O melhor que o cinema trouxe em 2017.

6cb68f35 8e27 4624 8269 96a3207e1644 Em La La Land, Emma Stone estampa o plano que, pra mim, é o mais bonito de 2017.

Mais um ano de cinema, reflexão e mergulho no estudo dos recursos cinematográficos e da alma humana. Não, não sou crítico ou especializado no assunto. Mas deixo aqui, para quem se interessar, minha lista de trabalhos favoritos deste ano que encerra logo mais. Foi um ano muito rico para a sétima arte, muita diversidade e criatvidade em escolhas de temáticas, técnicas e abordagens.. A seleção segue o critério de figurar obras que tiveram lançamento comercial no Brasil em 2017.

Lembrando que, certamente, deixei muita coisa bacana passar batida. Mas, de tudo que eu tive chance de conferir, eis aqui o que mais me marcou:

 

- Por ordem de preferência

Cena de Blade Runner 2049, um dos melhores trabalhos do ano.
Um dos muitos belos frames de Blade Runner 2049 - fotografia do mestre Roger Deakins -, um dos melhores trabalhos do ano.

 

Filmes

- Silêncio, de Martin Scorsese.

- Mãe!, de Darren Aronofsky.

- Martírio, de Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho e Tatiana Almeida.

- Logan, de James Mangold.

- A Criada, de Park Chan-wook.

- Toni Erdmann, Maren Ade.

- Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve

- La La Land - Cantando Estações, de Damien Chazelle.

- Moonlight - Sob a Luz do Luar, de Barry Jenkins

- Ao Cair da Noite, de Trey Edward Shults.

- Star Wars: Os Últimos Jedi, de Rian Johnson.

- Planeta dos Macacos: A Guerra, de Matt Reeves

- Manchester À Beira-Mar, de Kenneth Lonergan

- Frantz, de François Ozon.

- Corra!, de Jordan Peele.

- Columbus, de Kogonada

- A Vilã, de Jung Byung-Gil.

- Bom Comportamento, de Ben Safdie e Josh Safdie.

- Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky.

- Em Ritmo de Fuga, de Edgar Wright.

- Atômica, de David Leitch.

- Eu Não Sou Seu Negro, de Raoul Peck

- O Apartamento, de Asghar Farhadi.

 

Robert Pattinson soberbo em Bom Comportamento. 

 

Performances (principais ou coadjuvantes)

- Peter Simonischek, por Toni Erdmann.

- Hugh Jackman, por Logan.

- Andy Serkis, por Planeta dos Macacos: A Guerra

- Robert Pattinson, por Bom Comportamento.

- Maria Ribeiro, por Como Nossos Pais.

Kate Winslet, por Roda Gigante. 

- Denzel Washington, por Um Limite Entre Nós.

- Florence Pugh, por Lady Macbeth.

- Adam Driver, por Paterson.

- Andrew Garfield, por Silêncio.

- Michelle Williams, por Manchester À Beira-Mar.

- Kim Min-hee, por Na Praia à Noite Sozinha.

- Paula Beer, por Frantz.

- Haley Lu Richardson, por Columbus.

- Joel Edgerton, por Ao Cair da Noite.

- Geena Davis, por Marjorie Prime.

- Mark Hamill, por Star Wars: Os Últimos Jedi

- Jennifer Lawrence, por Mãe!

 

Casey Affleck e Michelle Williams protagoniza uma das maiores cenas do ano, em Manchester À Beira-Mar. 

 

Momentos

- Emma Stone sob o reflexo da projeção de Juventude Transviada e toda a sequência final de La La Land. (E quase todas as outras sequências do filme)

- O padre vivido por Andrew Garfield, em Silêncio, faminto, devora o alimento oferecido pelos humildes moradores de um vilarejo sem sequer se lembrar de orar em primeiro lugar, notando o esquecimento apenas em seguida, ao vê-los rezando.

- O clímax do terceiro ato de Mãe!

- O corte do beijo de Maria Ribeiro com o affair, em Como Nossos Pais, para uma sequência de sexo dela com o marido.

- O doloroso encontro de Casey Affleck e Michelle Williams, em Manchester À Beira-Mar, onde Michelle explode.

