Livro, Carapeba e Cachaça

 

Lêdo Ivo

                   

Os sebos e alfarrábios de minha infância e adolescência sobem agora à minha lembrança, diante deste livro de evocações do historiador e investigador cultural alagoano Geraldo de Majella.

Os que ele registra neste Panorama Cultural de Maceió, não são os mesmos do meu tempo. Situam-se em locais diferentes. Guardam uma multidão de volumes que surgiram após a minha partida, refletem a realidade de uma época vertiginosa marcada pela emergência de tecnologias atrevidas e até agressivas. Mas, apesar de todas as mudanças ocorridas no ar do mundo e do tempo, hão de conservar a mesma atmosfera plácida da cidade antiga e cuja placidez só era interrompida pelo fragor dos tiros sazonais que ceifavam vidas e saciavam rancores, disputas e vinganças.

Lembro-me de alguns deles. Na Rua do Livramento, junto à igreja, era o sebo do Barbosa, que ocupava a sala de visitas de sua casa familiar. Na Rua do Comércio, entre o Beco São José e a Praça dos Martírios, situava-se outro sebo, no qual terei adquirido os meus primeiros livros em francês. Um deles era Notre Coeur desse Maupassant que ainda hoje suscita a minha admiração, e do qual possuo, compradas num alfarrábio insigne de Paris, as obras completas ilustrada e editadas pela Librarie Paul Ollendorf. E havia ainda outro sebo, na esquina da Rua Boa Vista com o Beco São José.

Onde terei encontrado Song-Kay o Pirata, de Emilio Salgari, uma das estrelas bem-amadas da constelação e Coleção Terramarear? Ainda hoje ele está na minha biblioteca, guardado como uma relíquia ou sobra de naufrágio. E, graças a ele e a tantas outras histórias de tesouros e piratas, e ilhas e ventos dos mares do Sul, pude sulcar a vida inteira, confiante na verdade de minha imaginação, o caminho que me indicaram na infância.

Os sebos e alfarrábios ora registrados pelo historiador Geraldo de Majella  — um historiador tão atento à vida cotidiana e provinciana e ao episódio aparentemente irrelevante — são outros, mas conservam o mesmo rito comercial  de antigamente e sustentam iguais intenções. São lugares em que nem sempre se encontra o que se procura ou deseja; mas se encontra sempre o que não se esperava e surpreende. E, entre os vendedores de livros velhos aqui consignados, avulta a figura do ex-carroceiro Biu, que estacionava o seu “burro sem rabo” na Praça Dom Pedro II.

Contém esta obra de Geraldo de Majella muitas informações e reflexões sobre as bibliotecas de Maceió e as livrarias alagoanas. Será que elas existem atualmente ou são ficções graciosas? Ou não será no Recife que se abastecem os alagoanos contagiados pelo que o poeta Logan Pearsall Smith chamou de “a leitura, esse vício impune”?

Recordo-me de que, no meu tempo de colegial desejoso de ser escritor, havia na Rua do Comércio a Casa Ramalho, que chegou até a ser uma editora, publicando autores alagoanos. Durante semanas, ela exibiu na vitrina um exemplar de Angústia de Graciliano Ramos. Ninguém o comprava, embora seu autor (então enclausurado na Ilha Grande, como comunista) retratasse naquele romance uma Maceió noturna, soturna e dostoiewskiana.

Todos os dias eu me detinha diante da vitrina da livraria e namorava o volume solitário. Finalmente juntei sobras das mesadas semanais e o comprei. A sua leitura foi um dos grandes acontecimentos de minha vida de leitor em flor.

Também são diferentes os dispersos bares e restaurantes captados pela pena astuciosa de Geraldo de Majella. No meu tempo, imperavam a Helvética, defronte à Igreja do Livramento, o Ponto Certo na Praça Deodoro, o bar da Casa Colombo, e o Bar Elegante na Rua do Comércio. Destes, o que ainda é mencionado, como local de reuniões literárias, é o Bar do Cupertino. Nele, no início da década de 30, costumavam reunir-se Graciliano Ramos, Jorge de Lima, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz, Maceió era então a capital literária do Nordeste e ignorava sua suprema condição.

No livro de Geraldo de Majella são outros os bares, botecos e restaurantes, outros os boêmios gulosos e mulherengos e os literatos ambiciosos e sedentos de notoriedade e glórias. Mas haverão de ser os mesmos os naufrágios e as impiedades do tempo. E também não terão mudado as comezainas e bebezainas; são as mesmas, os peixes, crustáceos e mariscos da Alagoa Australis, “rica em pescado”, como está no nosso brasão ilustre. A novidade é a macarronada.

E sabe a essas iguarias incomparáveis este valioso livro de Geraldo de Majella. Tem um gosto de carapeba, de camorim e de sururu; de caranguejo; de tira-gosto de caju regado a cachaça; de feijão de corda e manteiga de garrafa. É um livro visceralmente alagoano. Lateja nele o mistério de nosso berço, de nossas águas e terras, de nosso passado e presente, das chuvas e das tanajuras, de nosso povo e de nossos sonhos e pesadelos. E o longo mistério de nossa alagoanidade. E nele sopra o vento do mar.

