar o sistema de dominação.


O Estado muda as simbologias que identificam o passado escravocrata para não identificar as contemporâneas estruturas que estabelece a geografia da violência atingindo literalmente a população negra.
É um rascunho mal ajambrado da alforria condicional, aquela que ao libertar estabelece o vínculo da dependência. É um jogo de cabra-cega. Um faz de conta cênico.
Ainda somos escravizados pela omissão e negligência da política de domínio senhorial do estado brasileiro, apesar dos mais de três séculos e meio de “escalação’ para o trabalho forçado.
Ainda estão nos cobrando à dívida do pecúlio, como “escravos” de ganho. Nunca fomos libertos e sim “libertandos”.Uma ação gradual e paulatina de legitimar e justificar o sistema de dominação.
As formas de cimentar com barreiras contemporâneas o acesso da população negra aos grandes rincões da democracia participativa são arrogantes e camaleoas. O racismo é arrogante!
Existe uma relação incestuosa entre alguns filhos e filhas da esquerda, da direita, do centro, do sul e nordeste dessa pátria que escudados por interpretações extremistas do pacto nacionalista de brasilidade buscam subestimar ou mesmo suprimir as muitas vozes históricas, criando um código-próprio; o da morenice brasileira.
Existe um limite atemporal e ideológico que separa a epiderme “morena” da negra. Ser morena é estar mais próximo ao ideário da branquitude brasileira.
O desafio da população negra é demarcar territórios para uma participação mais efetiva no protagonismo social. Papéis de segunda ou terceira classe, como regra geral já não nos serve. Ressignificar a história da comunidade negra é uma forma de quebrar paradigmas, sufocar o imaginário social que ainda nos coloniza e em contraponto valorizar as escutas de Áfricas no Brasil, alimentando a auto-estima identitária da população oriunda.
O tráfico negreiro foi um dos negócios mercantis mais lucrativos de toda a época moderna.
Nosso discurso não é o da vitmização, ele captura a biografia de um povo e ousa ir além das possibilidades.
Segundo Mir, Luís: ‘Temos embates de sangue,problemas de mestiçagens,esforçosde ajustamento e absorção. Dependendo da região,domina o índio,o afrodescendente,o imigrante europeu. Essa gama étnica admite todos os tons e tragédias pelo modo como foi vilipendiada e violentada pela balcanização,primeiro dos colonizadores,depois mantida pelos pais da pátria independente. Isso nos impediu de ter uma humanidade brasileira, como formação social e étnica”.
Ainda somos hóspedes incômodos, sem direito ao usufruto da anistia. Ainda ocupamos as funções secundárias no sistema universal do racismo “velado” e subterrâneo.
A hipoteca social do estado brasileiro com a população negra ainda não foi quitada.
E Mir, o Luís reafirma: “As grandes revoluções e os grandes governos exigem uma pleide de homens e “mulheres” ( acréscimo nosso) especiais, que unam o compromisso, a capacidade de interpretação dos problemas nacionais, o sentido prático da política e um compromisso real com o seu povo”.

 

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