Encontrei Minhas Origens

O comercial da Caixa Econômica Federal exibido no dia 20 de novembro nos trouxe uma belíssima profusão de cenas determinantes que expressaram a fibra ,beleza, natureza de um povo inventivo, contrariou regras.
A mensagem foi criada pela agência de publicidade NovaS/B e exibida em todo o País nos dias 19 e 20 de novembro.
Sem desperdiçar emoções, valorizou a atuação do ego, superego e id desse mesmo povo, circundando-o através da arte, geografias e histórias. Histórias afirmativas.
Histórias afirmativas que a Caixa compôs para homenagear os seus 14 mil funcionários afro descendentes pelo Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro.
O comercial da Caixa Econômica dialogou com África e memória, Brasil e cultura e história e literatura e ainda aproximou milhares pessoas para ouvi-las.
Trouxe-nos Oliveira Silveira, um dos ícones do movimento negro brasileiro, morto em 2008, traduzido em seu poema “Encontrei minhas origens”.
O comercial produzido pela Caixa não é bom só pelos seus conceitos estéticos, é bem mais. Ele atestou as infinitas possibilidades de contar histórias feito documentário de vidas humanas: palavras, expressões, sorrisos suados e o orgulho ancestral.
A Caixa Econômica nos fez interpretes de nossa própria história valorizando realmente pessoas, matrizes, interação de cores na simplificação de formas, estabelecendo um efeito positivo no jogo de identificação: sim, nós podemos!
O comercial da Caixa Econômica Federal dá um exemplo à publicidade brasileira de uma forma precisa e preciosa que é possível aliar arte a desconstrução do racismo, com imagens e efeitos sutis, poderosos e sobretudo emocionantes.
O comercial da Caixa criou espaços de oportunidades, entretanto é uma pena que cenas de tão grande impacto só sejam produzidas em novembro,ainda que o racismo, permanece corrosivo e destrutivo todos os dias.

 

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Meu filho me pediu uma boneca.

 

 

Há uns dois meses meu filho de sete anos me pediu uma boneca. Dividida entre a intelectualidade dos estudos acadêmicos e os valores que a nossa "reaça" sociedade demonstra nas questões de gênero, dei a boneca," bancando" um barulho enorme por parte da família, colegas de trabalho, ex-marido e afins. Sem contar com a censura silenciosa de alguns, revelada por olhares ou gestos. É claro que recebi apoio e solidariedade. Mas o oposto foi muito mais pesado.. Confesso que compreendo. Por parte de alguns mais, por parte de outros, menos. Mas respeito.
O meu desconforto foi muito mais em relação a mim mesma do que às posturas percebidas, públicas ou anônimas, verdadeiras ou educadas. Foi duro encarar minha insegurança em assumir DE FATO uma posição em relação às minorias sociais. Foi esta imagem, refletida no espelho das relações familiares que meu filho e sua boneca me obrigaram a olhar. Tive que sustentar uma postura, na prática, que há muito considerava como minha. Em teoria. Só descobri isto quando foi com um filho meu.

Aqui faço um parêntese: enquanto eu me torcia e retorcia constrangida, fazendo como o anão de jardim "cara de paisagem", meu filho não estava nem aí para os olhares e comentários sobre meninos e bonecas e exibia orgulhoso a sua gorducha bailarina, penteando os seus cabelos, trocando as suas roupas, mudando o seu penteado, entre extasiado e maravilhado com as possibilidades daquele "ser" de 20 e poucos centímetros e puro látex, para onde ia: no meu trabalho, no Mestrado, pelas ruas, na casa do avô, do pai...lugares públicos ou privados para este menino não dizam nada! A cada um que afirmava que boneca não era coisa de "macho", ele perguntava candidamente: por quê?

A boneca para o meu filho foi um Lego às avessas: montava, desmontava, descobria as calcinhas (olha mamãe a calcinha dela!) maquiava, lavava, alimentava.. . Confesso: quando ninguém estava olhando, brincava junto com ele e me divertia à beça, me sentindo criança de novo, relembrando o prazer de simplesmente brincar!

Enquanto isso, na vida real as opiniões se dividiam entre as seguintes opções:

OPÇÃO A: Não é nada demais, é só uma fase, (os conservadores, mal disfarçando o seu mal-estar psicologizando a "coisa")

OPÇÃO B: Ele está descobrindo a sexualidade, (os moderados)

OPÇÃO C: Ele esta aprendendo a cuidar dos filhos. Por que, homem não pode cuidar dos filhos, não é? (os progressistas- liberais de extrema esquerda intelectuais, dentre eles, minha querida "profdoc" Cristina Novikoff, um bálsamo na minha vida)

OPÇÃO D: Ele está querendo chamar a atenção em protesto por tudo que passou nestes últimos tempos (os contemporizadores sociologizando a mesma "coisa")

OPÇÃO E: Este menino vai é ser "viado" mesmo! (muitos, em off, é claro!)

OPÇÃO D: Nenhuma das anteriores (mas esta opção não é aceita na pedagogização da "coisa")

E eu ali, realizando uma pesquisa disfarçada sobre o assunto, coletando os dados, tratando-os e analisando os resultados!

Mentalmente, catalogava as opiniões. Torturava-me a possibilidade entre assumir uma atitude "firme" com meu filho para não ser julgada e execrada, ou seja, aceita pelos meus pares, ou ainda pior, sucumbir num mar de disfarces, meias-mentiras, mentiras inteiras, hipocrisias. ..

Optei pela lealdade aos meus princípios. É neles que está o amor incondicional ao ser humano e o respeito às diferenças, que só se consolidam se você tiver um compromisso real com a verdade. A sua verdade. Possibilitando àquilo que é estranho, ser familiar. Esta postura é uma daquelas que, quando a gente "bota a cara" sabe, e leva muita, mas muita porrada (não é Aninha?).

Meu filho é um ser humano. Pode ser diferente ou não no sentido convencional das opções sexuais. Mas isto não é importante. É apenas uma categoria de análise. Logo, não posso abrir mão dos meus princípios, pois eles constituem a minha identidade. Mantenho-me fiel a eles.

Bem seja o que for que representa a boneca para o meu filho, o fato é que ele está feliz da vida com o seu brinquedo novo e está me pedindo outra...

