O pódio macabro

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Alagoas tem alternado entre o primeiro e o terceiro lugar no ranking dos estados mais violentos do Brasil. E Maceió mantém o primeiro lugar no ranking, como indica o Mapa da Violência de 2016. E quando perde a medalha de ouro fica com a de prata ou a de bronze, e sobe ao pódio. 

O censo do IBGE (2010) indica que 9,38% da população de Maceió são crianças com idade entre 0 a 5 anos, ou seja, 87.526 crianças, todas elas, em princípio e por direito, são demandantes de atendimento na Educação Infantil.

Em Maceió, as crianças de 4 a 5 anos e 11 meses estão fora da Escola atualmente chega a 25.464 mil crianças. E na faixa de 0 a 3 anos e 11 meses estão fora da escola  56.568 crianças.

A educação infantil tem disponíveis apenas 3.212 vagas. A conta não fecha. O que fica aberto, vem há muito tempo aberto e exposto, é o abismo que engole as famílias pobres.

 A exclusão social em Maceió e em Alagoas não é obra de amador, é uma obra construída por profissionais há décadas.  

A superação da pobreza e da miséria só será possível com políticas públicas e com a gestão integrada das administrações federal, estadual e as municipais, se isso não acontecer não haverá a superação dessa tragédia.

A exclusão é uma obra de governo (s) e que não tem tempo para ser concluída.

Quem sabe no terceiro centenário?

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Em Alagoas a miséria cresce e vira paisagem

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A Fundação Abrinq, divulgou nesta terça-feira (25), estudos onde traz dados alarmantes da vulnerabilidade da infância no Brasil: 40,2% da população de zero a 14 anos se encontra em situação de pobreza. Isso significa que 17,3 milhões de jovens são pobres no país.

As regiões mais pobre do Brasil, segundo o relatório são as regiões Norte e Nordeste “concentram os maiores índices de crianças e adolescentes em situação de pobreza, com 54% e 60,6% de jovens nessa condição, respectivamente. Percentuais menores aparecem nas regiões Sudeste (27,8%), Centro-Oeste (28,4%) e Sul (23,1%)”.

Nas regiões Sudeste, tem 4,5 milhões, Nordeste, 8 milhões e na região Norte são mais de 2,5 milhões de crianças e adolescentes vivendo em condição de pobreza familiar. Somados são mais de 15 milhões de crianças de zero a 14 anos.

Estados

Alagoas com 66% é o estado do nordestino com maior percentual de crianças e jovens pobres, em seguida vem: Maranhão (62,4%), Ceará (61%), Bahia (60,8%) e Pernambuco (60,5%).

Os cincos estados e mais o Distrito Federal com menor percentual são Rio Grande do Sul (24,9%), Paraná (24,5%), São Paulo (21,2%), Distrito Federal (20,2%) e Santa Catarina (17,7%).

Jovens em pobreza extrema

É considerado pobreza extrema quando a família tem renda mensal de até um 1/4 do salário mínimo per capita. No Brasil, 13,5% dos menores de 14 anos se encontram em situação de pobreza extrema.

“Os maiores percentuais dessa condição também estão nas regiões Norte (19,7%) e Nordeste (26,3%). A diferença dessas em relação às demais regiões do país é grande: mesmo somados, os índices de jovens em pobreza extrema nas regiões Sudeste (5,99%), Sul (5,2%) e Centro-Oeste (5%) não chegam ao valor encontrado para o Norte ou para o Nordeste”.

O Maranhão registra o maior percentual de crianças menores de 14 anos de idade na condição de pobreza domiciliar extrema (35,2%), seguidos do Ceará (28,6%), Alagoas (28,3%), Bahia (24,7%), na região Nordeste e o estado do Pará (23,9%), na região Norte.

