Afasta-te Satanás

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Senegodi, era um índio civilizado, havia deixado de fumar já fazia anos. Ele havia entendido que o cigarro, embora lhe traga um prazer imediato, a longo prazo traria mais prejuízos. Junto com esta nova direção que havia dado a sua vida decidiu também corrigir hábitos alimentares. Estas mudanças permitiram que ele ficasse saudável, realizasse caminhadas e aventuras (que ele sempre desejou fazer, mas seu condicionamento anterior não permitia).

Este novo estilo de vida não lhe trouxe apenas um corpo mais bonito, lhe trouxe outros amigos, mais saúde e carinho dos seus familiares. Pois, agora estava mais disposto e vivenciava momentos mais intensos com todos.

Em um domingo de primavera Senegodi decidiu reunir seus amigos para juntos viverem momentos especiais. Programara uma aventura de exploração num lugar lindo. Depois, proporcionaria um churrasco e bom diálogo. Mas entre as pessoas que convidara estava Ynedos, um indígena que morava na capital e que passava boa parte de sua vida com jogos e cigarros.

Senegodi havia entendido que um amigo de verdade deve promover o crescimento e o desenvolvimento do outro. Por este motivo Senegodi tinha convidado aquelas pessoas. Compartilhar alimentos, compartilhar uma caminhada, compartilhar esforço, compartilhar experiências, tudo isso faz bem as pessoas. Mas, Ynedos ainda não havia entendido que todos nós temos hábitos que nos conduzem a desgraça e que estes hábitos devem ser execrados e não estimulados e compartilhados. Ynedos não tinha a intenção de ser uma pessoa má ou que prejudicasse outras, ele apenas achava que não havia mal nas coisas que ele fazia. Ynedos ainda precisava entender que, por mais difícil que seja, precisamos ser luz e não pedra de tropeço para aqueles que nos acompanham.

Depois da aventura que Senegodi havia proporcionado aos amigos, enquanto saboreavam a carne, Ynedos acende um cigarro e, persuasivamente, oferece-o a todos que perto dele estavam. Senegodi inicialmente recusa afirmando que já parou de fumar faz alguns anos. Ynedos se dirige a outro colega e puxando outros cigarros dispara: "não precisa negar, pois eu sei que no fundo você quer!" A pessoa também recusa. Mas, aquilo fere o orgulho de Ynedos, que acredita que sempre deve convencer as pessoas para o que ele quer, mesmo que este redirecionamento não seja bom a longo prazo . Impaciente e intranquilo Ynedos vai procurando várias formas de persuadir os amigos a fumarem. Ele se aproxima, ele oferece, ele insiste, até que um a um os amigos vão acendendo os cigarros de Ynedos. A cada chama de cigarro que se acende o orgulho de ser capaz de convencer os amigos a fazer algo que ele quer, independente de ser bom ou prejudicial, também se inflama dentro de Ynedos.

Faltava apenas Senegodi que ficou ilhado vendo todos a sua volta fumarem. Ynedos então fazia apelos emocionais para este dizendo: "acenda pelo menos o cigarro para mim". Não demorou e Senegodi, sendo provocado em um vício antigo e sem querer magoar o amigo, logo tomou o cigarro fedorento e fumou.

Nenhum daqueles que ali estava presente percebeu que Ynedos deixara de ser amigo neste momento para ser pedra de tropeço no objetivo dos companheiros. Em nada Ynedos estava promovendo o desenvolvimento dos amigos, mas ele não enxergava isto.

O homem que representa a encarnação de Deus para o cristianismo chama o amigo, a quem ele quer por sucessor, de satanás quando este tenta desviá-lo dos seus objetivos.

Em mais de um livro bíblico encontramos a narrativa de Jesus elogiando Pedro e afirmando que o mesmo será o seu sucessor. Será a pedra em que ele edificará a igreja. Mas quando Jesus está explicando o que precisa ser feito e Pedro tenta afastá-lo do propósito, a resposta de Jesus é enfática:

Afasta-te, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço; teus pensamentos não são superiores, mas dos prazeres imediatos! (Mateus 16:23)

Do mesmo modo que Pedro não era mau e acabou sendo um péssimo conselheiro de Jesus, tentando desviar este de seus objetivos maiores, vejamos que Ynedos não era também má pessoa. Ynedos pode ser um esposo ou uma esposa, um namorado ou namorada, um amigo ou amiga que, sem perceber, nos desvia de nossos propósitos maiores com a oferta de prazeres imediatos, de conforto, de aconchego, etc.

Somos grandes quando conseguimos enxergar os Ynedos em nossas vidas e dizer-lhes: afasta-te satanás.