O fundamental, importante e imprescindível é o amor que sinto por este mini-humano e a admiração profunda que sinto ao vê-lo cuidar tão amorosamente do irmão menor, pela sensibilidade em perceber só de olhar meu rosto, o meu estado de ânimo, mesmo se tento disfarçar (e me alertar!), pela preocupação com o coletivo, demonstrada nas pequenas atitudes cotidianas, como não jogar papel de bala no chão ou recolher as garrafas pets que meu pai insiste em atirar no seu quintal; em demonstrar bom caráter ao não contar mentiras muito punks (aquelas que sacaneiam alguém ferindo seus sentimentos) , pela comoção sincera quando vê um desvalido, pela alegria com que admira a beleza de uma florzinha safada no jardim da minha mãe e colhê-la e colocar num copo me oferecendo; ao adorar incensos e gostar de livros, não com a devoção que eu gostaria, mas ok, e ao profundo amor que devota à sua Bolinha.

Me emociono ao vê-lo dormir e me assusto com a rapidez com que está tendo que amadurecer, pois a vida não tem sido fácil para ele.

Sendo assim, é muito fácil ser mãe deste ser humano de sete anos que me chama de mamãe. E se ele for gay, lésbica, hetero, bi, drag, transformista ou desejar uma cirurgia de mudança de sexo, tudo bem. Mesmo. O importante é que seja qual for o caminho escolhido, que seja pautado pelos princípios humanitários. Aqueles que fazem a gente ser decente e não nos torna indiferentes às misérias do mundo. E de quebra, que ame o seu próximo, respeitando a dignidade alheia. E que sonhe sempre com um mundo melhor, como antídoto para afastar o cinismo que ronda o cotidiano da perversidade.

Antônio, eu te amo meu filho.
Por tudo. Mas principalmente por me fazer olhar, de forma corajosa para dentro de mim mesma.

Com amor,

Mamãe.
 

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Ninguém vai à rádio, jornal, televisão dar testemunho de graça recebida na religião afro

1º de fevereiro comemora-se o quebra-quebra dos xangôs alagoanos e 02 de fevereiro, aniversário de morte de Tia Marcelina, completando 94 anos. Fato esse que marca a extinção das antigas casas de cultos afro-brasileiros em Maceió, Alagoas, os xangôs, como se chamavam na época, hoje terreiros, de maneira inescrupulosa, bárbara, tratados como animais de maneira desumana, pela polícia civil, como nos tempos da escravidão.
Os sacerdotes e sacerdotisas mais visados nessa nojenta e vergonhosa perseguição fugiram para outros estados pela conivência do governo, entre eles a yalorixá Tia Marcelina permaneceu. Africana, dona do terreiro que tinha seu nome, no dia 1º de fevereiro de 1912, recebeu na ocasião do quebra-quebra, um tremendo golpe de sabre na cabeça, tão violento que a deixou prostrada no chão, banhada de sangue.
Eram considerados os mais antigos terreiros: o de mestre Felix, funcionava em Jaraguá e tia Marcelina, na Rua da Aroeira, onde hoje é a Praça Sinimbu e os demais Manoel Guleiju, Manuel Coutinho, Chico Foguinho, João Catarina, Pai Adolfo, Pai Aurélio, Manuel Martins, João Fiufiu, Manuel do Loló, todos descendentes de africanos.
Tia Marcelina gozava de enorme respeito e estima era considerada a mais respeitada mãe de santo em Alagoas. Foi contemplada com a “Coroa de Dada”, irmão mais novo de xangô pela África, talvez isso tenha concluído para aumentar a ira da soberania no quebra de 1912. Isso nos causa, hoje em dia, uma revolta. Foi com essa política da Liga dos Combatentes e do Governo do Estado aliciados nessa triste memória. Qualquer denúncia de brancos implicava em prisões e constrangimentos, não resistindo ao violento impacto silenciaram os atabaques dos cultos afros e passou a chamar-se “xangô rezado baixo”, isto é, em surdina. No silenciar desses tambores foi quando, eu, Mãe Mirian, comecei a freqüentar a religião por motivos de saúde, em 1974, com meus 12 anos de idade na casa da Yalorixá Amália Dantas chegada recentemente do Rio de Janeiro, onde se tocava em caixotes de sabão vazios, portas fechadas e vigiando a polícia que na maioria das vezes batia a porta e levava todos presos.Isso era na rua São Bernardo, em frente ao Mercado de Jaraguá. Depois então mudou-se para rua Castro Alves, no Poço, Nação Gego Nagô, em uma festa de Oxum, a polícia chegou, levou tudo do peji e todas vestimentas do santo, feito trouxa na própria saia das filhas de santo, colocada na cabeça e levaram para a 2ª delegacia em Jaraguá, no outro dia tocaram fogo em tudo, atrás da delegacia. Outros babalorixás faziam mesa de jurema e os orixás incorporavam como africanos e davam nome de caboclos, mas quando a polícia chegava, apanhavam, se reclamassem eram presos e desmoralizados com baixas palavras, saiam até com panelas de comidas na cabeça pelas ruas para as delegacias. Lembro nomes de alguns; João Siri, Nozinho, Maria Amélia, Alzina, Angélica, Maria Tereza, Mialê, Aurélio, João Baiano, Maria de Alcântara e outros.
Religião afro é uma religião milenar que existe a 5.000 anos antes de Cristo, formada de elementos vivos, força cósmica e viva da natureza divinizada pelos primitivos que deram o nome de Orixás.
Diferença e discriminações raciais na mulher negra, na mulher mãe e sacerdotisa, no trabalho vivemos dia-a-dia, somos às vezes rejeitadas, humilhadas e desvalorizadas, até porque uma boa parte são analfabetas e desconhecem os seus direitos, servindo de cobaias e escravizadas pelos seus senhores ou patrões, nas favelas, nas fazendas,canaviais, com salários miseráveis passando as vezes fome e sem ter moradia digna. A intolerância para o nosso povo ainda existe. Predomina principalmente para a sacerdotisa, são chamadas de negra macumbeira, endemoniada, mau caráter.
A casa que moramos é a casa do diabo, quando trabalhamos e a patroa descobre que somos da religião somos dispensadas, alegando não querer macumbeira em seu estabelecimento. Só que muita gente discrimina a religião e vai a nossa casa querendo nos fazer um verdadeiro demônio, pedindo coisas absurdas e incapaz de se praticar, porque religião nos proíbe de fazer o mal ao próximo, porque temos um ser superior para julgar as sementes boas e ruins que plantamos e o que vamos colher. Só fazemos o bem ao próximo. Curamos, ajudamos a conseguir trabalho, fazemos união, fazemos voltar paz nos lares, muitas vezes tiramos alguém do abismo lhe restituindo a paz, mas ninguém vai a rádio, jornal, televisão dar o seu testemunho da graça recebida, porque se envergonham de dizer que foram a casa da religião afro. Gente vamos acabar com esse cinismo, esse idealismo hipócrita com nossa raça, nossa religião. Quantos são da religião e negam, dizem ser católicos.
A lei da natureza diz: viemos do pó e ao pó voltaremos, sem diferença de cor raça ou religião e isso é religião dos orixás.
A sacerdotisa da religião é a mãe que cumpre seus deveres como: Amar a Deus e a natureza sobre todas as coisas. Dar vida e não tirá-la. Conduzir as pessoas ao caminho do bem. Fazer caridade não olhando a quem. Pedir a Deus e orixás saúde para os doentes. O pão de cada dia para quem tem fome. Água para quem tem sede. Orar, implorar e pedir Deus e Orixá dias melhores e paz para o mundo. Paz e união entre as famílias.
Ser Yalorixá é ser mãe, amiga,conselheira,compreensiva,carinhosa,amorosa dividir os problemas de seus filhos e solucioná-los,confortando e amparando no que for possível e muito mais.