A principal política pública em Alagoas é o Programa Bolsa Família (PBF) que beneficia 377.698 mil famílias. O PBF é destinado as famílias com renda per capita de até R$ 85 ou com renda per capita  entre R$ 85,01 e R$ 170 mensais, desde que tenham crianças e/ou adolescentes de 0 a 17 anos. É obrigatório que a criança tenha matrícula escolar e apresente frequência mínima de 75% e 85%, respectivamente, a cada bimestre.

Maceió tem o maior número de beneficiários do programa são 55.226 famílias.

O programa Bolsa Família tem impacto significativo na redução da miséria mas não é o suficiente para erradicar a miséria e a pobreza em Alagoas e no país, será necessário a ampliação do PBF e a implantação de  outras políticas públicas de inclusaõ social.

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A renúncia de Suruagy é o fim de um ciclo de poder

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A renúncia do governador Divaldo Suruagy, na manhã do dia 17 de julho de 1997, forçada pela mobilização dos servidores públicos e de amplos setores da sociedade alagoana, é um fato político sem precedentes na história de Alagoas.

Suruagy elegeu-se com 83% dos votos para tirar Alagoas da crise financeira decorrente da incúria administrativa do governador Geraldo Bulhões. Tendo sido eleito como uma unanimidade e surfando na crise do governo Bulhões, Suruagy, entretanto, não foi capaz de apresentar uma saída para a crise em que o Estado se achava.

A experiência de quem já havia governado Alagoas em duas outras oportunidades – a primeira, indicado pela ditadura-militar, e a segunda, eleito pelo voto –, de nada serviu para estancar a crise financeiro-administrativa.

A crise cresceu de tal maneira que os salários dos funcionários, que já se achavam por dois meses atrasados desde o governo Geraldo Bulhões, resultaram atrasados na gestão Suruagy por dez meses. 

Somados a crise financeira outros elementos essenciais foram potencializados no processo de desmonte da administração estadual: as polícias, militar e civil, sem controle, a quebra na hierarquia e o domínio de grupos criminosos, a exercerem o comando paralelo.

A Gangue Fardada era um poder efetivo e dialogava com as instâncias de poder. Esse grupo passou a matar e assaltar por encomenda, extorquindo empresários. Um completo desmonte da segurança pública.

A Secretaria da Fazenda não apresentou alternativas para estancar a crise, e muito menos para solucioná-la. Os funcionários públicos mobilizados foram às ruas pedir a renuncia do governador, e no dia 17 de julho tentaram entrar no prédio da Assembleia Legislativa, protegida desde a madrugada por centenas de militares do Exército, o que impediu a multidão de invadir o prédio do Legislativo estadual.  

A iminência do confronto na manhã do dia 17 de julho deu-se quando a prefeita Kátia Born, com uma multidão de mais de 15 mil pessoas, forçou a entrada na Assembleia, derrubando as grades. Nesse momento, os militares atiram para o alto a fim de conter a multidão. Criou-se um enorme tumulto na Praça Dom Pedro II.

A renúncia do governador Suruagy é anunciada pouco tempo depois dos tiros na frente da Assembleia Legislativa, em meio à iminência de confronto de previsões indefinidas entre os militares do Exército e policias militares e civis, manifestantes, funcionários de outras categorias e populares que protestavam.

O ciclo de poder iniciado por Suruagy em 1975, quando é indicado governador pelos militares, encerra-se com a sua melancólica renúncia. O poder que tão bem manipulou – distribuindo benesses do Estado como dezenas de milhares de empregos sem concursos e fatiando-o com as oligarquias –, esvaiu-se de suas mãos na manhã daquele 17 de julho.

A debacle desse grupo político decorre integralmente da crise econômica, financeira e política. Suruagy, como símbolo histórico do grupo, deixa o poder escondido, humilhado, num rastro de desordem nunca visto na história de Alagoas. Milhares de funcionários ficaram sem salários por dez meses, e 25 mil aderiram ao Programa de Demissão Voluntária (PDV), no desespero e esperando encontrar uma alternativa para solucionar as suas contas pessoais.

O presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) negocia a saída para Alagoas aplicando as maiores taxas de juros do país. Da dívida original de R$ 2,2 bilhões, hoje (julho de 2017) o Estado já pagou R$ 8 bilhões, e a dívida persiste em R$ 11 bilhões.  

Essa dívida, imoral e impagável, é a herança mais visível e maldita do que restou do último e melancólico governo Suruagy.

O ciclo de poder acabou com a renúncia. A lembrança desses acontecimentos vinte anos depois é necessária para que as novas gerações de políticos e de cidadãos tenham conhecimento da nossa história e que fatos dessa natureza jamais voltem a acontecer.

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O Forró nos 200 anos de Alagoas

Assessoria 15a589cd 92b5 4238 b20c 893b666e0107 A festa segue neste sábado, 13, com o Trio Amantes do Forró e com o show do miguelense Lucas Lima

O pesquisador alagoano, José Lessa Gama falou sobre O Forró nos 200 anos de Alagoas, a palestra lotou o auditório do Museu da Imagem de Alagoas (MISA), no dia 27/06. No Hall do MISA, com a curadoria de José Lessa foi organizada uma Exposição contando a história do forró em Alagoas.

O trabalho desenvolvido nas últimas décadas por José Lessa é de grande relevância para a história da música alagoana e é um trabalho de garimpagem no resgate de personagens fundamentais da música alagoana e que também foram ícones no cenário nacional.

        O trabalho como pesquisador autodidata é focado no forró e coco, baião, ritmos  que definiram a identidade dos alagoanos e nordestinos ao longo do século XX.

        Lessa tem uma característica singular, é um agregador, tem trabalhando para unir os músicos, compositores no sentido de que possam ocupar um espaço maior na cena artística alagoana e nordestina.

        O Painel detalhado realizado pelos pesquisador traçou a trajetória de músicos como Gerson Filho e Cremilda de quem o pesquisador é admirador indisfarçável na história da música alagoana no século XX.

        Gerson Filho, “é o primeiro a compor e gravar música especialmente para quadrilha no Brasil”, revela Lessa. A persistência no trabalho de pesquisa de campo, estabelecendo contatos com os músicos trouxe revelações como a que Clemilda, cantora alagoana de São José da Lage, e companheira de Gerson Filho, inseriu ritmos como o coco alagoano, o reisado e o guerreiro, representações do rico folclore de Alagoas ao forró, dando uma nova dimensão ao forró e estabelecendo como uma das suas marcas na longa carreira musical de Cremilda e Gerson Filho.

Viva São João e São Pedro 

Viva a música

Viva o forró

Vida longa para o pesquisador José Lessa Gama.

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Os Desejos de Miriam

 

Os Desejos de Miriam é o segundo curta-metragem do cineasta Nuno Balducci, o lançamento será no dia 16/06 (sexta-feira) às 19h, no Sesc Centro, mais uma produção da Manguaba Filmes. O primeiro filme foi Atirou para Matar.

O filme tem como protagonista Miriam, uma dona de casa de classe média que tenta se entreter com seus dispositivos móveis durante um dia em que  se encontra sozinha em seu apartamento. O enredo traz uma reflexão sobre solidão e incomunicabilidade em tempos de conectividade e empoderamento. 

 

O cineasta Nuno Balducci reconhece que seu envolvimento com o cinema começou “pegando filmes antigos em locadoras”. “Depois comecei a escrever críticas para a revista eletrônica Filmologia e fundei com uns amigos da faculdade o cineclube Projeção. Isso durou três anos, e foi aí que conhecei o pessoal que fazia cinema em Alagoas – Werner Salles, Rafhael Barbosa, Henrique Oliveira.

Balducci é um diretor de cinema radicado em Alagoas e que na estreia foi bem recebido pela critica com o curta-metragem, “Atirou para matar, filme financiado por edital público venceu os prêmios de melhor diretor, melhor roteiro e melhor curta de ficção. Foi exibido em festivais e mostras em Penedo (AL), e também no Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Ainda fez parte de uma mostra itinerante que percorreu vários países da América do Sul”.