- Todos os planos-sequência presentes em Atômica e A Vilã.

- A luta de Ryan Gosling e Harrison Ford em meio a hologramas, em Blade Runner 2049.

- Toda a sequência de Star Wars - Os Últimos Jedi que culmina na batalha em cenário vermelho.

- Sandra Hüller cantando Greatest Love Of All, em Toni Erdmann.

- O desabafo final de Trevante Rhodes, em Moonlight - Sob a Luz do Luar.

- Várias sacadas brilhantes da montagem  e edição de som de Em Ritmo de Fuga. 

- A sequência de abertura de Planeta dos Macacos - A Guerra.

- O assassinato de Patrick Stewart, em Logan.

- Toda a fuga do assalto de Bom Comportamento que ocorre até Ben Safdie ser capturado pelas autoridades.

- A sequência em que Lady Macbeth assassina o próprio marido.

- O plano-sequência que ilustra a degradação de Bingo - O Rei das Manhãs.

- A sequência dos espelhos de John Wick: Um Novo Dia Para Matar.

- Johnny Massaro saindo de uma sessão de cinema flutuando em O Filme da Minha Vida.

- Lewis MacDougall se despedindo de Felicity Jones, em Sete Minutos Depois da Meia-Noite.

 

Que 2018 venha com mais cinema e mais coisas memoráveis!

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Os super-heróis invadiram o cinema: cinco filmes imperdíveis do subgênero

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Por Leonardo Bastos

São tempos de super-herói no cinema, muito super-herói! Não é uma novidade, mas nunca se viu tantos personagens com superpoderes em Hollywood como hoje. Desde que a Marvel iniciou seu universo expandido nas telonas em Homem de Ferro (Jon Favreau, 2008), a produção desse chamado “subgênero” chega a gerar atualmente quatro ou cinco longas por ano, responsáveis pela maior parte das bilheterias mundo afora. O último exemplar entrou em cartaz nos últimos dias, A Liga da Justiça (Zack Snyder, 2017), e arrecadou mais de R$ 14 milhões em sua estreia nos cinemas brasileiros. Quando essa tendência vai encher o saco? Não sei, mas muita água ainda vai rolar.  Dos trabalhos protagonizados por essa galera que usa trajes especiais e possui super-poderes, listo aqui cinco títulos que considero indispensáveis.

 

5. Watchmen – O Filme (Watchmen, Zack Snyder, 2009)

Adaptação de uma graphic novel de grande prestígio até mesmo na crítica literária, Watchmen chegou aos cinemas metralhado de comparações com o material original. É muito mal recebido até hoje, o que acho extremamente injusto. Com uma narrativa densa e complexa que é raríssima num tipo de cinema que frequentemente subestima a inteligência do público, é o único trabalho de Zack Snyder que julgo à altura da habitual pretensão que encontramos na filmografia do diretor. O apuro estético de Snyder está em total coesão com o espírito da obra – nem o slow motion incomoda aqui. Apresentando personagens vivenciando as paranóias deixadas pela Guerra Fria e defrontando questões existenciais, não vá ver Watchmen esperando algo mastigável e genérico, pois vai deixar de apreciar uma projeção visceral, ácida e de personalidade.

Grupo de Watchmen em formação.
Grupo de Watchmen (2009) em formação.

 

4. Corpo Fechado (Unbreakable, M. Night Shyamalan, 2001)

Não há explosões, porradaria, armaduras, martelos encantados, capas e um orçamento estratosférico de CGI em Corpo Fechado, mas ainda assim a sensação de ameaça de colapso é constante em sua narrativa.  M. Night Shyamalan (quando ainda prometia ser um dos grandes cineastas do século 21) fez uma obra de inquietação e expectativas, aplicando uma direção que faz com que as possibilidades oníricas do mundo que retrata surjam no imaginário do espectador. Jamais o “sugira, não mostre” foi tão forte em uma história sobre pessoas lidando com superpoderes. Trata-se de uma obra que quebrou a barreira ação/aventura para experimentar o suspense no subgênero. Bruce Willys e Samuel L Jackson estão em grandes momentos aqui.