Numa linguagem psicológica Jesus não queria o afastamento de Pedro, Jesus queria a mudança de comportamento de Pedro. Não queremos nós, e nem Senegodi, que Ynedos se afaste. Queremos que Ynedos perceba que quando ele estimula os amigos a prazeres imediatos, que são nocivos a longo prazo, ele simplesmente não está sendo amigo.

Uma das traduções possíveis da palavra satanás é inimigo, adversário, aquele que é nocivo, ou seja o contrário de amigo. Sejamos pois nós pessoas que promovem outras pessoas, pois só assim somos amigos. De outro modo seremos satanás (no sentido etimológico do termo) na vida dos demais.

Renuncie-se a si mesmo, tome suas dores e siga-me. Porque aquele que quiser prazer imediato, perderá sua vida; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida, conseguirá salvar-se. (Mateus 16:24-26)

Não convido aqui as pessoas a salvação sobrenatural, já existe muita gente fazendo isso. Mas nos esforcemos para não derrubarmos as pessoas dos objetivos maiores.

Assim eu estudei, assim eu passo para vocês.

Gérson Alves da Silva Júnior - Tamuia Caambembe
Professor de Psiconeurobiologia da Universidade Federal de Alagoas e Supervisor de Psicologia Clínica Comportamental

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O Lado Mau da Branca de Neve

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Em nosso contexto atual conhecemos a história de Branca de Neve (Schneewittchen) por meio de Wall Disney. Porém, a fábula remonta a um conto de origem alemã, que já aparece no período medieval com várias versões orais. Os Irmãos Grimm (1785 -1863) compilaram algumas destas versões e fizeram algumas modificações, para publicação entre 1812 e 1822, dando a forma aproximada da versão difundida atualmente. O livro dos Irmãos Grimm apresenta várias outras fábulas e se intitula “Kinder-und Hausmärchen” que pode ser traduzido por: “Contos de Fada para Crianças e Adultos”.

A história da Branca de Neve é famosa e lembrada por todos porque remonta a estruturas primitivas e universais do comportamento humano. Assim como Caim e Abel, Branca de Neve também é um conto sobre inveja e o poder que ela tem para destruir outras pessoas. Na versão mais difundida atualmente uma Rainha Má possui um espelho mágico que sempre fala a verdade. Esta Rainha Má pergunta ao espelho quem é a mais bela, e o espelho responde sempre que é a Rainha, porém quando Branca de Neve completa 17 anos o espelho afirma que a Rainha é muito bonita, mas a mais bela é Branca de Neve. A partir deste ponto a Rainha passa a tentar destruir Branca de Neve.

A primeira tentativa de matar Branca de Neve foi por meio de um caçador contratado que não cumpre as ordens da Rainha ao ver a beleza de Branca de Neve. Na versão de Wall Disney a Rainha faz a segunda tentativa transformando-se em uma velha que oferece uma maçã enfeitiçada, mas na versão dos Grimm a Rainha tenta matar Branca de Neve também com uma fita que a aperta e também com uma escova enfeitiçada. A versão dos Grimm é mais interessante porque vemos maior esforço e empenho para destruir uma pessoa quando esta passa a ser vista com possibilidades de retirar apreços, elogios, ganhos (reforços) que uma pessoa já possui.

Todavia, o aspecto de destaque deste texto não é o sofrimento da Branca de Neve, mas a Rainha Má em potencial que existe em nós como dispositivo filogenético, que, evidentemente, pode ser reforçado e remodelado pela cultura e por processos ontogenéticos (aprendizagem).

Todos nós nos questionamos sobre nossa beleza e poder de sedução. Todos nós nos perguntamos: quem podemos seduzir e quem pode ser mais belo e sedutor que nós? Mas, não gostamos de nos ver como um Rei Mau ou Rainha Má que deseja destruir aqueles que nos superam por alguma razão, seja intelectualmente, fisicamente ou por meio de alguma habilidade.

Contudo, não é difícil imaginar como uma mulher casada se sente ao ver uma jovem amigável, de 17 anos, bem feita e inocente se aproximando de seu esposo. A jovem com lábios vermelhos destacados fala de modo apaixonante com aquele que a mulher ama. Ela nunca fala de sexo ou coisas obscenas porque é inocente e pura demais para isso. Mas, infelizmente toda essa pureza, recatamento e educação com o esposo da mulher soa para ela como uma ameaça ainda maior. Ela, na verdade, passa a ver perigo em cada gesto inocente e acredita piamente que existe malevolência nas expressões de pureza. Natural que esta esposa agora se observe mais no espelho e se pergunte sobre seu poder de sedução. A dor que muitas vezes se segue a resposta do espelho é tão intensa que qualquer um seria capaz de se compadecer da angústia desta esposa.