 

O roteiro foi escrito por Ismélia Tavares e Nuno Balducci, direção de fotografia assinado pelo cineasta alagoano Nivaldo Vasconcelos (Mwany), o curta-metragem será a segunda produção audiovisual premiada pelo Edital Guilherme Rogato FMAC/2015 a ser lançada publicamente.

 

No elenco Simone Ciríaco, Mauro Braga, Kleise Mariah, Caio Rob, Walfredo Luz e Jadir Pereira.

 

Local: Cine Sesc

Dia 16/06 (sexta-feira)

Horário: 19hs

Onde Fica: Rua Barão de Alagoas,229 – Centro

Fone: 3326- 3133

A entrada é gratuita!

 

 

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Alagoas e a previdência II

 

O governador Renan Filho ao assumir encontrou as finanças do estado de Alagoas em condições satisfatória, isto se compararmos aos dois últimos governadores Ronaldo Lessa e Teotônio Vilela Filho. Lessa encontrou as finanças do estado em frangalhos, o caos havia sido instalado na administração Divaldo Suruagy e Manoel Gomes de Barros (Mano).

O governador Teotônio Vilela Filho recebeu o estado de Ronaldo Lessa, uma Alagoas governável, com as finanças organizadas e as secretarias funcionando inclusive com milhares de novos funcionários concursados.   

        É bom rememorar. Alagoas durante o administração Suruagy-Mano quebrou, não pagava os funcionários públicos e os fornecedores, os pequenos evidentemente, as construtoras e empresas de porte e influencia politica receberam, os funcionários amargaram o desespero por dez meses sem receberem os salários.     

        Alagoas é um dos poucos estados na atualidade onde os funcionários públicos estão recebendo os salários em dia. É motivo de propaganda governamental. A divida de Alagoas com a União foi alongada e ganhou mais 20 anos para ser quitada, mesmo assim é impagável, são 8 bilhões de reais. Isso sem falar dos 10 bilhões que já foram pagos só de juros desde 1997, o que gerou esta divida impagável teve o seu inicio em 1,8 bilhões, relativos ao PDV, letras emitidas pelo tesouro sem lastro e corrupção desenfreada.

O governo federal “benevolente” reduziu os juros de 15 para 11%, o pagamento dos juros antes 55 milhões, passa a ser pago 50 milhões mensais. Mas com o acordo celebrado entre a União e estado Alagoas desde o final de 2016, o estado de Alagoas vem pagando apenas 4 milhões ao governo federal.

A economia mensal de 50 milhões feita pelo tesouro estadual deveria ser “naturalmente” destinada a capitalização da previdência estadual, o AL-Previdência.

Essa massa de recursos em doze meses alcança o montante de 600 milhões de reais. É um passo positivo na direção da organização do caixa da previdência estadual.  A crise da previdência em Alagoas pode ter uma saída planejada, se assim for feito, e o futuro de milhares de funcionários públicos será garantido. E o que restou como ativo, a Casal, por exemplo não deve ser privatizada na bacia da almas.

A previdência pública estadual em Alagoas tem solução no curto, médio e longo prazo. Basta querer.

Alagoas não vai quebrar mais uma vez durante o governo Renan Filho, é o que se espera, mas com certeza se não houver investimentos na previdência pública quebrará no futuro próximo.

Este momento para o executivo estadual e os poderes legislativo e judiciário, o Ministério Público e o Tribunal de Contas é talvez o mais relevante nas últimas décadas para os funcionários públicos e para a sociedade alagoana.

O futuro se aproxima.    

 

 

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Alagoas e a previdência I

O Brasil está em polvorosa com as delações premiadas ou colaborações premiadas – eufemismo à brasileira –, que fazem políticos, empresários e funcionários públicos perderem o sono. Como se isso não bastasse, o presidente Temer, ele próprio envolvido até a alma nos negócios sujos dos empreiteiros, diz querer passar à história como um presidente reformador.