Nifé Ki Olorumfe - Seja feita a vontade de Deus.
Olurum Abukum - Deus lhe abençoe
Olorum Da Alagasi - Que Deus dê felicidade a todos.

 

 

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O Desenvolvimento Sustentável e a Adoção de uma Política Proativa para a Promoção da Igualdade Humana

O Projeto Raízes de Áfricas promove nesta segunda-feira (07/12), às 15h00, na Faculdade Maurício de Nassau, a continuidade do encontro “Agenda de Diálogos para Promoção da Igualdade Humana”, com a palestra “O Desenvolvimento Sustentável e a Adoção de uma Política Proativa para a Promoção da Igualdade Humana”.
A continuidade da Agenda reúne parceiros envolvidos na construção de políticas públicas que combatam a desigualdade social da população negra alagoana,como a Federação das Indústrias do Estado de Alagoas, Polícia Civil, Faculdade Maurício de Nassau e Restaurante Akuaba.
A palestra será ministrada por Elói Ferreira de Araújo,ministro adjunto de Promoção da Igualdade Racial, e pretende criar espaços de esclarecimentos sobre como promover desenvolvimento sustentável em articulação com as políticas de promoção de igualdade étnico-social, através de ações afirmativas..
Elói Ferreira fará uma abordagem sobre as políticas para a promoção de Igualdade, valorização e inclusão da população negra brasileira no desenvolvimento sustentável e explanará sobre as ações da SEPPIR para impulsionar a implementação mais ampla da Lei nº 10.639/03, que institui o ensino de história afro-brasileira nas escolas de todo o país, a Lei de Cotas para negros, a política quilombola,políticas de saúde para a população negra, dentre outras.
Durante o encontro membros da sociedade civil em Alagoas farão entrega ao ministro-adjunto de uma carta de reivindicações que tem como tema a adoção de condições de sustentação para que os movimentos sócio-étnicos possam exercer seu papel de articuladores e interlocutores na formulações das políticas públicas.
Para participar da palestra que é gratuita basta dirigir-se ao auditório Vermelho, na Faculdade Maurício de Nassau, na segunda-feira, 07 de dezembro, às 15 horas, no auditório Vermelho.

Serviço:
O Que? Palestra: “O Desenvolvimento Sustentável e a Adoção de uma Política Proativa para a Promoção da Igualdade Humana”
Quando: 07 de dezembro, das 15 às 17 horas
Onde: Auditório Vermelho- Faculdade Maurício de Nassau
Rua: Sandoval Aroxellas, 239- Ponta Verde
Informações: 82- 8815-5794
 

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O Benin - a vitória contra a escravidão.