 

 

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Saudade e denuncia

 

        O saudosismo é uma postura estática perante a vida: abdica-se do presente para reviver nostalgicamente um passado idealizado. Sempre que me deparo com essa manifestação sentimental, eu me pergunto: e daí? Porque se trata, a meu ver, de uma atitude anacrônica que não encerra qualquer lição, apenas acalentando um sonho esfumaçado pelo tempo. Saudade, assim, já disse o poeta, amarga que nem jiló.

 Dito isto, é necessário que se diga mais que esse Panorama cultural de Maceió que tens em mãos, ocupado leitor, embora contenha cálidas lembranças dos anos 70 para cá, não é em absoluto um livro saudosista, pelo fato de o autor ir além do sentimento de mera saudade para traçar em delicadas pinceladas a trajetória cultural da capital das Alagoas, inclusive denunciando os atentados praticados contra a memória da cidade e o descaso para com entidades merecedoras de respeito e atenção.

        Dividido em cinco partes – sebos, livrarias, bibliotecas, bares e restaurantes – tem como fio condutor a importância cultural de pessoas, instituições e estabelecimentos que marcaram época ou continuam presentes na vida cotidiana dos poucos mas sinceros amantes das coisas do espírito na mui leal e formosa cidade de Maceió (diga-se de passagem que, em toda parte, essa turma, embora barulhenta, é sempre minoritária).

Por suas páginas, em linguagem simples e fluida, desfilam personagens antológicos como seu Biu, involuntariamente transformado de carroceiro em sebista pioneiro no paredão da Assembleia, e Nô Pedrosa,raro espécime de anarquista praticante; livreiros antigos e atuais, cuja profissão seduz o autor pela missão de “disponibilizar um bem cultural que contribui para transformar as pessoas e o mundo”, como Geraldo Barroca Portela, entre tantos outros; editoras, como a Edufal, que aposta “num mundo mais culto, onde o livro passe a ser um bem de primeira necessidade”; bibliotecas públicas e privadas – algumas muito precarizadas – que coexistem com o mundo da informação digital; bares cuja clientela era (é) formada por uma fauna de intelectuais majoritariamente de pendores esquerdistas, amantes de copo e conversa, incluindo o Casa Blanca, “um bar com a foice e o martelo”, cuja característica principal era serem todos os seus sócios capitalistas dirigentes históricos do PC do B e onde se produzia o programa radiofônico “Conversa de botequim” – entrevistas ao vivo de personalidades dos mais variados matizes, como os políticos Cristovam  Buarque, Ronaldo Lessa, Renan Calheiros e Kátia Born, e até mesmo um camarada chamado Mossoró, considerado proprietário de bordel.

No quesito gastronomia, Majella dá ênfase a restaurantes populares da Ponta Grossa, onde a pobreza não impedia a formação intuitiva de autênticos e autênticas chefs (que, naturalmente, chamavam a si mesmos de cozinheiro e cozinheira), como era o caso da proprietária do lendário Buraco da Zefa, autora da receita mais sincrética jamais imaginada, a macarronada à cabidela, ou, no mesmo bairro, a Macarronada do Édson,ambiente eclético ao qual compareciam com assiduidade desde “esquerdistas que bebiam e comiam esbravejando contra a ditadura aos mais ferrenhos defensores do regime militar”.

O famoso Bar das Ostras, onde, nos anos 70, tive oportunidade de saborear o famoso camarão à beira da Lagoa do Mundaú, mereceu de Majella um réquiem, digno de uma autêntica instituição maceioense, cuja receita tornou-se, por lei, Patrimônio Imaterial da nação alagoana.

Tudo o que foi dito aqui não é mais que alguns destaques dessa narrativa tão saborosa quanto os quitutes dos bares e restaurantes dos bairros elegantes ou populares da cidade e tão fluida quanto a conversa de boêmios, intelectuais, gourmets e bom vivants em geral desfiadas interminavelmente nas noites mornas refrescadas pela brisa marítima de Maceió.

Vale a leitura.

Homero Fonseca é jornalista e escritor

 

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Caminho da Luz (II)

 

        O Caminho da Luz foi idealizado pelo jornalista Albino Neves, carioca e radicado em Minas Gerais. A Associação Brasileira dos Amigos do Caminho da Luz (Abraluz),criada em 2006 por Albino Neves, tem a finalidade de apoiar os caminhantes, proporcionando-lhes melhor acesso turístico, cultural, religioso, histórico, ecológico, e mantendo sinalizado todo o trajeto do caminho.

        O Caminho da Luz ampliou a visibilidade das cidades da mata mineira, atraiu um tipo específico de turista, o caminhante, peregrino, de caráter religioso ou não. O ativo a ser explorado no caminho é a beleza natural e os monumentos históricos.

Os investimentos essenciais para a montagem foram o intelectual, o emocional e o desprendimento pessoal para a construção dessa obra.                  

Esse trabalho desenvolvido pela Abraluz é meritório. A organização e a estruturação de um caminho com cerca de 200 quilômetros no Brasil não são tarefas fáceis; requerem dedicação e profissionalismo. É uma obra construída por idealistas e apaixonados por esse tipo de atividade.