         Enviou à Câmara Federal dois projetos de lei que estão mexendo com todos os brasileiros, o que reforma a Previdência e o da CLT. A base do governo começa a sentir a pressão da população e emite sinais de que não vai aprovar o que veio do Executivo. Mudanças pontuais têm sido feitas, mas ainda é pouco diante da tragédia anunciada: o corte de direitos em nome da austeridade fiscal.

         E os estados e municípios, como vão ficar? É uma pergunta a ser feita. Alagoas tem uma Previdência insolvente, e não é de hoje, faz tempo. A bem da verdade, nunca houve um Instituto de Previdência dos funcionários públicos. O Ipaseal desde sempre foi uma grande caixa de recursos à disposição dos governadores. Quebrou no momento em que Alagoas também quebrou: em 1997.

         Agora chegou a hora para discutir o presente e o futuro de milhares de funcionários públicos. Milhares já estão aposentados, ou morreram e ficaram as pensionistas. E há milhares de funcionários exercendo as suas atividades. Qual será o futuro de todos eles?

         Haverá recursos para honrar as aposentadorias? Esta e outras respostas, os funcionários públicos desejam saber com exatidão. É chegada a hora de o governo abrir a caixa-preta da Previdência estadual.

         E Maceió e os demais municípios? Que futuro os funcionários públicos dos municípios terão? Com a palavra os governantes e os sindicalistas representantes dos trabalhadores.

 

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Jayme Miranda, um revolucionário brasileiro.

 

Autor: Sérgio Soares Braga,professor de Ciência Politica da Universidade Federal do Paraná (UFPR). 

Resenha publicada na Revista Critica Marxista 44, 2017.

Na cultura política da esquerda marxista brasileira desse início de século XXI a memória de algumas personalidades revolucionárias ocupa lugar de destaque. Mencionemos os casos de militantes como Carlos Marighela, Apolônio de Carvalho, Luiz Carlos Prestes, Gregório Bezerra, Lamarca e outros combatentes, os quais tiveram suas vidas estudadas e narradas em trabalhos acadêmicos, livros, filmes e mesmo séries de televisão. Entretanto, ao lado desses revolucionários mais presentes no imaginário das esquerdas e do público em geral, existe uma ampla massa de militantes cujas ações, embora de menor visibilidade aos olhos do público, nem por isso deixaram de ter importância semelhante ou equivalente àquelas empreendidas por estas lideranças políticas mais conhecidas.

As Comissões da Verdade que funcionaram no Brasil entre 2012 e 2015 reconstituíram a história de muitos desses combatentes menos notórios, que também dedicaram suas vidas ao trabalho organizativo das classes trabalhadoras e à luta por uma sociedade mais justa. No entanto, mesmo com os avanços propiciados pelos trabalhos dessas comissões, muito esforço de pesquisa ainda resta por ser feito para analisar a trajetória dessa ampla massa de militantes cujas ações foram de fundamental importância na história da esquerda marxista no Brasil, bem como tirar as lições políticas dessa análise.

É nesse contexto que pode ser melhor compreendido o trabalho biográfico de Geraldo de Majella intitulado Jayme Miranda: um revolucionário brasileiro (Editora Bagaço, 2015), onde o autor busca resgatar a memória e fornecer uma breve introdução à compreensão da vida de um importante dirigente comunista que, tendo iniciado sua militância num pequeno estado semi-feudal do nordeste brasileiro, veio a ocupar cargos de destaque na hierarquia do antigo PCB (Partido Comunista Brasileiro) a partir da década de 1950 até ser assassinado sob tortura nas masmorras da ditadura militar em meados da década de 1970. Nascido na década de 1920 numa família pequeno-burguesa e atuante no ramo hoteleiro em Maceió-AL, Jayme Miranda foi um dos muitos jovens nordestinos a se politizar sob o efeito conjugado da vitória dos aliados sobre o nazi-fascismo na segunda guerra mundial e do forte poder de atração que o sistema social vigente na antiga União Soviética exercia sobre a juventude politizada de então. O acesso ao curso superior (formou-se em Direito pela UFAL em 1951), o exercício de atividades intelectuais contínuas em empresas jornalísticas (trabalhou como revisor e repórter em jornais do grupo

Diários Associados durante a guerra), a formação militar (frequentou curso de formação de sargentos no Rio e em São Paulo) e, especialmente, a convivência com organizações operárias dos bairros pobres de Maceió, singularizaram sua trajetória em comparação com outros jovens comunistas de seu estado.