A esposa com autoestima arrasada rapidamente se transforma numa Rainha Má que deseja a todo custo eliminar as rivais ainda que sejam jovens e inocentes demais para entender contingências que acionam comportamentos destrutivos/agressivos em uma mulher mais madura.

Entretanto, olhemos para Branca de Neve com um olhar diferente. Não vejamos ela como uma mocinha tão pura e infantil. Vejamos ela como qualquer jovem que quer seu espaço. O jovem quase sempre é retratado como rebelde porque o comportamento de rebeldia muitas vezes lhe parece o único que permite reforçadores diante de poderes já estabelecidos e constituídos por longas datas. Ou seja, é comum para se afirmar precisar muitas vezes afetar aquele que já está afirmado. Este cenário por si só é agressivo e embora possa ser visto de formas diferentes um número considerável de pessoas acaba dando esta direção violenta.

Branca de Neve tem uma inocência conveniente. Ela ignora desejos (reforçadores naturais) e comportamentos possíveis das pessoas. Ela faz isso de modo tão escancarado que passa a ser violência. Imagine você amigo leitor ser homem e não ser visto como homem, ser mulher e não ser vista como mulher. As pessoas obesas e com deformidades passam muitas vezes por isso. Uma parte considerável das pessoas vêem os obesos(as) como pessoas legais, mas não os querem como namorados(as). O mesmo vale para os deficientes. Na maior parte dos casos as pessoas não fazem isso de propósito, elas simplesmente ignoram possibilidades porque preferem viver como Branca de Neve que não vê que todos somos seres movidos por finalidades. Todos nós temos potencialidades sexuais e fazemos grande esforço para sermos ao menos interessante para outros neste quesito. Quando uma pessoa desiste de ser interessante para outras ela está de fato adoecida. Mas quando o outro simplesmente ignora esta dimensão sexual da pessoa, ele sequer enxerga a pessoa como humano. Ela na verdade vê essa pessoa como um humano reduzido, um humano menor, um anão desprovido de sexualidade.

Anões desprovidos de sexualidade é como Branca de Neve vê os sete homens que lhe dão abrigo numa casa na floresta. Que tipo de ser humano adulto e inteligente enxerga uma relação inocente quando uma jovem bela chega numa casa com sete homens adultos que moram sozinhos no meio da floresta? É preciso muita inocência para anular possibilidades sexuais deste cenário ou é preciso naturalizar a capacidade de Branca de Neve de coisificar pessoas desprovendo-as de sexualidade.

Interessante é que esta sexualidade não está anulada em Branca de Neve. Tanto é que quando o príncipe aparece, junto com ele vem o romance, o beijo e o relacionamento. Então fica visível que Branca de Neve não é tão pura assim como parece. Ela sabe muito bem o que quer. Ela simplesmente finge não ver o que está posto diante de seus olhos. Branca de Neve é quase uma Yara que adora seduzir e ver os homens aos seus pés, mas mesmo que estes morram afogados ela verá a quase totalidade dos homens como anões desprovidos de sexualidade.

Branca de Neve não é obrigada a ter contato íntimo com os anões. Seria criminoso se fosse aqui defendido isto. Mas, fica claro a partir da relação com o príncipe que Branca de Neve não é a pureza infantil assexuada. Portanto, faz todo sentido a Rainha “Má” temer Branca de Neve. De fato, Branca de Neve é uma mulher muito esperta que ignora alguns homens e deseja ardentemente outros a ponto de despertar de um sono profundo.

Este sono pode ser simplesmente a autopercepção de Branca de Neve que agora entende, ao ver o Príncipe, que existe algo a mais nas relações entre homens e mulheres. Pena que os anões, que em algumas versões são ladrões, não foram capazes de desenvolver beijos que despertassem Branca de Neve para a vida dentro de um romance.

A Rainha “Má” nas versões mais modernas é madrasta de Branca de Neve. Isto ajuda ao leitor a se distanciar dos aspectos de competitividade sexual envolvidos na história e faz com que as pessoas se foquem mais na ideia exclusiva de inveja. Todavia, contada assim, a história parece vender a lógica que o invejoso é invejoso porque assim nasceu e não porque sofre o risco de perder algo que possui. Basta tirarmos a Rainha “Má” da posição de madrasta e podemos claramente ver a Rainha como uma mulher que se sente ameaçada. A Rainha ataca na tentativa de destruir porque não se sente capaz de competir. Qualquer pessoa é capaz de fazer isso embora não queiramos ser reis ou rainhas más.