Quando ainda era jovem, ou mais jovem, li “Cantares”, poema do espanhol Antonio Machado (1975-1939). Logo me identifiquei e jamais me imaginei um caminhante, mas os versos ficaram dentro de mim:

 

[...] Caminhante, são tuas pegadas/o caminho e nada mais;/caminhante, não há caminho,/se faz caminho ao andar/ Ao andar se faz caminho/e ao voltar a vista atrás/se vê a senda que nunca/se há de voltar a pisar/ Caminhante, não há caminho,/ somente sulcos no mar [...].

 

O meu olhar de caminhante não perde a oportunidade de fazer comparações. As dificuldades físicas, fui superando-as paulatinamente durante o caminho. Abstraí as dificuldades e me pus a olhar um mundo que se descortinou: o rural mineiro. 

A paisagem verde e a cor do cafezal me atraíram. Sou um apreciador de café, tomo café com prazer em casa e em cafeterias. Mas estou longe de ser um conhecedor, um especialista, e nem penso em ser profissional do tipo barista, tampouco um degustador.

A mata mineira, além do café, tem outros produtos agrícolas, como banana, feijão, mandioca, milho, e também a criação de gado leiteiro, suínos, galinhas, tilápias.

A agricultura familiar se apresentou no percurso do Caminho da Luz, para o meu agrado. Sei que essa atividade é a que abastece os lares dos brasileiros e efetivamente gera renda e contribui com a melhoria dos indicadores sociais no interior do país. Mas há médios e grandes produtores rurais no percurso do caminho, inclusive alambique de cachaça com a produção quase que integralmente comercializada no exterior.

Aproveitei a caminhada e conversei com moradores das cidades e povoados, e até no trajeto, com proprietários de pequenas glebas, agricultores familiares. O mineiro é desconfiado, de poucas palavras e reticente, me diziam, mas não foi o que o que percebi; as pessoas com quem conversei foram solícitas e falaram francamente.

Os brasileiros do interior, de Minas Gerais ou de Alagoas, são pessoas gentis e de fácil comunicação. Têm a desconfiança natural, diferentemente dos que moram em grandes centros urbanos, que vivem inseguros e não se permitem parar para conversar com estranhos.

Nesse meu caminhar, subindo e descendo serras e montanhas, só me fortaleceu a convicção de que a pequena propriedade rural bem administrada e com assistência técnica e credito passa a ser forte e competitiva, tornando-se uma alternativa ao atual modelo de desenvolvimento brasileiro, que concentra as maiores energias nas culturas de exportação.

Alimentos saudáveis e com preços justos são uma necessidade para todos nós, caminhantes ou não. O caminho me fez continuar acreditando na viabilidade da agricultura familiar e num mundo novo.

 

        

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Caminho da Luz (I)

 

Em 2010 sofri um enfarte, sem grandes consequências. Fui submetido a um procedimento em que as artérias foram desobstruídas com um cateter manejado pelas mãos habilidosas do cardiologista Dr. Gilvan Dourado, que deixou dois stents como marcas da ciência em meu coração.

        Exercícios, nunca fiz com a disciplina de um atleta, a não ser quando estudante, quando mantinha o desejo de competir em provas amadoras de atletismo. Ou nos jogos de futebol na praia. Mas durante todos esses anos realizei caminhadas na orla de Maceió. 

        A boemia desde muito jovem me atraiu, com ou sem bebidas alcoólicas. A minha dieta incluía tudo, exceto jiló e chuchu,

        A virada mais acentuada talvez tenha acontecido como causa do susto do enfarto aos 49 anos. Porém, considero ainda mais estimulante a disposição e a dedicação de Vânia, minha companheira, que faz caminhadas há mais tempo que eu, com rara disciplina e prazer.

        Essa conjunção de fatores me convenceu a caminhar com mais disciplina e regularidade. Daí em diante, caminhamos em Maceió, em outras cidades de Alagoas e fora do estado.

O Caminho da Luz passou a ser uma meta a ser atingida em 2016. Antes, os caminhantes que eu conhecia, pelo menos os mais antigos e próximos, eram pernambucanos: o economista Abelardo Caminha e as irmãs Lauriza e Nazaré Oliveira, que para meu espanto caminhavam da praia de Boa Viagem, em Recife, até a praia de Ponta Verde, em Maceió. São 270 quilômetros que ligam uma capital à outra, percorrida pela areia da praia, atravessando rios. Para mim, era uma vida típica de bandeirantes à caça de índios no sertão do Brasil colonial.

Agora me vejo na condição de caminhante e não me sinto um bandeirante. Sinto prazer em caminhar e olhar o quanto há de beleza nos caminhos. Procuro ainda mais encontrar beleza no simples que existe na vida rural, ribeirinha, e que em geral o sujeito urbano que passa no automóvel não tem condições de apreciar, e menos ainda vivenciar, nem que seja por alguns minutos ou horas.

Nos caminhos que percorri entre mares e lagoas, matas e canaviais, vegetação agreste e caatingas, fui me dando conta de quanto há de beleza nessas paragens. Mas foi o Caminho da Luz o meu primeiro grande trajeto percorrido, e o fato de alcançar o topo do Pico da Bandeira tornou-se o feito mais significativo.

Há outras belezas possíveis de encontrar na convivência com os caminhantes. Além das montanhas, serras, cachoeiras, matas, cantos de pássaros, e caminhar sobre cristal, recebendo energia oriunda da mica e de pedras semipreciosas.