Esta somatória de atributos pessoais (boa formação intelectual, talento organizativo, relativo preparo militar, convivência prática com organizações populares, circulação por diversos ambientes sociais e a consequente ausência de sectarismo político) também fizeram com que Jayme Miranda, mesmo vindo de um dos estados mais pobres e atrasados do país, tivesse uma rápida ascensão na hierarquia interna do PCB em nível nacional, desempenhando inúmeras missões e tarefas de importância, embora sem ocupar cargos que lhe dessem visibilidade aos olhos do grande público e da grande massa da militância partidária. Assim, a partir da década de 1950 Jayme ocupa vários cargos na direção do partido comunista, sendo responsável pela redação do jornal Voz do Povo em Alagoas, membro da direção estadual do PCB, frequentando ainda diversos cursos de formação política no Brasil e em países do Leste Europeu. Exatamente por esses motivos, sofreu várias prisões e perseguições políticas por parte das classes dominantes de seu estado e de seus esbirros, perseguições estas que são narradas de maneira sintética por Majella no livro.

O final dos anos 50 e o início dos anos 60 é o período mais rico de sua militância, tendo participado ativamente da organização das Ligas Camponesas nos estados de Alagoas e Pernambuco, um aspecto da atuação de Jayme que poderia ter sido melhor explorado e aprofundado por Majella em sua biografia. Com efeito, em artigo de homenagem ao falecimento da viúva de Francisco Julião, Alexina Crespo, publicado em dezembro de 2013, outro histórico dirigente comunista falecido em março de 2016, Clodomir de Morais, chega a afirmar que, juntamente com Jayme Miranda e outros membros do comitê estadual de Pernambuco, estabeleceram “o caráter leninista de que carecia a organização de massas [as Ligas Camponesas -- SSB] criada por Zezé da Galileia, José dos Prazeres e pelo padre português Alípio de Freitas”. Este trabalho organizativo clandestino de Jayme Miranda nas Ligas Camponesas, que inclusive levou-o a encontrar-se pessoalmente com Mao Tsé-Tung e outros dirigentes chineses em Pequim, como é documentado pelo acervo fotográfico incluído no livro, é um dos aspectos mais destacados de sua trajetória e poderia ser melhor detalhado pelo biógrafo. De qualquer modo, a radicalização populista das classes médias urbanas de início dos anos 60 e a subsequente deflagração do golpe de 1964 vieram a jogar por terra o meticuloso e sistemático trabalho

preparatório de organização dos camponeses nordestinos dirigido por Jayme Miranda e seus companheiros, ao precipitar o confronto com a direita sem que as organizações campesinas tivessem acumulado forças e experiência política suficientes para resistir ao seu aniquilamento pelas classes dominantes. Sabe-se que as Ligas Camponesas estiveram entre as principais vítimas do golpe de 1964, sendo duramente reprimidas pelas oligarquias feudais nordestinas (especialmente dos estados de Pernambuco, Alagoas e Paraíba) em aliança com setores do aparelho repressivo, que receavam com certo fundamento que pudesse ocorrer no nordeste brasileiro um processo de revolução popular e agrária análogo ao ocorrido em Cuba e outros países do terceiro mundo naquele período.