Samuel L. Jackson vivendo seu famoso personagem Elijah Price em Corpo Fechado
Samuel L. Jackson vivendo seu famoso personagem Elijah Price em Corpo Fechado (2001).

 

3. Logan (Logan, James Mangold, 2017)

Sou fascinado pela franquia X-Men, riquíssima em alegorias sobre intolerância que se encaixam tragicamente em nossa realidade contemporânea. Logan é meu predileto deste universo justamente por ir ainda além dos ambiciosos conceitos explorados e focar nas sequelas que o decorrer dos anos de ódio e perdas deixou nos personagens. A imortalidade se revela mais do que nunca um fardo para Logan. É um filme sobre heróis esgotados e que se mantêm vivos somente pelo instinto de sobrevivência. E, acreditem, nunca imaginei que que existiria um filme que fosse capaz de me fazer desejar a morte de um herói que cresci acompanhando.

Hugh Jackman encarnando seu icônico personagem pela última vez em Logan.
Hugh Jackman encarnando seu icônico personagem pela última vez em Logan (2017). 

 

2. O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, Christopher Nolan, 2008)

Discordo totalmente quando mencionam O Cavaleiro das Trevas como o filme precursor do tom sombrio no cinema de super-herói, já que esse mérito é de Bryan Singer ao trazer em X-Men (2000) uma seriedade nunca antes vista em traduções cinematográficas de HQs. Mas é incontestável que Christopher Nolan deixou sua marca autoral na história da sétima arte com esta obra-prima que incorpora uma áurea quase noir e desenvolve uma atmosfera tão desprovida de qualquer luz e esperança quanto a fotografia concebida por Wally Pfister. Tendo em vista que uma das grandes fragilidades que encontro no subgênero é a figura do vilão, fico pensando se ainda veremos uma composição tão enigmática, esquizofrênica e marcante como a de Heath Ledger como Coringa.

Heath Ledger em O Cavaleiro das Trevas. O ator faleceu antes da estreia do filme.
Heath Ledger em O Cavaleiro das Trevas (2008). O ator faleceu antes da estreia do filme.

 

1. Homem-Aranha 2 (Spider-Man 2, Sam Raimi, 2004);

Peter Parker não foi apenas um dos personagens que me apresentou ao universo dos heróis, mas à magia e o poder de identificação do cinema como todo. Muito mais do que um filme sobre um garoto que tem habilidades de aracnídeo e enfrenta vilões com aparência de duendes e moluscos, Homem-Aranha sempre foi a trajetória de um protagonista que lida com a transição da adolescência para a vida adulta e, com ela, todos os problemas e dilemas derivados. Elevando esse conceito ao ápice nesta continuação, Sam Raimi conduziu uma aventura com um equilíbrio de drama, comédia e ação, talvez, jamais alcançado novamente com tamanha perfeição em outros trabalhos do subgênero.

Tobey Maguire e Kirsten Dunst em Homem-Aranha 2.
Tobey Maguire e Kirsten Dunst em Homem-Aranha 2 (2004).
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Com uma das grandes atuações do ano, Como Nossos Pais é um belo filme

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Por Leonardo Bastos

Cresci vendo minha mãe como aquela capaz de resolver qualquer problema que eu ou qualquer outra pessoa da família poderia enfrentar. Fui percebendo com o tempo que ter ela como base de apoio não é exclusividade minha, mas também de muitos que a cercam. Sempre busquei compartilhar da mesma força dela e de tantas mulheres que conciliam maternidade, afazeres domésticos e múltiplas funções, e sempre me perguntei: como ela consegue se sacrificar desta forma? Dito isto, nada me remeteu mais à figura da minha mãe do que ouvir “Estou cansada de fingir que dou conta de tudo”, que diz a personagem de Maria Ribeiro em determinado momento de Como Nossos Pais, novo trabalho de Laís Bodanzky. A cineasta desenvolveu um estudo de personagem justamente centrado no papel da mulher multitarefas na sociedade contemporânea.