Cada pessoa encontra o ponto de superação dos seus limites. A fé é uma delas, e talvez seja a mais comum ou a principal. Outros sentiram necessidade de caminhar para obter mais saúde. E há pessoas curadas de moléstias que não só mudaram o estilo de vida como encontraram sentido em viver com simplicidade.

Existem ainda aqueles que querem conviver, nem que seja por sete dias, com pessoas que têm os mesmos objetivos, ou seja: caminhar.

Eu me incluo entre os que passaram a caminhar para manter a saúde e também para conviver com pessoas diferentes das que convivo no dia a dia.

 

 

 

 

 

 

 

       

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Partidos políticos e organizações criminosas, não há diferença no Brasil

 

Não há sinais de que a crise política e econômica esteja no fim ou próximo disso, sendo ou não aprovado o impeachment. A Operação Lava Jato tem ampliado cada vez mais seus alvos e nada indica que esteja perto de ser concluída.

Os empresários, o baronato da construção civil brasileira, doleiros, diretores de empresas estatais, a Petrobras (a principal raiz da Lava Jato), políticos com mandatos parlamentares e executivos, governadores, prefeitos, ministros de estado e políticos sem mandatos, dirigentes de partidos políticos – o PT foi o primeiro grande partido a ser atingido, seguido pelo PMDB, PP, PTB, PSB, PR, que constituem a base aliada de qualquer governo desde 1985, o DEM/PFL e o PSDB (a oposição) –, estão sob a mira da PF, do MPF e da magistratura federal.

Esse cenário devastador aponta para a derrocada dos principais partidos políticos, dos empresários que financiavam as campanhas eleitorais e também se beneficiaram da pilhagem do Estado brasileiro. O mundo desabou sobre a cabeça dos chefões da política nacional, governo e oposição.

As denúncias e as investigações desvendaram a maior e mais sofisticada rede de corrupção e apropriação do Estado brasileiro de que se tem notícia no período republicano.

Partidos políticos com origem na esquerda, na direita e no centro transformaram-se em organizações criminosas. O estilo mafioso revelado pelos delatores é, talvez, a maior e mais surpreendente revelação no meio político-empresarial.

A tradicional corrupção, conhecida e tolerada socialmente, tida como um ato “natural” na cena cotidiana, é parte do passado. Pode-se afirmar que o tipo específico de corrupção denunciada pela mídia e até mesmo por políticos era uma prática amadora.

A profissionalização da corrupção incluiu sofisticação de serviços de lavagem de dinheiro com a participação ativa e preponderante de experientes doleiros, a aquisição de banco no exterior para uso exclusivo de lavagem de somas bilionárias de dinheiro público, além do uso de recursos tecnológicos de última geração.

A sofisticação empresarial em conluio com os políticos, em cada partido político ou organização criminosa, tem os capo di tutti capi ou os chefes de todos os chefes, como ocorre nas organizações criminosas estilo Máfia.

Os partidos com relevância no cenário nacional, a exemplo de PT, PMDB, PSDB, que chegaram à presidência da República e a exerceram durante 21 anos seguidos, estruturaram, cada um a seu modo, a partilha do Estado entre os partidos que formaram a base aliada, associando-se aos grupos empresariais da construção civil, setor elétrico, bancos e outros. É o maior assalto já descoberto no Brasil.

A sociedade acompanha com atenção e tem se declarado contrária a essas práticas mafiosas. A saída para a crise política ainda não foi identificada. O caminho não pode ser determinado pelos que foram pegos pilhando o Estado ou pelos que coonestaram com essas práticas criminosas.

O sistema político e partidário ruiu. E desse escombro não se pode esperar uma saída limpa, honesta e sem vícios antigos; mas estes podem ser encobertos se a sociedade civil não ficar atenta a isso.

Os políticos brasileiros, no geral, são desprovidos de escrúpulos e são produtos da apropriação do Estado. Na atual quadra houve a participação de partidos de esquerda, pelo menos na origem. Os partidos políticos no Brasil são organizações criminosas; há poucas exceções, e essas se encontram no campo da esquerda não petista.

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Mobilizar para resistir e vencer os golpistas.

O governo de Michel Temer não tem relações com os movimentos populares. Os partidos políticos e os parlamentares que votaram o golpe parlamentar na Câmara dos Deputados, e no Senado Federal a abertura do processo de impeachment, desconhecem a sociedade civil por um motivo óbvio: as vinculações desses parlamentares são com os lobbies empresariais, com a ocupação do Estado e a prática da corrupção como estruturação de suas atividades.

        A mobilização dos artistas, intelectuais, produtores culturais e trabalhadores das diversas áreas da cultura colocou nos primeiros dias o governo golpista de Temer contra a parede e reverteu o ato de extinção do Ministério da Cultura (Minc). A derrota politica dos golpistas é emblemática e serve de estímulo aos demais setores da sociedade.

Os movimentos sociais que lutam há décadas pela reforma agrária, as organizações sindicais que representam milhões de trabalhadores rurais e agricultores familiares terão de unir-se para enfrentar o desmonte do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), transformado em secretaria do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Social.