Em 1986, na minha primeira viagem internacional fui ao Benin, a África mítica, era a tão sonhada a volta para casa, de um jovem militante pan africanista, revolucionário, sonhador, na gestão do Prefeito de Salvador Mário Kerstez por inspiração de Roberto Pinho e Pierre Verger, uma delegação de Salvador foi ao Benin, Pierre Verger defendeu a ida do único negro da direção da Fundação Gregório de Matos para a África, levava comigo toda a vivência de um Brasil europocentrico, e muita informação teórica sobre as diversas Áfricas, do passado e do presente, da luta contra o colonialismo, da presença do marxismo, do islamismo e das formas de candomblés existente no Benin e na Nigéria, o choque da realidade foi grande, vi as terras africanas, do alto do avião a respiração ficou ofegante, enfim estava na terra dos meus pais, e avós, e toda uma história especial, a casa dos espíritos.
Chegamos a Cotonou no Benin a capital moderna e um povo vibrante com muitas cores, muitas conversas em tom alto nas ruas, meu coração disparou estava nas terras dos meus ancestrais. O hotel Sheraton ocidental demais para a pobre capital foi o meu local de sono e de despertar muitas vezes na noite, parecia um sonho estar na África, acordei e junto com Arlete Soares, Pierre Verger, Roberto Dias, e seguimos para encontro com pessoas do governo local, e uma extensa programação por ruas mercados e cidades.
Foi tudo muito mágico e veloz, o que eu vi onde estive com quem falei quem falou para mim por mim, quem traduziu, Pierre Verger conhecia bem o país e as pessoas, falava varias línguas locais, Arlete Soares traduziu do francês para o português, traduzia e chorava com os encontros da minha história da Bahia com o que escutávamos das pessoas nas cidades, pude então realizar uma volta as raízes profundas da minha cidadania afro brasileira, fui as cidades de Ouidah, Saketê, Pobé, Porto Novo.
Em cada lugar um ritual, um sacerdote, uma árvore, pessoas que pareciam com meu pai, João Rodrigues, além da alegria dos descendentes de brasileiros de Oudiah na praça principal num dia de sol, eu era um deles, um jovem brasileiro negro, voltando ao Benin, mais de cinco mil pessoas na praça principal da cidade, gritando Bahia, Cidade Nova, Campo Grande, Bonfim, foi de arrepiar e os cumprimentos as pessoas africanas com os nomes de Silva, Soares, Rodrigues, Santos, que fizeram fila para falar com a delegação e ao jovem negro africano brasileiro que tinha voltado para dizer como estavam os outros negros do Brasil.
Na cidade sagrada de Ouidah, e em Sakatê morri e nasci de novo, emergiu dali um novo homem, um novo ser humano, na costa africana do Benin, o que eu ouvi, vi, os recados, as voltas que dei em torno da porta do não retorno, da árvore do não esquecimento, a visita ao templo da cobra Piton, e ao seu sacerdote, o homem marxista leninista deixou de existir e nascia um homem místico religioso devoto da tradição africana da justiça, o impacto do Benin na minha vida foi importantíssimo, decidi lutar contra o racismo com a força da justiça, com o vigor moral, de um combate contra a desigualdade, e pela igualdade para todos, trouxe simples presentes para minha mãe Dona Alice, e peças de madeiras para as pessoas do Olodum e amigos, que ironizavam de receber um presente de uma viagem internacional algo de madeira, trouxe livros e material que iria me ajudara fazer muitos carnavais.
O Benin mudou a minha vida, pois aprendi que somente homens e mulheres com garra e força suficiente para derrotar uma opressão podem ser livres iguais e soberanos de seus destinos. Chequei na África com os paradigmas daquela época, guerra fria, capitalismo, imperialismo, e passei a ver o mundo com outro olhar.
O Benin moldou os destinos do Olodum, que a partir de 1986 cresceu e se multiplicou como uma lança, uma estrela Sirius brilhante e com a influência do Benin vencemos a escravidão, já no carnaval de 1987, com as idéias de Cheik Anta Diop do Senegal, fizemos o melhor carnaval de um bloco afro em todos os tempos, sobre o Egito dos Faraós, brilho beleza e história nas ruas da Roma Negra.
Resgatamos a História, de João de Deus, Lucas Dantas, Manuel Faustino, Luis das Virgens da Revolta dos Búzios, criamos a primeira lei constitucional de ação afirmativa na Bahia em 1989, ajudamos as marchas e caminhadas por Zumbi serem populares, nossa ação em favor das cotas beneficiou muitos jovens que estão nas Universidades, fomos á luta, criamos uma agenda anti racista positiva e tocamos o coração do mundo com nossa música Samba Reggae.
Agora, o Benin veio à Bahia e se encontrou com o Olodum, com o samba reggae e com tudo que criamos de cultura pan africanista. Mesmo com a saudade dos nossos entes que estão no Orum, comemorei esta vitoria com olhos cheios de lágrimas e com alegria a nossa vitoria contra a escravidão com lutas e sonhos. Vamos dar um passo adiante para que os sonhos virem realidade.

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A Igualdade só acontece quando estruturas são rompidas. Muitas vezes é preciso desafiá-las.

A senhora representante do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) na comissão organizadora nacional da conferência de comunicação faz a cobrança em uma celebração de cumplicidade com a geografia da exclusão étnica: E aí professora eu estou te cobrando porque a senhora não mobilizou o movimento negro?
Quantas Áfricas cabem no Brasil?
O diálogo se deu durante uma reunião na Conferência Estadual de Comunicação em Alagoas. Se o questionamento tivesse surgido da necessidade de ocupação de espaços de oportunidade, como ativista do movimento negro teríamos proposto o estabelecimento de uma pauta política para discussão sobre esses vazios, entretanto a pergunta envolvia disputa de espaços de poder para a ‘legitima” representação de outros segmentos.
A proposta não era somar e sim asfixiar com o argumento da representação minoritária a participação do segmento negro na conferência nacional. Era o discurso político para agradar o fiel da balança. Eram cotas sendo estabelecidas. Cotas que queriam nos deixar de fora por conta de erros organizacionais tirando o quinhão que nos cabia nesse latifúndio de soberba e estocadas sutis.
A igualdade só acontece quando estruturas são rompidas. Muitas vezes é preciso desafiá-las
Alguns até tentaram minimizar a polêmica falando em mal entendido. É na verdade, o racismo é um mal entendido do velho colonialismo nacional que condescendente continua a perceber negros como “personagens” subalternos na correlação de forças políticas, balbuciando a linguagem do ‘sim sinhá’, “sim sinhô, fortalecendo as regras de humildade, obediência e fidelidade dos séculos de escravidão nas relações humanas.
Temos um racismo antropofágico demorado e obstinado que inquietantemente sobrevive entre os corredores sociais dos diversos níveis, escalas e valores, ativando o colaboracionismo ideológico da sociedade com o estado na busca de salvaguardar e compartilhar o espaço do eterno proprietário.
O racismo no Brasil é assim torna a sociedade interprete de um discurso memorialista que tem mais de 500 anos, remetendo a uma época que recupera em detalhes todo conceitual de invisibilidade, inferioridade e a descatabilidade palatável do povo negro.
Nós que ousamos assumir uma causa desprovida de filiação partidária vivemos isolados em uma ilha inóspita, incomodamos, pois ao quebrar as normas prescritas ressuscitamos os hiatos da falácia que é a tal democracia racial cultuada no Brasil.
Um estado que possui um grande coeficiente da população constituída por afro descendente e mesmo assim mantém um projeto, feito cota única, de política de comunicação excludente, pensado pela etnia dominante, ao tempo que minimiza o protagonismo da população negra exercita cotidianamente a violência social, transformando-a em violência étnica.
E citando Mir “Até porque a política de organização social do Estado que rege e regulamenta a estruturada sociedade permite, estimula, legitima e mantém diferentes formas de violência’.
É preciso enfatizar que a comunicação contemporânea ainda imprime a imagem tradicional ligada ao passado colonial estigmatizando uma periferia negra com história empobrecida e vazia de valores.
A 1ª Conferência Nacional de Comunicação chega em boa hora para que possamos quebrar os silêncios e traçar novos enredos de experimentação, estabelecendo a articulação mobilizadora e participativa do movimento negro.
E apesar da moça lá de cima, vamos á Conferência como representante do movimento negro alagoano.
E que Oxalá nos guie!
Os representantes eleitos da Sociedade Civil foram:
ENTIDADE TITULAR SUPLENTE
CUT ALAGOAS EMANUELLE VANDERLEI JOSÉ CÍCERO DA SILVA
CRP-15 DENISE MOREIRA DILMA LACERDA
TV COM LUTERO RODRIGUES ROBSON SARMENTO
ABRAÇO PAULO MESQUITA MARCELINO FREITASNETO (ABRP)
SINDJORNAL VALDICE GOMES FLÁVIO PEIXOTO
ENECOS FRANCIMÁRIA RIBEIRO GUSTAVO MARINHO
MOVIMENTO NEGRO ARÍSIA BARROS JOÃO CORREIA
REGIÃO NORTE FLÁVIA MARIA DA SILVA JOSÉ ANTÔNIO DOS SANTOS
REGIÃO AGRESTE ITENIR PEDRO MIGUEL ALVES
REGIÃO SERTÃO ALDIR FERNANDO JOSÉ ANTÔNIO PINTO
REGIÃO METROPOLITANA JÚLIO ARANTES (ATRIZP) JASSON FERREIRA DE LIMA (AAI)
INTERVOZES ELIDA MIRANDA FRANCISCO BARROS COSTA
Pelo Poder Público, os representantes eleitos são:
ENTIDADE TITULAR SUPLENTE
IZP RICARDO TELES EDENILZA LIMA
MPF WLADYMIR LIMA RICARDO COELHO
SECOM MACEIÓ BÁRBARA SANTIAGO MARCELO FIRMINO