Após o golpe de 1964 e sua prisão em Alagoas, por medidas de segurança, Jayme Miranda concentra sua militância no sudeste brasileiro, desempenhando missões importantes na direção do PCB. Ao contrário de diversas organizações vinculadas às camadas médias urbanas e dissidências do PCB, Jayme Miranda, juntamente com outros dirigentes comunistas, opta por não aderir à luta armada contra o regime, desempenhando tarefas na organização de uma frente democrática contra a ditadura militar, estratégia que posteriormente demonstrou ser a mais adequada para a liquidação do regime. Estava no desempenho dessas funções quando veio a ser morto sob tortura nas dependências do Exército em fevereiro de 1975 no Rio de Janeiro.

O trabalho de pesquisa de Majella nos mostra que Jayme Miranda teve, até o seu assassinato pelo aparelho repressivo da ditadura militar, uma conduta exemplar que ainda hoje pode servir para a educação política de novas gerações de militantes. O gosto pelo estudo e pela formação teórica, a discrição no desempenho das tarefas e missões mais difíceis, a convivência fraterna com os trabalhadores puros e simples das periferias de Maceió e de outras cidades brasileiras, a modéstia no trato com os camaradas, a manutenção da integridade pessoal mesmo ao defender a política de alianças com setores dominantes progressistas, jamais se resignando a aceitar as benesses das classes dominantes e os privilégios do Estado burguês em troca de apoio político, são os elementos subjacentes à sua conduta durante a fase mais repressiva da ditadura e toda a sua militância. O livro de Geraldo Majella, além de resgatar a memória desse importante líder comunista do século passado, contribui para a construção de um modelo de papel do que deve ser o militante comunista nesse início de século XXI, mesmo com as ressalvas a serem feitas nos dias de hoje em relação aos objetivos finais que orientavam a conduta daquela velha geração de comunistas (vale dizer, a defesa incondicional da miragem do “socialismo real” de tipo soviético).

Palavras-chave: biografia política, militância política, Jayme Miranda, Ligas Camponesas; comunismo.

Keywords: political biography, political militancy, Jayme Miranda, Peasant Leagues; communism

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A Saga de uma família

A família Miranda foi a família mais perseguida pela polícia política no século XX, em Alagoas. A perseguição ocorreu nas ditaduras de Getúlio Vargas (1930-1945) e a militar (1964-1985), e também durante os governos democráticos. A perseguição, a estigmatização e o ódio público externado contra seus membros são de uma crueldade incomparável e perdurou por seis décadas. Ainda hoje os que são de gerações passadas podem lembrar.

O anticomunismo como indústria e ideologia, produzido com maior vigor no período da Guerra Fria, cravou as suas garras em solo alagoano e fez da família Miranda o principal e permanente alvo a ser combatido, por simbolizar, na perspectiva dos anticomunistas, a sucursal de Moscou.

Olga Miranda, jornalista e advogada, é filha de Jayme Amorim de Miranda, dirigente nacional do PCB, sequestrado no Rio de Janeiro em 1975 e um dos desaparecidos políticos brasileiros. Olga escreveu Oh, pedaço de mim, um livro de memórias. Este livro não contém apenas as memórias, mas a história de sua família escrita cruamente e a contrapelo.

Oh, pedaço de mim é também um recorte da história de Maceió, a partir da saga da sua família, escrito num estilo claro e revelador, muitas vezes, da intimidade dos Miranda, como se estivesse escondida atrás da porta do velho Hotel Atlântico, o bunker do “seu” Manoel Simplício de Miranda, o avó e patriarca da família, escutando segredos de família ou planos de fugas dos tios militantes comunistas e do próprio pai.

Mais do que a memória da família Miranda e uma homenagem ao seu pai, Olga escreveu um capítulo da história dos comunistas de Alagoas.

Dia: 31/03/2017

Local: Sindicato dos Bancarios ( auditório)

Endereço: Rua Barão de Atalaia, 50 - Centro

Horário: 19 horas 

 

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Muvuca paulistana

 

Homero Fonseca - escritor pernambucano

 

Sabe aqueles estereótipos: “São Paulo é o túmulo do samba” e “São Paulo é um deserto no Carnaval”? Nada mais falso. Há muito tempo o desfile das escolas de Sampa não faz feio diante do portento carioca. E, de uns anos pra cá, o carnaval de rua simplesmente explodiu, com centenas de blocos congregando milhares de foliões, primeiro na Vila Madalena, agora no Centro.