A tentativa de emparedar os movimentos sociais do campo e a agricultura familiar tem o primeiro sinal: a subordinação do MDA e do Incra a uma estrutura politica conservadora e que tradicionalmente luta contra os movimentos sociais e contra agricultura familiar.

A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), as federações de trabalhadores na agricultura, os milhares de sindicatos, as centrais sindicais que apoiam essas bandeiras e os movimentos sociais do campo como MST, CPT, MTL, MLST e outros têm o dever histórico de unir-se para enfrentar as adversidades, tendo como símbolo da luta inicial contra os golpistas a recriação do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).

A luta não pode parar. A mobilização das organizações da sociedade civil que atuam no campo e nas cidades é fundamental, desde que compreendam a necessidade histórica de derrotar os golpistas nessa área.

Mobilizar para resistir e vencer os golpistas!

      

 

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A máscara do golpe

 

 

Homero Fonseca

Tenho entrado em divergência com alguns amigos a propósito da situação política, me esforçando para não ser dominado pela raiva e, sobretudo, para não traduzi-la em agressividade e irracionalidade. Não é fácil pra mim, não deve ser pra eles.

De qualquer maneira, a discussão central é se o afastamento da presidente Roussef foi ou não um golpe. Geralmente, os que defendem o impeachment argumentam com o cumprimento de formalidades jurídicas que dariam um caráter constitucional ao kalten putsch (golpe frio, como chama a imprensa alemã).

Para mim, o processo nasceu no exato momento em que, derrotadas nas eleições de 2014, as oposições não se conformaram com o resultado. A partir dali, a grande mídia e os setores mais conservadores do empresariado (que nunca se conformaram de verdade com a ascensão de um operário sem um dedo à presidência da República, nem com as políticas inclusivas do PT) se uniram aos derrotados e passaram a fustigar violentamente o governo, aproveitando a conjuntura de uma séria crise fiscal (logo amplificada desproporcionalmente até se transformar, pelo terrorismo das expectativas, numa crise geral, recessiva).  Os erros do PT (muitos e indesculpáveis) foram usados para justificar a campanha massiva então deflagrada, mas o real objetivo eram os acertos do PT e a perspectiva de sua permanência no poder.

A Operação Lava-jato (em si, uma iniciativa positiva contra a corrupção sistêmica que grassa entre nós há muito, muito tempo) paulatinamente se desviou para uma rota política, dirigida exclusivamente contra o partido do governo e seus aliados, com vazamentos seletivos, conduções coercitivas injustificáveis e outras truculências, que se constituíram num autêntico estado de exceção comandado pelo aparato da “República de Curitiba”. O processo foi se autoalimentando  dialeticamente, até formar uma bola de neve que, com o combustível diário despejado na fogueira da opinião pública pela TV Globo, Veja e a maioria da grande imprensa, criou as condições psicossociais para a derrubada do governo, suprimindo ou minimizando as vozes da resistência, arrastando o próprio Supremo na “grande onda cívica” gestada por esse formidável complexo conspiratório, até elevar o clima nas ruas a um grau de hostilidade e ódio nunca antes visto na história deste País.

A grande mídia foi um dos principais protagonistas do golpe, mobilizando a opinião pública a seu favor

 Foi essa maré montante que permitiu as estranhas cenas de antigos militantes contra a ditadura de 1964 marchando nas mesmas passeatas em que marcharam Bolsonaro, Eduardo Cunha (simbolicamente), as dondocas perfumadas da Avenida Paulista e os brucutus portadores de faixas pedindo a volta dos militares. Sentiam-se incomodados, mas estavam lá, na mesma trincheira. Depois pediram a cabeça de Bolsonaro e festejaram a suspensão do mandato de Cunha para apaziguar as consciências.

“Pedaladas” e créditos suplementares ao orçamento foram usados como pretexto – nem se deram ao trabalho de provar cabalmente a ocorrência de crime de responsabilidade fiscal. Valia tudo para defenestrar a presidente e torpedear a presumível candidatura Lula em 2018.

O resultado dessa vasta articulação é o tsunami conservador que ameaça varrer o país, afogando conquistas sociais e trabalhistas (nem em 1964 os milicos ousaram estuprar a CLT, como farão agora), entregando o petróleo (a ala majoritária do Exército tinha um viés nacionalista) como já anunciaram com o pré-sal, instaurando um clima de caça às bruxas em matéria de direitos humanos e diversidade de gênero, sexo, cultura, etnias, religião etc. No campo político e econômico, o velho Entreguismo está de volta, travestido de moderno ideário neoliberal. Em termos de costumes, a Idade Média bate às nossas portas vestida de Prada.

Os que negam o golpe branco de hoje alegam as diferenças com o ocorrido há 52 anos. Claro que há diferenças. Os métodos se tornaram mais sofisticados, privilegiando a via institucional, como fizeram em Honduras (2009), no Paraguai (2012) e agora no Brasil. Tanques nas ruas só em último caso.

Entretanto, é bom lembrar que, em 1964, os autores da deposição do presidente da República negaram veementemente que se tratava de um golpe, afirmaram que agiam justamente em defesa da democracia e cumpriram rituais pseudolegais, para manter a aparência de constitucionalidade: o presidente do Senado, Áureo de Moura Andrade, proclamou legalmente vaga a presidência da República e o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, assumiu interinamente a chefia do governo. Também no Recife improvisou-se uma “solução jurídica”: o impedimento de Arraes foi aprovada pela Assembleia Legislativa por 45 votos contra 17, numa votação "democrática".