Os representantes eleitos dos Empresários, foram:
DELEGADOS TITULARES
1 Edson Soares Marcelino
2 Genilson Vinhas Batista
3 Elton Rodrigues dos Santos
4 Francisco Abud Nascimento
5 Luciano Ferreira de Lima
6 Luiz de Jesus Ferreira
7 Lavinia Guimaraes Mata
8 José Ronildo dos Santos
9 Tereza Cristina da Silva dos Anjos
10 Manoel Barbosa da Silva Souza
11 Marc Victor Carvalho Cabases
12 Edvan Luiz de Azevedo

DELEGADOS SUPLENTES
1 Andréia Almeida Verçosa
2 Ziara Monteiro de Queiroz
3 Quitéria Maria Gomes de Souza
4 Maxuel da Costa Vieira
5 Marcia Maria Coelho Pimentel
6 Sandra Santos de Souza
7 Marthony Silva de Holanda Padilha
8 Zilka Paiva Ténorio de Holanda
9 Ricardo José Cruz dos Santos
10 Leonardo da Fonseca Dias
11 Marcela Silva Pimentel Vilela
12 José Wagner Ribeiro

 

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Aluna Negra é chamada de Chimpanzé em frente a UERJ

 

Rio de Janeiro, 30 de Novembro de 2009.
Carta aberta aos alunos da UERJ
No sábado por volta das 5:30 min. da manhã, ao sair de uma festa em casa de uma amiga, em Vila Isabel, passei em frente a UERJ com o intuito de pegar o ônibus de volta para casa, localizada no bairro da Penha. Estava acompanhada de mais três amigos, quando paramos para conversarmos com mais três rapazes, que por motivos desconhecidos estavam em frente ao portão principal da UERJ à Rua São Francisco Xavier.
Distancie-me do grupo para ver se o ônibus estava vindo e ao me aproximar um dos amigos, relatou-me que um dos meninos do outro grupo, cujo nome é Felipe e cursa engenharia, me chamou de chimpanzé em uma atitude altamente desrespeitosa e racista.
Indignada fui tirar satisfação com o Felipe que, a príncipio negou o fato e partiu para cima de mim tentando me agredir, e o meu amigo imediatamente ligou para a policia e denunciou o racismo.
Um dos amigos do Felipe, João também do mesmo curso, chamou Ricardo de fofoqueiro, e o agrediu com um soco no rosto, iniciando uma briga que foi apartada por todos.
Enquanto aguardávamos a viatura policial, que demorou cerca de 30 minutos, fomos abordados por um outro amigo do Felipe, do qual não me lembro o nome, mas sei que pertence ao CAENG (Centro Acadêmico de Engenharia) e do próprio DCE da UERJ, tentou contornar a situação me pedindo que para ir embora e esquecer o ocorrido. O rapaz ainda disse que não se lembrava de nada que tinha ocorrido, mesmo tendo ajudado a separar e a acalmar a situação. Como a patrulha estava demorando fomos até a cabine policial que próximo a estação Maracanã do metrô para tentar fazer algum contato e relatar a denuncia. Com a chegada da viatura policial eu, um colega que havia feito a denuncia através do 190 e o Ricardo que foi agredido, fomos encaminhados para a 18° D.P. que esta localizada na Praça da Bandeira. Chegamos na dita delegacia ás 6:00 hrs, fomos informados pela detetive Rosângela que precisaríamos de mais dados como nome, RG, endereço dos denunciados para registrar a ocorrência, que seria praticamente impossível informar.
É da ciência de muitas pessoas que fatos como esse são comuns nas universidades e na sociedade brasileira. Porém, quando classifico como comum, não significa que esse ou outros atos preconceituosos de maneira geral, podem ser naturalizados e tratados como normais. Sei que sou uma voz e que preciso de muito mais que isso para provocar mudanças necessárias na sociedade, principalmente na questão racial. Que devido ao imaginário brasileiro da democracia entre as raças que muitos acreditam existir, impede uma discussão de como tratar esses fatos quando realmente acontece.
Minha luta não é somente contra um racista específico e sim contra o próprio racismo que precisa ser combatido com conscientização e educação para que Crimes, como esse de que fui vitima e muitas outras pessoas não ocorram mais.
Não espero estar só nesta luta que não somente fica no campo racial, mas também indígenas, nordestinos, homossexuais, mulheres e de qualquer um que sofra preconceito neste país.
Para que essa luta seja objetiva, proponho junto as organizações de luta desta universidade e nas demais que façam seminários, discussões, campanhas e etc. que possamos discutir um meio para combater esse e outros tipos de descriminações nesses e em qualquer outros espaços.