Rosa (Ribeiro) beira aos 40 anos e mantém um casamento desgastado com um marido (Paulo Vilhena) que sobrecarrega a esposa com a criação das duas filhas e a manutenção financeira do lar. Ela ainda possui uma relação tumultuada com a mãe (Clarisse Abujamra) e lida com um pai (Jorge Mautner) que tem a mesma maturidade de um adolescente. Ao descobrir da forma mais inusitada possível a verdadeira natureza de sua paternidade, Rosa começa uma série de questionamentos sobre seus relacionamentos enquanto mãe, filha e esposa, e a forma que está conduzindo a sua vida.

Lembrando recursos narrativos de obras como A Outra (1987, de Woody Allen), onde certo acontecimento desencadeia no personagem título auto-reflexões, a revelação da paternidade desconhecida de Rosa serve como estopim para incitar a descoberta de várias mudanças necessárias na vida da personagem. E o mais bacana do arco da protagonista de Como Nossos Pais é que ao longo do filme, ela vai se dando conta de que a identidade de seu pai biológico é a dúvida sobre si mesmo menos relevante que vai elucidar. É como se Laís quisesse expressar o quanto o conceito de verdade é instável e frágil através de uma mulher que acreditou durante sua vida inteira que o casamento e sua condição feminina lhe restringem o direito de liberdade. E mais que isso, o filme também é sobre nossa dificuldade de entender o outro mesmo quando convivemos anos e anos com ele.

Com uma performance irretocável – e, diga-se de passagem, uma das maiores do ano -, Maria Ribeiro compõe Rosa como alguém que nos faz compreendermos suas constantes explosões como um pedido de ajuda de uma mulher que se vê cada vez mais incapaz de atender os papéis de filha, mãe, esposa e chefe de família. E mesmo assim Rosa ainda encontra tempo para expor carinho nestas relações, reparem, por exemplo, em como é tocante a generosidade dela com o pai. Já Paulinho Vilhena poderia facilmente transformar Dado numa figura que gerasse nossa antipatia, mas evita isso ao encarná-lo como um sujeito que demonstra afeto pelas filhas e a esposa, embora na maioria das vezes mal perceba o quanto é egoísta com esta. Destacando-se entre os coadjuvantes, Clarisse Abujamra transmite em sua personagem uma mulher que encontrou no embate a forma mais próxima de manifestar seu sentimento materno, e é admirável como todas as agressões da personagem à Rosa representem o esforço de interação de uma mãe que há muito tempo perdeu qualquer sinal de comunicação com a filha.

Concebendo um plano que coloca em foco apenas uma panela de pressão dando sinais para ser desligada, Laís abre o filme já anunciando as relações esgotadas que vamos acompanhar. Aliás, temos aqui o trabalho visual mais maduro da carreira da diretora, já que utilização de simbolismos e composições de quadros para expor ideias é recorrente no filme. Uma bicicleta se torna um objeto importante para ilustrar como a protagonista sente o mundo a sua volta e como esta vai amadurecer ao longo da projeção. Um sapato traduz a abertura de um contato há muito tempo negado. E em um único plano, Laís nos mostra a desigualdade na divisão de tarefas entre o casal ao contrastar dois quadros: Dado dormindo à esquerda enquanto à direita Rosa acorda as filhas para prepará-las para a escola. Sem tirar os méritos ainda da montagem de Rodrigo Menecucci, que realiza cortes brilhantes que conseguem fazer comentários sobre as discussões postas em tela apenas com a técnica, como aquele que corta de um beijo para uma certa cena de sexo que brinca com a expectativa do público. Este corte que me refiro desperta uma ótima análise sobre monogamia.

Fragilizado apenas por uma cena artificial envolvendo a participação de Herson Capri, Como Nossos Pais, assim como Bicho de Sete Cabeças, Chega de Saudades e As Melhores Coisas do Mundo, é um filme humano e repleto de diálogos ricos, interpretações intensas, temas pertinentes ao nosso contexto atual e é mais uma prova de como Laís é uma artista que tem a habilidade e sensibilidade de dialogar com todas as gerações. Há tanta verdade e naturalidade em cena que fica impossível não nos enxergamos diante de personagens tão complexos. É um filme que dá voz às várias Rosas que encontramos por aí, tão cheias de desejo, sonhos e responsabilidades quanto qualquer homem, mas que ainda têm sua representatividade reduzida pela sociedade.

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