Em 1964 era, como hoje é, fundamental para os conspiradores manter a aparência de legalidade, tanto para efeito interno quanto, e principalmente, para o público externo. Os golpes sempre usam máscaras.

Se é certo que a História se repete como farsa, suas consequências, porém,  podem ser trágicas. Quem viver verá. 

http://www.interblogs.com.br/homerofonseca/ 

 

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O caminho será o das ruas

O golpe parlamentar esta se consumando no Senado Federal. A aprovação do impeachment contra a presidenta da Republica Dilma Rousseff torna-se irreversível. As tramas golpistas realizadas pelo vice-presidente Michel Temer são majoritárias exitosas.  

O empresariado nacional e internacional, as grandes famílias que dominam a mídia nacional, os ruralistas e a maioria parlamentares conquistada através das promessas de partilha dos cargos públicos nos ministérios e nas estatais é a joia da coroa e o objeto do desejo dos deputados e senadores. O butim vem sendo ardilosamente anunciado à Nação.   

O rolo compressor está montado para triturar as conquistas sociais de aposentados, trabalhadores e dos milhões de pobres que estão incluídos nos programas sociais. O alvo já foi definido no final de 2015 com o programa de governo de Michel Temer “Ponte para o futuro”.

A redução do Estado é pedra angular do discurso requentado, mas que vem sendo anunciado como a novidade a ser impingida à Nação. O empresariado vive, e faz muito tempo, querendo a flexibilização dos direitos trabalhistas consignados na CLT e de roldão reduzir as políticas públicas das áreas de saúde, educação e assistência social, tidas por eles como sinônimo de gastança governamental.

O símbolo dessas políticas é o programa Bolsa Família. Os mais conservadores e a direita nacional imputam as vitórias petistas e de seus aliados ao êxito e a capilaridade do programa Bolsa Família. E não adianta a argumentação de que o êxito nacional e internacional do programa tem sido uma importante e decisiva âncora de sustentação e geradora de riqueza em todos os municípios brasileiros, notadamente nos municípios mais pobres, com os indicadores sociais mais baixos. A torpeza conservadora dos oposicionistas está sedimentada.

O Partido dos Trabalhadores vem governando o Brasil desde 2002 e nesse período foi possível avançar em muitas conquista. Mas cometeu inúmeros erros e se fez presente em um largo processo de corrupção, pelo que deve sofrer todas as penalidades que a lei reserva. Mas não se devem misturar os fatos.

Os movimentos sociais de todos os matizes devem se organizar, com a urgência que o momento exige, para resistir às políticas de supressão dos direitos sociais. A onda conservadora que está sendo formatada parece ser avassaladora. É o segundo momento; o primeiro foi nos governos Fernando Henrique Cardoso, quando as privatizações aconteceram a preço vil.

O caminho do movimento sindical, dos movimentos sociais, dos estudantes, dos movimentos que lutam pela reforma agrária e da agricultura familiar, do movimento sindical rural, dos intelectuais de esquerda e progressistas, da juventude trabalhadora e também dos aposentados serão as ruas.

A mobilização é o instrumento de luta para manter as conquistas, muitas delas originarias da década de 30. As conquistas devem ser preservadas, e quem tem de lutar ainda mais são os movimentos sociais.

Por isso o caminho será o das ruas!

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É GOLPE!

 

(*) Jean Wyllys

Vocês precisavam mais uma prova de que o que está acontecendo é um golpe de estado?

O presidente do Senado, Renan Calheiros, decidiu simplesmente IGNORAR a decisão do presidente em exercício da Câmara dos Deputados, Waldir Maranhão, que tinha anulado a votação do impeachment em resposta a um recurso da AGU. Isso mesmo: ignorar.

A decisão de Maranhão — independentemente da minha opinião sobre ele, que é mais um aliado de Cunha, investigado por diversos crimes de corrupção — é um ato jurídico válido, tomado por uma autoridade em exercício de suas atribuições, respondendo a um ato da defesa da Presidenta e de acordo com a lei. Se o presidente do Senado considerasse que essa decisão era equivocada, ilegítima ou inadequada, o caminho que ele devia seguir era recorrer ao Supremo Tribunal Federal, mas o que não pode, de forma alguma, é simplesmente ignorar um ato jurídico de outra autoridade da República.

Eu discordo de muitas decisões tomadas por Eduardo Cunha a até fui ao Supremo contra elas, mas não posso simplesmente fazer de conta que elas não existem. Se adotarmos esse caminho, então a Presidenta também poderia ignorar a decisão de Renan e não acatar o impeachment, e o vice-presidente poderia não acatar a decisão da Presidenta e tomar posse, e os ministros poderiam não acatar a decisão dele e continuar respondendo à Dilma, e assim cada um faz o que quer. Numa República, não é assim que a banda toca. Se Renan não concordasse com a decisão de Maranhão, deveria ter recorrido ao STF, mas até o STF se pronunciar, a decisão de Maranhão está valendo!