Dandara Jacqueline Matulino da Silva
Graduanda da Universidade Federal Fluminense do curso de Pedagogia e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro do curso de Serviço Social

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O povo lotou o palco da Assembléia para mostrar gratidão e apreço ao professor Sávio

Luiz Sávio de Almeida é um escritor que atravessa tempos e lugares cruzando as fronteiras entre o culto e o popular. Em suas muitas análises, escritos e pesquisas criou uma linguagem de dialeto único, universal e inconfundível: a aguçada percepção do parentesco proveitoso da academia com o povo.
Faz muito tempo que embrenhou-se por ruas especiais onde um coletivo da espécie humana habita, na busca da textura desejável para plantação de uma sociedade justa e igualitária, com o sabor do conhecimento popular.
Sávio é hoje, um dos grandes historiadores da terra negra de Zumbi que se desnuda da beca e dos clichês da academia para reabilitar e reafirmar cotidianamente a identidade da população negra e indígena.É a noção do verdadeiro ritmo da história revelada com a simplicidade dos grandes mestres.
Sávio é verdadeiro em sua celebração de redescobrir faces e rostos-diferentes olhares sobre a herança do escravismo colonial e contemporâneo.
Sávio é um convite a reflexão. É um homem do seu tempo na medida que reproduz o que faz o compositor popular : vai aonde o povo está.
Sávio é um desses cabras que escancara as portas de sua casa para compartilhar conhecimento, e em deliciosas conversas de trocas e sábias intervenções criou uma linguagem própria e virou referência do sábio homem político que espreita com o olhar do compartilhamento os estreitos corredores que levam a cultura popular.
Dia 23 de novembro de 2009, Luiz Sávio de Almeida recebeu da Assembléia Legislativa de Alagoas, a Medalha de Honra ao Mérito Zumbi dos Palmares. E o povo se fez presente.
O bicampeão bumba meu boi Excalibur, elemento de resistência cultural para o bairro do Jacintinho, através do Projeto Articulando os Quilombo, celebrou e saudou com composições e malabarismos a cultura nascida e alimentada nas periferias. Uma cultura que tem em Luiz Sávio de Almeida um investidor intelectual.
Ao som de tambores legitimamente de matriz afro brasileira, Janaína, a Equede do Centro Afro Cultural Abaça de Oxum Panda/Village Campestre II/Tabuleiro dos Martins, tendo como responsável espiritual mãe Rosa de Oxum, cantou música de raiz e a trouxe com a dança das meninas cores de Áfricas.
Meninas e meninos da Escola Municipal Zumbi dos Palmares aplaudiram e vivenciaram de perto histórias que se conta. Um aluno bastante emocionado pediu autógrafo ao comendadeiro Luiz Sávio de Almeida, muita emoção a flor da pele. Encontro de gerações.
O povo lotou o palco da Assembléia para mostrar gratidão e apreço ao professor Sávio e Sávio chorou o choro do agradecimento.
E para fechar com chave de ouro, o mestre ofereceu ao boi Excalibur a fita de sua medalha. Uma forma de se aproximar ainda mais da gênese da cultura do povo com quem simbolicamente compartilhou seu prêmio de reconhecimento!
O jornalista José Amaral Neto que veio lá Uberlândia, Minas Gerais participar da homenagem a Sávio de Almeida sintetizou: Para mim foi um grande privilégio inenarrável participar desse momento!

 

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A Revolta dos Búzios

Era uma manhã de domingo em Salvador. Prometia ser um dia calmo. Cedo, no entanto, muito cedo começou o alvoroço. A notícia se espalhou entre os que assistiam às missas, nas rodas de conversa das calçadas, às portas das casas onde senhoras falavam das últimas. Papéis sediciosos, panfletos subversivos apareceram afixados em pontos centrais da cidade. Os escritos conclamavam a população a se rebelar contra o domínio de Portugal. A palavra escrita, a opinião escrita não eram aceitas na Colônia onde a imprensa era proibida pelo governo metropolitano.

Não se desconheça o fato de que o analfabetismo era altíssimo. Não havia escolas. O estudo, a leitura eram reservados a uma elite reduzidíssima. Ler, escrever eram privilégios reservados a poucos. No entanto, os boletins sediciosos, como foram chamados os panfletos, tiveram uma repercussão imensa. Menos pela leitura direta e mais pelo boca a boca, pelo boato, pela palavra falada do próprio povo, suscitada pela leitura de uns poucos alfabetizados e que traduziam por assim dizer o conteúdo explosivo dos boletins. Apareceram no dia 12 de agosto de 1798, um domingo. Dia de descanso, próprio para a troca de idéias, para a circulação de boatos, para a conversa das comadres, para o encontro dos compadres.

Cabe lembrar que Salvador era uma cidade grande para os padrões de então. Nela viviam em torno de 60 mil pessoas. Uma cidade majoritariamente negra, tempo de escravidão. Apenas 28% eram brancos. Quando nos referimos a negros, estamos querendo falar dos 52% que eram considerados como tais e mais 20% tidos como pardos. Importante observar, nem que de passagem, que Salvador hoje conta com uma população de mais de 80% de negros. A ideologia do branqueamento da sociedade brasileira não funcionou.

A leitura dos papéis sediciosos foi reduzidíssima. A repercussão, no entanto, foi extraordinária. Até porque os panfletos foram afixados em locais estratégicos da cidade. Esquina da Praça do Palácio, Rua de Baixo de São Bento, Portas do Carmo, Açougue da Praia, Igreja da Sé, Igreja do Passo e Igreja da Lapa. O conteúdo dos boletins sediciosos era incendiário para a época. Revolucionário. Os panfletos defendiam a liberdade, a igualdade e se manifestavam contra a escravidão. Era demais para aquele Brasil colonial e escravagista.

A Revolução dos Búzios – ou dos Alfaiates, como também ficou conhecida – teve três fases: o período conspiratório e de divulgação das idéias, que vai de 1794 a 1797; a preparação do levante, de maio a agosto de 1798, e as prisões, processo, condenações e execuções. Esclareça-se que no dia 22 de agosto de 1798 novos boletins foram distribuídos, e isso mesmo depois de se ter iniciado a repressão ao movimento.

Com as delações, tudo ruiu: 41 pessoas foram presas, 48 foram acusadas, 33 chegaram ao final das devassas. Quatro mulheres figuravam entre as pessoas acusadas: Luiza Francisca de Araújo, Lucrecia Maria, Domingas Maria do Nascimento e Anna Romana Lopes.

Ao final da devassa, quatro dos acusados foram condenados à morte por enforcamento: o mestre-alfaiate João de Deus do Nascimento, o aprendiz de alfaiate Manuel Faustino Santos Lira, e os soldados Lucas Dantas de Amorim Torres e Luís Gonzaga das Virgens e Veiga.

Luís Gonzaga foi preso logo no dia 23 de agosto.