O mal não é o demônio. O mal é fruto da inocência conveniente que enxerga o que quer e o que lhe interessa ignorando/desprezando as demais coisas. Branca de Neve é bem malvada quando ameaça aquilo que já está constituído. Mas não nos isentemos da possibilidade também de sermos reis ou rainhas “más” que por sermos incapazes de competir passamos a tentar destruir o outro. Às vezes aquilo que vemos como inimigo é na verdade algo que nos estimula a não deixarmos a bola cair, a não relaxar. A ameaça só é real se você não procurar desenvolver habilidades que lhe tornem tão interessante como Branca de Neve. Portanto se você é Rei ou Rainha saiba que Branca de neve também tem seu lado mau, mas isto pode ser um despertar para desenvolver talentos e não para pagar caçadores com a finalidade de destruir. Quando optamos pelo caminho da destruição sem enxergar que podemos também ser talentosos, nos tornamos bruxas e bruxos maus que vivemos a envenenar pessoas com maçãs enfeitiçadas.

Assim eu analiso, assim eu conto para vocês.

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Emprenhar pelos Ouvidos

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Devido a educação repressora, machista e injusta que algumas mulheres sofriam estas se tornavam ingênuas a ponto de temerem bastante um homem por medo de engravidar. Na realidade, estas mulheres desconheciam em parte o processo que se fazia necessário para engravidar e por isso qualquer contato com um homem era motivo de temor. O termo "emprenhar pelos ouvidos" surgiu deste contexto de ignorância e ingenuidade em que mulheres acreditavam terem engravidado em decorrência de uma conversa com um homem. Emprenhar é um vocábulo utilizado para fazer referência a fecundar uma pessoa para fazê-la gestar.

Gradativamente no Nordeste brasileiro o termo passou a ser utilizado sempre que alguém acreditava em um fato simplesmente por ter conversado com alguém sem que lhe fosse apresentado nenhuma evidência a mais. Ou seja, assim como as mulheres acreditavam estar grávidas por terem conversado com alguém, algumas pessoas gestam "verdades" simplesmente por terem ouvido uma outra pessoa falar algo. Embora verdades não sejam produzidas por comentários ou testemunhos, para algumas pessoas ingênuas não se faz necessário evidências.

Comentários e testemunhos descrevem, em alguns casos, acontecimentos. Mas esta descrição não corresponde à realidade dos acontecimentos sempre. Pois, cada pessoa que testemunha um acontecimento percebe este ocorrido de uma forma idiossincrática. 

O sistema jurídico moderno aprendeu muito depois dos tribunais da inquisição em que muitas mulheres foram condenadas simplesmente por testemunhos que as acusavam de serem bruxas. 

A Academia de ciências britânicas tem fixado em suas paredes a frase: "não só palavras".

Este perigo que as palavras por si só representam fez com que as testemunhas não se tornassem confiáveis, pois devido a fatores emocionais, as mesmas dão conotações distintas da realidade. E existem aquelas que fazem narrativas de fatos que não aconteceram (mentiras ou falsas memórias - ver Elizabeth Loftus).

Mas, existe algo mais grave que precisa ser posto. Todos já sabemos o perigo de se "emprenhar pelos ouvidos". Porém,  o que deixamos de lado é a dificuldade que temos de abortar está gestação. 

O problema das pessoas que se emprenham pelos ouvidos é que uma vez que elas passam a gestar como verdades fatos que não ocorreram ou que são distorcidos, elas sentem dificuldade de abortar aquela pseudoverdade. Afinal de contas aquilo cresceu dentro delas. Aquela informação mesmo sendo falsa fez sentido, se conectou a circuitos neuronais já existentes criando uma nova forma de perceber as coisas. Em outras palavras, as coisas que acreditamos serem verdades porque alguém nos contou, temos dificuldade de admitir depois que elas podem ter sido falseadas. 

Quanto maior for o apego ou o investimento com essa pseudoverdade mais faremos o possível para querer tornar o emprenhamento pelos ouvidos uma fecundação verdadeira.

Vejamos o seguinte exemplo, ocorrido numa escola de filosofia européia, para atestar o exposto: um grupo movido por comentários e a orquestração de uma coordenadora de curso maliciosa, contrataram advogado, abriram processos e caluniaram publicamente um colega de trabalho. Invadiram a vida pessoal dele querendo sondar sua intimidade, interrogavam as pessoas que supunham que ele havia tido contato sexual, estimulavam fofocas de terceiros e acreditavam em tudo que confirmasse a teoria de que aquele sujeito não prestava. Para este grupo admitir que estava errado sairia muito caro. O processo, o custo com o advogado, tudo isso teria um preço de vergonha pública e financeiro muito terrível. Sem falar que eles não foram fecundados gratuitamente. Aquele colega de trabalho era o único que ideologicamente era avesso ao grupo, por isso era interessante desde o primeiro momento acreditar que ele era também criminoso.