E é incrível que, enquanto a Constituição e a lei são rasgadas dessa forma, o ministro Gilmar Mendes, do STF, faça declarações à imprensa falando que "anular a sessão do impeachment vai gerar tumulto". Tumulto? E cassar 54 milhões de votos por meio de um golpe institucional gera o que mesmo? Hipócrita! Mais cedo foi a vez de Noblat reclamar do fato de o ato de Waldir Maranhão "cassar os votos dos mais de 300 deputados favoráveis ao impeachment". Ora, e por que esse sabujo acha legítimo cassar 54 milhões de votos na Dilma? Hipócrita!

Todo o processo de impeachment foi conduzido dessa forma. Não importa a Constituição. Não importa a lei que regulamenta o impeachment (uma lei de 1950 que foi violada por Cunha e motivou o recurso da AGU que Maranhão acolheu). Não importa o regimento da Câmara. Não importa nada. Existe a decisão política de tirar do cargo uma presidenta que teve 54 milhões de votos e eles estão dispostos a fazer isso de QUALQUER maneira.

Mas não pode. É golpe. E dará lugar a um governo ilegítimo. Se Temer tomar posse como presidente nessas condições, será um presidente "de facto", mas não de direito. Se quisermos viver numa democracia, precisamos aprender a respeitar suas regras!

(*) Deputado federal (Psol-RJ)

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Dias piores virão com Michel Temer

 

Procurar entender os erros dos governos Dilma Rousseff e Lula é importante para compreender o porquê da crise politica, econômica e ética que o Brasil vive.

        O PT assumiu a hegemonia da esquerda brasileira ainda nos 1980. Desde a sua fundação conseguiu manter na sigla remanescentes e sobreviventes de organizações políticas de esquerda que optaram pela resistência à ditadura pela via da luta armada, grupos religiosos de esquerda militantes das comunidades eclesiais de base da Igreja Católica, sindicalistas, ex-comunistas, intelectuais, professores universitários, artistas, antigos militantes da democracia cristã etc.  

        O PT surgiu como um partido legal e conquistou espaço na sociedade e junto aos eleitores, sem ter sofrido nenhum tipo de perseguição e sem ter de suportar os estigmas impingidos aos comunistas do PCB e PCdoB que só em 1985, depois de completar seis ano da anistia conquistada em 1979, se reintegraram à vida política nacional, deixando para trás a vida clandestina, as prisões e o exílio.

        A construção do PT é uma obra notável numa sociedade na qual os partidos políticos tradicionalmente sempre foram cartoriais. O Partido dos Trabalhadores incorporou milhares de cidadãos em suas fileiras e conquistou, através do voto popular, prefeituras de cidades médias e grandes como São Paulo, Porto Alegre, Fortaleza e Belo Horizonte.

        Elegeu governadores no Rio Grande do Sul, Brasília, Acre, Piauí, Sergipe e Pará; em alguns desses estados, elegeu-os mais de uma vez, como no Acre e no Rio Grande do Sul.

        Lula, o grande líder de massas da segunda metade do século XX, disputou três vezes a presidência da República, sendo derrotado. Elegeu-se na quarta e reelegeu-se; de tão popular que era, lançou uma mulher, Dilma Rousseff, uma  ex-presa política à sua sucessão, e embalado na sua alta popularidade tornou a elegê-la na eleição seguinte Dilma é reeleita presidente do Brasil, dois feitos históricos, primeiro elegendo uma mulher presidente do Brasil e, em seguida, reelegendo-a.

        O PT conseguiu essa trajetória eleitoral espetacular em três décadas. A defesa de políticas públicas históricas, bandeiras da esquerda brasileira como a reforma agrária, a melhoria e universalização da educação pública, a consolidação do Sistema Único de Saúde, a erradicação da pobreza, o desenvolvimento econômico e social com distribuição e renda e a estruturação de politicas de desenvolvimento regional foram marcos do Partido dos Trabalhadores.

        O PT conseguiu capitalizar esses sentimentos e desejos da maioria da esquerda brasileira e de setores progressistas da sociedade e do empresariado nacional. As sucessivas e expressivas derrotas fizeram com que os seus principais dirigentes e quadros amadurecessem diante da realidade. Aprendeu que não seria fácil chegar ao poder sem a flexibilização na ação política e na estratégia eleitoral.

        Foram realizadas as necessárias flexibilizações. Lula e o PT estabeleceram uma aliança política com setores do empresariado nacional e com o que havia de mais significativo no parlamento naquele instante. Em 2002, o então senador mineiro José Alencar foi o caminho ou a ponte que ligaria o Lula e PT ao empresariado nacional, fiador de um governo onde os interesses da indústria nacional e do capital não seriam incomodados com políticas sectárias ou radicais que viessem a prejudicar a elite brasileira.

        Esse pacto firmado é apresentado à Nação no dia 22 de junho de 2002, na Carta ao povo brasileiro. Passados quatorze anos, faço uma nova leitura da Carta ao povo brasileiro, e esse trecho salta aos olhos:

“Nosso povo constata com pesar e indignação que a economia não cresceu e está muito mais vulnerável; a soberania do país ficou em grande parte comprometida; a corrupção continua alta e, principalmente, a crise social e a insegurança tornaram-se assustadoras.