João de Deus do Nascimento, três dias depois, 26 de agosto. Filho da parda forra Francisca Maria da Conceição e de José de Araújo, branco, tinha 27 anos e possuía oficina à Rua Direita do Palácio. Era pai de cinco filhos, e tivera uma tempestuosa relação amorosa com Anna Romana, dez anos mais nova que ele.
Ao ser preso, começa fingindo demência, No terceiro interrogatório, decide negar ter tido qualquer idéia de revolução ou de aliciar quem quer que seja para isso. A 11 de setembro, no entanto, estufa o peito e assume fazer parte do projeto revolucionário. Pelo depoimento das testemunhas, é possível perceber o seu espírito aguerrido, altivo e revolucionário. “Insolente, atrevido e despejado, pronto para toda ação má” – era assim que o definia o coronel Dom Carlos Balthazar da Silveira.

“Muito petulante, altivo e insolente, capaz de empreender qualquer projeto mau, e ruinoso” – assim o deputado da Junta de Administração da Fazenda Real, Francisco Gomes de Souza, o definia. As palavras atravessam os séculos e se metamorfoseiam. Olhadas hoje, da perspectiva das classes dominadas, a partir do olhar revolucionário dos oprimidos, o que era visto como defeito no mestre-alfaiate, converte-se no seu contrário.

São os defeitos de João de Deus – sua insolência, seu atrevimento, sua altivez – que revelam o revolucionário e devem ser vistos, portanto, a partir do olhar dos oprimidos, como extraordinárias qualidades. São os defeitos apontados por seus acusadores que atestam sua alma revolucionária. Uma testemunha, José Antônio dos Santos, diz ter ouvido o mestre-alfaiate proclamar: “Viva a bela Liberdade”.
Lembre-se, porque importante, que num dos boletins sediciosos – Aviso ao Povo Bahinence – há uma belíssima definição do que seja liberdade. E quero manter a grafia da época.

“A liberdade consiste no estado felis, no estado livre do abatimento: a liberdade he adocura da vida, o descanço do homem com igual palallelo de huns para outroz, finalmente a liberdade he o repouzo, e bemaventurança do mundo”.

Manuel Faustino dos Santos Lira só foi detido na tarde de 14 de setembro, uma sexta-feira. Nasceu escravo, depois liberto, era alfaiate ligado à poderosa família dos Pires de Carvalho e Albuquerque, filho do ex-escravo Raimundo Ferrara e da escrava Felizarda, foi preso no Engenho da Pedra, propriedade do senhor de sua mãe, padre Antônio Francisco de Pinho, que foi quem o entregou à prisão.

Lucas Dantas do Amorim Torres caiu nas malhas da polícia no dia 9 de setembro, um domingo, na Fazenda Topo do Nambi, sertão de Água Fria. Soldado do Regimento de Artilharia, filho do homem branco Domingos da Costa e de Vicença Maria, Lucas Dantas resistiu bravamente à prisão. Foi gravemente ferido na testa, um corte de mais três polegadas. A cicatrização dos ferimentos demorou pelo menos três meses para se completar.

Os desembargadores Avellar de Barbedo e Costa Pinto apresentarem a conclusão das devassas em 5 de novembro de 1799. Estavam convencidos de que “alguns indivíduos malévolos” de Salvador haviam articulado, nas palavras deles, “execranda conspiração destinada a sublevar os Povos, subtraindo-os ao supremo Poder e alta Soberania da mesma Senhora, a quebrantar a forma de Governo estabelecida, fazendo-lhe suceder hua Democracia raza e independente”.

Nos termos da conclusão dos autos da devassa, os revolucionários eram acusados de tentarem uma sublevação destinada a “se subtrahirem ao Suavissímo e Iluminadíssimo governo” da Rainha D. Maria I e a suprimirem as leis da Metrópole pretendendo com isso construir uma República Democrática “onde” – veja-se o crime – “todos serião iguais, onde os acessos e logares representativos serião communs”.

Luís Gonzaga das Virgens, definido como aquele que “não podia suportar em pás a diferença de condições e desigualdade de fortuna” e visto como “hum dos Chefes principais” da revolução foi condenado por crime de lesa-majestade a morrer na forca. Além disso, deveria ter a cabeça e as mãos cortadas e expostas no local da execução. A sentença foi confirmada no dia 7 de novembro daquele ano de 1799, há coisa de 210 anos, quase precisamente isso.

Lucas Dantas do Amorim Torres, considerado o principal líder da revolução – ao menos segundo os autos da devassa –, Manuel Faustino dos Santos Lira e João de Deus do Nascimento também foram condenado à morte por enforcamento e também teriam seus corpos esquartejados. Os soldados Lucas Dantas e Luís Gonzaga, como penas complementares, teriam suas fardas rasgadas por dois sargentos ao “toque de caixa destemperada”.

Impõe-se a pergunta: por que foram esses quatro, e não outros, os condenados à forca? Condenados à forca e esquartejados, insista-se, com ênfase. As partes dos corpos expostas pelas ruas. Por que pobres? Por que soldados e alfaiates, homens simples? Por que negros? Por que da perigosa ralé? Talvez por tudo isso.

O historiador Luís Henrique Dias Tavares, notável intelectual baiano, rigoroso pesquisador, que fornece base a toda essa argumentação, a quem aqui homenageio, ensaia uma resposta em seu História da Sedição Intentada na Bahia em 1798 (“A Conspiração dos Alfaiates”).

Acontece que “os que iam morrer, iam morrer para dar exemplo”.

A devassa fez a devida seleção, atenuou penas para muitos outros, e cravou pena de morte para os quatro, os quatro mártires da Revolução dos Búzios, heróis do povo brasileiro.

O governador da Bahia de então, D. Fernando, num ofício, deixa claro que sempre se receou nas colônias que eclodissem rebeliões de escravos. O que se queria conter, o que se queria matar para sempre era não apenas aquela rebelião, mas qualquer outra que pudesse ser levada a cabo por negros. Quiseram as autoridades coloniais eliminar de vez o perigo que representou aquela “associação de mulatos” que pretendia coisas como liberdade, democracia, fim da escravidão.

Era demais para os brancos, era demais para as autoridades coloniais. Eliminaram-se as penas severas para as “pessoas de consideração”, para usar expressão da época, e mataram os revolucionários pobres para dar o exemplo que se pretendia definitivo

Aquela “associação de mulatos”, aquela rebelião negra, de cunho democrático, que guardava conteúdos obviamente recolhidos da Revolução Francesa, e que, de alguma forma, ia além dela ao propor o fim da escravidão, causava medo às autoridades coloniais, mesmo após tanta repressão, tantas prisões. Era preciso condenar alguns à forca para dar o exemplo. O perigo não estava nas “pessoas de consideração”. Estava nos negros atrevidos e insolentes.