Eu e Iracema fomos ver o movimento na Rua Augusta, no sábado. Já o metrô ia coalhado de gente bonita — a maioria jovens — devidamente paramentada. Fomos a um cinema e depois ficamos num boteco numa esquina estratégica e assistimos alumbrados à muvuca. Tinha gente chegando fresquinha, limpinha e perfumada e gente já voltando, no bagaço. A maioria em grupos, mas também foliões isolados, bêbados perdidos, odaliscas desgarradas. Cantavam músicas desconhecidas para nós. Nada que se iguale (ainda) à folia de Olinda, Recife ou Salvador, mas mesmo assim um espetáculo bonito, colorido e muito animado.

Domingo, 22 horas nos pegaram no hotel para levar-nos ao Brás. Nem sou muito ligado em desfile de escola de samba, mas o fato de a Colorado ter-se inspirado no romance “Roliúde”, de ter gentilmente nos convidado a desfilar no carro de abertura e de ter proporcionado a oportunidade de conhecer por dentro como se move uma engrenagem como aquela, essa conjunção de fatores nos fez aceitar o convite com prazer. E valeu a pena.

Vimos uma comunidade viva, em ebulição, convergindo, nas horas finais, para um desfile apoteótico, numa confusão organizada. Quando chegamos à sede da escola, deparamo-nos com um aparente caos: nas ruas adjacentes, 40 ônibus esperavam para o transporte até o Anhembi, onde fica o sambódromo; um monte de moças sentadas no chão cortando, recortando, colando adereços; fantasias amontoadas pelos cantos; num balcãozinho, vendia-se cerveja e servia-se água mineral; gente chegando já pronta e outros saindo para ir em casa, tomar banho e voltar. No mezanino, dona Néia, chefe da equipe de costura, não largava a máquina nem o bom humor, atendendo os últimos pedidos — como o meu, para diminuir as mangas do paletó lustroso de retalhos que me coube — tendo ao lado o colchão onde, desde começo de janeiro, dormia todas as noites para dar conta do serviço. Iracema procurava os encarregados da maquiagem. No meio da balbúrdia, recruta nesse mundo, pensei cá comigo: “Não vai sair, não fica pronta”. Ledo engano. Aquilo era o gargalo final de um trabalho de 10 meses, movido a paixão pura, pela Escola, pelo Samba e pelo Carnaval, nessa ordem. E no fim tudo deu certo.

A certa altura, lá fora, nas calçadas, aos poucos as pessoas já fantasiadas foram se reunindo por alas: 19, com média de 70 figurantes cada, perfazendo umas 1.300 pessoas. Cada ala com quatro coordenadores que tentavam juntar a turma e conferir os detalhes: “Todo mundo de braçadeira?” “Sim!!” “Todo mundo de cinto?” “Sim!!!” E lá estavam os cangaceiros, os Chaplin, os pistoleiros do faroeste, as coristas, as bailarinas, os Tarzãs, as baianas. Não havia chamada por nome, todos procuravam se aglomerar pelo número das alas. Os diretores de harmonia a tudo observando, eles que se encarregarão do andamento do desfile na pista. O presidente Ká, sempre solícito, atende um e outro, secundado pelo vice Gilson, elétrico, e Ju, ora risonha, ora apreensiva.

A partir da meia noite, numa mistura de cores, gritos, apitos, risos e imprecações, os ônibus começam a zarpar, seguidos por alguns caminhões-baú com os adereços e os instrumentos da bateria mais pesados. Quem não conseguisse estar pronto e ir no ônibus com o grosso de sua ala, seguia no próximo. E assim todos embarcaram, inclusive nós.

 

 

 

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