“O sentimento predominante em todas as classes e em todas as regiões é o de que o atual modelo esgotou-se. Por isso, o país não pode insistir nesse caminho, sob pena de ficar numa estagnação crônica ou até mesmo de sofrer, mais cedo ou mais tarde, um colapso econômico, social e moral”.

A eleição de Lula e José Alencar abriu novos caminhos e perspectivas de crescimento econômico. Houve o maior feito da história da República, para mim, a maior obra do governo desde que foi criado o Plano Real, em 1994, até 2010: a redução em 67% da pobreza, pois em dez anos 50% dos mais pobres tiveram crescimento de 69% em sua renda e a renda dos 10% mais ricos cresceu também 10%.

Esses dados são da pesquisa Desigualdade de Renda na Década da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em 2011, que mostra ainda que a pobreza diminuiu em 50,6% durante o governo do presidente Lula, de junho de 2003 a dezembro de 2010, e que, de 1994 a 2002, a pobreza caiu 31,9%. Ao longo de 2010, a pobreza foi reduzida em 16%.

Essa obra gigantesca é um dos pilares das lutas desenvolvidas pela esquerda brasileira. Essa conquista real e também simbólica não é para retroagir. Alguns desses ganhos  têm sido ameaçados e integram a pauta das lutas dos movimentos sociais e dos brasileiros que querem a erradicação da miséria e da pobreza em nosso país.

Esse capital político vem sendo ameaçado desde o primeiro governo Dilma Rousseff. Os sucessivos erros na condução da política econômica, somados à inabilidade no trato político geral, fez com que o seu governo fosse derrotado pelos piores corruptos de que a nação já ouviu falar.

A soma das inúmeras denúncias, processos, condenações de dirigentes do PT e de ex-ministros do governo Lula e Dilma por corrupção tem sido potencializada pela grande mídia, pelo capital financeiro e pelo empresariado nacional e internacional como forma de bloquear o governo com um processo de impeachment sem comprovação de crime praticado pela presidenta da República.  

A aliança política montada com o empresariado ou por setores se transformou numa estratégia para o PT manter-se no poder, mas com um outro conteúdo: a partilha do Estado. Essa “engenharia política” não é nova na política brasileira, mas não poderia ser a opção adotada pelo Partido dos Trabalhadores e por seu líder.

A corrupção denunciada desde a sua fundação tornou-se – para surpresa geral, ao ser revelada nos inquéritos pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal – uma vergonha nacional e o principal motivo que a direita encontrou para apear do poder o PT, inclusive e principalmente com o que era denominada de base de apoio. A tal base de apoio é infinitamente mais experiente em matéria de corrupção e de apropriação do aparelho de Estado que os petistas.

O combate à corrupção não é o objetivo central da elite brasileira, muito pelo contrário. Com Dilma Rousseff fora do Palácio do Planalto, haverá um realinhamento de forças e os Poderes da República irão encontrar maneiras de salvar os seus membros e representantes ou serviçais.

O legado desse desastre moral deixou foi a fúria avassaladora da direita potencializada pelas forças econômicas nacional e internacional para, em nome de reestruturar a Petrobras, por exemplo, privatizá-la em meio à onda de descontentamento e decepção da maioria da população capitaneada pela facciosa mídia nacional, principal pilar do golpe parlamentar executado, inicialmente, pela Câmara dos Deputados e consumado pelo Senado Federal.

 

O governo Temer

 

        Diante do golpe e com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, a organização da resistência ao governo de Michel Temer é a posição mais urgente a se tomar pelos movimentos sociais e setores da sociedade civil que não concordaram com o golpe, mesmo os que não são do PT e não foram eleitores de Dilma Rousseff, mas que são democratas. No horizonte mais próximo, setores do mundo do trabalho que foram a favor do impeachment, mas que poderão perder direitos conquistados, terão de ser convocados para essa nova etapa de lutas do povo brasileiro.

     A temperatura vai esquentar nas ruas, nas fábricas, no campo, nas escolas e universidades. Quem na esquerda imaginou que a luta de classes tinha sido coisa do passado equivocou-se.

         As primeiras notícias do governo Temer foram amplamente festejadas pelo PIB nacional. A economia no seu governo sofrerá um choque liberal; será anunciada a redução de gastos com a máquina pública e o Estado será reduzido – um filme antigo, onde as vitimas são os pobres, para começo de conversa.

        Possivelmente, Temer não vai entregar o que prometeu aos deputados, partidos e senadores na preparação do golpe. Anunciou redução drástica de ministérios, de 36 para no máximo 20 ministérios em sua gestão. Mudou em poucos dias: agora se fala em 26. Temer é fisiológico como a maioria dos políticos brasileiros.

O pior está por vir: a direita fundamentalista capitaneada pelo pastor Silas Malafaia inicia a cobrança da sua fatura. Malafaia foi recebido no Palácio do Jaburu, e Temer contrito como um evangélico recém-convertido orou de mãos dados com o tal pastor.

        Essa gente foi exigir o fim da distribuição de material didático que ensina as crianças a respeitarem a diversidade sexual. Além disso, ou se isso não bastasse como sinal de retrocesso iminente, o DEM pretende indicar o ministro da Educação.

        Dias piores virão com Michel Temer.

        

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