Os preparativos para a execução da sentença foram cuidadosos. Até uma nova forca foi “plantada em lugar extraordinário” na Praça da Piedade. No dia 8 de novembro de 1799, quando os quatro foram executados, a Praça da Piedade foi ocupada pelos Regimento Velho, Regimento Novo e Regimento de Artilharia. Os que assistiam aos preparativos e depois à execução eram mantidos à distância pelo aparato militar.

Luís Gonzaga e João de Deus foram conduzidos para a Praça da Piedade em cadeirinhas, ou palanquins, sem cortinas ou tampas, de modo a que no trajeto pudessem ser vistos por todo o povo, que se aglomerava nas calçadas, que olhava das janelas, das varandas, que espreitava de todos os cantos, de todos os becos, todos os sobrados.

Os dois iam manietados por grilhões presos aos encostos das cadeiras. Contemporaneamente, poderíamos falar que a Colônia calculadamente promovia um espetáculo, um efeito-demonstração. Queria pelo terror público do enforcamento, atemorizar a população, especialmente o povo negro, de modo a que ninguém mais se atrevesse a rebelar-se contra a Coroa e contra a escravidão.

Salvador parou para ver o sacrifício dos mártires.

Lucas Dantas e Manuel Faustino vieram a pé da cadeia ao patíbulo. Em volta deles, além dos guardas, muitos religiosos. Quando os quatro chegam à forca, a soldadesca dá as costas para o interior da praça. Mantém as armas apontadas para o povo. Uma tropa disposta a atirar diante de qualquer manifestação. Uma tropa tensa, cheia de medo. A Colônia queria dar o exemplo. A tropa, no entanto, temia a reação dos negros e mulatos que acompanhavam o espetáculo de dor e sangue e martírio.

Tudo durou seis horas: das 9 da manhã, exata hora em que os quatro mártires saíram da cadeia, às 3 da tarde, quando os quatro jaziam sem vida, quando então tudo terminou.

Terminou, vírgula. O espetáculo macabro, pleno de crueldade e cálculo, havia de continuar.

Mortos os quatro, tiveram seus corpos esquartejados. Pedaços dos corpos dos mártires foram expostos em lugares públicos para que todo mundo visse, para que todos soubessem que aquele seria o destino de quantos se rebelassem contra a Coroa portuguesa.

A cabeça de Lucas Dantas, espetada no Campo do Dique, na parte do Desterro. A de Manuel Faustino, no Cruzeiro de São Francisco. A de João de Deus, na Rua Direita do Palácio. A de Luís Gonzaga, juntamente com as mãos, na própria Praça da Piedade, afixadas nos caibros do patíbulo. Todos, locais centrais de Salvador.

Durante cinco dias, a população de Salvador olhou nos olhos mortos dos quatro mártires, olhou para suas cabeças despregadas dos corpos, certamente alternando sentimentos de compaixão e indignação. No dia 13 de novembro de 1799, repitamos as datas, as cabeças cortadas foram retiradas das ruas e enterradas.
Para a Coroa, a perspectiva da Revolução democrático-burguesa, na esteira da Revolução Francesa, era assombrosa. E a Revolução dos Búzios, era ainda mais assombrosa pelo fato de ter negros e pobres à frente, e por sugerir uma igualdade que suprimisse a escravidão.

Tudo perigoso demais para uma Coroa que se colocava na contramão da tendência universal da revolução democrático-burguesa calcada na Revolução Francesa de 1789.

Não custa insistir que a Revolução dos Búzios ia além dos marcos da revolução democrático-burguesa, ao sugerir o fim da escravidão. Amplia os marcos revolucionários, quando soldados e artesãos, quando negros e pobres, quando os excluídos de então entram em cena. Vamos nos transportar por um momento àquele tempo.

João de Deus, indaga de Lucas Dantas, sobre o significado de uma revolução. Lucas Dantas explica que, para fazer a revolução, será necessária uma guerra civil “para que não se distinga a cor branca, parda e preta, e sermos todos felizes, sem exceção de pessoa”. Uma Revolução, vê-se, para chegar a uma sociedade de iguais.

Lucas Dantas diria ainda, ao mesmo João de Deus, que a Revolução tinha o objetivo de chegar a um governo democrático onde todos fossem felizes. E seriam felizes porque só seriam admitidos no governo “pessoas que tivessem capacidade para isso”, fossem eles “brancos, ou pardos, ou pretos, sem distinção de cor”.

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Anistia para o Quilombo dos Palmares

A construção Parque Memorial Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga em União dos Palmares, como política pública estabelece uma intervenção etno-cultural, afirmando de forma legítima a geografia da memória histórica do povo negro.
Legitimar histórias é mediar e intermediar estratégias e investimentos institucionais para o fomento, difusão, circulação e acesso a essa mesma história. É propor e realizar rotas do conhecimento.
O Parque Memorial Quilombo dos Palmares tem uma importância substancial para a construção das identidades etno-culturais e identidade se constrói quando existem produção e difusão da cultura para e com o povo.
O Parque é um museu vivo e por conta de todo seu histórico miscigênico que vai de Zumbi a tantas e muitas guerreiras negras,o estado político de Alagoas deveria suplantar o racismo institucional e investigar os mecanismos sutis e imperativos que invisibilizam esse incontestável projeto de intervenção.
O Parque tira a história do povo negro do rol das histórias circundadas pelo olhar escravocrata do Brasil, o país com a maior e mais longa escravidão urbana.
O Parque transcende os limites impostos pelas velhas cartilhas patrimonialistas estatais que ousam ocultar a grande epopéia de um povo que fundou um dos primeiros modelos de sociedade auto-sustentável.Um povo que pensava organização política, mas a história insiste na persistência de nos pensar “escravos”.
Do Parque brotam a ancestral riqueza histórica que se confunde com a rota geográfica de um redescobrimento do Brasil.
Para redescobrir o Brasil os caminhos do parque aguardam uma estrada que nunca chega. E haja emendas parlamentares...
Como política pública de cultura, o Parque, ainda, não existe. Dos 901.563 passageiros que desembarcaram no Aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares, em Maceió,Al quantos e quantas “ouviram” falar da existência do Parque?
O parque precisa ser redefinido como um dos grandes patrimônios da humanidade e assim entrar na agenda política do estado, antes durante e depois de novembro.
Eis a questão!

 

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