Estas pessoas abriram o ouvido para o mal porque lhes era conveniente. Em nenhum momento consultaram o colega para saber se fazia sentido ou não aquelas acusações. Em nenhum momento confrontaram com outros meios ou com outros grupos envolvidos as "verdades" e as informações que eles estavam colhendo. Muito pelo contrário, iam ao encontro de testemunhas que pudessem confirmar o que pensavam e tentavam atacar ou silenciar vozes contrárias. Quando depois de todo ataque começaram a perceber que ainda assim tudo poderia dar errado, tentaram partir para a vítimização. Tentavam insinuar que aquele que era vítima de ataque ferrenho pretendia mata-los, levantar calúnias, etc. Cegaram por completo. Estavam tão cegos no seu emprenhamento pelos ouvidos que se juntaram com pessoas que usavam e repassavam drogas, outros que eram arrogantes e feriam pessoas. A maior parte dos envolvidos neste processo todo não eram pessoas ruins. Eram como eu e você que está lendo este artigo agora. Elas simplesmente se deixaram emprenhar pelos ouvidos. Este emprenhamento era uma gestação tão gostosa e tão coletiva que não importava mais a verdade de nada. Não era mais interessante observar o tamanho do mal que faziam a vida daquele colega de trabalho. O importante era apenas fazer a gestação ser verdadeira. Eles haviam investido tanto naquilo que agora tudo precisava ser verdade para eles. Nem mesmo enxergavam que entre eles havia criminosos reais que invadiam redes de computadores, aliciavam pessoas para dependência química, etc.

O exemplo acima ilustra bem o poder que tem isto que o Nordeste chama de "emprenhar pelos ouvidos". Funciona como um feitiço dos contos de fadas. Uma vez que o feitiço cai sobre o sujeito ele não enxerga mais nada a não ser aquilo que quem enfeitiça pretende provocar.

O interessante que mesmo quem está fora e vai julgar situações como estas se deixa levar pela quantidade de pessoas envolvidas no feitiço. Ou seja, acaba em muitos casos também se emprenhando pelos ouvidos sem ter uma única prova real de verdade. No exemplo europeu apresentado acima um juiz que foi avaliar o caso trabalhava vendendo cursos e as pessoas envolvidas na abertura do processo haviam em outro momento beneficiado este juiz. Estas pessoas abriram o mercado de uma província que trabalhava com produção de fumo para que este juiz vendesse seus cursos. Então, esse juiz mesmo sem ter evidências materiais queria tornar verdade as situações que aquele pobre perseguido era acusado. 

No direito moderno existe a necessidade de materialidade (provas materiais concretas) e autoria (identificação clara de quem cometeu o delito) para que seja possível a abertura de um processo. Mas, este juiz tentava ignorar todos estes fundamentos para que a perseguição contra aquele se perpetuasse. O desfecho desta história não precisa ser posto aqui. Precisa ficar claro que o poder do emprenhamento pelos ouvidos gera feitiços que alteram a percepção das pessoas. Do mesmo modo, precisa ser destacado, que é uma realidade a dificuldade das pessoas que foram emprenhadas, abortarem suas pseudoverdades.

Sempre que ouvirem falar das pessoas ou agredirem pessoas, avaliem as motivações que os falantes possuem para fazerem isso. Os ganhos, as perdas, os ciúmes, as invejas envolvidas. Querer destruir o outro para crescer é uma constância na humanidade, mas precisamos ser capazes de avaliar bem por que nos envolvemos nestas coisas.

Em todas as guerras que existiram até hoje os dois lados na perspectiva deles estão sempre certos e sempre tentam emprenhar o máximo de pessoas para os seus lados. Isto não significa dizer que não exista um lado que possui razão de fato. Significa apenas que devemos olhar além das palavras que são ditas para gerar as guerras e buscarmos os ganhos que as pessoas que motivam o ataque querem obter. Devemos olhar além das propagandas. Devemos olhar não de forma inocente, pois pessoas inocentes e pessoas que querem ganhar destruindo outras são mais facilmente emprenhadas pelos ouvidos.

O conceito de emprenhar pelos ouvidos pode ser associado ao conceito de "viés de confirmação" (Sugiro pesquisas sobre "viés de confirmação" e "heurística da disponibilidade" para aqueles que desejam aprofundar o tema).

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